De José Medeiros Ferreira e de nós*

Capa José Medeiros Ferreira

O passado não está morto. Nem sequer é passado.

William Faulkner

/Vamberto Freitas

Permitam-me começar, antes de falar em influências intelectuais e afectos pessoais, pela sua presença em nossa casa aqui no Pópulo, em São Miguel, de janelas viradas para oeste e para leste, para as nossas (minhas e da Adelaide) duas pátrias no outro lado do horizonte, aqui em tudo presentes em pé de total igualdade, Portugal e a América do Norte. No espaço de trabalho que era o da Adelaide está emoldurada uma foto a preto e branco de Medeiros Ferreira em conversa com ela, e deduzo que o entusiasmo dos dois sobre questões açorianas estava então ao rubro, pois tudo era ainda uma promessa de poesia e literatura numa terra liberta, anos antes ainda da queda e depressão do nosso país a todos os níveis, deveriam estar a falar nas esferas de actividade humana, tal como alguns outros entre nós, em que estavam profundamente envolvidos — a cultura como via para a dignificação dos povos, e muito especialmente de povos como o nosso, que durante quase cinquenta anos só tinha conhecido um cativeiro ilhéu e miséria. Adelaide parece estar a pontificar. Poderia ser sobre uma destas suas paixões literárias, Moby Dick, The Great Gatsby ou Gente Feliz Com Lágrimas, ou sobre os Açores e a América em geral. Medeiros Ferreira, a sua mão segurando Emersos Vestígios, de E. Bettencourt Pinto, olha-a atentamente, com um leve sorriso na cara, que se adivinha de concordância ou cumplicidade. Em qualquer dos casos, é de mundos comuns que falam, mesmo que ele nunca tenha vivido nos Estados Unidos – era um açoriano culto e descomplexado, e só isso bastaria para que ele não só estivesse consciente da pertinência das conversas de então, como as incentivava e nelas participava. Mais do que isso, identificava-se por inteiro com as nossas obsessões identitárias e literárias, essa nossa tentativa sempre em curso de conjugar os mundos múltiplos da nossa gente, essas duas pátrias de salvação e regeneração, a literatura como elo superior do nosso passado e memória, da íntima dualidade que tem sido, quer a nossa elite entenda ou não, o primeiro e mais poderoso vector da história de toda a comunidade açoriana dispersa pelo mundo. Tudo isto tinha vivido Medeiros Ferreira ele próprio, desde que saiu da ilha de S. Miguel rumo ao continente português, e pouco depois à Europa do Centro, de onde só voltaria como homem formado e cidadão comprometido com a libertação do seu país. Tinha vivido a liberdade e a cidadania na Suíça, enquanto muitos dos seus colegas e compatriotas o haviam também feito cá dentro, mas só olhando sobre o ombro e baixando a voz. Na foto, ela falava, e ele ouve – o que era mais um exemplo da sua maneira de ser e estar entre nós aqui nas ilhas. Quando pensávamos que uma conversa havia sido passageira e esquecida por ele, enganavamo-nos. Num ensaio, num livro, numa conferência tempo depois, ele citava, contextualizava, concordava ou respondia. Era, para nós, um professor e intelectual público de referência, um amigo e, sempre, um distinto companheiro de estrada na longa e infindável viagem açoriana, os regressos e juras de pertença à nossa Ítaca atlântica parte também do seu destino.

