Sexo e literatura, ou ilhas de prazer e solidão

CAPA SEXUALIDADE_fechada

Fico a aguardar, para de novo sentir o teu rio desaguar no meu mar, já que não há como saber quando secará a água translúcida das saudades nos meus olhos.

Fernanda Mendes, Sexualidade Redonda e Circular

 

Vamberto Freitas

Primeiro pedido ao eventual leitor deste singular Sexualidade Redonda e Circular: esqueçamos por agora que a Dra. Fernanda Mendes foi deputada e depois Secretária dos Assuntos Sociais de um dos governos regionais açorianos em anos recentes, um escritor ou escritora não pode ser olhado através de formalidades passageiras, esqueçamos a sua imagem circunspecta num pódio e impedida de dizer um doce palavrão ou de insinuar coisas maravilhosas do corpo e do seu prazer puro. Segundo pedido, não deixem que essa sua imagem de mulher pública e política vos faça esquecer que Fernanda Mendes é uma médica psiquiatra, cuja carreira inclui algum – tal como vem escrito na prefácio a este livro pelo Dr. Francisco Allen Gomes – certo pioneirismo em Portugal no que diz respeito a primeiras consultas de sexologia clínica sob a direcção do eminente psiquiatra aqui referido. Transfira-se o seu saber e o seu ouvir um pouco depois para estas ilhas, e temos duas constatações nada menos intrigantes – reconfirmamos que em nada das nossas intimidades somos diferentes dos outros em qualquer parte ou meio social ou de castas, e que afinal a função dos padres na escuridão do confessionário, na ausência de toda e qualquer ciência, sempre teve alguma legitimidade, para além de um mandato divino de absolver pecados e, não raro, de “aconselhar” os pecadores para que não repetissem os seus impulsos ou desejos proibidos. Dito isto, permitam-me agora ficar mais à vontade, e afirmar sem equívocos alguns que Fernanda Mendes revela-se aqui, em primeiro plano, como uma escritora que doravante cria expectativas nossas de mais livros, em qualquer forma ou género. Alguém escreveu um dia, a propósito de temas semelhantes aos que a nossa autora faz deslizar nestas páginas, que Sigmund Freud era o romancista e poeta, e Shakespeare o psiquiatra. Desde então a literatura nunca deixou de ser as duas coisas – “o coração humano”, nas palavras belas e devastadoras de William Faulkner, “em conflito consigo próprio”. Relembro ainda, como mero leitor de longa data, que a medicina e a grande literatura estiveram desde sempre interligadas por alguns dos nomes mais conhecidos na cultura ocidental. Quatro exemplos meus favoritos neste espaço limitado: em Portugal, Fernando Namora. Miguel Torga e, mais perto de nós, António Lobo Antunes, entre outros ou outras; nos Estados Unidos o poeta William Carlos Williams. Não falemos sequer da relação entre psicanálise e escritores. Nas décadas de 40 e 50 creio que para além de capitalistas a entrar e a sair de Wall Street, os outros seres mais visíveis seriam os famosos criadores e críticos literários nova-iorquinos (como Lionel Trilling, representativo das “classes cultas”, expressão que ele próprio cunhou) a falar de si e das suas descobertas de alcova, agora com um copo na mão e em busca constante de si próprios. Não há, pois, razões para surpresas ante a beleza desta prosa e poesia-outra de Fernanda Mendes.

