Liberdade, ou sociedade e literatura americana

Capa Liberdade de Jonathan Franzen  Walter e Patty eram os pioneiros jovens de Ramsey Hill – os primeiros universitários graduados a comprar uma casa no Barrier Street desde que o velho coração de St. Paul tinha mergulhado em tempos difíceis há três décadas atrás.

Jonathan Franzen, Freedom

Vamberto Freitas

As quase seiscentas páginas, na versão original de Freedom que li, oferecem-nos um percurso de leitura já muito pouco habitual na grande literatura contemporânea. Frase a frase, diálogo a diálogo, parágrafo narrativo a parágrafo narrativo, nem por instante o leitor deixa de se quedar simultaneamente empolgado em todos os seus pormenores, dizeres e afazeres, esperando constantemente pela surpresa ou viragem de acontecimentos ou emoções seguintes. O mais recente romance de Jonathan Franzen – Liberdade, na tradução portuguesa – consegue esta proeza, que é parecer uma narrativa vinda ainda do século dezanove, no género de fôlego de Tolstoi, Balzac, ou mesmo de Eça de Os Maias, sem nunca nos deixar esquecer que é uma “história” do século presente, até mesmo na sua estrutura ou construção do andamento diegético, que também parece tradicional ou linear, mas que contém em si, sem qualquer contorcionismo retórico, o melhor do modernismo literário de todo o século passado, naturalismo, realismo, e simbolismo como base de se recontar a vida individual e colectiva desta idade que até há bem pouco levava o rótulo, mais ou menos significante, de pós-modernista. Algumas vezes a crítica literária mais abrangente, mesmo a mais autorizada, abusa de certos entusiasmos perante um livro do momento, mas, desta vez, pelo menos o The New York Times acertou por inteiro – eis Jonathan Franzen, surpreendentemente, duplicando em Freedom o seu feito anterior com As Correções (2001), eis “uma obra prima”, o autor a ser favorecido ainda no que muito poucos outros têm tido o privilégio de gozar, a capa de um número da contida e conservadora Time, o ensaio de fundo intitulado simplesmente Great American Novelist/Grande Romancista Americano. Não quero fazer nestas linhas um panegírico à portuguesa, mas quero, isso sim, deixar aqui a minha surpresa ante este magnífico e audaz regresso do que entendíamos, uma vez mais, por grande literatura – a teia societal de um tempo e lugar, o labirinto do quotidiano de cada personagem, metonímico sempre de cada um de nós, o poço limpo e sujo da alma humana a tentar viver e sobreviver ante a armadilha que é a História da sua sociedade, o passado simultaneamente como sombra perseguidora, mas cuja memória viva se torna motivo de se querer fugir à “condenação” ancestral, de se querer contrariar com todas as forças o nosso suposto destino urdido pelos que nos tanto dão vida como a tentam cercear. Tenho na minha estante há alguns anos a maior parte da obra de Franzen, e só agora a comecei a ler. Valeu a demora, valeu a descoberta tardia. Há quem deseje nunca ter lido certos livros, que passariam a ser “da sua vida”, para só agora sentirem a felicidade do encontro com essa outra genialidade artística.

O referencial geográfico e humano desta narrativa poderá ser, em primeiro plano, St. Paul, em Minnesota, e depois Nova Iorque e arredores e Washington, DC, dos anos 70 até aos nossos dias mais imediatos, mas quase que vejo esta América e esta gente à minha frente, quase os ouço na sua galhofa ou no seu choro, vivendo os seus amores e sofrendo as suas desilusões e raivas, este caleidoscópio de vida e destinos, estes sonhos e as suas negações do dia-a-dia, como nos subúrbios do sul da Califórnia onde me tornei adulto e me formei para a vida inteira. O elenco de Liberdade consiste de vários personagens que nunca mais esquecemos, os seus nomes e as suas vidas, Walter e Patty Berglund, ele de descendência sueca, ela meio judaica e cristã, o que para os dois pouco significa, no centro da narrativa desde que se conhecem ainda como jovens recém-formados até ao seu primeiro namoro, casamento e nascimento dos dois filhos, a construção dos alicerces reais e imaginários obedecendo à mitologia do chamado Sonho Americano. São quase todos anglo-saxónicos e agnósticos, representativos tanto da classe-média ascendente caminhando lado a lado com aqueles outros que na América profunda perpetuam o outro lado, o bruto de carrinha com autocolante afirmando que “sou branco e voto”, de cerveja não mão e ocupado com projectos constantes de garagem caseira, convivendo ainda com as margens superiores de riqueza herdada, religiosidades-outras, em intimações da sociedade multi-étnica que sempre foi a América, hoje mais do que nunca. É essa a América das largas ruas residenciais e tranquilas e relvas cuidadosamente aparadas, das auto-estradas e dos motéis sujos e mal-cheirosos, da mata e dos lagos meio selvagens, das sedutoras cidades que não dormem e alimentam as fantasias de fama e riqueza, é a América dos restaurantes caros e da espelunca para todos os gostos, é a América do álcool e do abandono, da cama e da traição, do pecado e da redenção. Liberdade é a grande narrativa da família como centro nuclear, símbolo de toda uma mundividência, que nas suas particularidades amontoadas, nos seus modos de vida agora espelhados tornam-se, na prosa de um mestre, um vasto “retrato” imaginado de toda uma sociedade-mosaico, cujas diferenças nunca deixam de constituir um todo reconhecível pelos de fora, a identidade de cada um ou as identidades de grupo convergindo num todo nacional. A sonhada liberdade privada aqui cobra pesadamente a quem se atreve a vive-la, o caos emotivo de quase todas as personagens levando cada uma delas à dor e ao “coração despedaçado”, ou então ao fingido contentamento resignado dos derrotados – a humanidade nas suas mais triviais e mortíferas contingências.

