De José Medeiros Ferreira e de nós*

Capa José Medeiros Ferreira

O passado não está morto. Nem sequer é passado.

William Faulkner

/Vamberto Freitas

Permitam-me começar, antes de falar em influências intelectuais e afectos pessoais, pela sua presença em nossa casa aqui no Pópulo, em São Miguel, de janelas viradas para oeste e para leste, para as nossas (minhas e da Adelaide) duas pátrias no outro lado do horizonte, aqui em tudo presentes em pé de total igualdade, Portugal e a América do Norte. No espaço de trabalho que era o da Adelaide está emoldurada uma foto a preto e branco de Medeiros Ferreira em conversa com ela, e deduzo que o entusiasmo dos dois sobre questões açorianas estava então ao rubro, pois tudo era ainda uma promessa de poesia e literatura numa terra liberta, anos antes ainda da queda e depressão do nosso país a todos os níveis, deveriam estar a falar nas esferas de actividade humana, tal como alguns outros entre nós, em que estavam profundamente envolvidos — a cultura como via para a dignificação dos povos, e muito especialmente de povos como o nosso, que durante quase cinquenta anos só tinha conhecido um cativeiro ilhéu e miséria. Adelaide parece estar a pontificar. Poderia ser sobre uma destas suas paixões literárias, Moby Dick, The Great Gatsby ou Gente Feliz Com Lágrimas, ou sobre os Açores e a América em geral. Medeiros Ferreira, a sua mão segurando Emersos Vestígios, de E. Bettencourt Pinto, olha-a atentamente, com um leve sorriso na cara, que se adivinha de concordância ou cumplicidade. Em qualquer dos casos, é de mundos comuns que falam, mesmo que ele nunca tenha vivido nos Estados Unidos – era um açoriano culto e descomplexado, e só isso bastaria para que ele não só estivesse consciente da pertinência das conversas de então, como as incentivava e nelas participava. Mais do que isso, identificava-se por inteiro com as nossas obsessões identitárias e literárias, essa nossa tentativa sempre em curso de conjugar os mundos múltiplos da nossa gente, essas duas pátrias de salvação e regeneração, a literatura como elo superior do nosso passado e memória, da íntima dualidade que tem sido, quer a nossa elite entenda ou não, o primeiro e mais poderoso vector da história de toda a comunidade açoriana dispersa pelo mundo. Tudo isto tinha vivido Medeiros Ferreira ele próprio, desde que saiu da ilha de S. Miguel rumo ao continente português, e pouco depois à Europa do Centro, de onde só voltaria como homem formado e cidadão comprometido com a libertação do seu país. Tinha vivido a liberdade e a cidadania na Suíça, enquanto muitos dos seus colegas e compatriotas o haviam também feito cá dentro, mas só olhando sobre o ombro e baixando a voz. Na foto, ela falava, e ele ouve – o que era mais um exemplo da sua maneira de ser e estar entre nós aqui nas ilhas. Quando pensávamos que uma conversa havia sido passageira e esquecida por ele, enganavamo-nos. Num ensaio, num livro, numa conferência tempo depois, ele citava, contextualizava, concordava ou respondia. Era, para nós, um professor e intelectual público de referência, um amigo e, sempre, um distinto companheiro de estrada na longa e infindável viagem açoriana, os regressos e juras de pertença à nossa Ítaca atlântica parte também do seu destino.

