As consequências do lugar na literatura e escrita-outra

AÇORESParece óbvio que o lugar onde vivemos determina como e o que escrevemos.

Mohsin Hamid, The New York Times Book Review

 

Vamberto Freitas

Não, nada disto é óbvio, pelo menos nos mundos que são os meus. Os pequenos “lugares” têm características “culturais” muito próprias – a aparente vontade de querermos ser daqui e de toda a parte. Só que não somos, para além da retórica vaga e vazia acerca de um suposto “cidadão do mundo”. O que somos, creio, estará na igualdade de “alma”, certas crenças, o coração humano batendo a universalidade possível. Mesmo assim, poderei também dizer que ante certas culturas e civilizações me quero longe, e bem longe. É preciso respeitá-las? É, supõe-se, mas reservando o direito de nem querer pertencer, nem aderir, muito menos vivê-las. Estas são também algumas das velhas questões nas artes. A questão relacionada com o tema específico aqui em foco é outra – até que ponto um escritor se pode alhear do seu meio quando escreve em qualquer uma das formas criativas? Será que esse seu meio, quer ele esteja consciente ou não desse facto, insinua-se na sua cosmovisão, determina, até certo ponto, o modo como se “retrata” a si próprio e aos outros, refugiando-se no que se chamam o “narrador” e os seus “personagens”? Acham que quem não vive e nunca viveu em Nova Iorque poderá escrever um romance profundamente enraizado no seu ethos e pathos? Se tentar fazê-lo, não será preciso mais do que um parágrafo para se topar a falsidade das suas palavras e perspectivas, por mais alicerçadas que estejam em conhecimentos livrescos, ou adquiridos por outros meios de comunicação. Na maior parte dos romances e outra ficção que deslocam os seus personagens para um “estrangeiro”, nunca será o lugar que sobressai em toda a sua complexidade, mas simplesmente as reacções desses personagens, reinventados como um outro, ao que julgam ver e viver momentaneamente. Relembrando as palavras de Gabriel Garcia Márquez sobre estes dilemas literários – um escritor só escreve bem quando conhece pessoal e profundamente esse seu referencial, e o que ele ou ela conhece melhor é a sua própria pessoa.

Vem tudo isto a respeito e foi provocado por dois mini-ensaios publicados recentemente no suplemento literário do The New York Times, numa secção semanal em que dois escritores são convidados a dissertar sobre as mais variadas questões livrescas, desde a literatura que mais os comove ou repugna aos mil um processos e hábitos banais durante a criação artística . Neste caso, trata-se do tema por eles enunciado: “Does Where You Live Make a Difference in How and What You Write?/O lugar onde se vive influencia como e o que se escreve?” Responderam o escritor indiano Mohsin Hamid e o americano Thomas Mallon, ambos amplamente reconhecidos no mundo anglo-saxónico. Salvaguardando o facto de alguns distintos autores terem escrito sobre realidades desconhecidas e lugares onde nunca puseram os pés, como no estranho caso citado de Kafka e o seu Amerika, tal como nós poderíamos citar a cidade de Glasgow onde Fernando Pessoa colocou para a sua formação em engenharia naval o seu heterónimo Álvaro de Campos, os dois colunistas estão de acordo que as consequências do lugar na literatura serão sempre as mais evidentes, até porque a tendência de querermos “retratar” o nosso quotidiano ou a nossa própria história, pessoal ou colectiva, será o primeiro factor a levar seja quem for à disciplina extrema que será quase sempre o acto de escrever com seriedade e qualidade numa obra de fôlego. Do mesmo modo, é mais ou menos assente que esse mesmo lugar, e ao contrário do que pregava, por exemplo, Gore Vidal em relação a um colega citado na mesma peça aqui referida, não trava nem amordaça a escrita de qualquer escritor. O que me faz lembrar uma pergunta que há muitos anos lancei ao Professor Frederick G. Williams numa entrevista que seria publicada no suplemento Cultura do Diário de Notícias – a vivência de Jorge de Sena em Santa Bárbara, da Califórnia, foi benéfica ou não para o nosso poeta e ensaísta, diferente do que teria sido a sua vida numa universidade como Yale, ou outra qualquer situada em geografias mais “literárias”? A resposta foi directa: onde ele, Jorge de Sena, vive (vivia) é que é o centro do seu universo. Jorge de Sena foi um “exilado”, e dedicou a maior parte da sua obra ao seu país de nascença, mas o pouco que escreveu na sua obra estritamente criativa, ficção ou poesia, sobre a América foi, só poderia ser, referenciado no seu meio imediato, como nos poemas de Sobre esta praia … Oito meditações à beira do Pacífico (publicado em 1977, um ano antes da sua morte). Os exemplos entre nós seriam muitos, inclusive José Rodrigues Miguéis em Nova Iorque a escrever obsessivamente sobre Lisboa, a sua geografia da mente e do passado. O que nos levará a outra questão: que experiências e tempos da nossa mundividência determinam quais serão as nossas mais significantes geografias?

