Philip Roth à solta, finalmente

Capa Roth UnboundCom a conclusão de ‘Nemesis’ [romance, 2010], sentiu-se ele próprio, pela primeira vez em meio século, livre das correntes. Ficou absolutamente surpreendido com o sentir-se livre.

Claudia Roth Pierpont, Roth Unbound: A Writer And His Books

                                                                         /Vamberto Freitas

Comecemos pela entrevista que Philip Roth concedeu à famosa revista literária norte-americana, The Paris Review, em 1984, essa que, mais do que toda a academia junta no país, mais do qualquer publicação do género, sinaliza a permanência canónica de qualquer escritor. “Os melhores leitores chegam à ficção – afirma o autor – para se sentirem livres de todo o ruído, para libertar a sua própria consciência, que de outro modo está condicionada e aprisionada por tudo o resto que não é ficção”. Não são as palavras, estas, de um escritor que sente a necessidade de justificar a sua arte, e ainda menos toda uma vida dedicada à literatura (disse uma vez que era “um monge da escrita”) como busca perpétua do que significa estarmos vivos, do que significa a nossa existência em comunidade, o nosso lugar como cidadãos de um país e como indivíduos que poderão ou não, pela sua vontade ou contra, ser também identificados com um determinado grupo étnico, religioso, histórico pelas mais variadas razões ligadas ao seu percurso através dos tempos. Nas grandes sociedades metropolitanas poucos fogem a este estatuto de catalogado, quer se quedem nas margens da sociedade, quer estejam no seu centro. Por mais que falemos num suposto “universalismo”, só os pequenos países com uma população mais ou menos homogénea em termos raciais, culturais e linguísticos se poderiam livrar desta sina – ou desta riqueza humana, raramente assim considerada ou pacificamente aceite. Felizmente, pelo menos no Ocidente, as nossas sociedades são, todas elas, multi-étnicas e multiculturais. Philip Roth não é só um grande e controverso escritor de projecção mundial – é já um símbolo da genialidade artística que, ao tentar esbater as inventadas “diferenças” entre os povos, quer convivam num determinado espaço geo-cultural alargado quer estejam encerrados em fronteiras demarcadas, acabou por simultaneamente reafirmar, num contínuo acto de festa e brilhante “transgressão” literária, a dignidade do todo e do particular, a liberdade de cada um no combate a qualquer repressão imposta por políticas, ideologias, ou por nojo moralista. Eis a tragicomédia na luta ou em busca pessoal e determinada do seu lugar e do seu direito a esse espaço que cada um tem o dever, deveria ter, de demarcar para si sem restringir o dos outros. A beatice retórica, no entanto, poderá estar em tudo menos na vastíssima obra de Philip Roth, que ele disse ter terminado com o romance referido na epígrafe deste texto.

