Partidas anunciadas e regressos e inesperados

Capa O Outro Lado poesiaNão tive, nem tenho, nem quero ter, qualquer preocupação formal e estética, quero apenas que as minhas palavras andem por aí, nas bocas do Mundo.

Aníbal C. Pires, O Outro Lado

Vamberto Freitas

Pois. Mas nem sempre é preciso se ter preocupações com certos artifícios das palavras, elas próprias, por vezes, encarregam-se de se encaixar e dar forma aos seus dizeres. Livres ou estruturadas – como numa peça de jazz que nunca passa a uma pauta para deleite de quem aprecia esses improvisos da criatividade puramente emotiva – é quase como na gramática de Noam Chomsky, estão já em nós, chegam-nos numa aprendizagem de todo normalizada e quase instintiva. Que eu saiba, nem na gramática nem no baile das palavras que é a nossa comunicação instantânea estarão sempre as regras presentes. Quando estão presentes, nalguns versos, não raras vezes resultam na forma sem conteúdo, na arte sem alma, no som sem significado. Se arte é sobretudo equilíbrio entre forma e conteúdo, entre ritmo e mensagem, entre perspectiva e contexto, ainda hoje não se encontrou um meio de tudo isso “ensinar” – o escritor, em qualquer das suas fases de desenvolvimento, escreve e alguém poderá apenas opinar sobre o que melhor, no seu caso particular, funciona ou não. O resto é a subjectividade, bem ou mal formada e informada, de cada receptor de prosa ou poesia. A “ciência” da escrita não existe, muito menos a da interpretação, para desgosto dos que se pensam especialmente autorizados para catalogar, digamo-lo assim, tudo e todos que se atrevem a publicar um livro. Por isso, quase sempre esperam pela morte dos autores para depois emitir sentenças, e “legitimar” os seus textos preferidos, atirando para o (seu) esquecimento todos os outros. A literatura é criada para ser lida pelos seus contemporâneos, para o prazer de cada um no seu isolamento, feliz ou infeliz. Os olhares restrospectivos são exercícios meramente intelectuais em busca, parafraseando Marcel Proust, dos tempos perdidos, e vividos só pelos outros, a comparação ou o contraste com a experiência de cada um desses leitores mais atentos.

Tudo isto para dizer ao autor destes poemas-retratos que se sinta à vontade entre os poetas e escritores. O Outro Lado: palavras livres como o pensamento contém belíssimos poemas-textos, por assim dizer e como o próprio autor define esta sua escrita, que nos desvendam tanto os seus “estados de alma”, expressão que ele também diz ser o sumo principal desta sua escrita, como as ilhas e outros territórios do seu coração em movimento. Olhar uma ilha açoriana em qualquer dia do ano é correr o risco de ver o universo na sua mutação radical de cores, humores e formas, as ondas batem forte depois beijam as fajãs, a rocha que poderá rachar a qualquer segundo vulcânico, ou a incerteza de se poder ir de um lado para o outro quando todos os nossos movimentos estão condicionados pelas nuvens em cima ou pela terra em baixo. Alguns brasileiros dizem que o Brasil, dada a natureza da sua sociedade, é só para profissionais, e eu diria, com muitos dos nossos poetas, que os Açores são só para os mais afoitos, para os que vêem cada minuto como o melhor tempo de toda uma eternidade. Tudo isto para os que sabem que a liberdade nunca está cercada, nem sequer pela geografia. Os melhores momentos desta poesia, para mim, são os instantes dos olhares ao que está na frente do poeta, e o pensamento que lhe desperta, ou, uma vez mais, o “estado de alma” que toma conta de si. As ilhas açorianas têm sido sempre alvo da poetização de quem nos visita, e depois descrevem-nas como se outros nunca o tivessem feito antes. É certo que foi Raul Brandão, na era já moderna dos anos 20, quem escreveria estas ilhas como mais ninguém, provocando noutros, com Nemésio pouco depois em primeiro plano, o melvelliano choque de reconhecimento, o dramatismo poético e profundamente humano de Brandão percebeu, no que para ele era o mais estranho e longínquo recanto do seu país, a alma comum a todos os homens e mulheres, como que num interminável cordão de mãos dadas, o mar pelo meio nada e ninguém separando. O ilhéu, como diria o poeta e ensaísta caribenho Édouard Glissant (Tout Monde, é um título de um dos seus livros), teorizador da significante poética da relação, será o mais universal de todos seres humanos pela necessidade de ultrapassar a pouca terra sob os seus pés, pela necessidade atávica de absorver o restante mundo trazido pelos que atravessam o seu meio, ou são por ele imaginados, pela necessidade de desterritorializar os nossos imaginários. A solidão, aqui, terá pouco a ver com o território – terá, isso sim, a ver com o impulso, porventura já genético, da essencialidade da pertença a um todo maior do que nós. Aníbal C. Pires goza desse estatuto invejável, que é ser ilhéu continental, não só em teoria como muitos supostos cosmopolitas entre nós, mas no seu passado e vivência, com esporádicos regressos ao que ele chama de raízes, no outro lado do mar, e apesar das suas estarem desde há muito profundamente mergulhadas na terra açoriana. Aliás, O Outro Lado contém poemas que referenciam outros lugares e instantes para além deste seu destino ilhéu, levam-nos para outras terras através dos olhares ante o que já se convencionou chamar em literatura o Outro. Na tradição simbolista que nos legou Roberto de Mesquita, a paisagem em sua frente e o tempo sofrido são as metáforas e as imagens do que sente e anseia num determinado momento vivido e sentido, as metáforas e imagens do enclausuramento interior que convive lado a lado com o sentimento de se ser e estar livre no mundo. No poema “Notas de viagem”, dá-se o regresso de uma casa para a outra, do continente para a ilha, quando o contrário, creio, provocaria a mesma sinfonia de palavras, seria o mesmo “estado de alma”, para uma vez mais deixar o próprio poeta definir a sua escrita: Sigo o Sol/no bojo dum metálico milhafre azul/Vou para Ocidente/Para trás, a cidade, o rio e as ninfas refugiam-se na luz do crepúsculo/Sulco os céus do Atlântico/ Carrego a saudade/E amores apartados/Amores divididos entre partidas e chegadas.

