Philip Roth à solta, finalmente

Capa Roth UnboundCom a conclusão de ‘Nemesis’ [romance, 2010], sentiu-se ele próprio, pela primeira vez em meio século, livre das correntes. Ficou absolutamente surpreendido com o sentir-se livre.

Claudia Roth Pierpont, Roth Unbound: A Writer And His Books

                                                                         /Vamberto Freitas

Comecemos pela entrevista que Philip Roth concedeu à famosa revista literária norte-americana, The Paris Review, em 1984, essa que, mais do que toda a academia junta no país, mais do qualquer publicação do género, sinaliza a permanência canónica de qualquer escritor. “Os melhores leitores chegam à ficção – afirma o autor – para se sentirem livres de todo o ruído, para libertar a sua própria consciência, que de outro modo está condicionada e aprisionada por tudo o resto que não é ficção”. Não são as palavras, estas, de um escritor que sente a necessidade de justificar a sua arte, e ainda menos toda uma vida dedicada à literatura (disse uma vez que era “um monge da escrita”) como busca perpétua do que significa estarmos vivos, do que significa a nossa existência em comunidade, o nosso lugar como cidadãos de um país e como indivíduos que poderão ou não, pela sua vontade ou contra, ser também identificados com um determinado grupo étnico, religioso, histórico pelas mais variadas razões ligadas ao seu percurso através dos tempos. Nas grandes sociedades metropolitanas poucos fogem a este estatuto de catalogado, quer se quedem nas margens da sociedade, quer estejam no seu centro. Por mais que falemos num suposto “universalismo”, só os pequenos países com uma população mais ou menos homogénea em termos raciais, culturais e linguísticos se poderiam livrar desta sina – ou desta riqueza humana, raramente assim considerada ou pacificamente aceite. Felizmente, pelo menos no Ocidente, as nossas sociedades são, todas elas, multi-étnicas e multiculturais. Philip Roth não é só um grande e controverso escritor de projecção mundial – é já um símbolo da genialidade artística que, ao tentar esbater as inventadas “diferenças” entre os povos, quer convivam num determinado espaço geo-cultural alargado quer estejam encerrados em fronteiras demarcadas, acabou por simultaneamente reafirmar, num contínuo acto de festa e brilhante “transgressão” literária, a dignidade do todo e do particular, a liberdade de cada um no combate a qualquer repressão imposta por políticas, ideologias, ou por nojo moralista. Eis a tragicomédia na luta ou em busca pessoal e determinada do seu lugar e do seu direito a esse espaço que cada um tem o dever, deveria ter, de demarcar para si sem restringir o dos outros. A beatice retórica, no entanto, poderá estar em tudo menos na vastíssima obra de Philip Roth, que ele disse ter terminado com o romance referido na epígrafe deste texto.