Roth Unbound é a primeira grande biografia crítica do escritor. Toda a gente que escreve sobre este livro acha necessário dizer que a sua autora, Claudia Roth Pierpont não é familiar do autor, apesar do seu nome, é, sim, uma doutorada em arte da Renascença Italiana, colaboradora da The New Yorker, e autora de um outro livro de ensaios, Passionate Minds: Women Rewriting the World. São pormenores, aqui, muito significativos. Que é uma mulher a escrever este livro sobre Philip Roth, é a outra grande ironia. Roth teve de se defender, desde a primeira à última linha que escreveu, das feministas, e não só, que sempre o acusaram de maltratar a mulher na sua obra, de transmitir a ideia que para ele, para os seus narradores, elas serviam tão-só como objectos sexuais, ou pouco mais do que isso. Eventualmente, nessas mesmas páginas, tornam-se suas inimigas, com divórcios e a mão metida na sua conta bancária. Ler qualquer um dos romances de Roth é um mergulho perturbador numa espécie de 5º Sinfonia da escrita: é estrondoso, é estimulante (sim, a polissemia da palavra vai aí), é rebentar num baque inicial de sentimentos e desejos, é, por fim, a calmaria e o sorriso de quem sabe que, finalmente, o nosso próprio sentido de humanidade incompleta ou magoada foi aqui retratado, resgatado, justificado. Entre a beleza e genialidade sintática de cada frase, entre esse furor de judeu-americano negando que é ou deve ser considerado um ser à parte ou diferente seja de quem for, entre o ajuste de contas sem fim tanto com quem lhe massacra os dias como com a sociedade de filisteus que o/nos cercam, vem a ideia esclarecedora: esta é a minha vida, este é e foi o meu destino, este é o meu país e a minha cultura ancestral, e serei eu e mais ninguém a decidir em que escala serei pesado e, sobretudo, em que espelhos desejo ver ou rever a minha imagem. O sistema literário americano não estava habituado a tanta audácia e habilidade artística fora do grupo anglo-saxónico dominante naquela sociedade. A primeira geração de judeus americanos, quase todos de Nova Iorque e arredores, começaram a alagar e a ocupar destacadamente, ante a resistência dos outros, o mosaico literário nos anos 30 até hoje, e Philip Roth passa a fazer parte do grupo – dominado já na altura por escritores como Saul Bellow e Bernard Malamud, assim como pelos que passaram a ser denominados por New York Intellectuals – a partir da publicação dos seus primeiros livros Goodbye Columbus e Letting Go. Em 1969 aparece com Portnoy’s Complaint/O Complexo de Portnoy, cujo impacto imediato só poderá ser descrito através de certas metáforas, suponho, bélicas. Num flashback durante as suas sessões de psicanálise freudiana, Portnoy é já um adulto mas transporta-nos nos seus delírios de insatisfação sexual e profissional até ao bairro judeu e humilde da sua adolescência, na cidade de Newark, em New Jersey. A sua fúria interior e respectivas linguagens quase não tinham limites: auto-erotismo e fantasias de cama com moças à sua volta, gritos contra o enclausuramento de gueto voluntário e auto-satisfeito do seu grupo em bairros cuja primeira geração americana oriunda da Europa de leste continua presa às memórias da perseguição mortífera, agora atentos ao que se passava no teatro de guerra europeu na conflagração que levaria ao Holocausto.

Portnoy quer ser livre de e para. O armário onde arrumavam a sua etnia e religiosidade tinha de ser desmanchado, para que pudesse assumir a sua condição de ser humano sem mais classificações. Naturalmente, atira a sua retórica hiper-rebelde em primeiro lugar contra os seus. É entre eles que domina a ideia de que, num mundo cuja história era o que era, tinham de se proteger de todos os outros. Portnoy não aceita essas premissas, nem aceita as atitudes ou acções discriminatórias da restante sociedade. A vontade sexual e as suas fantasias são extremas e excêntricas – fazem parte instintiva da sua declaração de independência e afirmação do seu ser. “O Complexo de Portnoy – escreve a sua biógrafa – foi um sinal de actos subversivos numa era subversiva”. Algumas associações e individualidades de peso na comunidade judaico-americana ficaram tão furiosas com a visão e as diatribes do seu protagonista, que se questionavam se o autor deveria ser “silenciado”. É claro que isso não poderia nunca acontecer, e a maioria dos críticos louvaram este corte radical com certas tradições e pudores literários na literatura séria e significante. Eu próprio, dois ou três anos depois da sua publicação, tive de ler e analisar este romance em close readings num seminário sobre literatura contemporânea numa faculdade californiana.

