Norman Mailer, e todas as suas duplicidades

Capa Norman Mailer

Aproximadamente duzentas pessoas, quase todas da localidade, prestaram-lhe homenagem na casa funerária McHoul’s em P-Town. Alguns dos seus filhos falaram à beira da sepultura no dia seguinte… Depois disso, ela [Norris, a sua sexta esposa] convidou todos para casa, inclusive duas das suas ex-mulheres, para comer e beber em sua memória,

J. Michael Lennon, Norman Mailer: A Double Life

                                                                     Vamberto Freitas

Norman Mailer: A Double Life tem quase oitocentas páginas de texto, que é seguido de mais quase duzentas de notas e informações afins. Para uma vida como a do autor de Os Nus e os Mortos nada menos do que isso chegaria. A classe culta não é arrogante, só que transporta em si toda a memória colectiva de um tempo e de um lugar, derrama essa memória sobre todos nós, e muito especialmente como contraponto às narrativas dos governantes e acólitos do Poder. Mailer deixa-nos como legado uma das mais consequentes e artisticamente belas obras literárias de todos os tempos. Nas mesmas linhas que cito aqui, queria também dar a entender algo mais. Um escritor nascido e criado em Nova Iorque, e depois fazendo da sua cidade o seu poiso de sempre, onde manteve uma das suas três casas durante toda a sua vida adulta, escrevia e vivia também os seus dias mais felizes em Provincetown, bebendo em bares locais com pescadores luso-americanos. Teve nove filhos com seis esposas (para o número de amantes, umas ocasionais, outras presentes até à sua morte, só se eu tivesse aqui uma calculadora, e mais três páginas de espaço), e publicou alguns quarenta cinco livros. Tanto se dava com, como lutava contra altas figuras do Estado, ou com criminosos assassinos. Amava as mulheres, enquanto algumas outras o odiavam e lhe chamavam os piores nomes numa América dos anos 60 e nas décadas seguintes, em que o feminismo e o politicamente correcto faziam Mailer parecer um dinossauro, apesar de fumador de marijuana e bebedor de tudo, o rebelde hipster, que ele definiu e viveu, assim como definiu e escreveu, juntamente com outros, o chamado novo jornalismo. Foi o judeu-americano humanista, anti-fascista, marxista, e depois o social-democrata, calmo e ponderado, a passear-se de bengala na Commercial Street da cidadezinha em Cape Cod. Uma vida em cheio, consequente, que abriu portas na literatura contemporânea de todos os géneros, e abalou as mentes que de outro modo se quedariam acomodadas ao tédio dos dias e à descrença normalizada.