Conheci José Medeiros Ferreira primeiro através dos seus livros, assim como da leitura apaixonada de jornais que eu fazia nos meus esconderijos e anonimato sul-californiano logo depois do 25 de Abril, que vivi tão comovidamente como se estivesse nos passeios da Rua do Ouro naquela manhã a acompanhar as chaimites rumo ao Largo do Carmo. Um pouco mais tarde, sempre na lonjura do Pacífico, identificava-o como Ministro dos Negócios Estrangeiros e eventual co-dinamizador (e teorizador) da nossa entrada na então CEE. Inteiramente formado numa universidade pública do estado da Califórnia, para onde eu tinha emigrado com a minha família em 1964 aos treze anos de idade (as circunstâncias do meu regresso à cidadania portuguesa com a Revolução de Abril não são chamadas para aqui), direi apenas que figuras como José Medeiros Ferreira eram-me mais míticas do que reais, por serem os libertadores e novos construtores de uma pátria agora livre, pela imensa admiração e respeito que por eles nutria. Mesmo depois de Mário Mesquita, por sugestão do nosso comum amigo Onésimo Teotónio Almeida, me ter convidado para escrever para o Diário de Notícias, em 1979, o meu pouco à-vontade em eventualmente conversar com eles deixava-me inseguro, não me permitia senão ouvir em silêncio, e com todos eles reaprender a ser português. Naquela altura, ser “emigrante”, particularmente para as nossas elites políticas e letradas, mantinha-se num estatuto dúbio, respeitável talvez pela possibilidade de remessas que representávamos, mas um mundo à parte e perspectivado, a partir de Lisboa, e não só, através de lentes toldadas por certos preconceitos e estereótipos, abordados que éramos quase sempre com condescendência. A visão sobre nós que viria a clarear radicalmente com o passar dos anos – pela presença e pelo trabalho consistente de figuras precisamente como Mário Mesquita e José Medeiros Ferreira. A miticidade com que eu os olhava era apenas mais um sinal da minha americanização, da minha ignorância de outros mundos em revolução, do meu próprio chão natal – fundadores ou libertadores de uma pátria eram para mim “monumentos”, como se de tempos idos fossem, moradores só das páginas de livros. Que dois deles eram açorianos deveria ter-me sido esclarecedor – não é em vão que se nasce e se pertence a ilhas que mais não são do que os viveiros que Vitorino Nemésio afirmava ser o solo onde somos plantados, só para noutra terra sermos replantados e crescer. O exílio agudiza a saudade, não nos permite esquecer com quem nascemos e onde nos formamos como homens e mulheres, a pequenez também se traduz em solidariedade e sentido agudo, uma vez mais, de pertença. Se eu “via” Medeiros Ferreira como figura “distante” para qualquer diálogo ou convivência, ele via-me, a mim e a todos os nossos colegas e amigos, com a mesma compreensão e aconchego de quem também havia experimentado a solidão de ser cidadão em terras distantes, com a mesma vontade, a mesma necessidade interior, de comunicar sobre as nossas andanças, sobre as consequências de termos sido – ou sermos – o outro no além-fronteiras.

Olho de novo a foto da Adelaide a falar com o nosso amigo Medeiros Ferreira. Eram os anos da nossa euforia intelectual e — porque não? — sentimental, o tempo de todos os regressos a casa, a imagem captada no 4º Encontro de Escritores Açorianos, em 1994 na Praia da Vitória, fazendo-me agora recordar que muitos outros lá estavam, vindos do continente, de quase todas as ilhas açorianas, e, inevitavelmente, das Américas. Medeiros Ferreira nunca (nos) faltava. Eu já tinha ultrapassado a minha reserva de “súbdito” em volta de, e olhando o Olimpo daqueles que eu entendia e entendo ter sido os que me permitiram regressar a uma pátria livre. Era agora o início de uma amizade que em qualquer encontro, cada vez mais frequentes devido à sua vida política e participação académica e cultural em quase todos os nossos projectos virados para a açorianidade, nos levava primeiro a perguntar pela saúde dos que eram e nos são próximos, ou divagar sobre outros “pessoalismos” de igual relevância para a nossa (in)felicidade. Continuei sempre a olhar o nosso amigo com o todo o afecto, e com o respeito de sempre pelo historiador, pelo político, pelo comentador, pelo leitor das nossas literaturas não-canónicas das ilhas e da Diáspora, pelo escritor que num ensaio tanto podia citar a mais autorizada voz em qualquer campo académico como um poeta ou prosador açoriano desconhecido na capital, mas que ele sabia valer intelectualmente mais do que outros sempre na ribalta por favores ou traficâncias diversas. Pensar os “novos” Açores para Medeiros Ferreira era pensar todos aqueles que, da política à literatura, reinterpretavam o passado e reinventavam uma comunidade real e imaginária, uma região portuguesa que raramente tinha conhecido a liberdade e a dignificação de todo o seu povo, dentro e fora do arquipélago.

Olho mais uma vez a foto pendurada no antigo reduto de estudo e escrita da Adelaide. Ela nunca soube da sua morte, nem nunca saberá. Está comigo aqui a minha companheira sentada e com os seus olhos fixos num infinito que é só dela, o seu cérebro corroído pela mais traiçoeira das doenças, que mata a vida antes de matar do corpo. Representam, para mim, ela e o Medeiros Ferreira, um mundo que está rapidamente a desaparecer, mas não me permite senão honrá-los com a crença no futuro, no sonho. Resta a memória. Não há mais nada senão o silêncio perante o mistério.