Roth Unbound está estruturado segundo a publicação cronológica de cada romance ou novela, e as circunstâncias pessoais do autor assim como o momento histórico da sociedade. O título desta biografia é tirado do romance Zuckerman Unbound. A obra de Roth é hoje vastíssima, mas está toda ela interligada pelos seus protagonistas e alter-egos, com nomes diferentes, mas entre os quais predomina o de Nathan Zuckerman, transfigurado durante várias idades, etapas de vida e de escritor, estado civil e contínuas obsessões com o seu percurso intelectual e literário, de amante casado ou errante. História, política, literatura, Nova Iorque, Tel Aviv, Praga – a sua pátria é também imaginária, mas em todos os seus livros a “consequência do lugar” não o larga nunca, memoriando sempre o seu começo em casa dos pais em Newark a partir dos anos 30, e particularmente durante os anos da II Guerra Mundial. Todas as memórias do judaísmo na Europa, todos os medos colectivos, são convocadas para que a América seja vista como o mais, apesar de tudo, racional e pacífico refúgio de sempre para todo um povo. É isso mesmo que reafirma a obra de Philip Roth – a noção de total pertença, e o direito de cada um ao rumo escolhido, à dor e à felicidade por ele sofridas ou vividas.

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Claudia Roth Pierpont Strauss, Roth Unbound: A Writer And His Books, New York, NY, Farrar, Straus and Giroux, 2013. As traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

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Minima Azorica, ou a fala de açorianos no meio do mar

Capa Minima AzoricaMorreu, isso sim, o monolitismo das correntes ideológicas e literárias e os seus suportes críticos, que estabeleciam hegemonias estéticas… Desse ponto de vista a fragmentação contemporânea redunda em desanuviamento benéfico, saudável mesmo.

                                                                                                              Onésimo Teotónio Almeida, Minima Azorica

Vamberto Freitas

Minima Azorica: O meu mundo é deste reino, o novo livro de ensaios de Onésimo Teotónio Almeida, é exactamente essa nota melódica e suave como que num trilho musical que agora nos acompanha numa caminhada mais ou menos serena, entre terra e mar, entre passado e presente, entre formas de dizer ideias, e de ideias que dizem do nosso lugar no mundo, em Portugal ou a partir de Portugal. Não tem sido nada fácil a nossa afirmação histórica e cultural como parte fundamental e indesligável da restante nação. Diria um dia Miguel Torga, apesar de ter confundido a nossa largueza de vistas marítimas a oeste com seu encerramento serrano a norte, que não reconheceria ou concebia Portugal sem os Açores. Se Portugal teve única e exclusivamente uma missão marítima e globalizante após a consolidação do território das suas origens, as ilhas atlânticas foram a primeira concretização de todo o projecto de Quatrocentos, com a mudança experimental e depois permanente de gente e civilização, a meio de rotas e marés que de outro modo teriam sido muito mais perigosas e comprometedoras. Cá estamos quinhentos anos depois continuamente a tentar explicar ou, muito mais enfurecedor ainda, a justificar a nossa existência no mosaico territorial e humano no pequeno país. Levou muitos séculos para nomearmos o que que nos aconteceu e nos moldou como povo – açorianidade, que nada mais é do que a portugalidade redonda e reencontrada no fecho ou na abertura dos seus pontos diversos, a nossa representação artística nesse mesmo palco agregador oferecendo, a quem quiser ver, ouvir ou ler, outra imagem de como uma limitada cultura e língua nos seus primórdios se tornaria verdadeiramente mundial e consequente entre todos os outros. Só uma mente diminuída confunde tamanho com inteligência, cidade com criatividade, metrópole com beleza. Num encontro literário de projeção nacional, Onésimo Teotónio Almeida a dado momento dirige-se a dois escritores caboverdianos aí presentes, aludindo ao seu recente reconhecimento e valorização em Lisboa, ao contrário da escandalosa arrogância (esta frase é minha) que os açorianos, e madeirenses, têm de sofrer constantemente quando se trata dos nossos livros ou da nossa arte em geral

