Minima Azorica, ou a fala de açorianos no meio do mar

Capa Minima AzoricaMorreu, isso sim, o monolitismo das correntes ideológicas e literárias e os seus suportes críticos, que estabeleciam hegemonias estéticas… Desse ponto de vista a fragmentação contemporânea redunda em desanuviamento benéfico, saudável mesmo.

                                                                                                              Onésimo Teotónio Almeida, Minima Azorica

Vamberto Freitas

Minima Azorica: O meu mundo é deste reino, o novo livro de ensaios de Onésimo Teotónio Almeida, é exactamente essa nota melódica e suave como que num trilho musical que agora nos acompanha numa caminhada mais ou menos serena, entre terra e mar, entre passado e presente, entre formas de dizer ideias, e de ideias que dizem do nosso lugar no mundo, em Portugal ou a partir de Portugal. Não tem sido nada fácil a nossa afirmação histórica e cultural como parte fundamental e indesligável da restante nação. Diria um dia Miguel Torga, apesar de ter confundido a nossa largueza de vistas marítimas a oeste com seu encerramento serrano a norte, que não reconheceria ou concebia Portugal sem os Açores. Se Portugal teve única e exclusivamente uma missão marítima e globalizante após a consolidação do território das suas origens, as ilhas atlânticas foram a primeira concretização de todo o projecto de Quatrocentos, com a mudança experimental e depois permanente de gente e civilização, a meio de rotas e marés que de outro modo teriam sido muito mais perigosas e comprometedoras. Cá estamos quinhentos anos depois continuamente a tentar explicar ou, muito mais enfurecedor ainda, a justificar a nossa existência no mosaico territorial e humano no pequeno país. Levou muitos séculos para nomearmos o que que nos aconteceu e nos moldou como povo – açorianidade, que nada mais é do que a portugalidade redonda e reencontrada no fecho ou na abertura dos seus pontos diversos, a nossa representação artística nesse mesmo palco agregador oferecendo, a quem quiser ver, ouvir ou ler, outra imagem de como uma limitada cultura e língua nos seus primórdios se tornaria verdadeiramente mundial e consequente entre todos os outros. Só uma mente diminuída confunde tamanho com inteligência, cidade com criatividade, metrópole com beleza. Num encontro literário de projeção nacional, Onésimo Teotónio Almeida a dado momento dirige-se a dois escritores caboverdianos aí presentes, aludindo ao seu recente reconhecimento e valorização em Lisboa, ao contrário da escandalosa arrogância (esta frase é minha) que os açorianos, e madeirenses, têm de sofrer constantemente quando se trata dos nossos livros ou da nossa arte em geral

“Vi-me na necessidade – escreve o autor, após um interveniente nas Correntes d’Escrita da Póvoa de Varzim dizer a Germano de Almeida e Corsino Fortes que era pena o seu país não se ter mantido como região autónoma de Portugal – de lembrar que na história há cortes inevitáveis e, voltando-me para os amigos e escritores caboverdianos, acrescentei: ‘Mantenham-se como estão, que estão bem. Assim têm o reconhecimento de Portugal, que até vos convida regularmente para estes acontecimentos culturais. Fizessem vocês ainda parte do território nacional e não apareceriam aqui porque em Portugal o território não se quer dividido, a regionalização é perigosa e, além do mais, apregoa-se que quem é bom aparece em Lisboa. Mesmo na literatura’”.