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*Texto incluído no livro comemorativo José Medeiros Ferreira: A Liberdade Interventiva, Lisboa, Tinta-Da-China, 2015.

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Dereck Wolcott

Tenho sentido sempre desde a adolescência que eu só tinha uma missão, e isso era articular, de um modo ou outro, não a minha experiência pessoal, mas sim o que eu via à minha volta.

Derek Walcott, The Paris Review Interviews

 

Vamberto Freitas

Derek Walcott poderá não ser muito conhecido entre nós, fora de certos círculos literários no país, mas não se trata de um poeta qualquer de língua inglesa Vindo de uma tradição histórica e culturalmente dupla, nasceu em 1930 e viveu a maior da sua vida na ilha de Santa Lúcia, em que Cristóvão Colombo tropeçou em 1502, e que mais tarde viria a ser colonizada pelos ingleses. De descendência afro-caribenha, Walcott cedo se dedicou aos estudos, muito particularmente às duas formas literárias que cultivaria brilhantemente toda a sua vida, até hoje – poesia e teatro, como autor, e dinamizador e encenador de um grupo por ele constituído na ilha durante dezassete anos. A família imediata do poeta foi sempre muito reduzida (o pai faleceu antes da sua nascença, mas deixou-lhe sinais da sua sensibilidade artística em quadros por ele pintados), consistia de sua mãe, professora, e de um irmão gémeo e uma irmã. A sua exímia educação e formação numa casa financeiramente humilde, à época, passou logo para os seus primeiros anos de escola, onde eventualmente tomaria conhecimento de poetas, hoje clássicos, como T. S. Eliot, W. H. Auden e Dylan Thomas. Aos dezanove anos apresentava uma colectânea de poemas à mãe, que lhe deu o dinheiro para viajar até à ilha vizinha de Trindade, e custear a publicação do seu primeiro livro, intitulado simplesmente 25 Poems, pela mão e depois das palavras elogiosas do editor de uma pioneira revista literária naquelas ilhas (Bim), de nome Edward Braithwaite. Antes disso, aos catorze anos de idade, publicara num jornal local o seu primeiro poema, “The Voice of St. Lucia/A Voz de Santa Lúcia”, despoletando logo uma polémica de cariz religioso (Walcott pertencia a uma minoria protestante num meio maioritariamente católico) com um padre local. Estes são apenas detalhes daquele que viria a ser um grande poeta do mundo, ou de como de uma pequena ilha que mais não tinha do que turistas americanos a gozar as praias locais, sem quaisquer apoios, longe de todos os centros tradicionais de movimentação literária e académica, acaba por receber em 1992 o Prémio Nobel da Literatura. Diremos, por agora, que para além da sua grandeza pessoal como poeta ou homem da literatura em geral, teria uma única mas grande vantagem sobre tantos outros em situação geográfica comparável: fala e escreve em língua inglesa. Não é propriamente sobre esses factos ou fatalidades que me motivam estas linhas, mas sim rebater a noção muito prevalecente entre nós de que ser-se “universalista” ou “cosmopolita”, ou “escritor do mundo” requer certas condições ou “atitudes” ante a vida observada e depois descrita, comentada ou meditada – sem nunca ser vivida. Walcott, tal como, por exemplo, um outro Prémio Nobel de condições semelhantes, Gabriel Garcia Márquez, é esse paradigma de perfeita honestidade intelectual e literária, da capacidade de verter qualquer situação ou tradição, por mais desconhecida que seja por parte de outros, em arte, em literatura que chega e comove o mais íntimo dos seus leitores em toda a parte, no original ou mesmo em tradução.

