Contos do cerco sem fuga

Capa Mau Tempo e Má Sorte

Aquele lugar era conhecido pela inigualável má sorte da sua gente.

Leonor Sampaio da Silva, Mau Tempo e Má Sorte

Vamberto Freitas

Primeiro do que tudo, as circunstâncias da publicação desta primeira ficção reunida em livro de Leonor Sampaio da Silva. Mau Tempo e Má Sorte: contos pouco exemplares é o livro vencedor da primeira edição do novo concurso literário do Governo dos Açores, através da Secretaria Regional da Educação e Cultura/Direcção Regional da Cultura, que traz o nome de “Prémio de Humanidades Daniel de Sá” (2014), visando o reconhecimento bienal de obras escritas por autores nacionais ou estrangeiros que abordam, em diversas categorias e géneros, temáticas referentes ao nosso arquipélago. Não sei, nem tenho de saber, com quem concorreu a presente obra, mas posso dizer sem quaisquer dúvidas que, com ou sem prémio, merecem estar cá fora, valem, e muito, por si. Creio que a autora já tinha publicado um ou outro conto em periódicos de vária natureza, mas só numa sequência em livro atingem todos eles o estatuto a que têm pleno direito – uma narrativa tematicamente unificada, recriando todo um imaginário de uma comunidade e de um tempo, a própria “caracterização” dos seus mais diversos personagens a confirmação de que estamos perante uma ficcionista a ter em conta a partir deste momento. É certo que a publicação de um livro que já atravessou a avaliação crítica de um seleccionado júri de leitores que, por inerência, tiveram de ler alguns outros escritores ou aprendizes contemporâneos, coloca-o desde logo numa posição privilegiada, garante-lhe de certo modo a leitura atenta dos que fazem da literatura uma fonte de prazer, formação, informação. Só que essa premiação não anula nem a surpresa nem a expectativa que os seus leitores passarão a alimentar a partir destas páginas agora publicadas. Um primeiro livro de ficção é, por certo, uma obra autónoma que se manterá – ou não — na memória literária de um país ou cultura, mas é necessariamente algo mais, quando recebe aplausos legitimadores, institucionais e/ou independentes, prenuncia uma obra de que se espera agora ser continuada, ou confirmada, na sua coerência formal e temática. Estou em crer que os leitores mais sérios deste Mau Tempo e Má Sorte vão ser agradavelmente surpreendidos na leitura destas narrativas, e logo quererão mais. Para lá de toda a responsabilidade institucional de uma doutorada em estudos anglísticos, a autora micaelense tem demonstrado desde o início da sua carreira que existe mais “verdade” e “beleza” para além dos academismos obrigatórios dentro e fora da sala de aula. Alguns dos títulos que antecedem estes contos dão-nos claramente essa ideia, como Um pacto com as artes, 30 anos da Academia das Artes nos Açores, e, em co-autoria, Aquém e Além de São Jorge: memórias e visão e Um Observador Observado.