“Vi-me na necessidade – escreve o autor, após um interveniente nas Correntes d’Escrita da Póvoa de Varzim dizer a Germano de Almeida e Corsino Fortes que era pena o seu país não se ter mantido como região autónoma de Portugal – de lembrar que na história há cortes inevitáveis e, voltando-me para os amigos e escritores caboverdianos, acrescentei: ‘Mantenham-se como estão, que estão bem. Assim têm o reconhecimento de Portugal, que até vos convida regularmente para estes acontecimentos culturais. Fizessem vocês ainda parte do território nacional e não apareceriam aqui porque em Portugal o território não se quer dividido, a regionalização é perigosa e, além do mais, apregoa-se que quem é bom aparece em Lisboa. Mesmo na literatura’”.

Minima Azorica funciona, para mim, como um segundo volume de Açores, Açorianos, Açorianidade, publicado originalmente em 1989, e a segunda edição, com um alargado prefácio que actualiza nomes, títulos e questões, em 2011. O autor restringe-se aqui a um distinto grupo de escritores das nossas ilhas, uns falecidos há tempos longínquos, outros já nos nossos dias, e que para além da sua escrita deixaram-nos quase sempre um rasto luzidio de amizade, afecto e companheirismo no sempre áspero mundo das letras. De Antero de Quental ao seu mais distinto biógrafo José Bruno Carreiro, de Vitorino Nemésio a Arruda Furtado e José Enes, de Dias de Melo, Daniel de Sá e Pedro da Silveira a José Martins Garcia, o autor vê e revê não só as obras em questão como acima de tudo os contextos que, de um modo ou outro, influíram na vida e obra de cada um destes escritores e poetas, apontado ainda, uma vez mais, o que lhes coloca num quadro nacional ou internacional da literatura e pensamento histórico-filosófico, dando larga reflexão à questão da geografia e origens que lhes haviam de formar a personalidade e cosmovisão, relembra-nos as mundividências que inevitavelmente seriam texto ou subtexto nos legados literários que deixaram à sua região e ao seu país, ao universo das letras em geral. Onésimo Teotónio Almeida precede toda a sua revisitação a estes nomes, obras e circunstâncias geo-biográficas, por assim dizer, com outros ensaios em que aprofunda alguns textos anteriores sobre a açorianidade e o acto de criação neste arquipélago, lançando ou re-constextualizando novos dados e exemplos pertinentes na clarificação das suas afirmações em tudo que diz respeito à literatura e cultura açorianas. Permitam-me anotar aqui o que mais me impressiona na narrativa crítica que efectivamente são estes textos, todos eles lidos em vários congressos e encontros literários, e depois publicados em periódicos especializados – o tom sereno da sua linguagem como quem já nada tem a justificar perante seja quem for quanto à legitimidade histórica e estética da nossa escrita, mas sem deixar, como já vimos na citação anterior, de cravar as farpas imaginárias nas mentes nada menos fantasiosas no seu falso saber ou pretensiosidade intelectual. O leitor conhecedor da obra do autor não se vai surpreender com qualquer reparo que ele faça aqui aos de casa e aos de fora, simplesmente dirá, concordará, que os suspeitos das habituais exiguidades ou vazios intelectuais terão sempre a sua resposta, pois nada menos do que as várias identidades arquipelágicas, a sua dignidade de povo autónomo, a verdade do seu passado, estão em causa. Os poucos ou muitos que nos leram e lêem no além-fronteiras sabem quem somos, e das raízes de onde partimos para o mundo. São os de casa, os da nossa rua mesmo, que ainda não descobriram a história que subjaz o seu próprio ser, e acima de tudo os que no resto do país nunca abriram um único livro que limpe de uma vez por todas a sua tábua rasa e respectivo complexo provinciano num mundo que imaginam ser de gigantes de toda a espécie, particularmente no além-Pirenéus. Que os Açores – e a Madeira — fazem parte de uma vasta e rica geografia de gente espelhada num complexo cenário artístico pluri-continental e arquipelágico, que vai muito além das suas origens ibéricas, pouco ou nada lhes diz. As linguagens de Minima Azorica são esse equilíbrio de quem já não se preocupa em convencer, uma vez mais, seja quem for, pois, como dizia José Saramago, isso até poderá ser um outro tipo de colonização mental do outro, mas nunca esquece que a nossa afirmação no mundo passa também por negar a mentira e a insolência desse mesmo outro.

