Estranho em terra estranha, ou a América como ideia

CAPA NEW AMERICAN LIFELula era como os seus antepassados, amarrando tudo quanto tinham nas costas de um burro e migrando para pastagens mais elevadas.

Francine Prose, My New American Life

Vamberto Freitas

Poderá parecer deslocada a linguagem ou a observação contida na epígrafe deste texto, especialmente tratando-se de uma romance norte-americano de temática imigrante publicado em 2011. Estamos na segunda década do século XXI, e muitas fantasias dos anos imediatamente anteriores foram fulminantemente desfeitas nos dias que correm. Primeiro, que a queda do Muro de Berlim havia libertado todo o Ocidente, e agora era só trazer para a prosperidade dos “mercados livres” os povos cuja história tinha sido “interrompida” pelo totalitarismo, tanto à esquerda como à direita. Segundo, que as grandes migrações estavam já reduzidas aos pobres do chamado terceiro mundo, esses que nos batem à porta vindos das mais longínquas e próximas geografias, diariamente pedindo entrada no paraíso em que ainda julgamos viver adentro da esfera histórica e geo-cultural que também dá pelo nome de “Europa”. No entanto, apesar de certos abalos recentes, internos e externos, a América continua a ser a América, isto é, um “imaginário” mais do que uma “realidade”, um imaginário tão poderoso e universalizado que nunca deixou de representar para o resto do mundo a última esperança de sobrevivência económica e de dignidade cívico-política. Bem sabemos que não é a Cidade na Montanha, que certa teologia nativa sempre tentou tentou fazer crer, mas que muita da sua luz continua a brilhar como nenhuma outra à face da terra, também creio ser inegável. O ilusionismo das novas forças do poder mundial não pode esconder tudo. A História não chegou ao fim – repete-se, ou está ainda num ciclo sem fechamento por enquanto à vista. Que as artes se viraram para esta nova era de, paradoxalmente, renovação e continuidade sócio-política, não deve surpreender-nos. Foi sempre assim – as representações da humanidade, lúdicas ou dramáticas, nunca ficaram alheias aos dias e às circunstâncias globais que as rodeiam e enformam. A literatura, no entanto, continua a ser ainda o mais claro espelho da nossa condição em sociedades que não reinventamos nunca, mas, sim, somos por elas continuamente reinventados. É por isso, supõe-se, que cedo alguns sociólogos e historiadores já falavam na impossibilidade, ou mesmo no fim, da “ideologia” naquele grande espaço a oeste, predizendo a famosa frase de Francis Fukuyama. Como diria mais acertadamente Theodore H. White, o jornalista americano que acompanhava de perto a dinâmica do seu pais em tempos de escolhas políticas: a América não é meramente um espaço geográfico, é uma ideia, persistente, mobilizadora, quase mítica, e à volta da qual os deserdados do mundo sempre encontraram a sua única saída, a ideia toda poderosa e grafada a fundo intocável na constituição nacional que alicerça uma nação radicalmente inventada.