Lembremos que o título desta colectânea de contos remete de imediato para dois dos mais canónicos nomes da literatura portuguesa, separados por mais de cinco séculos, Camões no soneto “Má fortuna, erros meus, amor ardente”, e Vitorino Nemésio no seu clássico do século passado, Mau Tempo no Canal. Não se pense aqui, no entanto, em qualquer tentativa dialógica entre textos, e menos ainda, creio, em qualquer ansiedade de influência, nem sequer no seu sub- título, quando também nos remete para Sophia de Mello Breyner. Só que a referência é notória, e deve querer dizer qualquer coisa, nem que seja tão-só a leve paródia literária do classicismo e da modernidade na nossa língua, os sentimentos e as geografias dando continuidade às gerações conscientes das suas origens e textos fundadores da universalidade da nossa arte literária. Em Mau Tempo e Má Sorte estamos situados na ilha, numa ilha que só poderia ser açoriana quando os narradores e narradoras da autora assumem por inteiro a sua fatalidade de relatores, na primeira ou terceira pessoas, dos que giram à sua volta, e com eles e elas partilham um lugar e uma tradição. Se os espaços cercados destas narrativas são meros símbolos de uma cultura que historicamente quase não conhece fronteiras, os seres reinventados para lhe dar corpo e voz representam aqui do mesmo modo a humanidade em todo o seu esplendor e miséria, a comédia humana revista agora por entre as idiossincrasias desta outra geografia, tempo e mítica. Tudo isto levará qualquer leitor atento, também de imediato e a partir logo das primeiras linhas desta prosa, ao riso reparador provocado pela ironia e o humor incessantes, pela sátira esmagadora, não poucas vezes, com que estas atropeladas vidas imaginadas são contadas e contextualizadas. Várias vezes na leitura destes contos quase me esquecia da própria língua, e me pensava a ler alguma da melhor literatura sulista americana – a pequenez do lugar, o isolamento das comunidades, a história sempre presente, mas incompreendida. Os narradores de Leonor Sampaio olham de uma vez só todo um agregado comunitário na sua totalidade existencial, e ligam, como que ponto por ponto, relacionamentos, complexos, queixas, amores e ódios, tudo localizado e visto num cerco espacial ainda mais pequeno e sitiado do que a própria ilha. Cada acontecimento na (in)acção destes tramas, cada personagem, cada diálogo ou descrição consegue o que de melhor tem uma peça literária autónoma: integra-se, assim mesmo, em toda uma Tradição, enquanto inventa uma outra maneira de olhar e contar. As linguagens destes contos são feitas tanto da erudição insinuada dos narradores, como de saberes populares, movimentam-se livremente entre a descrição convencional desta gente e suas vidas, com os dizeres, crenças e superstições que subjazem a própria comédia teatral em que se tornam todas estas narrativas. Desde a esposa que se suspeita traída e velhas burguesas ridículas e psicossomáticas a famílias rurais extensas e comicamente alinhadas em usos e costumes a bêbedos de taberna, estas ficções começam com uma viagem a Lisboa e acabam com duas amigas a enviar mensagens crípticas no telemóvel sobre amores e ódios, o mundo citadino uma mera continuação da ruralidade acéfala em que se encontram todos, a geografia indo de uma Ponta Folgada a uma terra de nome Asa de Grilo, a ilha, uma vez mais, tornada palco em miniatura da loucura e excentricidades sem fim de cada um e de todos.

“Esforço-me, contudo, – diz um dos narradores em ‘O enredo’, a metaficção como que parodiada, tal como tudo e todos nestas estórias, a perfeita auto-análise crítica de toda a escrita que vem antes e depois – por ultrapassar a minha limitação. À força de tanto escutar estas ficções desenvolvi uma paixão científica pela fauna que as povoa (criativos vorazes, personagens pecadoras, ouvintes/espetadores esfomeados); pelos temas que as animam, invariavelmente centrados no amor desfigurado pelo sexo, no dinheiro manchado pela corrupção, na amizade tingida de malvadez; pelo tom de voz com que passam de boca pequenina em boca maiorzinha. Tenho registado algumas delas, tão ao gosto popular, intemporais na temática, universais no interesse que suscitam, eternas nas feridas que infligem, efémeras nas verdades que declaram …”

Estes contos concorreram ao referido prémio sob um nome masculino, Orlando Paz. Não vou especular aqui sobre a que autores ou autoras se refere, possivelmente, Leonor Sampaio, mas se tivesse escolhido “Praz”, eu iria de imediato para The Romantic Agony, e viria em Mau Tempo e Má Sorte uma outra espécie de cómica subversão e, insista-se, paródia, da “sensibilidade erótica” que é desconstruída, segundo alguns críticos, pelo ensaio clássico de Mário Praz. Duas observações que acho necessário fazer ainda – a autora consegue impor a estas narrativas tanto a voz masculina como feminina, um feito nada fácil de conseguir na literatura, em qualquer um dos seus géneros. Tudo aqui é sugerido, cada conto uma fatia-de-vida sugerindo os modos de ser e estar dos personagens, toda a ambiência maior em volta, cada um ou todos representando no seu palco os afazeres quotidianos e angústias permanentes, sociais ou íntimas, o indivíduo e sociedade em consonância tradicional e herdada, ou então a rebeldia escondida, sobretudo de algumas mulheres em luta pela libertação da modernidade contra o passado, ainda perpetuado em rituais sem sentido, em valores mais cómicos do que virtuosos. A crueza realista confunde-se frequentemente com a metaforização dos seres e da natureza açoriana, literatura e sociedade em perfeita consonância. Uma vez mais, Mau Tempo e Má Sorte parece também querer gozar de alguma literatura associada às ilhas nestas últimas décadas, como no conto “A depressão frontal”. Tanto melhor – nada como estes sinais de que outras visões artísticas em sociedades geograficamente cercadas, mas intelectualmente vivas e parte actuante num mundo de movimentos imparáveis, de dentro para fora, e de fora dentro. A literatura como espelho – reflexo distorcido, mas também ora claríssimo ora de sombras no que nos singulariza e aproxima de todos os outros.

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Leonor Sampaio da Silva, Mau Tempo e Má Sorte: contos pouco exemplares, Açores, Secretaria da Educação e Cultura/Direcção Regional da Cultura, 2014.

