Contos do cerco sem fuga

Capa Mau Tempo e Má Sorte

Aquele lugar era conhecido pela inigualável má sorte da sua gente.

Leonor Sampaio da Silva, Mau Tempo e Má Sorte

Vamberto Freitas

Primeiro do que tudo, as circunstâncias da publicação desta primeira ficção reunida em livro de Leonor Sampaio da Silva. Mau Tempo e Má Sorte: contos pouco exemplares é o livro vencedor da primeira edição do novo concurso literário do Governo dos Açores, através da Secretaria Regional da Educação e Cultura/Direcção Regional da Cultura, que traz o nome de “Prémio de Humanidades Daniel de Sá” (2014), visando o reconhecimento bienal de obras escritas por autores nacionais ou estrangeiros que abordam, em diversas categorias e géneros, temáticas referentes ao nosso arquipélago. Não sei, nem tenho de saber, com quem concorreu a presente obra, mas posso dizer sem quaisquer dúvidas que, com ou sem prémio, merecem estar cá fora, valem, e muito, por si. Creio que a autora já tinha publicado um ou outro conto em periódicos de vária natureza, mas só numa sequência em livro atingem todos eles o estatuto a que têm pleno direito – uma narrativa tematicamente unificada, recriando todo um imaginário de uma comunidade e de um tempo, a própria “caracterização” dos seus mais diversos personagens a confirmação de que estamos perante uma ficcionista a ter em conta a partir deste momento. É certo que a publicação de um livro que já atravessou a avaliação crítica de um seleccionado júri de leitores que, por inerência, tiveram de ler alguns outros escritores ou aprendizes contemporâneos, coloca-o desde logo numa posição privilegiada, garante-lhe de certo modo a leitura atenta dos que fazem da literatura uma fonte de prazer, formação, informação. Só que essa premiação não anula nem a surpresa nem a expectativa que os seus leitores passarão a alimentar a partir destas páginas agora publicadas. Um primeiro livro de ficção é, por certo, uma obra autónoma que se manterá – ou não — na memória literária de um país ou cultura, mas é necessariamente algo mais, quando recebe aplausos legitimadores, institucionais e/ou independentes, prenuncia uma obra de que se espera agora ser continuada, ou confirmada, na sua coerência formal e temática. Estou em crer que os leitores mais sérios deste Mau Tempo e Má Sorte vão ser agradavelmente surpreendidos na leitura destas narrativas, e logo quererão mais. Para lá de toda a responsabilidade institucional de uma doutorada em estudos anglísticos, a autora micaelense tem demonstrado desde o início da sua carreira que existe mais “verdade” e “beleza” para além dos academismos obrigatórios dentro e fora da sala de aula. Alguns dos títulos que antecedem estes contos dão-nos claramente essa ideia, como Um pacto com as artes, 30 anos da Academia das Artes nos Açores, e, em co-autoria, Aquém e Além de São Jorge: memórias e visão e Um Observador Observado.

