Por dentro do vazio, ou a busca do nada

Capa O baloiço VazioEstamos aqui abraçados no sofá a ver televisão porque chove.

Carla Lima, O Baloiço Vazio

                                                                    Vamberto Freitas

Um baloiço sem ninguém nele a baloiçar e a ser empurrado indiferentemente pelo vento numa tarde de Outono é uma das imagens mais deprimentes para mim, como é a uma folha de jornal a rolar no chão (uma antiga imagem televisiva que retive) sem que ninguém lhe pegue, parecendo tudo uma metáfora de um mundo à espera de quem nunca mais chega, ou não quer chegar, muito menos viver e brincar na e com a vida. “Novembro no coração”, como diria um famoso personagem da literatura americana. Uma das razões que me faz escrever sobre O Baloiço Vazio, da açoriana Carla Lima, tem por certo a ver com o texto em primeiro lugar – já explico a razão desta designação da presente escrita – mas também com algo mais. Diz a nota biográfica do livro que a autora tem 35 anos de idade, portanto não será indelicado da minha parte repeti-lo aqui, e tem a ver com o que quero dizer mais adiante. Que estudou Psicologia em Lisboa numa faculdade durante algum tempo, e depois mudou de rumo dedicando-se a estudos de “Cinema, Televisão e Publicidade”. Por entre outros estágios e experiências literárias, cursou escrita criativa com Rita Ferro – e daqui saiu este seu primeiro livro o ano passado. Eis um percurso técnico e intelectual que a minha geração nunca – ou raramente – conheceu, tanto no nosso país como estrangeiro. A propósito, o que constitui uma “geração” literária? A resposta requeria um denso tomo, mas despachemos o assunto em duas linhas, que poderão levar outros a pensar e a desenvolver as suas próprias ideia ou teses. Têm mais ou menos a mesma idade, provêm de uma geografia comum, real ou imaginária, reagem a uma historicidade quase sempre dramática da sua sociedade e, mesmo que não se leiam uns aos outros, o que é pouco provável, convergem em temáticas predominantes nas suas obras em todos os géneros porque têm como referente um imaginário partilhado. Não, não se diluem num tronco comum de pensamento único ou em visões totalizantes do seu tempo e do seu espaço vivencial, do seu destino, ou da “sorte” que procuram na vida para a realização dos seus sonhos. O mapa, parafraseando outros, não é necessariamente o território. A minha foi a mais cosmopolita geração literária açoriana, tanto na experiência de vida como na sua transfiguração ficcional e poética. A experiência que foi a nossa, tantas vezes involuntária, de desterritorialização resultou num outro conhecimento, que tudo influenciaria no acto testemunhal. “Não se pode voltar a casa”, como escreveu o modernista americano Thomas Wolfe; nunca mais seremos os mesmos após andanças prolongadas, mas é preciso saber que ela, a nossa casa, existe. Pertencer é um dos mais profundos desejos humanos, sentir a pertença comunitária vinda de gerações imemoriais, indo para um futuro sem fim. Look Homeward, Angel é precisamente o título que Wolfe deu ao seu grande romance, enquanto vivia a fantasia metropolitana em Nova Iorque, com viagens alargadas nalgumas cidades europeias dos anos 20-30.

É aqui que queria agora interligar esta notável ficção de Carla Lima com o seu tempo, e à faixa etária de escritores açorianos a que pertence. O Baloiço Vazio é uma espécie de experimentalismo literário, mas sem a pretensão de o ser, o que o “salva” logo à partida. Não será na sua temática que reside uma certa beleza, mas sim na sua linguagem depurada, nas imagens convocadas para metaforizar a sua condição interior, num texto que ora é um conto, uma novela, uma sequência de monólogos a dois em cenas cinematográficas, praticamente sem interrupções de outra espécie, que consegue construir uma narrativa na qual o meio circundante está ausente, a “sociedade” fica quase fora de vista para além de uma ou outra personagem menor a falar muito brevemente de si e do seu destino. Esses monólogos e trocas de palavras – nunca chegam a qualquer “diálogo” – pouco amigáveis ou reconfortantes entre a Ana e o Bruno, os dois amantes desavindos, vão-nos insinuando o estado da vida interior, vão-nos criando “personalidades” únicas mas de imediato reconhecíveis, “individualidades” representativas da vida actual de uma desorientada e desamparada geração, que parece ainda não se considerar como tal. Esperamos, por enquanto, pela criação de um novo e íntegro corpo literário que a defina e represente, tal como a geração de 70-80 fez na literatura açoriana. Não há “regressos a casa” porque nunca houve partidas, a experiência do mundo destes novos escritores fica-se pela viagem virtual, pelo conhecimento instantâneo e pela fantasia de que “pertencem” a um mundo sem fronteiras. Estranho, este fosso entre a realidade e a ficção, o fosso que é criado pela ideia de um certo cosmopolitismo sem nunca se ter vivido ou sofrido como o “outro” – em desavença consigo e com a História, de onde nasceram as melhores obras da literatura portuguesa moderna. Talvez seja este o triunfo dos que lutaram por uma sociedade que permite este estado de espírito entre os mais novos. A sua viagem, agora, ou é para dentro, ou não existe, e não existindo têm de dar continuidade a velhos temas em linguagens muito dificilmente originais. A geração que os antecedeu não tinha tempo ou temperamento para crises existenciais – guerra nos pântanos africanos, luta política interna ou oposição às classes dominantes, emigração para outras geografias onde se teria de reaprender a viver entre outros e com outros, inventando novas linguagens e, necessariamente, reinventado-se a si próprios.