Cavalgadas eruditas, ou um romance da nossa intelectualidade

Capa Rapariga Celta

Da romagem das mal-amadas que atravessa o congresso, da mui apreciada timidez de Mimi, da entrada triunfal do Secretário de Estado de Congressos e de outras intermitências menores, para delícia dos novos escritores que a sala silenciosamente alberga.

Artur Veríssimo, Rapariga Celta Sentada num Javali

/Vamberto Freitas

Bem sei que com esta longa epígrafe já queimei parte do meu espaço aqui permitido, mas tinha de ser, pois resume perfeitamente Rapariga Celta Sentada num Javali, este inusitado, corajoso e, entre nós, absolutamente original romance de Artur Veríssimo, açoriano terceirense, antigo professor e formador do ensino secundário, autor de outras ficções menos conhecidas mas premiadas, nomeadamente A serpente está escondida na relva. Desde os romances de Jorge Amado que eu não ria tanto com os próprios títulos descritivos de cada capítulo, e nunca, agora falo no plural, tínhamos lido um romance “académico” de um escritor açoriano bem conhecedor do meio, a vários níveis institucionais, ele próprio participante activo e constante nos encontros literários, profissionais e escolares, que se tornaram uma indústria em toda a parte, inclusive nos Açores. O chamado “campus novel” tornou-se desde há muito no mundo anglo-saxónico um sub-género literário que criou para si um imenso culto de leitores, dentro e fora das academias, com Mary McCarthy nos EUA, The Groves of Acadame, e com o britânico David Lodge, Small World/O Mundo é Pequeno. Em Portugal destaque-se O Professor Sentado, de Carlos Ceia. São alguns exemplos entre dezenas de nomes e obras, mas são três dos meus preferidos, a que se junta agora o livro aqui em foco. Permitam-me ainda afirmar que um romance deste género requer não só conhecimento aprofundado do mundo letrado em geral, desde as mais obscuras mas fundamentais questões “teóricas” em debate numa qualquer sociedade e momento, mas acima de tudo audácia e maturidade intelectual, sujeitando o seu autor desde logo às mais azedas críticas, umas frontais, a maioria delas pela calada. Os intelectuais geralmente gostam de “criticar”, e não de ser “criticados”, muito menos gostam de ser objectos de riso e humor, que despem impiedosamente as suas pretensiosidades de vária natureza, arranham, por assim dizer, o seu altivo egoísmo, a sua colossal auto-imagem, quase sempre desproporcional em relação a um vasto mundo em redor – local ou transfronteiriço na pós-modernidade que vagamente define a nossa condição, essa que outros, ainda sem qualquer ironia ou sentido de humor, chamam de “pós-humana”. Rir disto tudo é preciso, parafraseando o outro. Uma última observação, que me parece essencial para melhor entendermos esta ficção. São quase sempre os próprios escritores e figuras circundantes na academia que mais lêem e comentam este género de escrita – nada como uma representação do que conhecemos por dentro, ou nos toca ora como punhal ora como afago. Espelho, espelho meu…

Rapariga Celta Sentada num Javali é de uma precisão estrutural notável, cada passo

