Estranho em terra estranha, ou a América como ideia

CAPA NEW AMERICAN LIFELula era como os seus antepassados, amarrando tudo quanto tinham nas costas de um burro e migrando para pastagens mais elevadas.

Francine Prose, My New American Life

Vamberto Freitas

Poderá parecer deslocada a linguagem ou a observação contida na epígrafe deste texto, especialmente tratando-se de uma romance norte-americano de temática imigrante publicado em 2011. Estamos na segunda década do século XXI, e muitas fantasias dos anos imediatamente anteriores foram fulminantemente desfeitas nos dias que correm. Primeiro, que a queda do Muro de Berlim havia libertado todo o Ocidente, e agora era só trazer para a prosperidade dos “mercados livres” os povos cuja história tinha sido “interrompida” pelo totalitarismo, tanto à esquerda como à direita. Segundo, que as grandes migrações estavam já reduzidas aos pobres do chamado terceiro mundo, esses que nos batem à porta vindos das mais longínquas e próximas geografias, diariamente pedindo entrada no paraíso em que ainda julgamos viver adentro da esfera histórica e geo-cultural que também dá pelo nome de “Europa”. No entanto, apesar de certos abalos recentes, internos e externos, a América continua a ser a América, isto é, um “imaginário” mais do que uma “realidade”, um imaginário tão poderoso e universalizado que nunca deixou de representar para o resto do mundo a última esperança de sobrevivência económica e de dignidade cívico-política. Bem sabemos que não é a Cidade na Montanha, que certa teologia nativa sempre tentou tentou fazer crer, mas que muita da sua luz continua a brilhar como nenhuma outra à face da terra, também creio ser inegável. O ilusionismo das novas forças do poder mundial não pode esconder tudo. A História não chegou ao fim – repete-se, ou está ainda num ciclo sem fechamento por enquanto à vista. Que as artes se viraram para esta nova era de, paradoxalmente, renovação e continuidade sócio-política, não deve surpreender-nos. Foi sempre assim – as representações da humanidade, lúdicas ou dramáticas, nunca ficaram alheias aos dias e às circunstâncias globais que as rodeiam e enformam. A literatura, no entanto, continua a ser ainda o mais claro espelho da nossa condição em sociedades que não reinventamos nunca, mas, sim, somos por elas continuamente reinventados. É por isso, supõe-se, que cedo alguns sociólogos e historiadores já falavam na impossibilidade, ou mesmo no fim, da “ideologia” naquele grande espaço a oeste, predizendo a famosa frase de Francis Fukuyama. Como diria mais acertadamente Theodore H. White, o jornalista americano que acompanhava de perto a dinâmica do seu pais em tempos de escolhas políticas: a América não é meramente um espaço geográfico, é uma ideia, persistente, mobilizadora, quase mítica, e à volta da qual os deserdados do mundo sempre encontraram a sua única saída, a ideia toda poderosa e grafada a fundo intocável na constituição nacional que alicerça uma nação radicalmente inventada.

My New American Life, de Francine Prose, romancista e ensaísta premiada e pertencente a algumas das mais prestigiadas instituições de artes e letras no seu país, vem na sequência de uma obra ficcional substancial que tem a América contemporânea como fundo e temática, é agora de certo modo uma partida para outros aspectos da história europeia, de uma “outra” Europa, e da sua própria sociedade. O romance segue os primeiros anos da vida de uma mulher jovem albanesa, de nome Lula, que consegue entrar nos Estados Unidos na época já pós-comunista, ex-aluna universitária em Tirana, vinte e seis anos de idade e sofisticada nas suas visões e novas vivências. Depois de passar por Nova Iorque na companhia da sua conterrânea Dunia, amiga mais ou menos da mesma idade e a fazer pela vida utilizando tudo o que tem (o seu lindo corpo, principalmente), Lula encontra por acaso um emprego na casa de um ex-professor universitário, mas agora um alto funcionário numa empresa financeira da Wall Street, a quem ela chama de Mr. Stanley, residente numa cidade de Nova Jersey, no outro lado do rio. A única responsabilidade da albanesa é simplesmente fazer companhia ao filho, cozinhar e sobre ele manter os olhos abertos, Zeke que está no seu último ano da escola secundária, cheio de tédio e sem qualquer entusiasmo a caminho dos estudos superiores. O pai está destroçado pelo abandono da esposa na noite do Natal passado, doente mental e cansada da vida suburbana, que lhe deixa preocupações de toda a ordem, e, apesar de tudo, saudade. Numa interpretação simbólica, é como se a velha e decadente Europa continuasse a fornecer os seus pobres ou descontentes para preencherem o vazio e permitir a prosperidade dessa irrequieta América. Pela mão e influência do seu novo patrão, Lula está a legalizar a sua permanência no país meio paranoico no pós-11 de Setembro de 2001. O que vemos neste e deste quotidiano, através dos olhos atentos e das palavras ora críticas ora carinhosas e cheias de esperança de Lula, é uma América a vacilar tanto nos seus valores tradicionais como a reajustar-se inevitavelmente a um novo mundo globalizado, de chegadas e partidas que, não fazendo estremecer os seus fortes alicerces, forçam-na a rever todas as suas certezas, todos os seus valores, toda a sua visão ante o alargamento e acomodação do seu mosaico humano – não haverá mudanças radicais, pois a sua promessa, o seu sonho, continua a ser a esperança dos novos apátridas em busca de pão e felicidade, por vezes a qualquer custo. Pelo meio, o narrador/a vai relembrando o que Lula e outros personagens albaneses deixaram para trás, um país destroçado e governado pelas máfias e acólitos políticos, sem nunca deixar de referir o que na América é mais mito do que, repita-se a palavra de todo ambígua, “realidade”. Poderá ser um modo de relativizar a bondade do grande país, mas o que fica subentendido é que essa não deixa de ser a geografia da última salvação para estes seres que, na nossa modernidade, continuam, tal como outros aqui referidos chegados de outros continentes, em fuga a uma Europa desigual, pobre e/ou violenta nalgumas das suas periferias. Os queixumes de Stanley e a nascente alienação do seu filho Zeke passam à zona do anedótico, a sua infelicidade nada mais do que o desespero de expectativas exageradas de uma vida ainda melhor da que têm. “Isto aqui não é como no Comunismo. O consumo é melhor, e o sexo pior”, num dos dizeres mais citados deste romance, vindos da língua afiada de Dunia, que encontrou num médico ricaço em Nova Iorque o luxo temporário e a residência legalizada e permanente.

