De João de Melo e dos nossos reinos de aquém e de além

Lugar caído no crepúsculo

E, assim, eis-nos aqui, condenados a um Limbo eterno. Sem tirar nem pôr

João de Melo, Lugar Caído No Crepúsculo

 

Vamberto Freitas

Em primeiro lugar, um retorno bem-vindo a João de Melo, que desde O Mar de Madrid (2006) não publicava um romance de fôlego. É certo que fez sair entretanto um conto ilustrado por Paula Rego, O Vinho, e a novela A Divina Miséria. Estamos de regresso, como leitores, ao realismo fantástico, que o autor insiste em assim denominar para se demarcar do realismo mágico latino-americano, o que havia instaurado alguma confusão em certas cabeças críticas desde que a sua obra prima, O Meu Mundo Não É Deste Reino, foi publicada em 1983, o romance de fundo inteiramente açoriano, e que seria de certo modo eclipsado pelo fulgurante Gente Feliz Com Lágrimas, hoje a sombra perseguidora de toda a escrita do autor, e que levaria o próprio título a ser incessantemente referido ou parafraseado nos mais diversos contextos da escrita nacional. A maioria dos escritores agradeceria, estou em crer, tal honra e ponto referencial, mas, para além da crítica em busca de mitos ou pontificações seguras, para erguer ou demolir uma obra alheia, mais ninguém o quereria. Cada autor escreve sempre o mesmo livro? Poderá ser, mas cada volume dele saído completa o antecedente, e poderá do mesmo modo anunciar uma porta aberta para outras dimensões da experiência humana numa determinada geografia e tempo. Este Lugar Caído No Crepúsculo é tudo isso – a continuidade de temas anteriores, como os personagens nas suas contingências históricas e nas suas irreprimíveis preocupações espirituais, a busca de respostas à certeza da morte. Uma advertência, que me parece de importância maior aqui: este novo e magnífico romance não é sobre as almas que nos falam do Além, é sobre nós neste preciso momento, a viver num país chamado Portugal, sempre a balouçar entre um indefinido limbo e o nada. Não é sobre os mortos que já têm destino certo, é sobre nós na incerteza perpétua de como existir por entre a garotagem que é a Humanidade, ou boa parte dela. Resta-nos apenas a vida vivida, que é a única dimensão que nos é dado conhecer, redimidos ou condenados. O resto é mera especulação filosófica.

Não queria despachar assim rapidamente os nossos narradores que vão para o Além, e nos dão conta da sua sorte. A primeira constatação sobre esta magnífica narrativa parece-me essencial para assegurar a certos leitores poucos predispostos neste instante das suas vidas a pensar, ou, ainda mais, a temer a sua inevitável Viagem Maior — Lugar Caído No Crepúsculo junta à sua seriedade e conjecturas teológicas um imparável humor e ironia a que o autor já nos tinha habituado na sua melhor prosa. Depois, ir bem mais além dos ensinamentos catequistas sobre o que fica para lá de nós é como se assistíssemos a um filme que de surpresa em surpresa ora nos faz rir ora encolher-nos de medo ao mesmo tempo. Querem imagens pictóricas, ou uma representação gráfica destes Mundos Desconhecidos? Imaginem Edward Hopper no Limbo (para sempre olhando o mistério pela janela da sua absoluta solidão), Frida Kahlo no Purgatório (eternamente em dor e à procura do seu corpo e destino em pedaços feitos), Goya no Inferno (se fosse nórdico, e ainda mais deprimente), e Michelangelo no Céu, de olhar penetrante e de dedo altivamente estendido ao invisível Senhor. O romance está dividido em cadernos, cada qual sendo um relato de uma alma encarregada de avisar os vivos na terra do que lhes espera. O que mais agarra o leitor não são as descrições do que a alma sem corpo enxerga, mas sim o recontar das vidas, afazeres, sentimentos e intenções que levaram estas multidões de números infindáveis a cada um dos lugares destinados nesses outros reinos. É claro que todos os narradores são portugueses, e logo a Igreja Católica afirmada ou negada nos seus mais dramáticos ensinamentos. Não será fácil conseguir numa ficção como esta um tom de linguagem simultaneamente empolgante e neutro, seguidor ou contestatário da mítica cristã. Por mais improvável que nos pareça, em nenhum momento os narradores desrespeitam as crenças da nossa civilização e teologia, mas recompõem alegremente ou em pavor o Mundo-Outro de que ninguém mais regressa. Tudo começa com uma morte, a de um actor de nome Tomás Mascarenhas, e a viagem na barca do senhor Vicente (sim, é ele mesmo regressado do seu outro teatro herético de tempos muito idos), que da margem norte de Lisboa transporta as almas para o outro lado, a caminho do seu destino final. É no epílogo intitulado “A Luz Perpétua” que, finalmente, um narrador necessariamente omnisciente nos faz a proposta final, sem nunca negar a existência da alma, mas insinuando que não irá pousar em lado nenhum.