De Nemésio e dos seus pares ilhéus já muito se disse, mas o autor de Minima Azorica encontra sempre um novo ângulo ou perspectiva pela qual poderemos rever a grande obra do terceirense, assim como a dos outros escritores e poetas aqui presentes. Algumas das páginas mais significantes deste livro terão a ver com um nome cuja obra literária e filosófica são de um grande alcance simultaneamente açoriano e, logo, como quase sempre, nacional. Trata-se aqui de José Enes, cuja biografia é longa e importante demais para este espaço de linhas contadas. Bastará dizer que ele foi um dos primeiros, a seguir a Nemésio, na descoberta da grandeza e profundidade da poesia de Roberto de Mesquita, que a sua própria poética, Água do Céu e do Mar, é uma maravilhosa escavação da sua e nossa açorianidade, que a sua tese de doutoramento defendida em Roma, À Porta do Ser, nas vozes mais qualificadas do nosso país, é um contributo quase sem igual ao pensamento filosófico em língua portuguesa, para nem sequer mencionarmos o seu papel no Seminário de Angra como mentor de toda uma geração a que pertence Onésimo Teotónio Almeida, e dinamizador dalgumas das melhores folhas literárias e culturais publicadas em suplementos nos jornais locais durante os nossos anos de chumbo e descrença, em que as Semanas de Estudo dos Açores ficarão para sempre como um ponto de viragem na nossa memória colectiva. A sua marginalização no debate cultural portas adentro, e muito mais ainda lá fora, é um desses fenómenos sem explicação razoável, uma ironia da sua sorte.

Termino com as palavras de um amigo comum sobre este novo livro de Onésimo Teotónio Almeida, o reconhecido guitarrista clássico Victor Castro que, como bom açoriano, pegou e andou há tempos para o Maranhão, no Brasil. “Espero – escreveu-me ele numa entrada sobre Minima Azorica, numa rede social – que esgote em dois tempos, que é também o valor de uma mínima, se o compasso for 4/4, por exemplo”. Não sei bem o que significa isto numa pauta, mas suspeito que é muito bem dito em relação à questão aqui em foco.

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Onésimo Teotónio Almeida, Minima Azorica: o meu mundo é deste reino, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2014.

As consequências do lugar na literatura e escrita-outra

AÇORESParece óbvio que o lugar onde vivemos determina como e o que escrevemos.

Mohsin Hamid, The New York Times Book Review

 

Vamberto Freitas

Não, nada disto é óbvio, pelo menos nos mundos que são os meus. Os pequenos “lugares” têm características “culturais” muito próprias – a aparente vontade de querermos ser daqui e de toda a parte. Só que não somos, para além da retórica vaga e vazia acerca de um suposto “cidadão do mundo”. O que somos, creio, estará na igualdade de “alma”, certas crenças, o coração humano batendo a universalidade possível. Mesmo assim, poderei também dizer que ante certas culturas e civilizações me quero longe, e bem longe. É preciso respeitá-las? É, supõe-se, mas reservando o direito de nem querer pertencer, nem aderir, muito menos vivê-las. Estas são também algumas das velhas questões nas artes. A questão relacionada com o tema específico aqui em foco é outra – até que ponto um escritor se pode alhear do seu meio quando escreve em qualquer uma das formas criativas? Será que esse seu meio, quer ele esteja consciente ou não desse facto, insinua-se na sua cosmovisão, determina, até certo ponto, o modo como se “retrata” a si próprio e aos outros, refugiando-se no que se chamam o “narrador” e os seus “personagens”? Acham que quem não vive e nunca viveu em Nova Iorque poderá escrever um romance profundamente enraizado no seu ethos e pathos? Se tentar fazê-lo, não será preciso mais do que um parágrafo para se topar a falsidade das suas palavras e perspectivas, por mais alicerçadas que estejam em conhecimentos livrescos, ou adquiridos por outros meios de comunicação. Na maior parte dos romances e outra ficção que deslocam os seus personagens para um “estrangeiro”, nunca será o lugar que sobressai em toda a sua complexidade, mas simplesmente as reacções desses personagens, reinventados como um outro, ao que julgam ver e viver momentaneamente. Relembrando as palavras de Gabriel Garcia Márquez sobre estes dilemas literários – um escritor só escreve bem quando conhece pessoal e profundamente esse seu referencial, e o que ele ou ela conhece melhor é a sua própria pessoa.