Tudo isto vem a propósito de uma releitura que fiz recentemente da grande entrevista que Derek Walcott concedeu à The Paris Review, nos idos de 1985. Estava a sete anos do Nobel, mas ser entrevistado pela dita publicação é um outro feito de que poucos escritores se podem gabar. Não me vou repetir, mas volto a afirmar que ter um lugar naquela famosa e cobiçada secção da revista resulta de imediato num estatuto literário muito próprio no mundo anglo-saxónico – ou já se é um autor canónico, ou vai passar a sê-lo. A chamada legitimação de uma obra pode vir da academia antes ou depois dessa presença na publicação nova-iorquina, só que agora com uma vantagem inegável. O autor não só vê o seu prestígio confirmado, como alarga consideravelmente o leque de leitores sérios em toda a parte. Na longa conversa que Walcott travou então com Edward Hirsch (este também um poeta reconhecido) à beira do transparente mar azul em contraste com uma realidade humana pouco desejável no outro lado devido à sua pobreza e condições afins, aborda um pouco de tudo, mas o que me interessa aqui é o ponto de partida consistente que Hirsch explora no diálogo com o seu colega. Se Walcott é de uma ilha, e nela vive sempre por entre as suas estadias no estrangeiro como professor e escritor; se é filho de uma geografia e de uma história específicas que valem por igual no rumo da sua gente, o que “sente” o poeta, como se posiciona o poeta ante esse seu destino, e esse seu passado e presente? Assume por inteiro esse seu destino, responde Walcott, chama-o a si, denuncia-o, acarinha-o, não pode nem quer escapar do território que moldou o seu ser, que o viu nascer, e que em si alberga os que lhe são outros significantes. “Abandonar – diz a dada altura ao seu interlocutor a propósito dos seus sentimentos e das suas “convicções” da lealdade de poeta andarilho após a fama que já era sua mesmo antes de ser premiado ao mais alto nível — essa a minha convicção seria trair as minhas origens; seria sentir superioridade em relação à família, ao passado. E não sou capaz disso”.

É certo que para além da poesia inglesa clássica, as suas grandes referências passaram a ser também alguns dos grandes escritores sulistas norte-americanos (em comum, uma história esclavagista, da qual ninguém escapou na realidade e na memória) como William Faulkner assim como inúmeros outros nomes da literatura europeia e latino-americana. Derek Walcott, ao falar da realidade da ilha e como ela penetra quase toda a sua poesia, cita dois poderosas autores europeus originários, como ele, de um passado colonialista britânico, precisamente William Butler Yeats e James Joyce. Fala da noção de como o universalismo está no lado de fora da nossa porta, por assim dizer, e de como a grande arte transfigura um referencial de poucos metros quadrados em metáforas do mundo e da humanidade em geral. Estamos perante um poeta a criar a sua própria tradição, a oferecer às gerações vindouras o palco montado para que possam prosseguir nos seus sonhos artísticos (Walcott também se dedica à pintura, tal como fazia seu pai, ainda hoje referindo os grandes mestres nalguns dos seus versos), muito particularmente na escrita. Relembra ainda que a tradição da retórica na sua ilha está muito enraizada, que a poesia lá nunca é meramente dita, é declamada com todo o fulgor, que a música se funde com a restante cultura – e que dos seus “mestres” ingleses herdaram uma história de sofrimento e marginalidade. Com poucas excepções – a afirmação agora é minha – a história das ilhas sujeitas às chamadas metrópoles pode desviar-se neste ou naquele pormenor, mas converge em muito mais, quando as suas populações a outros obedecem de um modo ou outro, o legado raramente é feliz. Entre a escravatura feudal de Quatrocentos e a racial dos séculos posteriores que venha quem quiser e escolha. Não me foi nem me é difícil, muito pelo contrário, identificar-me de modo intelectual e emotivo com a poesia de Derek Walcott, que, para além do mais, interliga o seu referencial e saberes a toda a grande cultura ocidental, desde os Antigos até aos nossos dias.

“…A presença de onde estás. Isso é uma coisa primordial, e sempre foi assim … Sentia que era sobre isso que queria escrever… Yeats já o tinha dito; Joyce também o disse. É fantástico que Joyce poderia afirmar que pretendia escrever para a sua raça, querendo dizer os irlandeses. Pensar-se-ia que Joyce deveria ter uma mentalidade continental mais abrangente, mas Joyce continuou a insistir no seu provincianismo simultaneamente com uma das mentes mais universais desde Shakespeare. O que poderemos fazer como poetas honestos é simplesmente escrever adentro de um perímetro que na realidade não mede mais de vinte milhas”.

Mencione-se, por agora, alguns volumes pós-Nobel de Derek Walcott, como The Prodigal (2004) e White Egrets (2010). A sua poesia tem sido compilada e recompilada em sucessivos livros, dos quais o mais recente é The Poetry of Derek Walcott 1948-2013. Comece-se por aqui, que se começa muito bem. Uma última curiosidade, especialmente para os eventuais leitores açorianos. Mais do que uma vez nesta entrevista da The Paris Review Walcott refere-se a uma West Indian literature/literatura oeste-caribenha. Sem pedir desculpas a ninguém. Esse rol inclui o antecessor C.R. James, e depois nomes tão conhecidos como V. S. Naipaul, e, de língua francesa, Aimé Césaire e Edouard Glissant.

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Writers At Work: The Paris Review Interviews (Eighth Series, Edited by George Plimpton), New York, NY, Penguin Books, 1988. As traduções aqui são minha responsabilidade.