Baloiço Vazio tem algo a dizer, e di-lo com habilidade nessas palavras contidas e imagens da solidão. A protagonista está sempre fechada em casa ou no emprego, saindo um pouco com amigas e visitando aquela que ela gostaria de vir a ser sua sogra, referindo-se ao que parece ser uma imaginada sessão de psiquiatria, num transe de sonhos e de amor impossível, que tende confundir fantasia pura com a realidade, num transe doentio de uma paixão pelo homem que nem chega a ser namorado ou sequer amante, uns seres para quem o sexo é mais falado do que desfrutado, as confissões obsessivas de desejos de amor nunca correspondido de Ana um patético lastro de (des)ilusões doentias. Ainda bem que a narradora não leva nunca a sério o xamanismo que foi a psiquiatria freudiana do século passado. Alude à sua infância e ao modo como os pais reagiam às suas traquinices, nunca os culpando pelo seu estado presente. Carla Lima consegue algo que nem sempre funciona com outros – por entre a tristeza real ou fingida da sua protagonista, sobressai constantemente o seu sentido de ironia e humor, nas suas palavras ou nas suas acções. Um desses momentos é quando Ana aparece ao homem dos seus desejos em lingerie, registando a sua reacção, que nunca falha na fria indiferença ou falta de vontade de a ter na cama. A palavra “culpa” é recorrente nos seus monólogos ou “conversas” com ninguém – como se estivesse a contrariar um padre ou um psiquiatra durante uma confissão de outros tempos e moralidades. Nem sequer ela sofre qualquer raiva na sua frustração de mal-amada, a “culpa” aqui pertence à natureza deste outro novo bravo mundo, não pode ser atribuída a ninguém em particular. Não há culpados aqui – só frieza, mentiras e sexo, que nunca acontece numa fantasiosa comédia de enganos, jogos de espelho para rir dos que acham explicações para tudo e para todos.

“Passaram-se – diz Ana, despedindo-se e aceitando, como sempre, as coisas tal como elas são – mil anos. Eu já não sou eu. Tenho outra vida. Uma vida sem ti. Sem o Silas [o sonhando filho que ele havia insinuado teriam juntos logo no momento que a conheceu]. Sem sofrimento. Uma vida vazia mas cheia. Cheia de nada. Uma vida desprovida de vida. Uma vida que segue. Segue em frente. Sem ti”.

Cada um dos doze capítulos de O Baloiço Vazio tem uma epígrafe tirada de escritores e poetas do mundo sobre o coração humano e o amor. Só uma delas cai fora por completo, e creio que faz parte do humor escondido nesta narrativa “falada”, já aqui referido. Vem daquela grande intelectual portuguesa dos nossos reles dias, e que dá pelo nome significante – sim, significante de um outro lado da mente, saberes e pretensões numa cultura como a nossa – de Lili Caneças, quando diz que “estar vivo é o contrário de estar morto”. É? Não há outras palavras minhas neste caso: I got the joke.

Num palco ou num ecrã veríamos de imediato onde estão estes personagens, mas isso pouco interessa, tanto faz ser Lisboa ou Ponta Delgada. O tempo é hoje, o tempo muito próprio dos que nada têm a dizer do seu mundo, só de si, o que na verdade é bem pouco interessante ou novo. Carla Lima, creio, levanta aqui um véu que nada esconde por baixo – para além da infantilidade nunca resolvida dos que, também parece, nunca chegarão a adultos. Vidas, diria ela, cheias de nada.

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Carla Lima, O Baloiço Vazio, Lisboa, Pastelaria Studios, 2013.

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One thought on “Por dentro do vazio, ou a busca do nada

  1. Isabel Mendes Ferreira Outubro 19, 2014 / 7:22 pm

    Como gostei de ler. ….

    Mt Obrigada.
    Mt.

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