Cavalgadas eruditas, ou um romance da nossa intelectualidade

Capa Rapariga Celta

Da romagem das mal-amadas que atravessa o congresso, da mui apreciada timidez de Mimi, da entrada triunfal do Secretário de Estado de Congressos e de outras intermitências menores, para delícia dos novos escritores que a sala silenciosamente alberga.

Artur Veríssimo, Rapariga Celta Sentada num Javali

/Vamberto Freitas

Bem sei que com esta longa epígrafe já queimei parte do meu espaço aqui permitido, mas tinha de ser, pois resume perfeitamente Rapariga Celta Sentada num Javali, este inusitado, corajoso e, entre nós, absolutamente original romance de Artur Veríssimo, açoriano terceirense, antigo professor e formador do ensino secundário, autor de outras ficções menos conhecidas mas premiadas, nomeadamente A serpente está escondida na relva. Desde os romances de Jorge Amado que eu não ria tanto com os próprios títulos descritivos de cada capítulo, e nunca, agora falo no plural, tínhamos lido um romance “académico” de um escritor açoriano bem conhecedor do meio, a vários níveis institucionais, ele próprio participante activo e constante nos encontros literários, profissionais e escolares, que se tornaram uma indústria em toda a parte, inclusive nos Açores. O chamado “campus novel” tornou-se desde há muito no mundo anglo-saxónico um sub-género literário que criou para si um imenso culto de leitores, dentro e fora das academias, com Mary McCarthy nos EUA, The Groves of Acadame, e com o britânico David Lodge, Small World/O Mundo é Pequeno. Em Portugal destaque-se O Professor Sentado, de Carlos Ceia. São alguns exemplos entre dezenas de nomes e obras, mas são três dos meus preferidos, a que se junta agora o livro aqui em foco. Permitam-me ainda afirmar que um romance deste género requer não só conhecimento aprofundado do mundo letrado em geral, desde as mais obscuras mas fundamentais questões “teóricas” em debate numa qualquer sociedade e momento, mas acima de tudo audácia e maturidade intelectual, sujeitando o seu autor desde logo às mais azedas críticas, umas frontais, a maioria delas pela calada. Os intelectuais geralmente gostam de “criticar”, e não de ser “criticados”, muito menos gostam de ser objectos de riso e humor, que despem impiedosamente as suas pretensiosidades de vária natureza, arranham, por assim dizer, o seu altivo egoísmo, a sua colossal auto-imagem, quase sempre desproporcional em relação a um vasto mundo em redor – local ou transfronteiriço na pós-modernidade que vagamente define a nossa condição, essa que outros, ainda sem qualquer ironia ou sentido de humor, chamam de “pós-humana”. Rir disto tudo é preciso, parafraseando o outro. Uma última observação, que me parece essencial para melhor entendermos esta ficção. São quase sempre os próprios escritores e figuras circundantes na academia que mais lêem e comentam este género de escrita – nada como uma representação do que conhecemos por dentro, ou nos toca ora como punhal ora como afago. Espelho, espelho meu…

Rapariga Celta Sentada num Javali é de uma precisão estrutural notável, cada passo