De Lara Gularte e da redescoberta poética da ancestralidade

Lara Gularte

Caindo ao mar,/eles lutam para se manter à superfície/o seu fôlego exausto,/em seguida a partida.

Lara Gularte no poema “The Pull of Water” na entrevista à revista The Bitter Oleander

Vamberto Freitas

Lara Gularte, a poeta luso-americana natural da Califórnia, é descendente de picoenses e faialenses que emigraram para a Califórnia a meados do século XIX em busca de ouro e liberdade. Na sua biografia não haverá nada de extraordinário que a distinga dos milhares de açorianos que a partir dessa altura começaram – tal como já haviam feito um século antes rumando ao sul do Brasil – a reconstruir as suas vidas noutras terras distantes, tal como os Açores tinham sido em relação ao continente para os nossos mais recuados antepassados. Falar da nossa histórica e constante peregrinação não será nunca falar ou tentar reinventar esse passado como tragédia, antes será relembrar que a nossa sina tem sido muito mais feliz, até gloriosa, do que a de muitos outros povos em circunstâncias semelhantes, alguns dos quais também andaram quase sempre em fuga, até às gerações presentes, a caminho do Novo Mundo. Não, o que distingue Lara Gularte não será a história colectiva das suas origens, mas algo agora muito mais importante, e de que o nosso país se vem apercebendo nos tempos bem mais recentes. Entendo-a como uma figura simbólica da geração a que pertence, e ainda mais das que começam a despontar, ambas num profundo e significante acto literário e artístico, que será a recuperação da memória e a dignificação histórico-cultural de todo um povo. Escrevo aqui sobre ela como poderia escrever sobre muitos outros escritores luso-descendentes na América do Norte, particularmente os que têm os EUA como pátria primeira. O Canadá é, por enquanto, uma realidade mais ou menos à parte, dado que a norte, como se sabe, a nossa imigração é muito mais recente, não deixando, no entanto, de já contar também com uma boa mostra em literatura, nas línguas portuguesa e inglesa. Um outro factor intelectual motivou estas minhas linhas, precisamente a entrevista – e a própria revista – que cito em epígrafe. O grupo de escritores e poetas luso-americanos, que desde há alguns anos a esta parte vem descobrindo-se mutuamente, deseja para si um estatuto literário, digamo-lo assim, que vá além do seu próprio sentido de comunidade, ou da satisfação inerente ao acto escritural nas suas diversas formas e intenções, quer que essas páginas publicadas deem a notícia da sua/nossa existência a outros, levando à descoberta de que a portugalidade e todos os que nela se revêm e com ela se identificam fazem parte desse mosaico humano americano, e que essa parte ignorada na sociedade novo-mundista não é meramente decorativa ou interessante – foi fundamental na construção dos alicerces industriais e agrícolas que hoje sustentam boa parte da Costa Leste e do Pacífico. Fazê-lo através da literatura séria é mais do que um gesto criativo e civilizacional – é responder à ignorância e difamação com que os nossos foram sempre retratados na literatura norte-americana, e demandar sem qualquer apologia um reconhecimento que vá além das já inexistentes fábricas em Fall River ou das tetas de uma vaca na Califórnia. Kale Soup for the Soul/Sopa de Couve para a Alma, um grupo inter-geracional destes escritores na América, tem percorrido muitas cidades do seu país em leituras e recitais das suas obras perante esses outros que nos desconhecem. Do mesmo modo, alguns deles têm participado no evento literário e cultural em Lisboa que se denomina Disquiet International Literary Program, coordenado por Jeff Parker.