My New American Life, de Francine Prose, romancista e ensaísta premiada e pertencente a algumas das mais prestigiadas instituições de artes e letras no seu país, vem na sequência de uma obra ficcional substancial que tem a América contemporânea como fundo e temática, é agora de certo modo uma partida para outros aspectos da história europeia, de uma “outra” Europa, e da sua própria sociedade. O romance segue os primeiros anos da vida de uma mulher jovem albanesa, de nome Lula, que consegue entrar nos Estados Unidos na época já pós-comunista, ex-aluna universitária em Tirana, vinte e seis anos de idade e sofisticada nas suas visões e novas vivências. Depois de passar por Nova Iorque na companhia da sua conterrânea Dunia, amiga mais ou menos da mesma idade e a fazer pela vida utilizando tudo o que tem (o seu lindo corpo, principalmente), Lula encontra por acaso um emprego na casa de um ex-professor universitário, mas agora um alto funcionário numa empresa financeira da Wall Street, a quem ela chama de Mr. Stanley, residente numa cidade de Nova Jersey, no outro lado do rio. A única responsabilidade da albanesa é simplesmente fazer companhia ao filho, cozinhar e sobre ele manter os olhos abertos, Zeke que está no seu último ano da escola secundária, cheio de tédio e sem qualquer entusiasmo a caminho dos estudos superiores. O pai está destroçado pelo abandono da esposa na noite do Natal passado, doente mental e cansada da vida suburbana, que lhe deixa preocupações de toda a ordem, e, apesar de tudo, saudade. Numa interpretação simbólica, é como se a velha e decadente Europa continuasse a fornecer os seus pobres ou descontentes para preencherem o vazio e permitir a prosperidade dessa irrequieta América. Pela mão e influência do seu novo patrão, Lula está a legalizar a sua permanência no país meio paranoico no pós-11 de Setembro de 2001. O que vemos neste e deste quotidiano, através dos olhos atentos e das palavras ora críticas ora carinhosas e cheias de esperança de Lula, é uma América a vacilar tanto nos seus valores tradicionais como a reajustar-se inevitavelmente a um novo mundo globalizado, de chegadas e partidas que, não fazendo estremecer os seus fortes alicerces, forçam-na a rever todas as suas certezas, todos os seus valores, toda a sua visão ante o alargamento e acomodação do seu mosaico humano – não haverá mudanças radicais, pois a sua promessa, o seu sonho, continua a ser a esperança dos novos apátridas em busca de pão e felicidade, por vezes a qualquer custo. Pelo meio, o narrador/a vai relembrando o que Lula e outros personagens albaneses deixaram para trás, um país destroçado e governado pelas máfias e acólitos políticos, sem nunca deixar de referir o que na América é mais mito do que, repita-se a palavra de todo ambígua, “realidade”. Poderá ser um modo de relativizar a bondade do grande país, mas o que fica subentendido é que essa não deixa de ser a geografia da última salvação para estes seres que, na nossa modernidade, continuam, tal como outros aqui referidos chegados de outros continentes, em fuga a uma Europa desigual, pobre e/ou violenta nalgumas das suas periferias. Os queixumes de Stanley e a nascente alienação do seu filho Zeke passam à zona do anedótico, a sua infelicidade nada mais do que o desespero de expectativas exageradas de uma vida ainda melhor da que têm. “Isto aqui não é como no Comunismo. O consumo é melhor, e o sexo pior”, num dos dizeres mais citados deste romance, vindos da língua afiada de Dunia, que encontrou num médico ricaço em Nova Iorque o luxo temporário e a residência legalizada e permanente.

“Por toda a América, – diz o narrador da única noite de Natal que a protagonista passa em casa do patrão em New Jersey – as crianças estão hipertensas com alegria, agarradas aos colchões das suas camas para não correrem para o rés do chão das suas casas e rasgar os embrulhos dos seus presentes. Lula sabia que isto era uma versão da vida de uma América feita ao estilo de uma série televisiva, e na verdade sabia que metade da população estava doente e só ou sem tecto, consciente de uma festa que só desejava que terminasse, preferivelmente depois uma oferecida ceia de peru num aquecido e enjoativo abrigo dos pobres”.

Esqueçamos o fim meio feliz, meio racional, meio acidental de My New American Life. A “felicidade” nunca vem sem preço, é sempre incerta e vulnerável na sociedade americana pós-modernista. A ironia aqui é deliberada — a América pós quê? Na sua aparência de sociedade vanguardista, em tudo, o essencial permanece – o que o filósofo oitocentista Henry David Thoreau disse ser o seu “desespero tranquilo”, a solidão no paraíso, o ser humano virado actor numa peça também muito própria, mas cuja ficção, bem urdida ideologicamente, continua a mover e a comover boa parte do restante mundo: a possibilidade sempre presente de se “caminhar da pobreza à riqueza”. A trama deste romance tem a ver com mais três imigrantes albaneses envolvidos em actividades nunca explicitadas, mas que deduzimos ser o pequeno crime de furto aqui e ali. Um deles, o chefe da suposta quadrilha, acaba expulso do país, pois o Estado não quer mais despesa prisional com um “estranho”. Nada de novo, os fulgurantes anos 20 já eram assim, e em escalões muito mais temíveis. Eram então acusados na sua expulsão de suspeitas ou simpatias “comunistas”. Hoje, como nesta ficção de Francine Prose, a deportação deve-se ainda ao medo do novo “terrorismo” internacional. Tudo mudou, como se diz, para ficar na mesma.

A identidade e luta quotidiana de cada um destes personagens, a dos imigrantes e dos lá nascidos, é uma das sub-correntes temáticas desta viva e elegante narrativa. É sobretudo isso, diria, que mais interessa neste romance. É sobretudo aí onde reside parte da beleza da literatura americana contemporânea.

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Francine Prose, My New American Life, New York, NY, HarperCollins Publishers, 2011. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

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