Os dois articulistas do jornal nova-iorquino debruçaram-se, ainda que com brevidade, sobre esta outra vertente – o escritor distante ou “exilado” da sua pátria, da sua comunidade natal. Aqui, teremos ainda os exemplos dos escritores açorianos da minha geração, quase todos eles tendo vivido ou estão a viver a maior parte das suas vidas fora das ilhas. Os escritores luso-descendentes, que já pertencem aos nossos imaginários literários, escrevem sobre a sua realidade norte-americana, fazendo constantemente chamamentos à mítica das suas origens. Não fogem do seu território nacional nem do seu “território do coração”. O exemplo mais claro para muitos dos nossos melhores escritores das ilhas está numa figura canónica do século XX, também mencionada por Mohsin Hamid e Thomas Mallon – James Joyce a recriar obsessivamente, ao longe, a sua enclausurada e marginal Dublin a partir do seu exílio de Trieste, Zurique e Paris. O seu livro póstumo publicado há pouco tempo, Local Souls, afirma Mallon, “é um título que nos relembra o axioma, talvez o mais citado no caso de Joyce, de que as verdades autenticamente universais são sempre as mais paroquiais”. Nem falemos sequer aqui de Vitorino Nemésio no seu Mau Tempo no Canal, em que de uma rua perdida numa pequena ilha atlântica saem as mais abrangentes “verdades” humanas e sociais, pelo menos da cultura ocidental.

Por certo que a maior parte dos escritores açorianos que cá viveram toda a vida, os da nossa geração, raramente saíram do arquipélago na sua escrita, até mesmo na poesia. Poderão citar os “poemas chineses” de Emanuel Félix, mas são os versos que mais recriam o seu quotidiano ilhéu os que permanecem com firmeza na sua obra, e era aliás como poeta açoriano que ele se auto-definia e queria ser conhecido ou lembrado, como me disse mais do que uma vez. Os que tentaram sair para outros imaginários, numa ínfima parte da sua obra, poderão impressionar alguns, mas também eles serão lembrados pela forma como reproduziram artisticamente as suas vivências, ou como (re)interpretaram a sua e nossa história. João de Melo escreveu dois livros fora do seu imaginário açoriano e memórias comunitárias, mas até hoje serão os seus romances O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas que quase o definem como escritor consequente na literatura açoriana e portuguesa. Os exemplos entre nós são muitos, incluem praticamente todos que continuam a merecer ser lidos, tanto na ficção como na poesia. Os ensaístas, os que estão no estrangeiro, serão outro grupo à parte, mas será muito difícil encontrar um único que, ou faz entender de onde parte o seu ponto de vista em qualquer ensaio ou análise literária ou cultural, ou então inclui como parte fulcral da sua obra toda a questão da açorianidade, aqui ou noutras geografias. Creio que os nomes de Onésimo T. Almeida, Francisco Cota Fagundes, José Francisco Costa, e Diniz Borges, este nas suas preocupações maiores quanto a questões de identidade e cidadania, nunca esquecem nem o espaço onde vivem, nem o passado e presente das suas origens nas suas constantes abordagens, desde as ciências sociais à literatura propriamente dita. Onésimo T. Almeida costuma dizer que nunca volta a casa (aos Açores) porque simplesmente nunca saiu dela. Toda a sua escrita, no entanto, reflete a osmose memorialista e intelectual da sua existência.

Não será, acredito, só o lugar presentemente vivido que tem consequências na nossa escrita, em qualquer género ou forma. Só que será o lugar das nossas vidas e os anos mais críticos da nossa formação e consciência de “grupo” que nunca mais deixam de se refletir nessas que são as literaturas do mundo. É daí, sem dúvida, que vem a beleza na diversidade, que vem a identidade que faz querer aproximar-nos, dentro do possível, aos outros, ou pelo menos tentar entendê-los sem cedermos a mundos em que não acreditamos nem desejamos.

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Moshin Hamid e Thomas Mallon, Bookends in The New York Times Book Review, 3 de Agosto de 2014.

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