“Por toda a América, – diz o narrador da única noite de Natal que a protagonista passa em casa do patrão em New Jersey – as crianças estão hipertensas com alegria, agarradas aos colchões das suas camas para não correrem para o rés do chão das suas casas e rasgar os embrulhos dos seus presentes. Lula sabia que isto era uma versão da vida de uma América feita ao estilo de uma série televisiva, e na verdade sabia que metade da população estava doente e só ou sem tecto, consciente de uma festa que só desejava que terminasse, preferivelmente depois uma oferecida ceia de peru num aquecido e enjoativo abrigo dos pobres”.

Esqueçamos o fim meio feliz, meio racional, meio acidental de My New American Life. A “felicidade” nunca vem sem preço, é sempre incerta e vulnerável na sociedade americana pós-modernista. A ironia aqui é deliberada — a América pós quê? Na sua aparência de sociedade vanguardista, em tudo, o essencial permanece – o que o filósofo oitocentista Henry David Thoreau disse ser o seu “desespero tranquilo”, a solidão no paraíso, o ser humano virado actor numa peça também muito própria, mas cuja ficção, bem urdida ideologicamente, continua a mover e a comover boa parte do restante mundo: a possibilidade sempre presente de se “caminhar da pobreza à riqueza”. A trama deste romance tem a ver com mais três imigrantes albaneses envolvidos em actividades nunca explicitadas, mas que deduzimos ser o pequeno crime de furto aqui e ali. Um deles, o chefe da suposta quadrilha, acaba expulso do país, pois o Estado não quer mais despesa prisional com um “estranho”. Nada de novo, os fulgurantes anos 20 já eram assim, e em escalões muito mais temíveis. Eram então acusados na sua expulsão de suspeitas ou simpatias “comunistas”. Hoje, como nesta ficção de Francine Prose, a deportação deve-se ainda ao medo do novo “terrorismo” internacional. Tudo mudou, como se diz, para ficar na mesma.

A identidade e luta quotidiana de cada um destes personagens, a dos imigrantes e dos lá nascidos, é uma das sub-correntes temáticas desta viva e elegante narrativa. É sobretudo isso, diria, que mais interessa neste romance. É sobretudo aí onde reside parte da beleza da literatura americana contemporânea.

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Francine Prose, My New American Life, New York, NY, HarperCollins Publishers, 2011. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

Partidas anunciadas e regressos e inesperados

Capa O Outro Lado poesiaNão tive, nem tenho, nem quero ter, qualquer preocupação formal e estética, quero apenas que as minhas palavras andem por aí, nas bocas do Mundo.

Aníbal C. Pires, O Outro Lado

Vamberto Freitas

Pois. Mas nem sempre é preciso se ter preocupações com certos artifícios das palavras, elas próprias, por vezes, encarregam-se de se encaixar e dar forma aos seus dizeres. Livres ou estruturadas – como numa peça de jazz que nunca passa a uma pauta para deleite de quem aprecia esses improvisos da criatividade puramente emotiva – é quase como na gramática de Noam Chomsky, estão já em nós, chegam-nos numa aprendizagem de todo normalizada e quase instintiva. Que eu saiba, nem na gramática nem no baile das palavras que é a nossa comunicação instantânea estarão sempre as regras presentes. Quando estão presentes, nalguns versos, não raras vezes resultam na forma sem conteúdo, na arte sem alma, no som sem significado. Se arte é sobretudo equilíbrio entre forma e conteúdo, entre ritmo e mensagem, entre perspectiva e contexto, ainda hoje não se encontrou um meio de tudo isso “ensinar” – o escritor, em qualquer das suas fases de desenvolvimento, escreve e alguém poderá apenas opinar sobre o que melhor, no seu caso particular, funciona ou não. O resto é a subjectividade, bem ou mal formada e informada, de cada receptor de prosa ou poesia. A “ciência” da escrita não existe, muito menos a da interpretação, para desgosto dos que se pensam especialmente autorizados para catalogar, digamo-lo assim, tudo e todos que se atrevem a publicar um livro. Por isso, quase sempre esperam pela morte dos autores para depois emitir sentenças, e “legitimar” os seus textos preferidos, atirando para o (seu) esquecimento todos os outros. A literatura é criada para ser lida pelos seus contemporâneos, para o prazer de cada um no seu isolamento, feliz ou infeliz. Os olhares restrospectivos são exercícios meramente intelectuais em busca, parafraseando Marcel Proust, dos tempos perdidos, e vividos só pelos outros, a comparação ou o contraste com a experiência de cada um desses leitores mais atentos.