recorre à paródia não só das formalidades da escrita académica, ou da espécie “científica”, como teatraliza comicamente as hipótese hermenêuticas de um texto qualquer sob discussão em encontros supostamente especializados. As suas personagens principais são nossas contemporâneas, mas declaradamente insinuantes de figuras da nossa história, o protagonista sendo de nome Viriato, e a ruiva “celta” de nome Brianda, sensualmente avantajada, os seus encontros íntimos nos intervalos de sessões chatas e banais muito mais esperados e desejados, nestas ocasiões, em quartos de hotel e noutros recantos escondidos. Viriato, que atirava pedras aos romanos, e a Brianda que atirava toiros aos espanhóis, estão aqui reencarnados, reinventados. Mais óbvio do que isso, só a presença de nomes concretos e conhecidos da literatura portuguesa, na qual a dos açorianos ocupa necessariamente lugar proeminente nesta narrativa, e que o autor – não o narrador – menciona numa nota de agradecimento e, creio, homenagem sincera. Como nas melhores narrativas ficcionais pós-modernas, o seu tema envolve simplesmente a desestruturação das formalidades escolásticas num mundo de ideias abrangentes, e que se têm por ser essenciais à salvação da humanidade, o furar de balões mentais demasiadamente cheios de ar e de nada, a contextualização relativista de tudo e todos. O riso, aqui, não fere nem dói a ninguém, o humor incessante com que se vê ou se descreve cada personagem e situação ocasional no congresso em curso em Angra do Heroísmo (Palácio dos Capitães, com o Prior do Crato em frente…) interpela impiedosamente muitas das assumpções do nosso lugar na história do país e do mundo. A melhor ficção deste género é feita disto – nas questões aparentemente irrisórias, nas míticas instantâneas lançadas desavergonhadamente por “estudiosos” e outros “pensadores” obscuros, o leitor vai-se dando conta de que nos estudos humanísticos tudo flui, tudo é incerto, nada é permanente, muito menos “científico”, a comédia nasce das falas dos que pretendem fazer passar o contrário. Como dizia o nosso povo em tempos idos – não entendi nada do que disse o senhor, mas fala muito bem. A ambiência de toda a narrativa é sugerida pela observação dos pormenores comportamentais tanto dos palestrantes como dos que assistem calados ou então venenosamente comentado em voz baixa com o vizinho ao lado o que pensam de tudo o que está a ser dito e de quem o diz, olhando sorrateiramente os movimentos de entrada e saída na sala, conjeturando quem vai visitar o quarto de quem no hotel em que suas excelências estão hospedadas. Pedagogia, literatura e, já se sabe, sexo – eis a essência de muitos afazeres na Rapariga Celta Sentada num Javali. Entre a sala de trabalhos e os comes e bebes habituais no lado de fora cabe o mundo todo, o falso abraço de colegas e o beijo sujo de pastéis e café muito mais salientes do que qualquer preocupação com o destino do mundo em volta. A arte literária destas páginas nasce desta mixórdia de gente e ideias, como noutras circunstâncias nasce em oficinas pouco recomendáveis para quem gosta de ver as coisas nas suas formas equilibradas, ordeiras, na sua beleza final.

Os detalhes da trama ficam para cada leitor, direi só que, de um modo interpretativo à maneira forçada destes pensadores e artistas no seu congresso angrense, vejo o seu final como que uma outra alusão a um grande romance nosso, nada menos do que Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. O ilhéu tem o seu destino marcado – parte sempre num barco rumo a algures, salva-se sempre pela fuga e aventura. Por certo que nem Viriato nem Brianda são das Velas ou da Horta, ou das Fontinhas, como o estudante de Nemésio, mas exerço aqui o meu direito, uma vez mais, a uma outra leitura. Aliás, estamos todos metidos nesta prosa, nomeados ou não, nem os críticos se safam, lembrando o narrador que eles fazem parte daquele grupo que aparece sempre nos congressos a aborrecer com textos, poemas e outra prosa inédita em busca de leitores. O pior é que o contrário é ainda mais comum e grave. Artur Veríssimo sintetiza quase à perfeição toda uma classe intelectual e os seus tiques, a “açorianidade” parodiada em nada diferente da “universalidade” fabricada de quase todos os outros, desde a Ilha Terceira à Ilha de Manhattan. Este não é um romance de indivíduos, mas sim de tipos, a simbologia e alusões literárias sobrepondo-se quase sempre à caracterização dos personagens.

Que ninguém seja tentado a fazer uma leitura deste romance sem reconhecer página a página a essência de uma paródia original a mundos a que pertence o próprio narrador, inevitavelmente o alter-ego de quem o inventou e lhe deu voz. É também assim que a literatura se torna um espelho poliédrico de nós próprios. Eis um capítulo marcante: “De como Onésimo Teotónio Almeida foi substituído na apresentação do livro Sumários e Revisões, de J.M.C., dos muitos apartes que fizeram a história do evento, da revoada de patos-bravos e da congressista do Pico que fazia casaquinhos de malha”. O orador que toma o lugar do conhecido professor e escritor da Brown University não é bem recebido, apesar de ser o autor de um livro com o título de A serpente está escondida na relva, também conhecido por Artur Veríssimo para o leitor mais atento. Com as palavras me matas, com as palavras morres. “Vim por causa do Onésimo – gritou um dos presentes, secundado por significativo bruaá de aprovação. E continuou:- mais uma vez, temos de comer gato por lebre…”

Rapariga Celta Sentada num Javali: Uma História de Amor, de solidão acompanhada e de generosos delírios (muito) académicos. Capitães Generais. Angra do Heroísmo. Cidade Património da Humanidade. Capital da Cultura nos Açores. Ironias.

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Artur Veríssimo, Rapariga Celta Sentada num Javali, Lisboa, Chiado Editora, 2014.