Tudo isto para trazer à vossa atenção, uma vez mais, a longa entrevista que Lara Guarte concedeu à já referida revista The Bitter Oleander, cuja existência no panorama literário mundial da literatura mencionarei um pouco mais adiante. A própria introdução à conversa com a poeta começa por destacar quase exclusivamente a descoberta da ancestralidade como motivo fundador, por assim dizer, de quase toda a poética de Gularte, contextualizando o seu sentindo de pertença entre o grupo de escritores de que venho falando aqui, os seus meios de comunicação e convivência, os seus objectivos de projecção nacional desta literatura já nem tanto emergente como isso, e ainda relembrando a presença alargada da língua portuguesa no mundo. Que uma poeta fale de si e dos seus mundos e imaginários, nada de novo. Que uma revista que tem como política editorial olhar para o mundo inteiro e lançar novos, ou desconhecidos, poetas de qualquer língua ou tradição (mesmo portas adentro, o que em Portugal nunca se conseguiu em relação aos açorianos) através da tradução dá pela sua presença, e por inferência ou informação, reconhece desse modo alguns outros, já é um momento a destacar entre nós. Lara, pois, fala de si, naturalmente, mas torna-se, na minha leitura e a meu ver, um símbolo vivo de muitos outros – a escrita luso-americana vale tanto quanto a sua temática, é já um cânone em construção no qual a sua qualidade estética tanto reclama para si o melhor do legado artístico norte-americano em geral como a memória de vida e sangue dos que fundaram as nossas comunidades lusófonas por toda a parte naquele continente, não ignorando as vozes poéticas da pátria ancestral, como Fernando Pessoa, esse distinto peregrino de alma (esqueçamos o seu real estatuto de imigrante na África do Sul, e o inglês como segunda língua), no centro das suas atenções, e por ela citado em versos na mesma entrevista.

“Saudade do torrão natal – diz Lara Gularte do que vivia diariamente com os avós e bisavós açorianos na Califórnia – influenciou a minha vida ajudando-me a descobrir o meu passado, e as ligações da minha família aos campos da Califórnia onde cinco gerações construiram o seu lugar depois de deixarem a sua casa nos Açores. Como uma rapariga jovem, cresci no campo (ranch) num mundo de fazendas. O lado materno da minha família, os Neves, tinham uma grande estância na parte norte do estado onde criavam gado, e viviam e sustentavam-se principalmente da terra. O meu lado paterno, os Gularte, eram cultivadores de fruta no Vale de Santa Clara. Toda a minha família estava dependente dos ciclos e temporadas da natureza e tinha respeito e afinidade com o campo e a natureza. O meu pai influenciou-me na minha infância e juventude pelo seu amor à terra, pela sua profunda conexão ao mundo natural. Foi a sua identidade, e é agora a minha”.

Lara Gularte fala da sua poesia como “escavações” em busca desse passado, dessa ancestralidade longínqua, que permanece viva e, na sua escrita, de todo actuante, o centro simultaneamente empírico, imaginado e sobretudo emotivo da sua poesia. Lado a lado com a vivência telúrica dos seus primeiros anos de formação pessoal e familiar, viriam os anos de estudo formais (tem um Mestrado em Belas Artes, MFA, com a escrita criativa no centro), estágios “residenciais” em literatura, inclusive nos Açores, sessões literárias de toda a natureza académica e comunitária, prémios e publicações dispersas por várias revistas, e livros notáveis como Days Between Dancing e Tales of the Siskiyou, estando neste momento a preparar uma colectânea de contos intitulada Kissing the Bee, textos, uma vez mais, de chamamentos à memória açor-americana dos seus antepassados. Fala dalgumas das suas influências na escrita, que vão desde a Geração Beat na literatura a Joan Baez e Bob Dylan na música, juntamente com outras leituras e artes bem mais antigas ou clássicas. Para além da sua participação no já referido encontro de Lisboa, esteve também em São Miguel no simpósio (escritas dispersas. convergências de afectos, patrocinado pela Direcção Regional das Comunidades) realizado em 2009 na Universidade dos Açores sobre literatura açoriana e luso-americana. Lara Gularte regressou e ficou em casa – nos dois lados do Atlântico.

The Bitter Oleander foi fundada e é dirigida por Paul B. Roth desde 1974 até ao presente. Não será a mais conhecida revista literária do seu género nos Estados Unidos, mas é certamente uma das melhores na divulgação da poesia mundial, no original e na respectiva tradução, cada número destacando um escritor ou poeta convidado. De quando em quando publica ensaio, mas foge aos academismos, por vezes tão hiper-especializados, que ninguém entende, provavelmente nem quem os escreveu. O seu formato é em si como que uma obra de arte, que só a dedicação e o saber dos Roth no mundo permite. Que a revista deu também por uma poeta nossa, só demonstra o seu sentido de universalidade autêntica, e não fabricada como de costume. Em mim, ganhou um leitor para sempre. Ler um poeta moderno traduzido do hebraico ou do mandarim é um privilégio de poucos.

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Lara Gularte, The Bitter Oleander/Our Autumn 2014 Feature Issue, Paul B. Roth (Editor), Fayettville, New York, 2014. As traduções neste texto são da minha responsabilidade.