Tudo isto para dizer ao autor destes poemas-retratos que se sinta à vontade entre os poetas e escritores. O Outro Lado: palavras livres como o pensamento contém belíssimos poemas-textos, por assim dizer e como o próprio autor define esta sua escrita, que nos desvendam tanto os seus “estados de alma”, expressão que ele também diz ser o sumo principal desta sua escrita, como as ilhas e outros territórios do seu coração em movimento. Olhar uma ilha açoriana em qualquer dia do ano é correr o risco de ver o universo na sua mutação radical de cores, humores e formas, as ondas batem forte depois beijam as fajãs, a rocha que poderá rachar a qualquer segundo vulcânico, ou a incerteza de se poder ir de um lado para o outro quando todos os nossos movimentos estão condicionados pelas nuvens em cima ou pela terra em baixo. Alguns brasileiros dizem que o Brasil, dada a natureza da sua sociedade, é só para profissionais, e eu diria, com muitos dos nossos poetas, que os Açores são só para os mais afoitos, para os que vêem cada minuto como o melhor tempo de toda uma eternidade. Tudo isto para os que sabem que a liberdade nunca está cercada, nem sequer pela geografia. Os melhores momentos desta poesia, para mim, são os instantes dos olhares ao que está na frente do poeta, e o pensamento que lhe desperta, ou, uma vez mais, o “estado de alma” que toma conta de si. As ilhas açorianas têm sido sempre alvo da poetização de quem nos visita, e depois descrevem-nas como se outros nunca o tivessem feito antes. É certo que foi Raul Brandão, na era já moderna dos anos 20, quem escreveria estas ilhas como mais ninguém, provocando noutros, com Nemésio pouco depois em primeiro plano, o melvelliano choque de reconhecimento, o dramatismo poético e profundamente humano de Brandão percebeu, no que para ele era o mais estranho e longínquo recanto do seu país, a alma comum a todos os homens e mulheres, como que num interminável cordão de mãos dadas, o mar pelo meio nada e ninguém separando. O ilhéu, como diria o poeta e ensaísta caribenho Édouard Glissant (Tout Monde, é um título de um dos seus livros), teorizador da significante poética da relação, será o mais universal de todos seres humanos pela necessidade de ultrapassar a pouca terra sob os seus pés, pela necessidade atávica de absorver o restante mundo trazido pelos que atravessam o seu meio, ou são por ele imaginados, pela necessidade de desterritorializar os nossos imaginários. A solidão, aqui, terá pouco a ver com o território – terá, isso sim, a ver com o impulso, porventura já genético, da essencialidade da pertença a um todo maior do que nós. Aníbal C. Pires goza desse estatuto invejável, que é ser ilhéu continental, não só em teoria como muitos supostos cosmopolitas entre nós, mas no seu passado e vivência, com esporádicos regressos ao que ele chama de raízes, no outro lado do mar, e apesar das suas estarem desde há muito profundamente mergulhadas na terra açoriana. Aliás, O Outro Lado contém poemas que referenciam outros lugares e instantes para além deste seu destino ilhéu, levam-nos para outras terras através dos olhares ante o que já se convencionou chamar em literatura o Outro. Na tradição simbolista que nos legou Roberto de Mesquita, a paisagem em sua frente e o tempo sofrido são as metáforas e as imagens do que sente e anseia num determinado momento vivido e sentido, as metáforas e imagens do enclausuramento interior que convive lado a lado com o sentimento de se ser e estar livre no mundo. No poema “Notas de viagem”, dá-se o regresso de uma casa para a outra, do continente para a ilha, quando o contrário, creio, provocaria a mesma sinfonia de palavras, seria o mesmo “estado de alma”, para uma vez mais deixar o próprio poeta definir a sua escrita: Sigo o Sol/no bojo dum metálico milhafre azul/Vou para Ocidente/Para trás, a cidade, o rio e as ninfas refugiam-se na luz do crepúsculo/Sulco os céus do Atlântico/ Carrego a saudade/E amores apartados/Amores divididos entre partidas e chegadas.

Certamente que esta poesia de O Outro Lado não se fica pela geografia ou pelo espanto da sua imprevisibilidade nos Açores, se bem que não conheço poeta nenhum que não sinta a necessidade de tentar situar-se por entre os seus mistérios de cores e formas. Nem o ocasional poeta visitante e geralmente profissional do existencialismo inventado noutros meios e circunstâncias resiste à apropriação das palavras e versos dos que cá estão e melhor do que ninguém sabem contar-se, e contar-nos, ao restante mundo. O que ignoram é que o ilhéu não é só feito do seu território, mais uma vez parafraseando outro autor, existe igualmente num mundo de ideias e vontades sociais e culturais, não aceita que o destino lhe molde o seu ser ou lhe negue o seu direito à liberdade em sociedade e em comunhão com o restante mundo que historicamente lhe é significante. É essa a outra nossa tradição poética, que a partir de meados do século passado nos deu uma literatura rebelde, interventiva, em que a sociedade é desconstruída na sua pior face de opressão e maldade, a desconstrução artística que numa novela de João de Melo leva o título ambíguo mas feroz de – A Divina Miséria. Um poeta nunca tem um programa para resolver os males do mundo, seus ou dos outros, um poeta raramente grita (exceptuando o Allen Ginsberg, no seu famoso e desesperado Howl), um poeta reduz-se não a lamentos mas a “leituras” do que vai à sua volta ou lhe contradiz a noção de equilíbrio, ou do que poderia vir a ser a felicidade dos outros, a felicidade dos que poderão estar tanto no centro da sua sociedade como nas suas margens. Aníbal C. Pires inclui neste seu livro uma epígrafe de João Miguel, que só depois vim a saber que era seu filho: “(…) É na escrita que encontramos espaço e tempo de reflexão, de descontração, onde podemos criar sem ruído”. Não tenho nada de melhor para resumir este livro.

A poesia – ou os “textos” de que nos fala o autor – de O Outro Lado está organizada cronologicamente por anos, indo de 2008 a 2013. Resulta como que num diário tranquilo dos seus dias, dos seus afazeres, e dos seus movimentos exteriores e/ou íntimos. Aventurei aqui, afinal, um outro resumo desta poesia bela e serena: partidas anunciadas e regressos inesperados, uma vida vivida entre um cá e um lá, entre o eu e os outros.

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Aníbal C. Pires, O Outro Lado: palavras livres como o pensamento, Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2014. O autor também publicou em 2009 a sua tese de mestrado intitulada Imigrantes nos Açores: Representações dos Imigrantes Face às Políticas e Práticas de Acolhimento e Integração, Ponta Delgada, Edições Macaronésia.

Sexo e literatura, ou ilhas de prazer e solidão

CAPA SEXUALIDADE_fechada

Fico a aguardar, para de novo sentir o teu rio desaguar no meu mar, já que não há como saber quando secará a água translúcida das saudades nos meus olhos.

Fernanda Mendes, Sexualidade Redonda e Circular

 