Eugénio Lisboa, ou a autobiografia como arte

Capa Acra Est fabula IV (1)

Aproxima-se o dia da partida. Meio deprimido, meio eufórico. Por um lado, quebrar raízes, deixar tudo. Por outro, mudar de vida, libertar-me…

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula

/Vamberto Freitas

Se num outro texto a propósito destas memórias disse que ler Eugénio Lisboa era um dos poucos prazeres literários, em língua portuguesa, que me restavam, direi agora que, após a leitura deste recém publicado volume de Acta Est Fabula Memórias-IV-Preregrnição: Joanesburgo, Paris, Estocolmo, Londres (1976-1995), a espera dos (anunciados) próximos dois livros que cobrirão outras fases da sua vida até aos nossos dias, esta vida desde sempre em trânsito de país em país conforme as forças históricas que abalaram e abalam o mundo que nos foi dado conhecer ou viver, não me é nada menos motivo de espera, digamos, feliz. Antes de mais, deixem-me afirmar aqui – que me desculpem os caçadores habituais de imortalidades sonhadas – que algumas das peças literárias da modernidade que mais perduraram na literatura ocidental foram precisamente, nalguns casos muito distintos, as biografias e autobiografias, ou meras conversas com. Não quero insinuar seja o que for sobre as memórias aqui em foco, mas tão-só relembrar a certos escritores entre nós que os seus preconceitos contra o género demonstram mais ignorância do que saber. Foi-me sempre uma questão de riso quando entre nós quase todos autores se demarcam do género, torcendo-se e retorcendo-se para garantir que a sua “ficção” nada tem de “autobiográfico”, por isso supostamente a sua temática e estética são de todo “universal”. Eis aqui alguns exemplos, em três línguas, culturas e tempos bem diferentes ou distantes: The Life of Samuel Johnson (1791), de James Boswell, tendo Johnson sido o fundador da crítica literária, pelo menos em língua inglesa, como me afirmavam, sorridentes, os meus mentores americanos; Conversations with Goethe (1836-1848), de Johann Peter Eckermann, e que Edmund Wilson viria a dizer que eram mais entradas de um “diário” do que uma “biografia”, em nada reduzindo o valor e perduração da obra com essa reclassificação. A propósito, Wilson, que era averso a entrevistas de qualquer espécie ou por qualquer meio (nem se fale da sua ausência militante de encontros literários e conferências da espécie universitária), não poderia ter imaginado em vida que viria a ser um dos críticos e ensaístas do século passado mais biografados no seu país, muito mais ainda do que a maioria dos ficcionistas e poetas da mesma época. Uma vez mais, ironias de vidas e percursos. Quando a rebelde (à esquerda), mas hoje canónica, The New York Review of Books foi fundada em Nova Iorque em 1965 por intelectuais independentes, um dos primeiros colaboradores de prestígio a ser convidado foi precisamente a figura nemesis de tudo quanto tinha a ver com formalidades académicas, e que só publicava em revistas lidas pela classe culta – Edmund Wilson. Sempre irónico e desestabilizador de ideias feitas, Wilson entregou logo para o segundo número do periódico uma auto-entrevista sob o título risonho e de gozo, “Every Man His Own Eckermann”. Ainda o ano passado, Robert B. Silvers, um dos seus fundadores e coordenadores da Review, quando foi galardoado pelo Presidente Barack Obama com o National Humanities Medal, recordou Wilson como tendo sido uma das figuras mais respeitadas e inspiradoras da sua geração. Era “a pessoa que todos nós mais admirávamos, que mais para nós significava”.