À corrente temática de Liberdade está subjacente ainda a vida de outro personagem central, de nome Richard Katz, amigo desde sempre de Walter, eventual amante de Patty, compositor e músico de vários estilos, solteiro e drogado, nómada nocturno descendente dos Beat de tempos idos. A sua inteligência e firmeza no desamor desafiam a sucessão obsessiva e imparável de mulheres nele enroscadas, a sua aparente frivolidade um acto de desprezo pelos valores convencionais de todos os outros à sua volta, a sua frieza ante os que com isso sofrem quase até à morte desmentida na subtileza das suas emoções e dúvidas, da sua tentativa de distanciamento do que poderá ferir os poucos que lhe são próximos, e ninguém o é até ao fim como o marido de Patty. Paralelamente, vamos seguindo a sua vida relutante de vocalista de bandas que acompanham as mudanças ou a maturidade da caminhada das gerações, tendo começado com o barulho metálico e punk até às baladas de intervenção sócio-política, e por fim as de amor e amizade, num último disco dedicado precisamente ao amigo que havia traído com a própria mulher, a arte emendando o que o instinto e a loucura desfizeram. Mais do que isso, Richard na sua música e Walter na sua luta de conservação da natureza sob ataque das grandes empresas de energias fósseis vão-nos colocando numa “nova” América, a que é governada por George W. Bush, e a saque após o 11 de Setembro. Não são EUA dos pais fundadores que reencontramos, é o Estado da suposta segurança nacional, paranoico e em guerra no Afeganistão e no Iraque, a corrupção financeira e generalizada daí decorrente a negar a bondade da “liberdade” que se pensa viver, mesmo sabendo-se sujeitos às mais obscuras forças, devoradoras também de muitos outros povos no além-fronteiras. Digamos que entre mãos temos o romance “total” da vida privada e pública da nossa época. Para mim, é de uma grandeza e luminosidade literárias, uma vez mais, já quase inesperadas, da beleza da sua linguagem clara, irónica, satírica, cómica e dramática sobressaindo toda a temática relevante à ficção clássica e moderna, não só agarrando o dia como agarrando todos os momentos da vida vivida.

As gerações seguintes estão aqui tão inseguras e caóticas como as dos seus progenitores. Por vezes parecem a continuidade da desorientação dos seus pais, outras a consciência de um novo começo, de uma nova América. As últimas páginas de Liberdade são de todo inesperadas, a viragem absoluta da narrativa, a improbabilidade maior em praticamente toda a literatura moderna ou modernista americana, e ainda mais na europeia. Nem Hollywood já se atreve a um fim que pareça feliz. Não que isso aconteça totalmente aqui. Mas se o realismo é o meio de enfrentarmos a infelicidade e dor, é-o também para transmitirmos uma das outras sub-correntes do pensamento e de alma – é possível levantarmo-nos do chão, e tentar viver tudo de outra maneira.

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Jonathan Franzen, Freedom, London, Fourth Estate, 2010. Vai aqui a capa da edição portuguesa, Liberdade, da D. Quixote. Por isso alternei no meu texto o título do romance nas duas línguas. A tradução da epígrafe e outras é da minha responsabilidade.

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One thought on “Liberdade, ou sociedade e literatura americana

  1. mceupc Novembro 9, 2014 / 5:29 pm

    É sempre um prazer ler os “literary reviews” de Vamberto Freitas. Curiosamente, adquiri há poucos dias a versão original de Jonathan Franzen, Freedom, paperback edition, com design de capa por Jo Walker.
    A crítica aqui apresentada hoje leva-me, sem dúvida, a mergulhar nesta obra de Jonathan Franzen. Bem haja!

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