Vamberto Freitas

Primeiro pedido ao eventual leitor deste singular Sexualidade Redonda e Circular: esqueçamos por agora que a Dra. Fernanda Mendes foi deputada e depois Secretária dos Assuntos Sociais de um dos governos regionais açorianos em anos recentes, um escritor ou escritora não pode ser olhado através de formalidades passageiras, esqueçamos a sua imagem circunspecta num pódio e impedida de dizer um doce palavrão ou de insinuar coisas maravilhosas do corpo e do seu prazer puro. Segundo pedido, não deixem que essa sua imagem de mulher pública e política vos faça esquecer que Fernanda Mendes é uma médica psiquiatra, cuja carreira inclui algum – tal como vem escrito na prefácio a este livro pelo Dr. Francisco Allen Gomes – certo pioneirismo em Portugal no que diz respeito a primeiras consultas de sexologia clínica sob a direcção do eminente psiquiatra aqui referido. Transfira-se o seu saber e o seu ouvir um pouco depois para estas ilhas, e temos duas constatações nada menos intrigantes – reconfirmamos que em nada das nossas intimidades somos diferentes dos outros em qualquer parte ou meio social ou de castas, e que afinal a função dos padres na escuridão do confessionário, na ausência de toda e qualquer ciência, sempre teve alguma legitimidade, para além de um mandato divino de absolver pecados e, não raro, de “aconselhar” os pecadores para que não repetissem os seus impulsos ou desejos proibidos. Dito isto, permitam-me agora ficar mais à vontade, e afirmar sem equívocos alguns que Fernanda Mendes revela-se aqui, em primeiro plano, como uma escritora que doravante cria expectativas nossas de mais livros, em qualquer forma ou género. Alguém escreveu um dia, a propósito de temas semelhantes aos que a nossa autora faz deslizar nestas páginas, que Sigmund Freud era o romancista e poeta, e Shakespeare o psiquiatra. Desde então a literatura nunca deixou de ser as duas coisas – “o coração humano”, nas palavras belas e devastadoras de William Faulkner, “em conflito consigo próprio”. Relembro ainda, como mero leitor de longa data, que a medicina e a grande literatura estiveram desde sempre interligadas por alguns dos nomes mais conhecidos na cultura ocidental. Quatro exemplos meus favoritos neste espaço limitado: em Portugal, Fernando Namora. Miguel Torga e, mais perto de nós, António Lobo Antunes, entre outros ou outras; nos Estados Unidos o poeta William Carlos Williams. Não falemos sequer da relação entre psicanálise e escritores. Nas décadas de 40 e 50 creio que para além de capitalistas a entrar e a sair de Wall Street, os outros seres mais visíveis seriam os famosos criadores e críticos literários nova-iorquinos (como Lionel Trilling, representativo das “classes cultas”, expressão que ele próprio cunhou) a falar de si e das suas descobertas de alcova, agora com um copo na mão e em busca constante de si próprios. Não há, pois, razões para surpresas ante a beleza desta prosa e poesia-outra de Fernanda Mendes.

A história de sexo e literatura é tão longa como a história do Ocidente, vai de Aristófanes (com Lisistrata, ou A Greve do Sexo) até à mais variada escrita dos nossos dias, inclusive na literatura açoriana, especialmente com os romances Até Hoje (Memórias de Cão), de Álamo Oliveira, no qual o homossexualismo é corajosamente transfigurado, e, noutro registo completamente oposto, algumas cenas inesquecíveis em Gente Feliz Com Lágrimas, de João de Melo. Sexualidade Redonda e Circular não é um relatório clínico, muito pelo contrário. Trata-se de uma sequência feita de contos ou textos saborosamente indefinidos – a literatura contemporânea é feita desta mistura de formas narrativas – seguidos de poemas afins, ora estruturados ora em prosa-poética, cada peça abordando de forma simultaneamente integrada e autónoma a temática em foco – uma celebração do corpo humano e o correspondente amor que o define e lhe dá razão de ser, de permanecer vivo, o veículo primordial da nossa felicidade e bem-estar, a fonte de toda a nossa generosidade e companheirismo ante os outros, próximos ou distantes. Não que o sexo, nestas mesmas páginas de Fernanda Mendes, seja a única forma de definir e determinar esse amor, ou desamor, que se poderá metamorfosear em naturezas várias conforme os nossos ensinamentos ou mandamentos culturais. Não poderemos nem deveremos ler este livro como sessão psiquiátrica de sexologia, e muito menos como dissertação científica sobre o homem ou a mulher e os seus instintos mais básicos. São histórias maravilhosas que suponho terem sido retiradas da experiência clínica da autora, agora transfiguradas em personagens e situações da imaginação, e que reflectem, como toda boa literatura reflecte, a nossa comum humanidade, a nossa busca partilhada de prazer dentro e fora da cama, a nossa busca pelo outro ou outra que nos retire da solidão, e por vezes desespero. Sexo aqui é o momento de quando dois seres humanos deixam de ser ou estar separados para se fundirem numa só pessoa, o êxtase absoluta que a autora recorrentemente metaforiza com o que será uma espécie de morte divina, os instantes em que nos esquecemos do mundo agressivo em volta, o tudo e o nada, seguida do regresso apaziguador, redentivo, em que a tranquila e desejada solitude (não solidão) se torna transcendente a dois “entre paredes”, como no título de um dos poemas aqui. Não são narrativas clínicas, uma vez mais, mas são narrativas sedutoras, como aliás toda e qualquer literatura o será. Sim, docemente sugestivas, também. A comoção poética das suas linguagens sugere claramente que por detrás da serena “senhora doutora” havia uma escritora irrequieta, uma criadora de imagens e metáforas capaz de afirmar que o chá verde acalma, enquanto o preto em certas noites poderá levar a sua bebedora ou bebedor a inquietações, ou a “sensações adentro”, como noutro poema, estragando a calma reparadora agora desejada. Aliás, quase todos os títulos desta prosa e escrita-outra despertam de imediato a imaginação do leitor.

Perante um primeiro livro virá sempre a pergunta de como decidimos se um texto vale a pena ser lido ou não, tomar o nosso tempo e a nossa atenção. Não há leitura satisfatória sem empatia pelo que lemos, pelos personagens e a sua originalidade, assim como a vida representada, retratada, por assim dizer, através deles. Como alguém também já anotou, ler os outros é lermos a nós próprios, o reconhecimento e reencontro com a nossa própria imagem nesse jogo de espelhos, um texto literário assim absorvido passa a fazer parte da nossa memória, desperta-nos para outros imaginários de lugares e vida. O outro, por outras palavras, sou eu, o nosso mais profundo ser tanto nos individualiza como se integra num todo, sem que isso negue a idiossincrasia de cada um de nós. Dizendo-o de outro modo e por outra metáfora: é ver a angústia do ilhéu em não ser esquecido, em não ser negado o seu sentido de pertença a um mundo maior, nem que seja só a ilha em frente, cujo avistamento lhe reconforta em não estar só. Sexualidade Redonda e Circular é feito de outras vozes que, nas suas angústias mais íntimas e nos seus triunfos mais secretos no amor e no prazer que é o encontro de corpos e almas, tornam-se a fala que gostaríamos de ser nossa nas mais variadas circunstâncias que estamos todos condenado a sofrer ou a desfrutar, são as falas dos nossos alter-egos em fuga à dor e ao medo. Diz Fernanda Mendes no poema de encerramento destas narrativas, “Sou Mulher”: Seria uma admirável subversão:/eu amaria com o teu corpo,/e tu com o meu!/Estares em mim, sendo eu,/e eu em ti, sendo tu,/como a terra e o chão,/tudo fluiria sem segredos nem enganos/ou qualquer dissimulação.