Conheci José Medeiros Ferreira primeiro através dos seus livros, assim como da leitura apaixonada de jornais que eu fazia nos meus esconderijos e anonimato sul-californiano logo depois do 25 de Abril, que vivi tão comovidamente como se estivesse nos passeios da Rua do Ouro naquela manhã a acompanhar as chaimites rumo ao Largo do Carmo. Um pouco mais tarde, sempre na lonjura do Pacífico, identificava-o como Ministro dos Negócios Estrangeiros e eventual co-dinamizador (e teorizador) da nossa entrada na então CEE. Inteiramente formado numa universidade pública do estado da Califórnia, para onde eu tinha emigrado com a minha família em 1964 aos treze anos de idade (as circunstâncias do meu regresso à cidadania portuguesa com a Revolução de Abril não são chamadas para aqui), direi apenas que figuras como José Medeiros Ferreira eram-me mais míticas do que reais, por serem os libertadores e novos construtores de uma pátria agora livre, pela imensa admiração e respeito que por eles nutria. Mesmo depois de Mário Mesquita, por sugestão do nosso comum amigo Onésimo Teotónio Almeida, me ter convidado para escrever para o Diário de Notícias, em 1979, o meu pouco à-vontade em eventualmente conversar com eles deixava-me inseguro, não me permitia senão ouvir em silêncio, e com todos eles reaprender a ser português. Naquela altura, ser “emigrante”, particularmente para as nossas elites políticas e letradas, mantinha-se num estatuto dúbio, respeitável talvez pela possibilidade de remessas que representávamos, mas um mundo à parte e perspectivado, a partir de Lisboa, e não só, através de lentes toldadas por certos preconceitos e estereótipos, abordados que éramos quase sempre com condescendência. A visão sobre nós que viria a clarear radicalmente com o passar dos anos – pela presença e pelo trabalho consistente de figuras precisamente como Mário Mesquita e José Medeiros Ferreira. A miticidade com que eu os olhava era apenas mais um sinal da minha americanização, da minha ignorância de outros mundos em revolução, do meu próprio chão natal – fundadores ou libertadores de uma pátria eram para mim “monumentos”, como se de tempos idos fossem, moradores só das páginas de livros. Que dois deles eram açorianos deveria ter-me sido esclarecedor – não é em vão que se nasce e se pertence a ilhas que mais não são do que os viveiros que Vitorino Nemésio afirmava ser o solo onde somos plantados, só para noutra terra sermos replantados e crescer. O exílio agudiza a saudade, não nos permite esquecer com quem nascemos e onde nos formamos como homens e mulheres, a pequenez também se traduz em solidariedade e sentido agudo, uma vez mais, de pertença. Se eu “via” Medeiros Ferreira como figura “distante” para qualquer diálogo ou convivência, ele via-me, a mim e a todos os nossos colegas e amigos, com a mesma compreensão e aconchego de quem também havia experimentado a solidão de ser cidadão em terras distantes, com a mesma vontade, a mesma necessidade interior, de comunicar sobre as nossas andanças, sobre as consequências de termos sido – ou sermos – o outro no além-fronteiras.

Olho de novo a foto da Adelaide a falar com o nosso amigo Medeiros Ferreira. Eram os anos da nossa euforia intelectual e — porque não? — sentimental, o tempo de todos os regressos a casa, a imagem captada no 4º Encontro de Escritores Açorianos, em 1994 na Praia da Vitória, fazendo-me agora recordar que muitos outros lá estavam, vindos do continente, de quase todas as ilhas açorianas, e, inevitavelmente, das Américas. Medeiros Ferreira nunca (nos) faltava. Eu já tinha ultrapassado a minha reserva de “súbdito” em volta de, e olhando o Olimpo daqueles que eu entendia e entendo ter sido os que me permitiram regressar a uma pátria livre. Era agora o início de uma amizade que em qualquer encontro, cada vez mais frequentes devido à sua vida política e participação académica e cultural em quase todos os nossos projectos virados para a açorianidade, nos levava primeiro a perguntar pela saúde dos que eram e nos são próximos, ou divagar sobre outros “pessoalismos” de igual relevância para a nossa (in)felicidade. Continuei sempre a olhar o nosso amigo com o todo o afecto, e com o respeito de sempre pelo historiador, pelo político, pelo comentador, pelo leitor das nossas literaturas não-canónicas das ilhas e da Diáspora, pelo escritor que num ensaio tanto podia citar a mais autorizada voz em qualquer campo académico como um poeta ou prosador açoriano desconhecido na capital, mas que ele sabia valer intelectualmente mais do que outros sempre na ribalta por favores ou traficâncias diversas. Pensar os “novos” Açores para Medeiros Ferreira era pensar todos aqueles que, da política à literatura, reinterpretavam o passado e reinventavam uma comunidade real e imaginária, uma região portuguesa que raramente tinha conhecido a liberdade e a dignificação de todo o seu povo, dentro e fora do arquipélago.

Olho mais uma vez a foto pendurada no antigo reduto de estudo e escrita da Adelaide. Ela nunca soube da sua morte, nem nunca saberá. Está comigo aqui a minha companheira sentada e com os seus olhos fixos num infinito que é só dela, o seu cérebro corroído pela mais traiçoeira das doenças, que mata a vida antes de matar do corpo. Representam, para mim, ela e o Medeiros Ferreira, um mundo que está rapidamente a desaparecer, mas não me permite senão honrá-los com a crença no futuro, no sonho. Resta a memória. Não há mais nada senão o silêncio perante o mistério.

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*Texto incluído no livro comemorativo José Medeiros Ferreira: A Liberdade Interventiva, Lisboa, Tinta-Da-China, 2015.

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