A verdade é que para se entender o mais profundamente possível a obra de Norman Mailer não poderemos escamotear a sua postura de cidadão, indissociável, sob qualquer perspectiva analítica, do escritor e, mesmo que em grau menor, do dramaturgo, e até do ocasional realizador de cinema experimental. Mailer publica o seu primeiro grande romance, o já mencionado The Naked and the Dead, em 1948, três anos após o fim da II Guerra Mundial, onde foi combatente num pelotão de reconhecimento contra os japoneses na selva das Filipinas, experiência que o marcaria até ao fim, e o levaria a noções de “bravura”, “dignidade” sob fogo, “amizade” entre homens em situações-limite. Mailer publica essa sua primeira grande “ficção” – entre aspas, pois toda ela é uma transfiguração de gente e situações reais por ele testemunhadas – aos vinte e poucos anos de idade, tendo, sem estranheza, alguma, Ernest Hemingway como figura de referência na sua visão do mundo e dos seus perigos e desafios imemoriais. O realismo e a poética relacional de homens sob fogo, as linguagens tão brutais como a realidade vivida, fazem-no então e de imediato algo mais do que um jovem escritor promissor – ninguém espera a sua obra seguinte em expectativa de falhanço, mas sim por autêntica crença que estavam perante alguém que muito mais teria a dizer. A vastíssima obra de Mailer não é uma criação fácil nem rápida, mas é de uma densidade temática e formal como mais ninguém na literatura americana do pós-guerra conseguiria. Não sendo literatura de “tese”, é de “ideias” – nem uma linha do autor está livre de um posicionamento político ou ideológico, ante violências atávicas, injustiças generalizadas e de abuso, a catástrofe sempre à vista, restando à humanidade sujeita e sujeitada a resistência e luta por qualquer meio, como diria mais tarde Malcolm X, necessário. A sua “filosofia” está estampada brilhantemente – em termos literários – nalguns textos fundamentais, uns ficção, outros ensaio: The Armies of the Night, The White Negro, Advertisements for Myself, The Deer Park, e An American Dream. Não deixa de ser curioso que o seu lado “romântico” frente à sociedade fê-lo ler e admirar um modernista sulista como Thomas Wolfe, aliás referência para outro escritor judeu-americano e seu contemporâneo, Philip Roth; em comum com Wolfe, as margens histórico-culturais na grande sociedade dominada por outros. No entanto, há só uma grande figura intelectual desde o início até ao fim, que foi seu amigo, e ainda mais mentor ideológico à esquerda, o francês Jean Malaquais. Chega aqui o momento de reafirmar algo de incontornável importância quando se fala dos escritores americanos que começam a surgir em Nova Iorque nos anos 30, dominando boa parte do debate intelectual até à década de 50, e como que num primeiro e poderoso contraponto aos grupos anglo-saxónicos tradicionais, também no centro do cânone literário do país – os escritores judeu-americanos, a primeira geração de filhos e filhas de imigrantes vindos da Europa de Leste a partir do início do século passado, esse rol de críticos, ensaístas e romancistas que dá pelo nome de New York Intellectuals. O facto de Norman Mailer reivindicar para si um referencial intelectual e ideológico (socialista) europeu através de Malaquais é de todo consistente com a abertura que estes escritores trouxeram à literatura norte-americana. A literatura é vista agora através de postulados transatlânticos – marxistas e freudianos, especialmente- – a melhor escrita europeia um chamamento constante e íntimo para todos eles. No entanto, a América e a natureza do poder americano foram, até ao fim , a obsessão criativa e jornalística de Norman Mailer. Diga-se, neste preciso contexto, que uma outra obra que precede todos estes escritores na sua modernidade tardia e internacional foi, também sem qualquer surpresa para os leitores mais qualificados da literatura desse período simultaneamente de paz e perigo, a de John Dos Passos, considerado a “consciência” intelectual da geração anterior, a trilogia U. S. A. constituindo páginas de aprendizagem, digamo-lo assim, para Mailer, tanto na sua visão crítica da sociedade e dos seus poderes a vários níveis como na técnica da justaposição fragmentária e cinematográfica.

Que a obra literária de Norman Mailer raia por vezes o genial, é mais ou menos consensual entre os críticos menos preconceituosos ante uma vida cheia de contradições e violências, mais metafóricas do que reais. Aliás, a génese da violência humana foi sempre um tema ou subtema da sua obra. Mailer viveu apaixonado, como escritor, não pela América histórica ou real, mas sim pela ideia de uma América que juntaria a humanidade literalmente vinda de toda a parte, e convivendo na igualdade e justiça possíveis, a América reconhecedora da sua diversidade e riqueza espiritual, acreditando ainda na redenção de todos em qualquer estação de vida. Nos últimos anos, a sua obra vira-se, tanto na realidade como na ficção, para a marginalidade encarcerada, mortífera por vezes, mas sempre recuperável, o coração humano sobrepondo-se à dureza de julgamentos definitivos, não fora ele uma das mais distintas e actuantes vozes da revolução social dos anos 60. Apadrinhou a saída de um criminoso, de nome Jack Abbott (que depressa voltaria à prisão por matar mais um cidadão indefeso) por se ter revelado um bom escritor de cartas sobre o cárcere e a política, mais tarde publicadas num livro com o título de In The Belly of the Beast. Mais tarde, Mailer escreveria o romance-ensaio sobre a história e os últimos dias de um condenado à morte, Gary Gilmore, The Executioner’s Song, que alguns consideram a sua obra-prima, e ainda depois as mais de mil e duzentas páginas do romance Harlot’s Ghost, sobre a CIA durante a Guerra Fria.

Os que o viam como “arrogante” curavam as suas dores com a má língua. Gore Vidal pagou com uma forte cabeçada e alguns empurrões sob o efeito do álcool numa festa de literatos em Nova Iorque. Anos depois, Vidal visitaria Mailer em Provincetown, num gesto de reconciliação. Arrogante ou maldito? Não, genial, humanista. Numa sessão literária em que participou com o luso-americano Frank X. Gaspar, o autor de Leaving Pico disse-lhe que lhe ia apresentar no palco. Norman Mailer disse que não. Tu, respondeu Mailer, é que és o filho desta terra. Sou eu que te vou apresentar. A grandeza autêntica, aliás, gera quase sempre a humildade.

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  1. Michael Lennon, Norman Mailer: A Double Life, Great Britain, Simon and Schuster UK Ltd, 2013. Norman Mailer, 1923-2007.
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