Resta dizer que Sexualidade Redonda e Circular, na sua mais fina retórica artística, movimenta-se nos mundos que têm sido, desde o Brasil (um dos poemas aqui em vernáculo na nossa língua desse país é uma elocução maravilhosa) e Coimbra a Ponta Delgada e outros sítios açorianos, as geografias da narradora. Tanto melhor, essa aproximação mais íntima do nosso eu através da literatura, que nunca é acusatório mas sim uma celebração da vida e da morte, quando esta é uma subida ao Paraíso, mas com bilhete de ida e volta. Que uma destas narrativas se intitula “A Divindade e o Forasteiro nas Festas do Divino” só nos desperta a memória de como no nosso passado o namoro e a felicidade, a vaidade e a generosidade andaram sempre de mãos dadas entre nós. O império também poderá ser, como no filme do outro, o dos sentidos.

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Fernanda Mendes, Sexualidade Redonda e Circular, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2014.

Pro Memoria

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                                      Vamberto Freitas – leituras transatlânticas*

/Por Eugénio Lisboa

                                                                                                       Style is the assertiveness

                                                                                                                              of assertion 

                                                                                                                                 G.B. Shaw

Com 63 anos feitos ou a fazer, graduado em Estudos Latino-Americanos pela California State University, Fullerton, em 1974 e com vasta obra disseminada por jornais, revistas e livros, Vamberto Freitas, a residir, actualmente, em Ponta Delgada (mas oriundo da Ilha Terceira), é um dos nossos mais vigorosos, cultos e clarificadores (eu diria: inspiradores) ensaístas literários. Profundo conhecedor da literatura norte-americana e do seu “milieu” cultural, Vamberto Freitas alimentou-se, desde muito cedo (emigrou para os Estados Unidos com treze anos), do forte ozone que se respira nos textos canónicos dos grandes ficcionistas, poetas, dramaturgos e ensaístas daquele país grande, rico, diverso e contraditório.

Dono de um estilo claro e magnificamente assertivo – a assertividade não faz mal, quando é bem informada e melhor pensada – o autor de border Crossings, ao mesmo tempo, esclarece, ilumina, inspira e seduz: a sua prosa ensaística é de uma intemerata clareza, própria de quem não só não tem medo da luz, como até de boa vontade a convoca, por razões que são também éticas. Dizia Karl Popper, aludindo ao estilo límpido e acerado de Bertrand Russell, que “It’s just not a question of clarity, it’s a question of professional ethics.” Só os trapaceiros e os inseguros receiam a clareza do discurso: observava Camus que aqueles que escrevem com clareza têm leitores, os que escrevem obscuramente têm comentadores. Os ensaios e “reviews” (recensões) de Vamberto Freitas, recheados de rica informação e acesa reflexão, merecem seguramente ter leitores e também alguns comentadores, mas da espécie asseada.

Abrangendo quatro grandes blocos temáticos – I – Literatura e Açorianidade; II – Diáspora e Literatura; III – Imaginários Americanos e IV – Brasil Próximo e Distante – Vamberto, na esteira dos grandes críticos e ensaístas americanos que souberam resistir ao duvidoso canto da sereia dos “estudos académicos” e, sobretudo, na esteira desse gigante da crítica e ensaísmo americanos que foi Edmund Wilson – de quem é notável especialista – Vamberto, dizia, ilumina este vasto território de interesses que o seu livro cobre, servindo-se de um estilo prospector, vigoroso, assertivo e totalmente despegado daquele glossário pretensioso, gongórico e, não infrequentemente, arrastando a asa ao cómico, que muito fascina, mais do que ninguém, os noviços que saltitam nos matagais da Academia. Peter Ackroyd, notável romancista, biógrafo, ensaísta e crítico inglês, publicou, em Março de 1976, um ensaio ferino, que depois recolheu no livro The Collection (2001), intitulado “The Slow Death of Academic Literary Criticism” (“A Morte Lenta da Crítica Literária Académica”). Neste ensaio luminoso e saudavelmente assassino, o autor de O Último Testamento de Oscar Wilde confronta, com eloquência, o ensaísmo oriundo das matas do saber académico. Logo de início faz fogo pesado e certeiro, nestes termos: “Nada de original tem vindo deles [dos críticos académicos] em dez anos de actividade. Estou ainda para ler um crítico académico contemporâneo que consiga escrever com mais inteligência, ou ler com mais cuidado do que um bom “reviewer”[autor de recensões críticas]. E está ainda por se me deparar um que não seja um escravo devotado de seja qual for a moda ideológica que, de momento, arraste , no seu cativeiro, as academias.” Julgo que é contra este império das “modas ideológicas” que grandes críticos como Wilson ou Dwight MacDonald, por Vamberto admirados, estudados e citados, investem, com a sua enorme cultura e a formidável força da sua claridade estilística. E é esta dimensão de “claridade” que se nos torna, de imediato, como que um reconfortante garante de integridade. Schopenhauer, um filósofo – e, diga-se de passagem, um grande escritor – que me alimentou e “segurou” em momentos de alguma perturbação, observava que “o estilo é a fisionomia do espírito e um guia mais seguro do carácter do que o próprio rosto.” O estilo de ensaísmo que Vamberto cultiva, com invulgar força e brio, torna-se, para nós, ao longo da leitura destas páginas transatlânticas, em que sonda valores literários, culturais e éticos, em variadas latitudes e longitudes, uma garantia fiável de que nos podemos entregar, sem desconfiança, ao seu discorrer desempoeirado, clarificador, pleno de luz e de prazer (do texto). Porque, se o “conteúdo” do discurso é importante, a “forma” do mesmo não o é menos. Ou, como notava o grande e impagável Robert Frost, “a piada está toda na maneira como se diz uma coisa.” A piada, sem dúvida; mas é bem mais do que isso: a forma de dizer revela o quilate do carácter de quem diz.

É esta “nudez” de escrita, esta frontalidade escorreita – sem ambiguidades – que caracteriza os grandes críticos, que não temem “lobbies” nem tabus, venham eles de onde vierem. Não é por acaso que Vamberto Freitas toma como modelo o grande Edmund Wilson (de extracção marxista, diga-se de passagem, o que nunca lhe feriu a independência), de quem diz isto, de entre as muitas referências que lhe faz: “O crítico canónico norte-americano deste mesmo período é Edmund Wilson, que faleceu em 1972, mas começou a escrever nos anos 20 até à sua morte, tendo sido um dos primeiros homens de letras norte-americanos a apresentar os modernistas europeus ao grande público do seu país, com Axel’s Castle. Nos seus últimos tempos, travou uma ruidosa guerra contra a crítica universitária, e até hoje é persona non grata nalgumas academias, mas os seus livros póstumos continuam a ser (re)publicados, sendo um dos escritores americanos ainda hoje mais biografados, referidos e estudados.”

