De Lara Gularte e da redescoberta poética da ancestralidade

Lara Gularte

Caindo ao mar,/eles lutam para se manter à superfície/o seu fôlego exausto,/em seguida a partida.

Lara Gularte no poema “The Pull of Water” na entrevista à revista The Bitter Oleander

Vamberto Freitas

Lara Gularte, a poeta luso-americana natural da Califórnia, é descendente de picoenses e faialenses que emigraram para a Califórnia a meados do século XIX em busca de ouro e liberdade. Na sua biografia não haverá nada de extraordinário que a distinga dos milhares de açorianos que a partir dessa altura começaram – tal como já haviam feito um século antes rumando ao sul do Brasil – a reconstruir as suas vidas noutras terras distantes, tal como os Açores tinham sido em relação ao continente para os nossos mais recuados antepassados. Falar da nossa histórica e constante peregrinação não será nunca falar ou tentar reinventar esse passado como tragédia, antes será relembrar que a nossa sina tem sido muito mais feliz, até gloriosa, do que a de muitos outros povos em circunstâncias semelhantes, alguns dos quais também andaram quase sempre em fuga, até às gerações presentes, a caminho do Novo Mundo. Não, o que distingue Lara Gularte não será a história colectiva das suas origens, mas algo agora muito mais importante, e de que o nosso país se vem apercebendo nos tempos bem mais recentes. Entendo-a como uma figura simbólica da geração a que pertence, e ainda mais das que começam a despontar, ambas num profundo e significante acto literário e artístico, que será a recuperação da memória e a dignificação histórico-cultural de todo um povo. Escrevo aqui sobre ela como poderia escrever sobre muitos outros escritores luso-descendentes na América do Norte, particularmente os que têm os EUA como pátria primeira. O Canadá é, por enquanto, uma realidade mais ou menos à parte, dado que a norte, como se sabe, a nossa imigração é muito mais recente, não deixando, no entanto, de já contar também com uma boa mostra em literatura, nas línguas portuguesa e inglesa. Um outro factor intelectual motivou estas minhas linhas, precisamente a entrevista – e a própria revista – que cito em epígrafe. O grupo de escritores e poetas luso-americanos, que desde há alguns anos a esta parte vem descobrindo-se mutuamente, deseja para si um estatuto literário, digamo-lo assim, que vá além do seu próprio sentido de comunidade, ou da satisfação inerente ao acto escritural nas suas diversas formas e intenções, quer que essas páginas publicadas deem a notícia da sua/nossa existência a outros, levando à descoberta de que a portugalidade e todos os que nela se revêm e com ela se identificam fazem parte desse mosaico humano americano, e que essa parte ignorada na sociedade novo-mundista não é meramente decorativa ou interessante – foi fundamental na construção dos alicerces industriais e agrícolas que hoje sustentam boa parte da Costa Leste e do Pacífico. Fazê-lo através da literatura séria é mais do que um gesto criativo e civilizacional – é responder à ignorância e difamação com que os nossos foram sempre retratados na literatura norte-americana, e demandar sem qualquer apologia um reconhecimento que vá além das já inexistentes fábricas em Fall River ou das tetas de uma vaca na Califórnia. Kale Soup for the Soul/Sopa de Couve para a Alma, um grupo inter-geracional destes escritores na América, tem percorrido muitas cidades do seu país em leituras e recitais das suas obras perante esses outros que nos desconhecem. Do mesmo modo, alguns deles têm participado no evento literário e cultural em Lisboa que se denomina Disquiet International Literary Program, coordenado por Jeff Parker.