Eugénio de Lisboa é um leitor de Edmund Wilson, voltando a menciona-lo de passagem mais do que uma vez nestas suas memórias, mas mesmo que não fosse eu não deixaria de colocar os dois nomes aqui lado a lado. Se Wilson é para mim um mestre em tudo que se refere à literatura modernista americana, Eugénio desde há muito que me ensinou a olhar para a nossa literatura como algo mais do que um exercício esperto de egoísmo e de palavras bordadas dizendo pouco ou nada, num êxtase auto-satisfeito, parafraseando o grande bardo inglês, significando nada. Este volume de Acta Est Fabula leva-nos pelas geografias e tempos anunciados no próprio título, quando o autor se vê obrigado a abandonar Moçambique, a sua terra de nascença e formação como homem e cidadão, e a replantar as suas raízes em Portugal e na Inglaterra. Há um facto de que se podem congratular os leitores e admiradores da sua vasta obra, que inclui Crónica dos Anos da Peste, O Objecto Celebrado, Portugal Monumenta Frivola, e, mais recentemente, Indícios de Oiro – depois da turbulência dos primeiros dois anos do 25 de Abril o país soube pelo menos auto-dignificar-se colocando-o primeiro como Conselheiro Cultural na nossa Embaixada em Londres, e depois como presidente da Comissão Nacional da UNESCO em Portugal, permitindo-lhe assim continuar a desenvolver o que deste há muito já vinha fazendo desde Lourenço Marques, ou seja, alguma da melhor ou exemplar crítica e ensaísmo literário entre nós, num trabalho sem par ante as obras de José Régio e Jorge de Sena, assim como em volta de alguns outros autores, hoje integrados no cânone da literatura contemporânea portuguesa. Durante os seus dezassete anos de Londres, foi muito além do que o Estados português prevê, ou sequer entende, como divulgação cultural entre outros. Parte desse seu projecto – para além da sua presença activa em inúmeros congressos e encontros literário-culturais de toda a espécie durante aqueles anos, quase sempre a expensas próprias – fez com que se publicassem em tradução os nomes fundamentais da nossa escrita, desde Eça de Queirós a Fernando Pessoa. No caso do poeta de Ode Marítima faria sair em 1995, em colaboração com L. C. Taylor, o precioso A Centenary Pessoa. Não foi pouco, e quem conhece o nosso acanhamento dinamizador, quando não de má vontade e constrangimentos financeiros impostos por governantes que ele várias vezes chama aqui de ignorantes, e por isso pouco inclinados para grandes questões puramente intelectuais ou do espírito, sabe do que falo, mesmo que se trate de um país estrangeiro tão próximo e importante em toda a nossa história como a Grã-Bretanha.

Mais do que isso, Acta Est Fabula é um tesouro de nomes e tópicos da literatura mundial do século passado, em que a nossa naturalmente ocupa um espaço privilegiado. Algumas das páginas mais pungentes nestas memórias são precisamente as que nos vão dando conta do estado interior de Eugénio Lisboa, assim como a dos seus mais próximos: o enfrentar as mudanças radicais que a sua saída definitiva de África impuseram, o ter de recomeçar a sua vida já aos quarenta e tal anos de idade, e num tempo e país como o nosso, na altura de rastos e sem rumo inteiramente definido. O exílio de Londres, a vida em diáspora, foi ironicamente o relançar de raízes saudáveis em terra que depressa deixou de ser estranha, tornando-se a sua zona de conforto, palco dos seus maiores prazeres literários e culturais em geral – livros, música, teatro, tudo o que em Eugénio Lisboa se verte depois em criação própria, em ensaios e livros que hoje são de referência para os seus leitores espalhados por várias partes do mundo. Para mim, ler alguns breves mas incisivos passos, como acontece nestas páginas, sobre escritores e poetas como Hélder Macedo, Alberto de Lacerda e Rui Knopfli, com quem o autor viveu de perto toda uma vida, foram para mim de uma revelação fulminante, pelo respeito que também nutro por eles e pelas suas grandes obras desde os meus anos americanos. São estes e alguns outros os autores da literatura da nossa infindável peregrinação, da nossa irresolúvel questão com Portugal, do nosso olhar simultâneo, e tantas vezes conflituoso, de quem está fora e dentro. Se a Europa, e muito mais mundo, foram sempre as suas significantes pátrias literárias, a memória de África fornece-lhe as forças essenciais no refazer constante da vida.

“Penso que até agora – escreve numa das muitas entradas de diário entremeadas nas suas memórias, esta datada de 1983 – nada fiz a não ser preparar-me. Para quê? Julgo que a minha experiência africana (que é quase toda a minha vida) me deu uma base, uma estrutura rica e completa de ingredientes e, o que é mais, uma plataforma, um ímpeto, um mergulho vertiginoso em tudo quanto no mundo é importante e profundo – que não posso desperdiçar. Não se trata de um aproveitamento a frio. É alguma coisa de tão vital que, se não faço dela uma construção sólida e forte, fica dentro de mim a apodrecer – e a apodrecer-me…”

Estes volumes de Acta Est Fabula não são agora as memórias de Eugénio Lisboa. São uma comovida peça literária sem igual na nossa literatura moderna. Passam a fazer parte da própria memória de quem fomos, e de quem pensamos ser. É raríssimo o acto literário que consegue brotar de uma só vida para ser também como que uma autobiografia de outros mundos nossos, dispersos nas nossas aventuras do longe, concentrado nas nossas angústias no território-pátrio.

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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula Memórias-IV-Pregrinação: Joanesburgo. Paris. Estocolmo. Londres (1976-1995), Guimarães, Opera Omnia, 2014.