Vem tudo isto a respeito e foi provocado por dois mini-ensaios publicados recentemente no suplemento literário do The New York Times, numa secção semanal em que dois escritores são convidados a dissertar sobre as mais variadas questões livrescas, desde a literatura que mais os comove ou repugna aos mil um processos e hábitos banais durante a criação artística . Neste caso, trata-se do tema por eles enunciado: “Does Where You Live Make a Difference in How and What You Write?/O lugar onde se vive influencia como e o que se escreve?” Responderam o escritor indiano Mohsin Hamid e o americano Thomas Mallon, ambos amplamente reconhecidos no mundo anglo-saxónico. Salvaguardando o facto de alguns distintos autores terem escrito sobre realidades desconhecidas e lugares onde nunca puseram os pés, como no estranho caso citado de Kafka e o seu Amerika, tal como nós poderíamos citar a cidade de Glasgow onde Fernando Pessoa colocou para a sua formação em engenharia naval o seu heterónimo Álvaro de Campos, os dois colunistas estão de acordo que as consequências do lugar na literatura serão sempre as mais evidentes, até porque a tendência de querermos “retratar” o nosso quotidiano ou a nossa própria história, pessoal ou colectiva, será o primeiro factor a levar seja quem for à disciplina extrema que será quase sempre o acto de escrever com seriedade e qualidade numa obra de fôlego. Do mesmo modo, é mais ou menos assente que esse mesmo lugar, e ao contrário do que pregava, por exemplo, Gore Vidal em relação a um colega citado na mesma peça aqui referida, não trava nem amordaça a escrita de qualquer escritor. O que me faz lembrar uma pergunta que há muitos anos lancei ao Professor Frederick G. Williams numa entrevista que seria publicada no suplemento Cultura do Diário de Notícias – a vivência de Jorge de Sena em Santa Bárbara, da Califórnia, foi benéfica ou não para o nosso poeta e ensaísta, diferente do que teria sido a sua vida numa universidade como Yale, ou outra qualquer situada em geografias mais “literárias”? A resposta foi directa: onde ele, Jorge de Sena, vive (vivia) é que é o centro do seu universo. Jorge de Sena foi um “exilado”, e dedicou a maior parte da sua obra ao seu país de nascença, mas o pouco que escreveu na sua obra estritamente criativa, ficção ou poesia, sobre a América foi, só poderia ser, referenciado no seu meio imediato, como nos poemas de Sobre esta praia … Oito meditações à beira do Pacífico (publicado em 1977, um ano antes da sua morte). Os exemplos entre nós seriam muitos, inclusive José Rodrigues Miguéis em Nova Iorque a escrever obsessivamente sobre Lisboa, a sua geografia da mente e do passado. O que nos levará a outra questão: que experiências e tempos da nossa mundividência determinam quais serão as nossas mais significantes geografias?