“Perdida nos horizontes do Além, a alma – diz-nos da espreita do próprio corpo de que partiu, e agora durante os rituais do seu enterro – sentiu pena dessa morte que a privava, daí em diante, dos seus prazeres quotidianos. Apesar de considerar perfeita e em consonância com a idade, não pôde evitar um assomo de ironia contra alguns dos vivos que iam chegando para dar os pêsames à família e ficar de pé, a velá-lo na capela funerária da basílica da Estrela. Cabisbaixos, sérios, de olhos pisados. Quantos deles tinham sido seus inimigos e continuavam seus detractores! Em Portugal era mesmo assim: a morte comovia os espíritos maus e as línguas maldizentes, numa reconciliação unilateral de que só não participava quem já não estava vivo”.

Em Portugal? Cada alma “fala” do seu território de amor e ódio. Lugar Caído No Crepúsculo escolhe como seus protagonistas indivíduos que haviam ocupado diferentes estratos sociais e financeiros, inclusive ainda um aristocrata bem-feitor, um corretor da bolsa, e, como não podia deixar de ser, um escritor, simplesmente chamado S. B., tornado cronista numa dessas estações infinitas do Além, encarregado de relatar a sorte sua e de todos os outros, agora para sempre residentes onde “não existe literatura: as palavras, aqui, não são tidas nem achadas para nada”, os críticos também totalmente dispensáveis. Albuquerque, o relator do Purgatório (tinha de ser…) a certa altura deixa-nos cair um bocado de informação mais do que pertinente para os leitores ilhéus como eu, reaviva a memória dos vivos caso tenham esquecido o seu lugar no mundo: “Há ainda aqui, vede-a, a mais errante e vadia de todas as alminhas que até hoje conheci: vai e volta sobre o mar das ilhas dos Açores, onde chega sempre ao cair da luz do dia”. Quem leu e recorda O Meu Mundo Não É Deste Reino saberá o espanto e terror que vêm a seguir. Se este romance utiliza as imagens e metáforas tornadas universais pelas crenças inerentes à civilização ocidental, aqui na sua versão portuguesa e católica, é do nosso momento presente que se ocupa, é a “realidade”, a sociedade, que lhe fornece o fio condutor não do mistério mas, sim, da história, tal como a vivemos no nosso quotidiano, mesmo sem disso estarmos necessariamente conscientes, a vida privada e pública como repositórios da nossa memória, como motivos que nos orientam no modo como nos relacionamos e agimos ao lado de e perante os outros. Não há nada para além de nós como seres vivos e actuantes. A consciência de cada um determina tudo o que se faz e diz, seguido pela sua merecida redenção ou feroz punição. Eis a presença da história a que, como alguém já escreveu, não poderemos escapar, cada vida um triunfo ou uma rendição irremediavelmente condicionada pela natureza da comunidade em que vivemos. Perante a força colectiva organizada em governos e leis, cada um terá de optar pelo seu comportamento ante todos os outros, generosidade ou tirania a escolha sempre obrigatória de qualquer ser humano ou estrato social. O juízo final, pois, é sempre nosso e dos que nos rodeiam e nos sofrem, ou em nós se completam.

As linguagens de Lugar Caído No Crepúsculo são inconfundivelmente do romancista João de Melo desde as suas primeiras grandes obras. Aliás, muitos do subtemas deste romance farão lembrar outras páginas já aqui mencionadas – a virtude e o pecado de estarmos vivos, a verdade do fantástico e do etéreo tão pesada e concreta como a pedra no meio dos nossos caminhos. As tradições literárias têm as suas origens na complexidade das culturas e mundividências de cada povo na sua geografia muito própria. As que temos por serem supostamente “racionais”, o suposto “realismo” da sua arte, não passa de um mero encobrimento do que é comum à Humanidade – o medo da morte, a presença e a incerteza do Além, a culpa que corrói a consciência quando sabemos da injustiça, da maldade, da opressão de uns contra outros. A obra de João de Melo reencontra esse outro lado do nosso ser – “a evidência das coisas não visíveis” é tão determinante para o nosso viver como o pão de cada dia. Esse “realismo fantástico”, de que nos fala o autor, é tão-só uma tentativa de aproximação à completude do nosso ser.

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João de Melo, Lugar Caído No Crepúsculo, Lisboa, D. Quixote, 2014.

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