Tudo isto para trazer à vossa atenção, uma vez mais, a longa entrevista que Lara Guarte concedeu à já referida revista The Bitter Oleander, cuja existência no panorama literário mundial da literatura mencionarei um pouco mais adiante. A própria introdução à conversa com a poeta começa por destacar quase exclusivamente a descoberta da ancestralidade como motivo fundador, por assim dizer, de quase toda a poética de Gularte, contextualizando o seu sentindo de pertença entre o grupo de escritores de que venho falando aqui, os seus meios de comunicação e convivência, os seus objectivos de projecção nacional desta literatura já nem tanto emergente como isso, e ainda relembrando a presença alargada da língua portuguesa no mundo. Que uma poeta fale de si e dos seus mundos e imaginários, nada de novo. Que uma revista que tem como política editorial olhar para o mundo inteiro e lançar novos, ou desconhecidos, poetas de qualquer língua ou tradição (mesmo portas adentro, o que em Portugal nunca se conseguiu em relação aos açorianos) através da tradução dá pela sua presença, e por inferência ou informação, reconhece desse modo alguns outros, já é um momento a destacar entre nós. Lara, pois, fala de si, naturalmente, mas torna-se, na minha leitura e a meu ver, um símbolo vivo de muitos outros – a escrita luso-americana vale tanto quanto a sua temática, é já um cânone em construção no qual a sua qualidade estética tanto reclama para si o melhor do legado artístico norte-americano em geral como a memória de vida e sangue dos que fundaram as nossas comunidades lusófonas por toda a parte naquele continente, não ignorando as vozes poéticas da pátria ancestral, como Fernando Pessoa, esse distinto peregrino de alma (esqueçamos o seu real estatuto de imigrante na África do Sul, e o inglês como segunda língua), no centro das suas atenções, e por ela citado em versos na mesma entrevista.

“Saudade do torrão natal – diz Lara Gularte do que vivia diariamente com os avós e bisavós açorianos na Califórnia – influenciou a minha vida ajudando-me a descobrir o meu passado, e as ligações da minha família aos campos da Califórnia onde cinco gerações construiram o seu lugar depois de deixarem a sua casa nos Açores. Como uma rapariga jovem, cresci no campo (ranch) num mundo de fazendas. O lado materno da minha família, os Neves, tinham uma grande estância na parte norte do estado onde criavam gado, e viviam e sustentavam-se principalmente da terra. O meu lado paterno, os Gularte, eram cultivadores de fruta no Vale de Santa Clara. Toda a minha família estava dependente dos ciclos e temporadas da natureza e tinha respeito e afinidade com o campo e a natureza. O meu pai influenciou-me na minha infância e juventude pelo seu amor à terra, pela sua profunda conexão ao mundo natural. Foi a sua identidade, e é agora a minha”.

Lara Gularte fala da sua poesia como “escavações” em busca desse passado, dessa ancestralidade longínqua, que permanece viva e, na sua escrita, de todo actuante, o centro simultaneamente empírico, imaginado e sobretudo emotivo da sua poesia. Lado a lado com a vivência telúrica dos seus primeiros anos de formação pessoal e familiar, viriam os anos de estudo formais (tem um Mestrado em Belas Artes, MFA, com a escrita criativa no centro), estágios “residenciais” em literatura, inclusive nos Açores, sessões literárias de toda a natureza académica e comunitária, prémios e publicações dispersas por várias revistas, e livros notáveis como Days Between Dancing e Tales of the Siskiyou, estando neste momento a preparar uma colectânea de contos intitulada Kissing the Bee, textos, uma vez mais, de chamamentos à memória açor-americana dos seus antepassados. Fala dalgumas das suas influências na escrita, que vão desde a Geração Beat na literatura a Joan Baez e Bob Dylan na música, juntamente com outras leituras e artes bem mais antigas ou clássicas. Para além da sua participação no já referido encontro de Lisboa, esteve também em São Miguel no simpósio (escritas dispersas. convergências de afectos, patrocinado pela Direcção Regional das Comunidades) realizado em 2009 na Universidade dos Açores sobre literatura açoriana e luso-americana. Lara Gularte regressou e ficou em casa – nos dois lados do Atlântico.

The Bitter Oleander foi fundada e é dirigida por Paul B. Roth desde 1974 até ao presente. Não será a mais conhecida revista literária do seu género nos Estados Unidos, mas é certamente uma das melhores na divulgação da poesia mundial, no original e na respectiva tradução, cada número destacando um escritor ou poeta convidado. De quando em quando publica ensaio, mas foge aos academismos, por vezes tão hiper-especializados, que ninguém entende, provavelmente nem quem os escreveu. O seu formato é em si como que uma obra de arte, que só a dedicação e o saber dos Roth no mundo permite. Que a revista deu também por uma poeta nossa, só demonstra o seu sentido de universalidade autêntica, e não fabricada como de costume. Em mim, ganhou um leitor para sempre. Ler um poeta moderno traduzido do hebraico ou do mandarim é um privilégio de poucos.

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Lara Gularte, The Bitter Oleander/Our Autumn 2014 Feature Issue, Paul B. Roth (Editor), Fayettville, New York, 2014. As traduções neste texto são da minha responsabilidade.

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