Norman Mailer, e todas as suas duplicidades

Capa Norman Mailer

Aproximadamente duzentas pessoas, quase todas da localidade, prestaram-lhe homenagem na casa funerária McHoul’s em P-Town. Alguns dos seus filhos falaram à beira da sepultura no dia seguinte… Depois disso, ela [Norris, a sua sexta esposa] convidou todos para casa, inclusive duas das suas ex-mulheres, para comer e beber em sua memória,

J. Michael Lennon, Norman Mailer: A Double Life

                                                                     Vamberto Freitas

Norman Mailer: A Double Life tem quase oitocentas páginas de texto, que é seguido de mais quase duzentas de notas e informações afins. Para uma vida como a do autor de Os Nus e os Mortos nada menos do que isso chegaria. A classe culta não é arrogante, só que transporta em si toda a memória colectiva de um tempo e de um lugar, derrama essa memória sobre todos nós, e muito especialmente como contraponto às narrativas dos governantes e acólitos do Poder. Mailer deixa-nos como legado uma das mais consequentes e artisticamente belas obras literárias de todos os tempos. Nas mesmas linhas que cito aqui, queria também dar a entender algo mais. Um escritor nascido e criado em Nova Iorque, e depois fazendo da sua cidade o seu poiso de sempre, onde manteve uma das suas três casas durante toda a sua vida adulta, escrevia e vivia também os seus dias mais felizes em Provincetown, bebendo em bares locais com pescadores luso-americanos. Teve nove filhos com seis esposas (para o número de amantes, umas ocasionais, outras presentes até à sua morte, só se eu tivesse aqui uma calculadora, e mais três páginas de espaço), e publicou alguns quarenta cinco livros. Tanto se dava com, como lutava contra altas figuras do Estado, ou com criminosos assassinos. Amava as mulheres, enquanto algumas outras o odiavam e lhe chamavam os piores nomes numa América dos anos 60 e nas décadas seguintes, em que o feminismo e o politicamente correcto faziam Mailer parecer um dinossauro, apesar de fumador de marijuana e bebedor de tudo, o rebelde hipster, que ele definiu e viveu, assim como definiu e escreveu, juntamente com outros, o chamado novo jornalismo. Foi o judeu-americano humanista, anti-fascista, marxista, e depois o social-democrata, calmo e ponderado, a passear-se de bengala na Commercial Street da cidadezinha em Cape Cod. Uma vida em cheio, consequente, que abriu portas na literatura contemporânea de todos os géneros, e abalou as mentes que de outro modo se quedariam acomodadas ao tédio dos dias e à descrença normalizada.

