Eugénio Lisboa, ou a autobiografia como arte

Capa Acra Est fabula IV (1)

Aproxima-se o dia da partida. Meio deprimido, meio eufórico. Por um lado, quebrar raízes, deixar tudo. Por outro, mudar de vida, libertar-me…

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula

/Vamberto Freitas

Se num outro texto a propósito destas memórias disse que ler Eugénio Lisboa era um dos poucos prazeres literários, em língua portuguesa, que me restavam, direi agora que, após a leitura deste recém publicado volume de Acta Est Fabula Memórias-IV-Preregrnição: Joanesburgo, Paris, Estocolmo, Londres (1976-1995), a espera dos (anunciados) próximos dois livros que cobrirão outras fases da sua vida até aos nossos dias, esta vida desde sempre em trânsito de país em país conforme as forças históricas que abalaram e abalam o mundo que nos foi dado conhecer ou viver, não me é nada menos motivo de espera, digamos, feliz. Antes de mais, deixem-me afirmar aqui – que me desculpem os caçadores habituais de imortalidades sonhadas – que algumas das peças literárias da modernidade que mais perduraram na literatura ocidental foram precisamente, nalguns casos muito distintos, as biografias e autobiografias, ou meras conversas com. Não quero insinuar seja o que for sobre as memórias aqui em foco, mas tão-só relembrar a certos escritores entre nós que os seus preconceitos contra o género demonstram mais ignorância do que saber. Foi-me sempre uma questão de riso quando entre nós quase todos autores se demarcam do género, torcendo-se e retorcendo-se para garantir que a sua “ficção” nada tem de “autobiográfico”, por isso supostamente a sua temática e estética são de todo “universal”. Eis aqui alguns exemplos, em três línguas, culturas e tempos bem diferentes ou distantes: The Life of Samuel Johnson (1791), de James Boswell, tendo Johnson sido o fundador da crítica literária, pelo menos em língua inglesa, como me afirmavam, sorridentes, os meus mentores americanos; Conversations with Goethe (1836-1848), de Johann Peter Eckermann, e que Edmund Wilson viria a dizer que eram mais entradas de um “diário” do que uma “biografia”, em nada reduzindo o valor e perduração da obra com essa reclassificação. A propósito, Wilson, que era averso a entrevistas de qualquer espécie ou por qualquer meio (nem se fale da sua ausência militante de encontros literários e conferências da espécie universitária), não poderia ter imaginado em vida que viria a ser um dos críticos e ensaístas do século passado mais biografados no seu país, muito mais ainda do que a maioria dos ficcionistas e poetas da mesma época. Uma vez mais, ironias de vidas e percursos. Quando a rebelde (à esquerda), mas hoje canónica, The New York Review of Books foi fundada em Nova Iorque em 1965 por intelectuais independentes, um dos primeiros colaboradores de prestígio a ser convidado foi precisamente a figura nemesis de tudo quanto tinha a ver com formalidades académicas, e que só publicava em revistas lidas pela classe culta – Edmund Wilson. Sempre irónico e desestabilizador de ideias feitas, Wilson entregou logo para o segundo número do periódico uma auto-entrevista sob o título risonho e de gozo, “Every Man His Own Eckermann”. Ainda o ano passado, Robert B. Silvers, um dos seus fundadores e coordenadores da Review, quando foi galardoado pelo Presidente Barack Obama com o National Humanities Medal, recordou Wilson como tendo sido uma das figuras mais respeitadas e inspiradoras da sua geração. Era “a pessoa que todos nós mais admirávamos, que mais para nós significava”.