Roth Unbound é a primeira grande biografia crítica do escritor. Toda a gente que escreve sobre este livro acha necessário dizer que a sua autora, Claudia Roth Pierpont não é familiar do autor, apesar do seu nome, é, sim, uma doutorada em arte da Renascença Italiana, colaboradora da The New Yorker, e autora de um outro livro de ensaios, Passionate Minds: Women Rewriting the World. São pormenores, aqui, muito significativos. Que é uma mulher a escrever este livro sobre Philip Roth, é a outra grande ironia. Roth teve de se defender, desde a primeira à última linha que escreveu, das feministas, e não só, que sempre o acusaram de maltratar a mulher na sua obra, de transmitir a ideia que para ele, para os seus narradores, elas serviam tão-só como objectos sexuais, ou pouco mais do que isso. Eventualmente, nessas mesmas páginas, tornam-se suas inimigas, com divórcios e a mão metida na sua conta bancária. Ler qualquer um dos romances de Roth é um mergulho perturbador numa espécie de 5º Sinfonia da escrita: é estrondoso, é estimulante (sim, a polissemia da palavra vai aí), é rebentar num baque inicial de sentimentos e desejos, é, por fim, a calmaria e o sorriso de quem sabe que, finalmente, o nosso próprio sentido de humanidade incompleta ou magoada foi aqui retratado, resgatado, justificado. Entre a beleza e genialidade sintática de cada frase, entre esse furor de judeu-americano negando que é ou deve ser considerado um ser à parte ou diferente seja de quem for, entre o ajuste de contas sem fim tanto com quem lhe massacra os dias como com a sociedade de filisteus que o/nos cercam, vem a ideia esclarecedora: esta é a minha vida, este é e foi o meu destino, este é o meu país e a minha cultura ancestral, e serei eu e mais ninguém a decidir em que escala serei pesado e, sobretudo, em que espelhos desejo ver ou rever a minha imagem. O sistema literário americano não estava habituado a tanta audácia e habilidade artística fora do grupo anglo-saxónico dominante naquela sociedade. A primeira geração de judeus americanos, quase todos de Nova Iorque e arredores, começaram a alagar e a ocupar destacadamente, ante a resistência dos outros, o mosaico literário nos anos 30 até hoje, e Philip Roth passa a fazer parte do grupo – dominado já na altura por escritores como Saul Bellow e Bernard Malamud, assim como pelos que passaram a ser denominados por New York Intellectuals – a partir da publicação dos seus primeiros livros Goodbye Columbus e Letting Go. Em 1969 aparece com Portnoy’s Complaint/O Complexo de Portnoy, cujo impacto imediato só poderá ser descrito através de certas metáforas, suponho, bélicas. Num flashback durante as suas sessões de psicanálise freudiana, Portnoy é já um adulto mas transporta-nos nos seus delírios de insatisfação sexual e profissional até ao bairro judeu e humilde da sua adolescência, na cidade de Newark, em New Jersey. A sua fúria interior e respectivas linguagens quase não tinham limites: auto-erotismo e fantasias de cama com moças à sua volta, gritos contra o enclausuramento de gueto voluntário e auto-satisfeito do seu grupo em bairros cuja primeira geração americana oriunda da Europa de leste continua presa às memórias da perseguição mortífera, agora atentos ao que se passava no teatro de guerra europeu na conflagração que levaria ao Holocausto.

Portnoy quer ser livre de e para. O armário onde arrumavam a sua etnia e religiosidade tinha de ser desmanchado, para que pudesse assumir a sua condição de ser humano sem mais classificações. Naturalmente, atira a sua retórica hiper-rebelde em primeiro lugar contra os seus. É entre eles que domina a ideia de que, num mundo cuja história era o que era, tinham de se proteger de todos os outros. Portnoy não aceita essas premissas, nem aceita as atitudes ou acções discriminatórias da restante sociedade. A vontade sexual e as suas fantasias são extremas e excêntricas – fazem parte instintiva da sua declaração de independência e afirmação do seu ser. “O Complexo de Portnoy – escreve a sua biógrafa – foi um sinal de actos subversivos numa era subversiva”. Algumas associações e individualidades de peso na comunidade judaico-americana ficaram tão furiosas com a visão e as diatribes do seu protagonista, que se questionavam se o autor deveria ser “silenciado”. É claro que isso não poderia nunca acontecer, e a maioria dos críticos louvaram este corte radical com certas tradições e pudores literários na literatura séria e significante. Eu próprio, dois ou três anos depois da sua publicação, tive de ler e analisar este romance em close readings num seminário sobre literatura contemporânea numa faculdade californiana.

Roth Unbound está estruturado segundo a publicação cronológica de cada romance ou novela, e as circunstâncias pessoais do autor assim como o momento histórico da sociedade. O título desta biografia é tirado do romance Zuckerman Unbound. A obra de Roth é hoje vastíssima, mas está toda ela interligada pelos seus protagonistas e alter-egos, com nomes diferentes, mas entre os quais predomina o de Nathan Zuckerman, transfigurado durante várias idades, etapas de vida e de escritor, estado civil e contínuas obsessões com o seu percurso intelectual e literário, de amante casado ou errante. História, política, literatura, Nova Iorque, Tel Aviv, Praga – a sua pátria é também imaginária, mas em todos os seus livros a “consequência do lugar” não o larga nunca, memoriando sempre o seu começo em casa dos pais em Newark a partir dos anos 30, e particularmente durante os anos da II Guerra Mundial. Todas as memórias do judaísmo na Europa, todos os medos colectivos, são convocadas para que a América seja vista como o mais, apesar de tudo, racional e pacífico refúgio de sempre para todo um povo. É isso mesmo que reafirma a obra de Philip Roth – a noção de total pertença, e o direito de cada um ao rumo escolhido, à dor e à felicidade por ele sofridas ou vividas.

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Claudia Roth Pierpont Strauss, Roth Unbound: A Writer And His Books, New York, NY, Farrar, Straus and Giroux, 2013. As traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

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