Os dois articulistas do jornal nova-iorquino debruçaram-se, ainda que com brevidade, sobre esta outra vertente – o escritor distante ou “exilado” da sua pátria, da sua comunidade natal. Aqui, teremos ainda os exemplos dos escritores açorianos da minha geração, quase todos eles tendo vivido ou estão a viver a maior parte das suas vidas fora das ilhas. Os escritores luso-descendentes, que já pertencem aos nossos imaginários literários, escrevem sobre a sua realidade norte-americana, fazendo constantemente chamamentos à mítica das suas origens. Não fogem do seu território nacional nem do seu “território do coração”. O exemplo mais claro para muitos dos nossos melhores escritores das ilhas está numa figura canónica do século XX, também mencionada por Mohsin Hamid e Thomas Mallon – James Joyce a recriar obsessivamente, ao longe, a sua enclausurada e marginal Dublin a partir do seu exílio de Trieste, Zurique e Paris. O seu livro póstumo publicado há pouco tempo, Local Souls, afirma Mallon, “é um título que nos relembra o axioma, talvez o mais citado no caso de Joyce, de que as verdades autenticamente universais são sempre as mais paroquiais”. Nem falemos sequer aqui de Vitorino Nemésio no seu Mau Tempo no Canal, em que de uma rua perdida numa pequena ilha atlântica saem as mais abrangentes “verdades” humanas e sociais, pelo menos da cultura ocidental.

Por certo que a maior parte dos escritores açorianos que cá viveram toda a vida, os da nossa geração, raramente saíram do arquipélago na sua escrita, até mesmo na poesia. Poderão citar os “poemas chineses” de Emanuel Félix, mas são os versos que mais recriam o seu quotidiano ilhéu os que permanecem com firmeza na sua obra, e era aliás como poeta açoriano que ele se auto-definia e queria ser conhecido ou lembrado, como me disse mais do que uma vez. Os que tentaram sair para outros imaginários, numa ínfima parte da sua obra, poderão impressionar alguns, mas também eles serão lembrados pela forma como reproduziram artisticamente as suas vivências, ou como (re)interpretaram a sua e nossa história. João de Melo escreveu dois livros fora do seu imaginário açoriano e memórias comunitárias, mas até hoje serão os seus romances O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas que quase o definem como escritor consequente na literatura açoriana e portuguesa. Os exemplos entre nós são muitos, incluem praticamente todos que continuam a merecer ser lidos, tanto na ficção como na poesia. Os ensaístas, os que estão no estrangeiro, serão outro grupo à parte, mas será muito difícil encontrar um único que, ou faz entender de onde parte o seu ponto de vista em qualquer ensaio ou análise literária ou cultural, ou então inclui como parte fulcral da sua obra toda a questão da açorianidade, aqui ou noutras geografias. Creio que os nomes de Onésimo T. Almeida, Francisco Cota Fagundes, José Francisco Costa, e Diniz Borges, este nas suas preocupações maiores quanto a questões de identidade e cidadania, nunca esquecem nem o espaço onde vivem, nem o passado e presente das suas origens nas suas constantes abordagens, desde as ciências sociais à literatura propriamente dita. Onésimo T. Almeida costuma dizer que nunca volta a casa (aos Açores) porque simplesmente nunca saiu dela. Toda a sua escrita, no entanto, reflete a osmose memorialista e intelectual da sua existência.

Não será, acredito, só o lugar presentemente vivido que tem consequências na nossa escrita, em qualquer género ou forma. Só que será o lugar das nossas vidas e os anos mais críticos da nossa formação e consciência de “grupo” que nunca mais deixam de se refletir nessas que são as literaturas do mundo. É daí, sem dúvida, que vem a beleza na diversidade, que vem a identidade que faz querer aproximar-nos, dentro do possível, aos outros, ou pelo menos tentar entendê-los sem cedermos a mundos em que não acreditamos nem desejamos.

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Moshin Hamid e Thomas Mallon, Bookends in The New York Times Book Review, 3 de Agosto de 2014.