 

De João de Melo e dos nossos reinos de aquém e de além

Lugar caído no crepúsculo

E, assim, eis-nos aqui, condenados a um Limbo eterno. Sem tirar nem pôr

João de Melo, Lugar Caído No Crepúsculo

 

Vamberto Freitas

Em primeiro lugar, um retorno bem-vindo a João de Melo, que desde O Mar de Madrid (2006) não publicava um romance de fôlego. É certo que fez sair entretanto um conto ilustrado por Paula Rego, O Vinho, e a novela A Divina Miséria. Estamos de regresso, como leitores, ao realismo fantástico, que o autor insiste em assim denominar para se demarcar do realismo mágico latino-americano, o que havia instaurado alguma confusão em certas cabeças críticas desde que a sua obra prima, O Meu Mundo Não É Deste Reino, foi publicada em 1983, o romance de fundo inteiramente açoriano, e que seria de certo modo eclipsado pelo fulgurante Gente Feliz Com Lágrimas, hoje a sombra perseguidora de toda a escrita do autor, e que levaria o próprio título a ser incessantemente referido ou parafraseado nos mais diversos contextos da escrita nacional. A maioria dos escritores agradeceria, estou em crer, tal honra e ponto referencial, mas, para além da crítica em busca de mitos ou pontificações seguras, para erguer ou demolir uma obra alheia, mais ninguém o quereria. Cada autor escreve sempre o mesmo livro? Poderá ser, mas cada volume dele saído completa o antecedente, e poderá do mesmo modo anunciar uma porta aberta para outras dimensões da experiência humana numa determinada geografia e tempo. Este Lugar Caído No Crepúsculo é tudo isso – a continuidade de temas anteriores, como os personagens nas suas contingências históricas e nas suas irreprimíveis preocupações espirituais, a busca de respostas à certeza da morte. Uma advertência, que me parece de importância maior aqui: este novo e magnífico romance não é sobre as almas que nos falam do Além, é sobre nós neste preciso momento, a viver num país chamado Portugal, sempre a balouçar entre um indefinido limbo e o nada. Não é sobre os mortos que já têm destino certo, é sobre nós na incerteza perpétua de como existir por entre a garotagem que é a Humanidade, ou boa parte dela. Resta-nos apenas a vida vivida, que é a única dimensão que nos é dado conhecer, redimidos ou condenados. O resto é mera especulação filosófica.

Não queria despachar assim rapidamente os nossos narradores que vão para o Além, e nos dão conta da sua sorte. A primeira constatação sobre esta magnífica narrativa parece-me essencial para assegurar a certos leitores poucos predispostos neste instante das suas vidas a pensar, ou, ainda mais, a temer a sua inevitável Viagem Maior — Lugar Caído No Crepúsculo junta à sua seriedade e conjecturas teológicas um imparável humor e ironia a que o autor já nos tinha habituado na sua melhor prosa. Depois, ir bem mais além dos ensinamentos catequistas sobre o que fica para lá de nós é como se assistíssemos a um filme que de surpresa em surpresa ora nos faz rir ora encolher-nos de medo ao mesmo tempo. Querem imagens pictóricas, ou uma representação gráfica destes Mundos Desconhecidos? Imaginem Edward Hopper no Limbo (para sempre olhando o mistério pela janela da sua absoluta solidão), Frida Kahlo no Purgatório (eternamente em dor e à procura do seu corpo e destino em pedaços feitos), Goya no Inferno (se fosse nórdico, e ainda mais deprimente), e Michelangelo no Céu, de olhar penetrante e de dedo altivamente estendido ao invisível Senhor. O romance está dividido em cadernos, cada qual sendo um relato de uma alma encarregada de avisar os vivos na terra do que lhes espera. O que mais agarra o leitor não são as descrições do que a alma sem corpo enxerga, mas sim o recontar das vidas, afazeres, sentimentos e intenções que levaram estas multidões de números infindáveis a cada um dos lugares destinados nesses outros reinos. É claro que todos os narradores são portugueses, e logo a Igreja Católica afirmada ou negada nos seus mais dramáticos ensinamentos. Não será fácil conseguir numa ficção como esta um tom de linguagem simultaneamente empolgante e neutro, seguidor ou contestatário da mítica cristã. Por mais improvável que nos pareça, em nenhum momento os narradores desrespeitam as crenças da nossa civilização e teologia, mas recompõem alegremente ou em pavor o Mundo-Outro de que ninguém mais regressa. Tudo começa com uma morte, a de um actor de nome Tomás Mascarenhas, e a viagem na barca do senhor Vicente (sim, é ele mesmo regressado do seu outro teatro herético de tempos muito idos), que da margem norte de Lisboa transporta as almas para o outro lado, a caminho do seu destino final. É no epílogo intitulado “A Luz Perpétua” que, finalmente, um narrador necessariamente omnisciente nos faz a proposta final, sem nunca negar a existência da alma, mas insinuando que não irá pousar em lado nenhum.