Lembremos que o título desta colectânea de contos remete de imediato para dois dos mais canónicos nomes da literatura portuguesa, separados por mais de cinco séculos, Camões no soneto “Má fortuna, erros meus, amor ardente”, e Vitorino Nemésio no seu clássico do século passado, Mau Tempo no Canal. Não se pense aqui, no entanto, em qualquer tentativa dialógica entre textos, e menos ainda, creio, em qualquer ansiedade de influência, nem sequer no seu sub- título, quando também nos remete para Sophia de Mello Breyner. Só que a referência é notória, e deve querer dizer qualquer coisa, nem que seja tão-só a leve paródia literária do classicismo e da modernidade na nossa língua, os sentimentos e as geografias dando continuidade às gerações conscientes das suas origens e textos fundadores da universalidade da nossa arte literária. Em Mau Tempo e Má Sorte estamos situados na ilha, numa ilha que só poderia ser açoriana quando os narradores e narradoras da autora assumem por inteiro a sua fatalidade de relatores, na primeira ou terceira pessoas, dos que giram à sua volta, e com eles e elas partilham um lugar e uma tradição. Se os espaços cercados destas narrativas são meros símbolos de uma cultura que historicamente quase não conhece fronteiras, os seres reinventados para lhe dar corpo e voz representam aqui do mesmo modo a humanidade em todo o seu esplendor e miséria, a comédia humana revista agora por entre as idiossincrasias desta outra geografia, tempo e mítica. Tudo isto levará qualquer leitor atento, também de imediato e a partir logo das primeiras linhas desta prosa, ao riso reparador provocado pela ironia e o humor incessantes, pela sátira esmagadora, não poucas vezes, com que estas atropeladas vidas imaginadas são contadas e contextualizadas. Várias vezes na leitura destes contos quase me esquecia da própria língua, e me pensava a ler alguma da melhor literatura sulista americana – a pequenez do lugar, o isolamento das comunidades, a história sempre presente, mas incompreendida. Os narradores de Leonor Sampaio olham de uma vez só todo um agregado comunitário na sua totalidade existencial, e ligam, como que ponto por ponto, relacionamentos, complexos, queixas, amores e ódios, tudo localizado e visto num cerco espacial ainda mais pequeno e sitiado do que a própria ilha. Cada acontecimento na (in)acção destes tramas, cada personagem, cada diálogo ou descrição consegue o que de melhor tem uma peça literária autónoma: integra-se, assim mesmo, em toda uma Tradição, enquanto inventa uma outra maneira de olhar e contar. As linguagens destes contos são feitas tanto da erudição insinuada dos narradores, como de saberes populares, movimentam-se livremente entre a descrição convencional desta gente e suas vidas, com os dizeres, crenças e superstições que subjazem a própria comédia teatral em que se tornam todas estas narrativas. Desde a esposa que se suspeita traída e velhas burguesas ridículas e psicossomáticas a famílias rurais extensas e comicamente alinhadas em usos e costumes a bêbedos de taberna, estas ficções começam com uma viagem a Lisboa e acabam com duas amigas a enviar mensagens crípticas no telemóvel sobre amores e ódios, o mundo citadino uma mera continuação da ruralidade acéfala em que se encontram todos, a geografia indo de uma Ponta Folgada a uma terra de nome Asa de Grilo, a ilha, uma vez mais, tornada palco em miniatura da loucura e excentricidades sem fim de cada um e de todos.

“Esforço-me, contudo, – diz um dos narradores em ‘O enredo’, a metaficção como que parodiada, tal como tudo e todos nestas estórias, a perfeita auto-análise crítica de toda a escrita que vem antes e depois – por ultrapassar a minha limitação. À força de tanto escutar estas ficções desenvolvi uma paixão científica pela fauna que as povoa (criativos vorazes, personagens pecadoras, ouvintes/espetadores esfomeados); pelos temas que as animam, invariavelmente centrados no amor desfigurado pelo sexo, no dinheiro manchado pela corrupção, na amizade tingida de malvadez; pelo tom de voz com que passam de boca pequenina em boca maiorzinha. Tenho registado algumas delas, tão ao gosto popular, intemporais na temática, universais no interesse que suscitam, eternas nas feridas que infligem, efémeras nas verdades que declaram …”

Estes contos concorreram ao referido prémio sob um nome masculino, Orlando Paz. Não vou especular aqui sobre a que autores ou autoras se refere, possivelmente, Leonor Sampaio, mas se tivesse escolhido “Praz”, eu iria de imediato para The Romantic Agony, e viria em Mau Tempo e Má Sorte uma outra espécie de cómica subversão e, insista-se, paródia, da “sensibilidade erótica” que é desconstruída, segundo alguns críticos, pelo ensaio clássico de Mário Praz. Duas observações que acho necessário fazer ainda – a autora consegue impor a estas narrativas tanto a voz masculina como feminina, um feito nada fácil de conseguir na literatura, em qualquer um dos seus géneros. Tudo aqui é sugerido, cada conto uma fatia-de-vida sugerindo os modos de ser e estar dos personagens, toda a ambiência maior em volta, cada um ou todos representando no seu palco os afazeres quotidianos e angústias permanentes, sociais ou íntimas, o indivíduo e sociedade em consonância tradicional e herdada, ou então a rebeldia escondida, sobretudo de algumas mulheres em luta pela libertação da modernidade contra o passado, ainda perpetuado em rituais sem sentido, em valores mais cómicos do que virtuosos. A crueza realista confunde-se frequentemente com a metaforização dos seres e da natureza açoriana, literatura e sociedade em perfeita consonância. Uma vez mais, Mau Tempo e Má Sorte parece também querer gozar de alguma literatura associada às ilhas nestas últimas décadas, como no conto “A depressão frontal”. Tanto melhor – nada como estes sinais de que outras visões artísticas em sociedades geograficamente cercadas, mas intelectualmente vivas e parte actuante num mundo de movimentos imparáveis, de dentro para fora, e de fora dentro. A literatura como espelho – reflexo distorcido, mas também ora claríssimo ora de sombras no que nos singulariza e aproxima de todos os outros.

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Leonor Sampaio da Silva, Mau Tempo e Má Sorte: contos pouco exemplares, Açores, Secretaria da Educação e Cultura/Direcção Regional da Cultura, 2014.

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