É nesta pequena mas grande família de “honnêtes hommes” que se insere este açoriano de quem me honro de ser amigo, homem das ilhas, mas viageiro universal e discípulo, no mais nobre sentido, daqueles espíritos luminosos que têm dado à crítica literária os seus mais excelsos galões. David Lodge, notável romancista inglês e crítico literário (além de teorizador de literatura), que veio das áleas da academia, numa recensão crítica – “Rabbit Reviewer” – dedicada a uma colecção de artigos, na sua maioria recensões críticas, da autoria de John Updike, inventariava assim as qualidades essenciais do crítico sistemático (“reviewer”): “Os atributos essenciais para esta espécie de crítico, para além da inteligência e de uma educação liberal, são um olho desperto para a citação iluminadora e um estilo de prosa eloquente e fácil.” Fácil, claro, naquele portentoso sentido que lhe deu Eça, quando n’As Cidades e as Serras faz o Infante D. Miguel levantar Jacinto do chão, com “uma força fácil”. Fácil porque descomunalmente forte. Julgo que estes “atributos essenciais”, entre outros, fazem parte, indiscutivelmente, do equipamento profissional de Vamberto Freitas.

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*Texto publicado como recensão ao borderCrossings II: leituras transatlânticas (2014). Foi escrito para a sua coluna PRO MEMORIA do JL (Lisboa), e publicado a 29 de Outubro de 2014.

Liberdade, ou sociedade e literatura americana

Capa Liberdade de Jonathan Franzen  Walter e Patty eram os pioneiros jovens de Ramsey Hill – os primeiros universitários graduados a comprar uma casa no Barrier Street desde que o velho coração de St. Paul tinha mergulhado em tempos difíceis há três décadas atrás.

Jonathan Franzen, Freedom

Vamberto Freitas

As quase seiscentas páginas, na versão original de Freedom que li, oferecem-nos um percurso de leitura já muito pouco habitual na grande literatura contemporânea. Frase a frase, diálogo a diálogo, parágrafo narrativo a parágrafo narrativo, nem por instante o leitor deixa de se quedar simultaneamente empolgado em todos os seus pormenores, dizeres e afazeres, esperando constantemente pela surpresa ou viragem de acontecimentos ou emoções seguintes. O mais recente romance de Jonathan Franzen – Liberdade, na tradução portuguesa – consegue esta proeza, que é parecer uma narrativa vinda ainda do século dezanove, no género de fôlego de Tolstoi, Balzac, ou mesmo de Eça de Os Maias, sem nunca nos deixar esquecer que é uma “história” do século presente, até mesmo na sua estrutura ou construção do andamento diegético, que também parece tradicional ou linear, mas que contém em si, sem qualquer contorcionismo retórico, o melhor do modernismo literário de todo o século passado, naturalismo, realismo, e simbolismo como base de se recontar a vida individual e colectiva desta idade que até há bem pouco levava o rótulo, mais ou menos significante, de pós-modernista. Algumas vezes a crítica literária mais abrangente, mesmo a mais autorizada, abusa de certos entusiasmos perante um livro do momento, mas, desta vez, pelo menos o The New York Times acertou por inteiro – eis Jonathan Franzen, surpreendentemente, duplicando em Freedom o seu feito anterior com As Correções (2001), eis “uma obra prima”, o autor a ser favorecido ainda no que muito poucos outros têm tido o privilégio de gozar, a capa de um número da contida e conservadora Time, o ensaio de fundo intitulado simplesmente Great American Novelist/Grande Romancista Americano. Não quero fazer nestas linhas um panegírico à portuguesa, mas quero, isso sim, deixar aqui a minha surpresa ante este magnífico e audaz regresso do que entendíamos, uma vez mais, por grande literatura – a teia societal de um tempo e lugar, o labirinto do quotidiano de cada personagem, metonímico sempre de cada um de nós, o poço limpo e sujo da alma humana a tentar viver e sobreviver ante a armadilha que é a História da sua sociedade, o passado simultaneamente como sombra perseguidora, mas cuja memória viva se torna motivo de se querer fugir à “condenação” ancestral, de se querer contrariar com todas as forças o nosso suposto destino urdido pelos que nos tanto dão vida como a tentam cercear. Tenho na minha estante há alguns anos a maior parte da obra de Franzen, e só agora a comecei a ler. Valeu a demora, valeu a descoberta tardia. Há quem deseje nunca ter lido certos livros, que passariam a ser “da sua vida”, para só agora sentirem a felicidade do encontro com essa outra genialidade artística.

O referencial geográfico e humano desta narrativa poderá ser, em primeiro plano, St. Paul, em Minnesota, e depois Nova Iorque e arredores e Washington, DC, dos anos 70 até aos nossos dias mais imediatos, mas quase que vejo esta América e esta gente à minha frente, quase os ouço na sua galhofa ou no seu choro, vivendo os seus amores e sofrendo as suas desilusões e raivas, este caleidoscópio de vida e destinos, estes sonhos e as suas negações do dia-a-dia, como nos subúrbios do sul da Califórnia onde me tornei adulto e me formei para a vida inteira. O elenco de Liberdade consiste de vários personagens que nunca mais esquecemos, os seus nomes e as suas vidas, Walter e Patty Berglund, ele de descendência sueca, ela meio judaica e cristã, o que para os dois pouco significa, no centro da narrativa desde que se conhecem ainda como jovens recém-formados até ao seu primeiro namoro, casamento e nascimento dos dois filhos, a construção dos alicerces reais e imaginários obedecendo à mitologia do chamado Sonho Americano. São quase todos anglo-saxónicos e agnósticos, representativos tanto da classe-média ascendente caminhando lado a lado com aqueles outros que na América profunda perpetuam o outro lado, o bruto de carrinha com autocolante afirmando que “sou branco e voto”, de cerveja não mão e ocupado com projectos constantes de garagem caseira, convivendo ainda com as margens superiores de riqueza herdada, religiosidades-outras, em intimações da sociedade multi-étnica que sempre foi a América, hoje mais do que nunca. É essa a América das largas ruas residenciais e tranquilas e relvas cuidadosamente aparadas, das auto-estradas e dos motéis sujos e mal-cheirosos, da mata e dos lagos meio selvagens, das sedutoras cidades que não dormem e alimentam as fantasias de fama e riqueza, é a América dos restaurantes caros e da espelunca para todos os gostos, é a América do álcool e do abandono, da cama e da traição, do pecado e da redenção. Liberdade é a grande narrativa da família como centro nuclear, símbolo de toda uma mundividência, que nas suas particularidades amontoadas, nos seus modos de vida agora espelhados tornam-se, na prosa de um mestre, um vasto “retrato” imaginado de toda uma sociedade-mosaico, cujas diferenças nunca deixam de constituir um todo reconhecível pelos de fora, a identidade de cada um ou as identidades de grupo convergindo num todo nacional. A sonhada liberdade privada aqui cobra pesadamente a quem se atreve a vive-la, o caos emotivo de quase todas as personagens levando cada uma delas à dor e ao “coração despedaçado”, ou então ao fingido contentamento resignado dos derrotados – a humanidade nas suas mais triviais e mortíferas contingências.