Eugénio de Lisboa é um leitor de Edmund Wilson, voltando a menciona-lo de passagem mais do que uma vez nestas suas memórias, mas mesmo que não fosse eu não deixaria de colocar os dois nomes aqui lado a lado. Se Wilson é para mim um mestre em tudo que se refere à literatura modernista americana, Eugénio desde há muito que me ensinou a olhar para a nossa literatura como algo mais do que um exercício esperto de egoísmo e de palavras bordadas dizendo pouco ou nada, num êxtase auto-satisfeito, parafraseando o grande bardo inglês, significando nada. Este volume de Acta Est Fabula leva-nos pelas geografias e tempos anunciados no próprio título, quando o autor se vê obrigado a abandonar Moçambique, a sua terra de nascença e formação como homem e cidadão, e a replantar as suas raízes em Portugal e na Inglaterra. Há um facto de que se podem congratular os leitores e admiradores da sua vasta obra, que inclui Crónica dos Anos da Peste, O Objecto Celebrado, Portugal Monumenta Frivola, e, mais recentemente, Indícios de Oiro – depois da turbulência dos primeiros dois anos do 25 de Abril o país soube pelo menos auto-dignificar-se colocando-o primeiro como Conselheiro Cultural na nossa Embaixada em Londres, e depois como presidente da Comissão Nacional da UNESCO em Portugal, permitindo-lhe assim continuar a desenvolver o que deste há muito já vinha fazendo desde Lourenço Marques, ou seja, alguma da melhor ou exemplar crítica e ensaísmo literário entre nós, num trabalho sem par ante as obras de José Régio e Jorge de Sena, assim como em volta de alguns outros autores, hoje integrados no cânone da literatura contemporânea portuguesa. Durante os seus dezassete anos de Londres, foi muito além do que o Estados português prevê, ou sequer entende, como divulgação cultural entre outros. Parte desse seu projecto – para além da sua presença activa em inúmeros congressos e encontros literário-culturais de toda a espécie durante aqueles anos, quase sempre a expensas próprias – fez com que se publicassem em tradução os nomes fundamentais da nossa escrita, desde Eça de Queirós a Fernando Pessoa. No caso do poeta de Ode Marítima faria sair em 1995, em colaboração com L. C. Taylor, o precioso A Centenary Pessoa. Não foi pouco, e quem conhece o nosso acanhamento dinamizador, quando não de má vontade e constrangimentos financeiros impostos por governantes que ele várias vezes chama aqui de ignorantes, e por isso pouco inclinados para grandes questões puramente intelectuais ou do espírito, sabe do que falo, mesmo que se trate de um país estrangeiro tão próximo e importante em toda a nossa história como a Grã-Bretanha.

Mais do que isso, Acta Est Fabula é um tesouro de nomes e tópicos da literatura mundial do século passado, em que a nossa naturalmente ocupa um espaço privilegiado. Algumas das páginas mais pungentes nestas memórias são precisamente as que nos vão dando conta do estado interior de Eugénio Lisboa, assim como a dos seus mais próximos: o enfrentar as mudanças radicais que a sua saída definitiva de África impuseram, o ter de recomeçar a sua vida já aos quarenta e tal anos de idade, e num tempo e país como o nosso, na altura de rastos e sem rumo inteiramente definido. O exílio de Londres, a vida em diáspora, foi ironicamente o relançar de raízes saudáveis em terra que depressa deixou de ser estranha, tornando-se a sua zona de conforto, palco dos seus maiores prazeres literários e culturais em geral – livros, música, teatro, tudo o que em Eugénio Lisboa se verte depois em criação própria, em ensaios e livros que hoje são de referência para os seus leitores espalhados por várias partes do mundo. Para mim, ler alguns breves mas incisivos passos, como acontece nestas páginas, sobre escritores e poetas como Hélder Macedo, Alberto de Lacerda e Rui Knopfli, com quem o autor viveu de perto toda uma vida, foram para mim de uma revelação fulminante, pelo respeito que também nutro por eles e pelas suas grandes obras desde os meus anos americanos. São estes e alguns outros os autores da literatura da nossa infindável peregrinação, da nossa irresolúvel questão com Portugal, do nosso olhar simultâneo, e tantas vezes conflituoso, de quem está fora e dentro. Se a Europa, e muito mais mundo, foram sempre as suas significantes pátrias literárias, a memória de África fornece-lhe as forças essenciais no refazer constante da vida.

“Penso que até agora – escreve numa das muitas entradas de diário entremeadas nas suas memórias, esta datada de 1983 – nada fiz a não ser preparar-me. Para quê? Julgo que a minha experiência africana (que é quase toda a minha vida) me deu uma base, uma estrutura rica e completa de ingredientes e, o que é mais, uma plataforma, um ímpeto, um mergulho vertiginoso em tudo quanto no mundo é importante e profundo – que não posso desperdiçar. Não se trata de um aproveitamento a frio. É alguma coisa de tão vital que, se não faço dela uma construção sólida e forte, fica dentro de mim a apodrecer – e a apodrecer-me…”

Estes volumes de Acta Est Fabula não são agora as memórias de Eugénio Lisboa. São uma comovida peça literária sem igual na nossa literatura moderna. Passam a fazer parte da própria memória de quem fomos, e de quem pensamos ser. É raríssimo o acto literário que consegue brotar de uma só vida para ser também como que uma autobiografia de outros mundos nossos, dispersos nas nossas aventuras do longe, concentrado nas nossas angústias no território-pátrio.

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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula Memórias-IV-Pregrinação: Joanesburgo. Paris. Estocolmo. Londres (1976-1995), Guimarães, Opera Omnia, 2014.

 

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