Minima Azorica funciona, para mim, como um segundo volume de Açores, Açorianos, Açorianidade, publicado originalmente em 1989, e a segunda edição, com um alargado prefácio que actualiza nomes, títulos e questões, em 2011. O autor restringe-se aqui a um distinto grupo de escritores das nossas ilhas, uns falecidos há tempos longínquos, outros já nos nossos dias, e que para além da sua escrita deixaram-nos quase sempre um rasto luzidio de amizade, afecto e companheirismo no sempre áspero mundo das letras. De Antero de Quental ao seu mais distinto biógrafo José Bruno Carreiro, de Vitorino Nemésio a Arruda Furtado e José Enes, de Dias de Melo, Daniel de Sá e Pedro da Silveira a José Martins Garcia, o autor vê e revê não só as obras em questão como acima de tudo os contextos que, de um modo ou outro, influíram na vida e obra de cada um destes escritores e poetas, apontado ainda, uma vez mais, o que lhes coloca num quadro nacional ou internacional da literatura e pensamento histórico-filosófico, dando larga reflexão à questão da geografia e origens que lhes haviam de formar a personalidade e cosmovisão, relembra-nos as mundividências que inevitavelmente seriam texto ou subtexto nos legados literários que deixaram à sua região e ao seu país, ao universo das letras em geral. Onésimo Teotónio Almeida precede toda a sua revisitação a estes nomes, obras e circunstâncias geo-biográficas, por assim dizer, com outros ensaios em que aprofunda alguns textos anteriores sobre a açorianidade e o acto de criação neste arquipélago, lançando ou re-constextualizando novos dados e exemplos pertinentes na clarificação das suas afirmações em tudo que diz respeito à literatura e cultura açorianas. Permitam-me anotar aqui o que mais me impressiona na narrativa crítica que efectivamente são estes textos, todos eles lidos em vários congressos e encontros literários, e depois publicados em periódicos especializados – o tom sereno da sua linguagem como quem já nada tem a justificar perante seja quem for quanto à legitimidade histórica e estética da nossa escrita, mas sem deixar, como já vimos na citação anterior, de cravar as farpas imaginárias nas mentes nada menos fantasiosas no seu falso saber ou pretensiosidade intelectual. O leitor conhecedor da obra do autor não se vai surpreender com qualquer reparo que ele faça aqui aos de casa e aos de fora, simplesmente dirá, concordará, que os suspeitos das habituais exiguidades ou vazios intelectuais terão sempre a sua resposta, pois nada menos do que as várias identidades arquipelágicas, a sua dignidade de povo autónomo, a verdade do seu passado, estão em causa. Os poucos ou muitos que nos leram e lêem no além-fronteiras sabem quem somos, e das raízes de onde partimos para o mundo. São os de casa, os da nossa rua mesmo, que ainda não descobriram a história que subjaz o seu próprio ser, e acima de tudo os que no resto do país nunca abriram um único livro que limpe de uma vez por todas a sua tábua rasa e respectivo complexo provinciano num mundo que imaginam ser de gigantes de toda a espécie, particularmente no além-Pirenéus. Que os Açores – e a Madeira — fazem parte de uma vasta e rica geografia de gente espelhada num complexo cenário artístico pluri-continental e arquipelágico, que vai muito além das suas origens ibéricas, pouco ou nada lhes diz. As linguagens de Minima Azorica são esse equilíbrio de quem já não se preocupa em convencer, uma vez mais, seja quem for, pois, como dizia José Saramago, isso até poderá ser um outro tipo de colonização mental do outro, mas nunca esquece que a nossa afirmação no mundo passa também por negar a mentira e a insolência desse mesmo outro.

De Nemésio e dos seus pares ilhéus já muito se disse, mas o autor de Minima Azorica encontra sempre um novo ângulo ou perspectiva pela qual poderemos rever a grande obra do terceirense, assim como a dos outros escritores e poetas aqui presentes. Algumas das páginas mais significantes deste livro terão a ver com um nome cuja obra literária e filosófica são de um grande alcance simultaneamente açoriano e, logo, como quase sempre, nacional. Trata-se aqui de José Enes, cuja biografia é longa e importante demais para este espaço de linhas contadas. Bastará dizer que ele foi um dos primeiros, a seguir a Nemésio, na descoberta da grandeza e profundidade da poesia de Roberto de Mesquita, que a sua própria poética, Água do Céu e do Mar, é uma maravilhosa escavação da sua e nossa açorianidade, que a sua tese de doutoramento defendida em Roma, À Porta do Ser, nas vozes mais qualificadas do nosso país, é um contributo quase sem igual ao pensamento filosófico em língua portuguesa, para nem sequer mencionarmos o seu papel no Seminário de Angra como mentor de toda uma geração a que pertence Onésimo Teotónio Almeida, e dinamizador dalgumas das melhores folhas literárias e culturais publicadas em suplementos nos jornais locais durante os nossos anos de chumbo e descrença, em que as Semanas de Estudo dos Açores ficarão para sempre como um ponto de viragem na nossa memória colectiva. A sua marginalização no debate cultural portas adentro, e muito mais ainda lá fora, é um desses fenómenos sem explicação razoável, uma ironia da sua sorte.

Termino com as palavras de um amigo comum sobre este novo livro de Onésimo Teotónio Almeida, o reconhecido guitarrista clássico Victor Castro que, como bom açoriano, pegou e andou há tempos para o Maranhão, no Brasil. “Espero – escreveu-me ele numa entrada sobre Minima Azorica, numa rede social – que esgote em dois tempos, que é também o valor de uma mínima, se o compasso for 4/4, por exemplo”. Não sei bem o que significa isto numa pauta, mas suspeito que é muito bem dito em relação à questão aqui em foco.

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Onésimo Teotónio Almeida, Minima Azorica: o meu mundo é deste reino, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2014.

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