“Perdida nos horizontes do Além, a alma – diz-nos da espreita do próprio corpo de que partiu, e agora durante os rituais do seu enterro – sentiu pena dessa morte que a privava, daí em diante, dos seus prazeres quotidianos. Apesar de considerar perfeita e em consonância com a idade, não pôde evitar um assomo de ironia contra alguns dos vivos que iam chegando para dar os pêsames à família e ficar de pé, a velá-lo na capela funerária da basílica da Estrela. Cabisbaixos, sérios, de olhos pisados. Quantos deles tinham sido seus inimigos e continuavam seus detractores! Em Portugal era mesmo assim: a morte comovia os espíritos maus e as línguas maldizentes, numa reconciliação unilateral de que só não participava quem já não estava vivo”.

Em Portugal? Cada alma “fala” do seu território de amor e ódio. Lugar Caído No Crepúsculo escolhe como seus protagonistas indivíduos que haviam ocupado diferentes estratos sociais e financeiros, inclusive ainda um aristocrata bem-feitor, um corretor da bolsa, e, como não podia deixar de ser, um escritor, simplesmente chamado S. B., tornado cronista numa dessas estações infinitas do Além, encarregado de relatar a sorte sua e de todos os outros, agora para sempre residentes onde “não existe literatura: as palavras, aqui, não são tidas nem achadas para nada”, os críticos também totalmente dispensáveis. Albuquerque, o relator do Purgatório (tinha de ser…) a certa altura deixa-nos cair um bocado de informação mais do que pertinente para os leitores ilhéus como eu, reaviva a memória dos vivos caso tenham esquecido o seu lugar no mundo: “Há ainda aqui, vede-a, a mais errante e vadia de todas as alminhas que até hoje conheci: vai e volta sobre o mar das ilhas dos Açores, onde chega sempre ao cair da luz do dia”. Quem leu e recorda O Meu Mundo Não É Deste Reino saberá o espanto e terror que vêm a seguir. Se este romance utiliza as imagens e metáforas tornadas universais pelas crenças inerentes à civilização ocidental, aqui na sua versão portuguesa e católica, é do nosso momento presente que se ocupa, é a “realidade”, a sociedade, que lhe fornece o fio condutor não do mistério mas, sim, da história, tal como a vivemos no nosso quotidiano, mesmo sem disso estarmos necessariamente conscientes, a vida privada e pública como repositórios da nossa memória, como motivos que nos orientam no modo como nos relacionamos e agimos ao lado de e perante os outros. Não há nada para além de nós como seres vivos e actuantes. A consciência de cada um determina tudo o que se faz e diz, seguido pela sua merecida redenção ou feroz punição. Eis a presença da história a que, como alguém já escreveu, não poderemos escapar, cada vida um triunfo ou uma rendição irremediavelmente condicionada pela natureza da comunidade em que vivemos. Perante a força colectiva organizada em governos e leis, cada um terá de optar pelo seu comportamento ante todos os outros, generosidade ou tirania a escolha sempre obrigatória de qualquer ser humano ou estrato social. O juízo final, pois, é sempre nosso e dos que nos rodeiam e nos sofrem, ou em nós se completam.

As linguagens de Lugar Caído No Crepúsculo são inconfundivelmente do romancista João de Melo desde as suas primeiras grandes obras. Aliás, muitos do subtemas deste romance farão lembrar outras páginas já aqui mencionadas – a virtude e o pecado de estarmos vivos, a verdade do fantástico e do etéreo tão pesada e concreta como a pedra no meio dos nossos caminhos. As tradições literárias têm as suas origens na complexidade das culturas e mundividências de cada povo na sua geografia muito própria. As que temos por serem supostamente “racionais”, o suposto “realismo” da sua arte, não passa de um mero encobrimento do que é comum à Humanidade – o medo da morte, a presença e a incerteza do Além, a culpa que corrói a consciência quando sabemos da injustiça, da maldade, da opressão de uns contra outros. A obra de João de Melo reencontra esse outro lado do nosso ser – “a evidência das coisas não visíveis” é tão determinante para o nosso viver como o pão de cada dia. Esse “realismo fantástico”, de que nos fala o autor, é tão-só uma tentativa de aproximação à completude do nosso ser.

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João de Melo, Lugar Caído No Crepúsculo, Lisboa, D. Quixote, 2014.

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