A história de sexo e literatura é tão longa como a história do Ocidente, vai de Aristófanes (com Lisistrata, ou A Greve do Sexo) até à mais variada escrita dos nossos dias, inclusive na literatura açoriana, especialmente com os romances Até Hoje (Memórias de Cão), de Álamo Oliveira, no qual o homossexualismo é corajosamente transfigurado, e, noutro registo completamente oposto, algumas cenas inesquecíveis em Gente Feliz Com Lágrimas, de João de Melo. Sexualidade Redonda e Circular não é um relatório clínico, muito pelo contrário. Trata-se de uma sequência feita de contos ou textos saborosamente indefinidos – a literatura contemporânea é feita desta mistura de formas narrativas – seguidos de poemas afins, ora estruturados ora em prosa-poética, cada peça abordando de forma simultaneamente integrada e autónoma a temática em foco – uma celebração do corpo humano e o correspondente amor que o define e lhe dá razão de ser, de permanecer vivo, o veículo primordial da nossa felicidade e bem-estar, a fonte de toda a nossa generosidade e companheirismo ante os outros, próximos ou distantes. Não que o sexo, nestas mesmas páginas de Fernanda Mendes, seja a única forma de definir e determinar esse amor, ou desamor, que se poderá metamorfosear em naturezas várias conforme os nossos ensinamentos ou mandamentos culturais. Não poderemos nem deveremos ler este livro como sessão psiquiátrica de sexologia, e muito menos como dissertação científica sobre o homem ou a mulher e os seus instintos mais básicos. São histórias maravilhosas que suponho terem sido retiradas da experiência clínica da autora, agora transfiguradas em personagens e situações da imaginação, e que reflectem, como toda boa literatura reflecte, a nossa comum humanidade, a nossa busca partilhada de prazer dentro e fora da cama, a nossa busca pelo outro ou outra que nos retire da solidão, e por vezes desespero. Sexo aqui é o momento de quando dois seres humanos deixam de ser ou estar separados para se fundirem numa só pessoa, o êxtase absoluta que a autora recorrentemente metaforiza com o que será uma espécie de morte divina, os instantes em que nos esquecemos do mundo agressivo em volta, o tudo e o nada, seguida do regresso apaziguador, redentivo, em que a tranquila e desejada solitude (não solidão) se torna transcendente a dois “entre paredes”, como no título de um dos poemas aqui. Não são narrativas clínicas, uma vez mais, mas são narrativas sedutoras, como aliás toda e qualquer literatura o será. Sim, docemente sugestivas, também. A comoção poética das suas linguagens sugere claramente que por detrás da serena “senhora doutora” havia uma escritora irrequieta, uma criadora de imagens e metáforas capaz de afirmar que o chá verde acalma, enquanto o preto em certas noites poderá levar a sua bebedora ou bebedor a inquietações, ou a “sensações adentro”, como noutro poema, estragando a calma reparadora agora desejada. Aliás, quase todos os títulos desta prosa e escrita-outra despertam de imediato a imaginação do leitor.

Perante um primeiro livro virá sempre a pergunta de como decidimos se um texto vale a pena ser lido ou não, tomar o nosso tempo e a nossa atenção. Não há leitura satisfatória sem empatia pelo que lemos, pelos personagens e a sua originalidade, assim como a vida representada, retratada, por assim dizer, através deles. Como alguém também já anotou, ler os outros é lermos a nós próprios, o reconhecimento e reencontro com a nossa própria imagem nesse jogo de espelhos, um texto literário assim absorvido passa a fazer parte da nossa memória, desperta-nos para outros imaginários de lugares e vida. O outro, por outras palavras, sou eu, o nosso mais profundo ser tanto nos individualiza como se integra num todo, sem que isso negue a idiossincrasia de cada um de nós. Dizendo-o de outro modo e por outra metáfora: é ver a angústia do ilhéu em não ser esquecido, em não ser negado o seu sentido de pertença a um mundo maior, nem que seja só a ilha em frente, cujo avistamento lhe reconforta em não estar só. Sexualidade Redonda e Circular é feito de outras vozes que, nas suas angústias mais íntimas e nos seus triunfos mais secretos no amor e no prazer que é o encontro de corpos e almas, tornam-se a fala que gostaríamos de ser nossa nas mais variadas circunstâncias que estamos todos condenado a sofrer ou a desfrutar, são as falas dos nossos alter-egos em fuga à dor e ao medo. Diz Fernanda Mendes no poema de encerramento destas narrativas, “Sou Mulher”: Seria uma admirável subversão:/eu amaria com o teu corpo,/e tu com o meu!/Estares em mim, sendo eu,/e eu em ti, sendo tu,/como a terra e o chão,/tudo fluiria sem segredos nem enganos/ou qualquer dissimulação.

Resta dizer que Sexualidade Redonda e Circular, na sua mais fina retórica artística, movimenta-se nos mundos que têm sido, desde o Brasil (um dos poemas aqui em vernáculo na nossa língua desse país é uma elocução maravilhosa) e Coimbra a Ponta Delgada e outros sítios açorianos, as geografias da narradora. Tanto melhor, essa aproximação mais íntima do nosso eu através da literatura, que nunca é acusatório mas sim uma celebração da vida e da morte, quando esta é uma subida ao Paraíso, mas com bilhete de ida e volta. Que uma destas narrativas se intitula “A Divindade e o Forasteiro nas Festas do Divino” só nos desperta a memória de como no nosso passado o namoro e a felicidade, a vaidade e a generosidade andaram sempre de mãos dadas entre nós. O império também poderá ser, como no filme do outro, o dos sentidos.

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Fernanda Mendes, Sexualidade Redonda e Circular, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2014.

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