A verdade é que para se entender o mais profundamente possível a obra de Norman Mailer não poderemos escamotear a sua postura de cidadão, indissociável, sob qualquer perspectiva analítica, do escritor e, mesmo que em grau menor, do dramaturgo, e até do ocasional realizador de cinema experimental. Mailer publica o seu primeiro grande romance, o já mencionado The Naked and the Dead, em 1948, três anos após o fim da II Guerra Mundial, onde foi combatente num pelotão de reconhecimento contra os japoneses na selva das Filipinas, experiência que o marcaria até ao fim, e o levaria a noções de “bravura”, “dignidade” sob fogo, “amizade” entre homens em situações-limite. Mailer publica essa sua primeira grande “ficção” – entre aspas, pois toda ela é uma transfiguração de gente e situações reais por ele testemunhadas – aos vinte e poucos anos de idade, tendo, sem estranheza, alguma, Ernest Hemingway como figura de referência na sua visão do mundo e dos seus perigos e desafios imemoriais. O realismo e a poética relacional de homens sob fogo, as linguagens tão brutais como a realidade vivida, fazem-no então e de imediato algo mais do que um jovem escritor promissor – ninguém espera a sua obra seguinte em expectativa de falhanço, mas sim por autêntica crença que estavam perante alguém que muito mais teria a dizer. A vastíssima obra de Mailer não é uma criação fácil nem rápida, mas é de uma densidade temática e formal como mais ninguém na literatura americana do pós-guerra conseguiria. Não sendo literatura de “tese”, é de “ideias” – nem uma linha do autor está livre de um posicionamento político ou ideológico, ante violências atávicas, injustiças generalizadas e de abuso, a catástrofe sempre à vista, restando à humanidade sujeita e sujeitada a resistência e luta por qualquer meio, como diria mais tarde Malcolm X, necessário. A sua “filosofia” está estampada brilhantemente – em termos literários – nalguns textos fundamentais, uns ficção, outros ensaio: The Armies of the Night, The White Negro, Advertisements for Myself, The Deer Park, e An American Dream. Não deixa de ser curioso que o seu lado “romântico” frente à sociedade fê-lo ler e admirar um modernista sulista como Thomas Wolfe, aliás referência para outro escritor judeu-americano e seu contemporâneo, Philip Roth; em comum com Wolfe, as margens histórico-culturais na grande sociedade dominada por outros. No entanto, há só uma grande figura intelectual desde o início até ao fim, que foi seu amigo, e ainda mais mentor ideológico à esquerda, o francês Jean Malaquais. Chega aqui o momento de reafirmar algo de incontornável importância quando se fala dos escritores americanos que começam a surgir em Nova Iorque nos anos 30, dominando boa parte do debate intelectual até à década de 50, e como que num primeiro e poderoso contraponto aos grupos anglo-saxónicos tradicionais, também no centro do cânone literário do país – os escritores judeu-americanos, a primeira geração de filhos e filhas de imigrantes vindos da Europa de Leste a partir do início do século passado, esse rol de críticos, ensaístas e romancistas que dá pelo nome de New York Intellectuals. O facto de Norman Mailer reivindicar para si um referencial intelectual e ideológico (socialista) europeu através de Malaquais é de todo consistente com a abertura que estes escritores trouxeram à literatura norte-americana. A literatura é vista agora através de postulados transatlânticos – marxistas e freudianos, especialmente- – a melhor escrita europeia um chamamento constante e íntimo para todos eles. No entanto, a América e a natureza do poder americano foram, até ao fim , a obsessão criativa e jornalística de Norman Mailer. Diga-se, neste preciso contexto, que uma outra obra que precede todos estes escritores na sua modernidade tardia e internacional foi, também sem qualquer surpresa para os leitores mais qualificados da literatura desse período simultaneamente de paz e perigo, a de John Dos Passos, considerado a “consciência” intelectual da geração anterior, a trilogia U. S. A. constituindo páginas de aprendizagem, digamo-lo assim, para Mailer, tanto na sua visão crítica da sociedade e dos seus poderes a vários níveis como na técnica da justaposição fragmentária e cinematográfica.

Que a obra literária de Norman Mailer raia por vezes o genial, é mais ou menos consensual entre os críticos menos preconceituosos ante uma vida cheia de contradições e violências, mais metafóricas do que reais. Aliás, a génese da violência humana foi sempre um tema ou subtema da sua obra. Mailer viveu apaixonado, como escritor, não pela América histórica ou real, mas sim pela ideia de uma América que juntaria a humanidade literalmente vinda de toda a parte, e convivendo na igualdade e justiça possíveis, a América reconhecedora da sua diversidade e riqueza espiritual, acreditando ainda na redenção de todos em qualquer estação de vida. Nos últimos anos, a sua obra vira-se, tanto na realidade como na ficção, para a marginalidade encarcerada, mortífera por vezes, mas sempre recuperável, o coração humano sobrepondo-se à dureza de julgamentos definitivos, não fora ele uma das mais distintas e actuantes vozes da revolução social dos anos 60. Apadrinhou a saída de um criminoso, de nome Jack Abbott (que depressa voltaria à prisão por matar mais um cidadão indefeso) por se ter revelado um bom escritor de cartas sobre o cárcere e a política, mais tarde publicadas num livro com o título de In The Belly of the Beast. Mais tarde, Mailer escreveria o romance-ensaio sobre a história e os últimos dias de um condenado à morte, Gary Gilmore, The Executioner’s Song, que alguns consideram a sua obra-prima, e ainda depois as mais de mil e duzentas páginas do romance Harlot’s Ghost, sobre a CIA durante a Guerra Fria.

Os que o viam como “arrogante” curavam as suas dores com a má língua. Gore Vidal pagou com uma forte cabeçada e alguns empurrões sob o efeito do álcool numa festa de literatos em Nova Iorque. Anos depois, Vidal visitaria Mailer em Provincetown, num gesto de reconciliação. Arrogante ou maldito? Não, genial, humanista. Numa sessão literária em que participou com o luso-americano Frank X. Gaspar, o autor de Leaving Pico disse-lhe que lhe ia apresentar no palco. Norman Mailer disse que não. Tu, respondeu Mailer, é que és o filho desta terra. Sou eu que te vou apresentar. A grandeza autêntica, aliás, gera quase sempre a humildade.

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  1. Michael Lennon, Norman Mailer: A Double Life, Great Britain, Simon and Schuster UK Ltd, 2013. Norman Mailer, 1923-2007.