À corrente temática de Liberdade está subjacente ainda a vida de outro personagem central, de nome Richard Katz, amigo desde sempre de Walter, eventual amante de Patty, compositor e músico de vários estilos, solteiro e drogado, nómada nocturno descendente dos Beat de tempos idos. A sua inteligência e firmeza no desamor desafiam a sucessão obsessiva e imparável de mulheres nele enroscadas, a sua aparente frivolidade um acto de desprezo pelos valores convencionais de todos os outros à sua volta, a sua frieza ante os que com isso sofrem quase até à morte desmentida na subtileza das suas emoções e dúvidas, da sua tentativa de distanciamento do que poderá ferir os poucos que lhe são próximos, e ninguém o é até ao fim como o marido de Patty. Paralelamente, vamos seguindo a sua vida relutante de vocalista de bandas que acompanham as mudanças ou a maturidade da caminhada das gerações, tendo começado com o barulho metálico e punk até às baladas de intervenção sócio-política, e por fim as de amor e amizade, num último disco dedicado precisamente ao amigo que havia traído com a própria mulher, a arte emendando o que o instinto e a loucura desfizeram. Mais do que isso, Richard na sua música e Walter na sua luta de conservação da natureza sob ataque das grandes empresas de energias fósseis vão-nos colocando numa “nova” América, a que é governada por George W. Bush, e a saque após o 11 de Setembro. Não são EUA dos pais fundadores que reencontramos, é o Estado da suposta segurança nacional, paranoico e em guerra no Afeganistão e no Iraque, a corrupção financeira e generalizada daí decorrente a negar a bondade da “liberdade” que se pensa viver, mesmo sabendo-se sujeitos às mais obscuras forças, devoradoras também de muitos outros povos no além-fronteiras. Digamos que entre mãos temos o romance “total” da vida privada e pública da nossa época. Para mim, é de uma grandeza e luminosidade literárias, uma vez mais, já quase inesperadas, da beleza da sua linguagem clara, irónica, satírica, cómica e dramática sobressaindo toda a temática relevante à ficção clássica e moderna, não só agarrando o dia como agarrando todos os momentos da vida vivida.

As gerações seguintes estão aqui tão inseguras e caóticas como as dos seus progenitores. Por vezes parecem a continuidade da desorientação dos seus pais, outras a consciência de um novo começo, de uma nova América. As últimas páginas de Liberdade são de todo inesperadas, a viragem absoluta da narrativa, a improbabilidade maior em praticamente toda a literatura moderna ou modernista americana, e ainda mais na europeia. Nem Hollywood já se atreve a um fim que pareça feliz. Não que isso aconteça totalmente aqui. Mas se o realismo é o meio de enfrentarmos a infelicidade e dor, é-o também para transmitirmos uma das outras sub-correntes do pensamento e de alma – é possível levantarmo-nos do chão, e tentar viver tudo de outra maneira.

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Jonathan Franzen, Freedom, London, Fourth Estate, 2010. Vai aqui a capa da edição portuguesa, Liberdade, da D. Quixote. Por isso alternei no meu texto o título do romance nas duas línguas. A tradução da epígrafe e outras é da minha responsabilidade.

A reinvenção da Europa

Capa Identidade Cultural Europeia (1)É claro que, considerando a construção de uma unidade europeia política, não podemos deixar de falar das tentativas imperiais dessa construção, aliás impostas pela força, de cima para baixo, e pontuadas pelo fracasso ao longo dos séculos.

Vasco Graça Moura, A Identidade Cultural Europeia

Vamberto Freitas

Não, não estou tão fora das minhas áreas habituais e de eleição nestas páginas. Eventualmente, a literatura abrange tudo que é humano, eventualmente tudo que é humano abrange a literatura. Ao contrário do que (me) diziam os últimos dos New Critics americanos a fins dos anos 60 e durante a década seguinte, quando foram desaparecendo de cena na academia, a história fora do texto tem importância na nossa apreensão de significados, a ignorância reduz definitivamente o prazer do texto, a absorção de contextos que nos clarificam a mais leve insinuação de um narrador ou narradora, que, juntamente com o tom da sua voz, pode virar todo o sentido de um passo, ou mesmo do texto no seu todo. Diziam muitos deles o mesmo sobre os desnecessários conhecimentos biográficos de um escritor sob a nossa atenção – ou a sua obra se “auto-segura” sem mais referências exteriores às suas palavras, ou não vale nada. Tudo isto para vos dizer, sem nunca deixar de prestar homenagem aos meus antigos mestres, que um conceito de cidadania e o tentar perceber um pouco melhor o nosso tempo e tudo o que influi quotidianamente nas nossas vidas é material legítimo para análise e comentário, é fonte de esclarecimento na leitura de qualquer narrativa, para lá da forma ou do género. Quando um conjunto de textos aborda o tema primordial da nossa identidade, e de identidades-outras, próximas ou distantes nos nossos destinos, teremos uma parte fulcral do que é feita a melhor literatura, desde os gregos aos nossos dias. Quando esses ensaios compõem um livro da autoria de um escritor como Vasco Graça Moura (falecido bem pouco depois de alguns destes escritos terem sido publicados por outros meios), que cultivou praticamente todos os géneros literários entre nós e nunca descurou as suas obrigações de intelectual público, regressando sempre à História para contextualizar arte e opções ideológicas da nossa contemporaneidade, as suas e as dos outros, lê-lo, para mim, tanto é um acto obrigatório como de prazer, de confronto com novas perspectivas e olhares sobre uma realidade europeia em suposta construção. Tudo o que determina e influencia a vida do nosso país, desde o mero gesto na compra seja do que for, à cultura que nos molda ou nos tenta orientar em determinada direcção, à arte essencial que daí já brota em toda a sua inevitável multidimensionalidade, o autor comenta directa ou implicitamente nestes seus escritos.

