Pro Memoria

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                                      Vamberto Freitas – leituras transatlânticas*

/Por Eugénio Lisboa

                                                                                                       Style is the assertiveness

                                                                                                                              of assertion 

                                                                                                                                 G.B. Shaw

Com 63 anos feitos ou a fazer, graduado em Estudos Latino-Americanos pela California State University, Fullerton, em 1974 e com vasta obra disseminada por jornais, revistas e livros, Vamberto Freitas, a residir, actualmente, em Ponta Delgada (mas oriundo da Ilha Terceira), é um dos nossos mais vigorosos, cultos e clarificadores (eu diria: inspiradores) ensaístas literários. Profundo conhecedor da literatura norte-americana e do seu “milieu” cultural, Vamberto Freitas alimentou-se, desde muito cedo (emigrou para os Estados Unidos com treze anos), do forte ozone que se respira nos textos canónicos dos grandes ficcionistas, poetas, dramaturgos e ensaístas daquele país grande, rico, diverso e contraditório.

Dono de um estilo claro e magnificamente assertivo – a assertividade não faz mal, quando é bem informada e melhor pensada – o autor de border Crossings, ao mesmo tempo, esclarece, ilumina, inspira e seduz: a sua prosa ensaística é de uma intemerata clareza, própria de quem não só não tem medo da luz, como até de boa vontade a convoca, por razões que são também éticas. Dizia Karl Popper, aludindo ao estilo límpido e acerado de Bertrand Russell, que “It’s just not a question of clarity, it’s a question of professional ethics.” Só os trapaceiros e os inseguros receiam a clareza do discurso: observava Camus que aqueles que escrevem com clareza têm leitores, os que escrevem obscuramente têm comentadores. Os ensaios e “reviews” (recensões) de Vamberto Freitas, recheados de rica informação e acesa reflexão, merecem seguramente ter leitores e também alguns comentadores, mas da espécie asseada.

Abrangendo quatro grandes blocos temáticos – I – Literatura e Açorianidade; II – Diáspora e Literatura; III – Imaginários Americanos e IV – Brasil Próximo e Distante – Vamberto, na esteira dos grandes críticos e ensaístas americanos que souberam resistir ao duvidoso canto da sereia dos “estudos académicos” e, sobretudo, na esteira desse gigante da crítica e ensaísmo americanos que foi Edmund Wilson – de quem é notável especialista – Vamberto, dizia, ilumina este vasto território de interesses que o seu livro cobre, servindo-se de um estilo prospector, vigoroso, assertivo e totalmente despegado daquele glossário pretensioso, gongórico e, não infrequentemente, arrastando a asa ao cómico, que muito fascina, mais do que ninguém, os noviços que saltitam nos matagais da Academia. Peter Ackroyd, notável romancista, biógrafo, ensaísta e crítico inglês, publicou, em Março de 1976, um ensaio ferino, que depois recolheu no livro The Collection (2001), intitulado “The Slow Death of Academic Literary Criticism” (“A Morte Lenta da Crítica Literária Académica”). Neste ensaio luminoso e saudavelmente assassino, o autor de O Último Testamento de Oscar Wilde confronta, com eloquência, o ensaísmo oriundo das matas do saber académico. Logo de início faz fogo pesado e certeiro, nestes termos: “Nada de original tem vindo deles [dos críticos académicos] em dez anos de actividade. Estou ainda para ler um crítico académico contemporâneo que consiga escrever com mais inteligência, ou ler com mais cuidado do que um bom “reviewer”[autor de recensões críticas]. E está ainda por se me deparar um que não seja um escravo devotado de seja qual for a moda ideológica que, de momento, arraste , no seu cativeiro, as academias.” Julgo que é contra este império das “modas ideológicas” que grandes críticos como Wilson ou Dwight MacDonald, por Vamberto admirados, estudados e citados, investem, com a sua enorme cultura e a formidável força da sua claridade estilística. E é esta dimensão de “claridade” que se nos torna, de imediato, como que um reconfortante garante de integridade. Schopenhauer, um filósofo – e, diga-se de passagem, um grande escritor – que me alimentou e “segurou” em momentos de alguma perturbação, observava que “o estilo é a fisionomia do espírito e um guia mais seguro do carácter do que o próprio rosto.” O estilo de ensaísmo que Vamberto cultiva, com invulgar força e brio, torna-se, para nós, ao longo da leitura destas páginas transatlânticas, em que sonda valores literários, culturais e éticos, em variadas latitudes e longitudes, uma garantia fiável de que nos podemos entregar, sem desconfiança, ao seu discorrer desempoeirado, clarificador, pleno de luz e de prazer (do texto). Porque, se o “conteúdo” do discurso é importante, a “forma” do mesmo não o é menos. Ou, como notava o grande e impagável Robert Frost, “a piada está toda na maneira como se diz uma coisa.” A piada, sem dúvida; mas é bem mais do que isso: a forma de dizer revela o quilate do carácter de quem diz.

É esta “nudez” de escrita, esta frontalidade escorreita – sem ambiguidades – que caracteriza os grandes críticos, que não temem “lobbies” nem tabus, venham eles de onde vierem. Não é por acaso que Vamberto Freitas toma como modelo o grande Edmund Wilson (de extracção marxista, diga-se de passagem, o que nunca lhe feriu a independência), de quem diz isto, de entre as muitas referências que lhe faz: “O crítico canónico norte-americano deste mesmo período é Edmund Wilson, que faleceu em 1972, mas começou a escrever nos anos 20 até à sua morte, tendo sido um dos primeiros homens de letras norte-americanos a apresentar os modernistas europeus ao grande público do seu país, com Axel’s Castle. Nos seus últimos tempos, travou uma ruidosa guerra contra a crítica universitária, e até hoje é persona non grata nalgumas academias, mas os seus livros póstumos continuam a ser (re)publicados, sendo um dos escritores americanos ainda hoje mais biografados, referidos e estudados.”

É nesta pequena mas grande família de “honnêtes hommes” que se insere este açoriano de quem me honro de ser amigo, homem das ilhas, mas viageiro universal e discípulo, no mais nobre sentido, daqueles espíritos luminosos que têm dado à crítica literária os seus mais excelsos galões. David Lodge, notável romancista inglês e crítico literário (além de teorizador de literatura), que veio das áleas da academia, numa recensão crítica – “Rabbit Reviewer” – dedicada a uma colecção de artigos, na sua maioria recensões críticas, da autoria de John Updike, inventariava assim as qualidades essenciais do crítico sistemático (“reviewer”): “Os atributos essenciais para esta espécie de crítico, para além da inteligência e de uma educação liberal, são um olho desperto para a citação iluminadora e um estilo de prosa eloquente e fácil.” Fácil, claro, naquele portentoso sentido que lhe deu Eça, quando n’As Cidades e as Serras faz o Infante D. Miguel levantar Jacinto do chão, com “uma força fácil”. Fácil porque descomunalmente forte. Julgo que estes “atributos essenciais”, entre outros, fazem parte, indiscutivelmente, do equipamento profissional de Vamberto Freitas.

________

*Texto publicado como recensão ao borderCrossings II: leituras transatlânticas (2014). Foi escrito para a sua coluna PRO MEMORIA do JL (Lisboa), e publicado a 29 de Outubro de 2014.

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One thought on “Pro Memoria

  1. Isabel Mendes Ferreira Novembro 16, 2014 / 10:46 am

    A minha admiração .
    Incondicional.
    E Feliz de ser sua amiga.
    Leitora sempre.

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