Certamente que esta poesia de O Outro Lado não se fica pela geografia ou pelo espanto da sua imprevisibilidade nos Açores, se bem que não conheço poeta nenhum que não sinta a necessidade de tentar situar-se por entre os seus mistérios de cores e formas. Nem o ocasional poeta visitante e geralmente profissional do existencialismo inventado noutros meios e circunstâncias resiste à apropriação das palavras e versos dos que cá estão e melhor do que ninguém sabem contar-se, e contar-nos, ao restante mundo. O que ignoram é que o ilhéu não é só feito do seu território, mais uma vez parafraseando outro autor, existe igualmente num mundo de ideias e vontades sociais e culturais, não aceita que o destino lhe molde o seu ser ou lhe negue o seu direito à liberdade em sociedade e em comunhão com o restante mundo que historicamente lhe é significante. É essa a outra nossa tradição poética, que a partir de meados do século passado nos deu uma literatura rebelde, interventiva, em que a sociedade é desconstruída na sua pior face de opressão e maldade, a desconstrução artística que numa novela de João de Melo leva o título ambíguo mas feroz de – A Divina Miséria. Um poeta nunca tem um programa para resolver os males do mundo, seus ou dos outros, um poeta raramente grita (exceptuando o Allen Ginsberg, no seu famoso e desesperado Howl), um poeta reduz-se não a lamentos mas a “leituras” do que vai à sua volta ou lhe contradiz a noção de equilíbrio, ou do que poderia vir a ser a felicidade dos outros, a felicidade dos que poderão estar tanto no centro da sua sociedade como nas suas margens. Aníbal C. Pires inclui neste seu livro uma epígrafe de João Miguel, que só depois vim a saber que era seu filho: “(…) É na escrita que encontramos espaço e tempo de reflexão, de descontração, onde podemos criar sem ruído”. Não tenho nada de melhor para resumir este livro.

A poesia – ou os “textos” de que nos fala o autor – de O Outro Lado está organizada cronologicamente por anos, indo de 2008 a 2013. Resulta como que num diário tranquilo dos seus dias, dos seus afazeres, e dos seus movimentos exteriores e/ou íntimos. Aventurei aqui, afinal, um outro resumo desta poesia bela e serena: partidas anunciadas e regressos inesperados, uma vida vivida entre um cá e um lá, entre o eu e os outros.

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Aníbal C. Pires, O Outro Lado: palavras livres como o pensamento, Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2014. O autor também publicou em 2009 a sua tese de mestrado intitulada Imigrantes nos Açores: Representações dos Imigrantes Face às Políticas e Práticas de Acolhimento e Integração, Ponta Delgada, Edições Macaronésia.

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