Ler Vasco Graça Moura, neste seu A Identidade Cultural Europeia, é continuar a ter, repita-se, uma das mais significativas referências intelectuais dos nossos dias. Esqueçamos por agora a sua obra poética, ficcionista e de tradutor dos clássicos e outras peças fundamentais da literatura ocidental, e lembremos as suas intervenções regulares na nossa imprensa. Na defesa das suas opções ideológicas nunca se escondeu sob um palavreado ofuscador tão da nossa tradição intelectual, de vozes que parecem cheias de medo e calculismo. Lei-o precisamente por estar nos antípodas das minhas próprias lealdades políticas e mundividências, por saber que em cada questão de cultura ou cidadania haverá, felizmente, outros pontos de vista, outras crenças que interpelam as nossas, nos poderão sugerir a necessidade de as rever, ou então de reafirmar o que pensamos e defendemos. Tenho de confessar que a questão da Europa interessa-me só na medida em que poderá conduzir o nosso país, as nossas vidas, o nosso futuro, numa ou noutra direcção. Nestes anos mais recentes, falar da Europa entre nós é falar de dinheiro e crise, da má fé de uns e de outros, de interesses bancários obscuros, de tentativas hegemónicas dos mais fortes no continente, da perda de soberania e auto-estima nacional, da nossa casa atlântica e dos afectos históricos a sul, da expansiva geografia da nossa língua em todos os outros continentes e algumas ilhas circundantes. Vasco Graça Moura não ignorou nenhuma destas áreas de questionamento essencial numa sociedade bem formada, com uma suposta e activa elite consciente das suas obrigações colectivas, o que nem sempre, como se sabe, tem sido o nosso caso. Creio que a pergunta do autor que subjaz a este magnífico conjunto de ensaios é simples – o que é a “cultura europeia” e como nos temos integrado, e nos integramos, nesse espaço da mente criativa e da tradição cívico-cultural? Por outro lado, quase parágrafo a parágrafo, Vasco Graça Moura reafirma que sem essa componente de todo o projecto em construção de uma União Europeia autêntica, pouco ou nada vai restar que valha a pena a longo prazo, ou para além dos interesses imediatos e da troca comercial de coisas. É nas resposta às primeiras questões que este pequeno livro brilha, e, para quem quiser, acrescenta muito mais ao nosso saber da arte em geral, e que hoje está firmemente espalhada pelo resto do globo, o Ocidente sendo aqui definido como estando geograficamente localizado neste continente e na sua expansão e forte presença nas Américas, de norte a sul. Vasco Graça Moura reafirma aqui repetidamente a aliança especial com os Estados Unidos, tanto como defesa da paz entre nós como no restante mundo, como de partilha de prosperidades ou no confronto com realidades inesperadas de toda a natureza, e vindas de fora dessa esfera de poder e influência. Como pessoa de dupla cidadania, não tenho nada a dizer, só apoiar sem reticências tudo o que, a esse respeito, ficou escrito pelo seu autor. Traçando a história das muitas tentativas de se “unir” a Europa pela força das armas e não da razão, e agora, finalmente, através de uma persuasão que inclui o argumento das nossas raízes culturais (greco-romanas) e religiosas (judaico-cristãs), Vasco Graça Moura reconhece o buraco negro – estas palavras são minhas – que aparentemente estancou todo o projecto, se bem que as suas possibilidades continuam bem vivas, mesmo após ou nesta grave crise financeira e do inegável conflito norte-sul, a noção da essencialidade de defesa comum, no entanto, tornando-se muito mais do que teórica num mundo violento e frontalmente ameaçador ao nosso bem-estar e à nossa paz. As suas advertência sábias, esperemos, não poderão nunca ser esquecidas ou ignoradas por quem lidera o processo em curso.

“Embora o primeiro encontro – escreve ainda o ensaísta em ‘Símbolos de Uma Identidade’ – que reuniu todas as nações europeias tenha sido o Congresso de Viena, em 1815, só a partir do fim da Primeira Grande Guerra Mundial e, em especial, de meados do século XX, é que o princípio da concórdia entre os povos europeus sucedeu ao princípio do conflito e foi assumido como tal no discurso oficial, muito embora dificilmente se possa dizer que tenha sido interiorizado como devia por parte dos cidadãos. Com a passagem do tempo, vê-se com uma nitidez cada vez maior que a identidade europeia corresponde a uma construção intelectual muito mais do que a um sentimento interiorizado do cidadão comum, que, todavia, durante muito tempo viu na Europa politicamente organizada, sob as formas de CEE ou de União Europeia, uma fonte de financiamento mais ou menos ‘inesgotável’ de necessidades básicas e até das necessidades supérfluas”.

A Identidade Cultural Europeia oferece muitíssimo mais aos leitores do que uma dissertação sobre a problemática histórica e actual que envolve a construção de uma Europa unida. A vasta erudição de Vasco Graça Moura abrange tanto a literatura como as outras artes mais presentes nas nossas vidas, a pintura e a música. Não encontramos apenas referências ou citações ocasionais numa pretensiosa demonstração de saberes. Cada nome mencionado, cada obra referida neste contexto específico do seu tema, interliga pensamentos, mostra a ligação entre os povos e as suas criações ao longo dos tempos, mostra como as artes reflectiram sempre o seu tempo, as suas origens e influências recuadas até à Antiguidade, as suas “mensagens” e a suas estéticas intimamente ligadas a um espaço geográfico preciso, ou cultural, adentro do continente no seu todo, oferece-nos interpretações e reinterpretações de um complexo e diversificado passado de povos que “existem” lado a lado mas não convivem, e ignoram ou menosprezam as tradições multi-seculares uns dos outros. Estas são páginas que carregam em si com naturalidade um certo optimismo quanto a um outro futuro e entendimentos no que conhecemos, uma vez mais, por Ocidente. No mínimo, é intelectualmente uma divergência bem-vinda nestes dias de turbulência generalizada e ausência de rumo global.

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Vasco Graça Moura, A Identidade Cultural Europeia, Lisboa, FFMS/Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.