recorre à paródia não só das formalidades da escrita académica, ou da espécie “científica”, como teatraliza comicamente as hipótese hermenêuticas de um texto qualquer sob discussão em encontros supostamente especializados. As suas personagens principais são nossas contemporâneas, mas declaradamente insinuantes de figuras da nossa história, o protagonista sendo de nome Viriato, e a ruiva “celta” de nome Brianda, sensualmente avantajada, os seus encontros íntimos nos intervalos de sessões chatas e banais muito mais esperados e desejados, nestas ocasiões, em quartos de hotel e noutros recantos escondidos. Viriato, que atirava pedras aos romanos, e a Brianda que atirava toiros aos espanhóis, estão aqui reencarnados, reinventados. Mais óbvio do que isso, só a presença de nomes concretos e conhecidos da literatura portuguesa, na qual a dos açorianos ocupa necessariamente lugar proeminente nesta narrativa, e que o autor – não o narrador – menciona numa nota de agradecimento e, creio, homenagem sincera. Como nas melhores narrativas ficcionais pós-modernas, o seu tema envolve simplesmente a desestruturação das formalidades escolásticas num mundo de ideias abrangentes, e que se têm por ser essenciais à salvação da humanidade, o furar de balões mentais demasiadamente cheios de ar e de nada, a contextualização relativista de tudo e todos. O riso, aqui, não fere nem dói a ninguém, o humor incessante com que se vê ou se descreve cada personagem e situação ocasional no congresso em curso em Angra do Heroísmo (Palácio dos Capitães, com o Prior do Crato em frente…) interpela impiedosamente muitas das assumpções do nosso lugar na história do país e do mundo. A melhor ficção deste género é feita disto – nas questões aparentemente irrisórias, nas míticas instantâneas lançadas desavergonhadamente por “estudiosos” e outros “pensadores” obscuros, o leitor vai-se dando conta de que nos estudos humanísticos tudo flui, tudo é incerto, nada é permanente, muito menos “científico”, a comédia nasce das falas dos que pretendem fazer passar o contrário. Como dizia o nosso povo em tempos idos – não entendi nada do que disse o senhor, mas fala muito bem. A ambiência de toda a narrativa é sugerida pela observação dos pormenores comportamentais tanto dos palestrantes como dos que assistem calados ou então venenosamente comentado em voz baixa com o vizinho ao lado o que pensam de tudo o que está a ser dito e de quem o diz, olhando sorrateiramente os movimentos de entrada e saída na sala, conjeturando quem vai visitar o quarto de quem no hotel em que suas excelências estão hospedadas. Pedagogia, literatura e, já se sabe, sexo – eis a essência de muitos afazeres na Rapariga Celta Sentada num Javali. Entre a sala de trabalhos e os comes e bebes habituais no lado de fora cabe o mundo todo, o falso abraço de colegas e o beijo sujo de pastéis e café muito mais salientes do que qualquer preocupação com o destino do mundo em volta. A arte literária destas páginas nasce desta mixórdia de gente e ideias, como noutras circunstâncias nasce em oficinas pouco recomendáveis para quem gosta de ver as coisas nas suas formas equilibradas, ordeiras, na sua beleza final.

Os detalhes da trama ficam para cada leitor, direi só que, de um modo interpretativo à maneira forçada destes pensadores e artistas no seu congresso angrense, vejo o seu final como que uma outra alusão a um grande romance nosso, nada menos do que Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. O ilhéu tem o seu destino marcado – parte sempre num barco rumo a algures, salva-se sempre pela fuga e aventura. Por certo que nem Viriato nem Brianda são das Velas ou da Horta, ou das Fontinhas, como o estudante de Nemésio, mas exerço aqui o meu direito, uma vez mais, a uma outra leitura. Aliás, estamos todos metidos nesta prosa, nomeados ou não, nem os críticos se safam, lembrando o narrador que eles fazem parte daquele grupo que aparece sempre nos congressos a aborrecer com textos, poemas e outra prosa inédita em busca de leitores. O pior é que o contrário é ainda mais comum e grave. Artur Veríssimo sintetiza quase à perfeição toda uma classe intelectual e os seus tiques, a “açorianidade” parodiada em nada diferente da “universalidade” fabricada de quase todos os outros, desde a Ilha Terceira à Ilha de Manhattan. Este não é um romance de indivíduos, mas sim de tipos, a simbologia e alusões literárias sobrepondo-se quase sempre à caracterização dos personagens.

Que ninguém seja tentado a fazer uma leitura deste romance sem reconhecer página a página a essência de uma paródia original a mundos a que pertence o próprio narrador, inevitavelmente o alter-ego de quem o inventou e lhe deu voz. É também assim que a literatura se torna um espelho poliédrico de nós próprios. Eis um capítulo marcante: “De como Onésimo Teotónio Almeida foi substituído na apresentação do livro Sumários e Revisões, de J.M.C., dos muitos apartes que fizeram a história do evento, da revoada de patos-bravos e da congressista do Pico que fazia casaquinhos de malha”. O orador que toma o lugar do conhecido professor e escritor da Brown University não é bem recebido, apesar de ser o autor de um livro com o título de A serpente está escondida na relva, também conhecido por Artur Veríssimo para o leitor mais atento. Com as palavras me matas, com as palavras morres. “Vim por causa do Onésimo – gritou um dos presentes, secundado por significativo bruaá de aprovação. E continuou:- mais uma vez, temos de comer gato por lebre…”

Rapariga Celta Sentada num Javali: Uma História de Amor, de solidão acompanhada e de generosos delírios (muito) académicos. Capitães Generais. Angra do Heroísmo. Cidade Património da Humanidade. Capital da Cultura nos Açores. Ironias.

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Artur Veríssimo, Rapariga Celta Sentada num Javali, Lisboa, Chiado Editora, 2014.

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