Da Lacailândia lusa, ou a ficção como verdade

Capa Passos PerdidosParabéns por um tão raro discurso nesta casa. Tudo isto é ficção, a que se rende realidade.

Ernesto Rodrigues, Passos Perdidos

/Vamberto Freitas

Numa das recentes apresentações deste seu romance, de título e significado inevitavelmente polissémicos, Passos Perdidos, Ernesto Rodrigues traçou dois fios condutores da trama ficcional por ele urdida – o diálogo com algumas obras canónicas portuguesas, com Camilo Castelo Branco (A Queda De Um Anjo) e Eça de Queirós (O Primo Basílio) em primeiro plano, e ainda alusões ou citações de alguns outros ficcionistas e poetas, com Camões ao centro e logo nas primeiras páginas através de versos mais do que pertinentes aqui (Os bons vi sempre passar/no mundo graves tormentos), e depois a também inevitável “realidade” política que desde há décadas subverte todo o projecto que foi a Revolução de Abril de 1974, ou melhor dito, todo o liberalismo ou democraticidade que saiu da nossa guerra civil de Oitocentos. Não há qualquer “ansiedade de influência” nestes gestos do autor, mas sim a continuidade que uma grande Tradição literária e discursiva nunca deixa de provocar nas melhores obras de arte que partem de uma mesma língua e/ou geografia de afectos e comunidades imaginárias, e sobretudo de identidades partilhadas. Um escritor sem memória histórica terá muito pouco ou nada a dizer a outros num acto de criação, por mais “artifício” que se lhe reconheça. Palavras cruzadas também requerem algum conhecimento vocabular e noções de cultura geral, mas são de todo vazias e significam absolutamente nada. Alguma ficção pós-modernista, a partir doa nos 70, tinha pouco mais do que o umbigo próprio para descrever ou auto-mortificar-se, a sua comédia raramente passando das patéticas biografias reinventadas e da confusão que é estar-se vivo sem uma ideia de rumo pessoal ou comunitário, ou então fechado no egoísmo de rapazes e raparigas privilegiadas nas sociedades ocidentais. Pouco já os lêem, depois de passados os quinze minutos de fama e estrelato. Aliás, também os anos de suposta ou falsa inocência social do pós-Guerra já passaram, foram implacavelmente desmontados neste últimos tempos, estando de regresso, creio, a arte literária que tem a sociedade como tema, que volta a ser a fonte de beleza e interpretação, de ideias e reflexões, e na qual só se distingue a forma se o conteúdo a merecer. A arte literária é, sempre foi, esse gesto à procura do diálogo, a estética oferecida como afirmação ou sugestão do estado ou da condição humana, vivida e testemunhada num determinado lugar e tempo. “Política e literatura” é o mesmo que dizer “sociedade e literatura”, e em língua portuguesa as obras primas de ficção, a partir do século XIX, a partir precisamente dos dois nomes insistentemente convocados por Ernesto Rodrigues nesta sua obra, Camilo e Eça, estabeleceram as suas temáticas e, até, o seu olhar, quase sempre pela sátira pura, a paródia, a fábula carregada de humanidade.

Esqueçamos a trama de Passos Perdidos – uma tentativa de corrupção legislativa na que ainda chamamos “a casa da democracia” por parte de determinados interesses financeiros – e destaquemos alguns momentos, dizeres e personagens que giram em volta da Assembleia da República e arredores, especialmente políticos, banqueiros e jornalistas, o triângulo de tudo e todos que fazem da vida pública o meio principal de levitação, horizontal quase sempre, aos céus, à glória e ao enriquecimento por “qualquer meio necessário”. Os personagens do romance são poucos, mas necessariamente todos relacionados por laços secretos e de sangue, de sugas-várias, ou por outras prosmicuidades nas quais a cama é de somenos importância e honradez, na maior parte dos casos. Um autor com a formação académica e intelectual e a obra literária ou de investigação de um Ernesto Rodrigues não podia construir uma narrativa “política” da nossa actualidade que não fosse esta. Para além do referencial muito português atrás referido, digamos que o romance funciona não somente como uma espécie de súmula do muito quanto já foi dito e escrito ao longo de quase toda a nossa história nacional, como ainda partilha afinidades com outros escritores e obras além-fronteiras. Não sendo Passos Perdidos um romance futurista ou sobre o totalitarismo histórico, não deixa de fazer lembrar um George Orwell, particularmente o do já tão clássico como profético 1984 – a corrupção semântica generalizada de um simples vocábulo e ainda mais das linguagens em tudo referentes às sociedades e seus “negócios” resulta da corrupção generalizada de quem tem o poder de fazer, refazer, dizer e redizer as acções de quem governa simplesmente para se governar, o poder pelo poder (freudianamente entendido), a noção de civismo ou de “comunidade” uma qualidade – uma “fábula” – nunca lembrada pelos servidores dos seus patrões, ou pelos trepadores da glória pessoal, sem um mínimo de ética ou pudor. Dir-me-ão que assim sempre foi, e provavelmente sempre será. Responderei que os que constituem bolsas de resistência ao descaramento e comportamento atávico de governantes e outros agentes poderosos das finanças que se escondem por detrás de linguagens, uma vez mais, corrompidas, portanto sem qualquer sentido transmissor da verdade e muito menos do bem comum, tal como se tem tentado defini-lo desde o Iluminismo, serão sempre os escritores, os sucessores dos antigos “cronistas” que adivinhavam o analfabetismo dos seus senhores mandantes para, tantas vezes entre linhas e em metáforas brilhantes, avisarem as gerações vindouras da canalha a quem serviam, e tinham de servir. Nem todos são Velhos do Restelo, e antes fossem no que diz respeito ao sentido de nação ou pátria. A beleza deste género de literatura também reside aí – a confirmação de que a imperfeição humana nunca deixa de ir aos seus extremos, que a riqueza de uns é a opressão e vitimização de todos os outros, e cabe precisamente à arte não esquecer a dialéctica da história em busca de uma síntese racional, que poderíamos ainda redefinir simplesmente como “decência cívica”. A longa epígrafe deste romance vem de a Arte de Furtar, “Dos que furtam com unhas políticas”. Uma sátira política tem as suas regras: o riso é cruel, é “o pisar e repisar da vítima”, como diria entre nós José Martins Garcia. Só que a “vítima” somos nós, os que não lêem juntamente com os que lêem sofisticados romances como este. Atravessamos os Passos Perdidos rumo às sessões plenárias com os que para lá vão, sentam-se sem nada dizer anos fora, alguns os predadores e predadoras profissionais, outros os “borboletas” da moda, hoje em dia em estilo fino e próprio, conforme a vontade Armani e afins, a comédia humana uma encenação que vem de longe, os narradores recorrendo a discursos de séculos passados, nestas páginas comicamente repescados como se originais ou corajosos fossem, as suas generalidades dirigidas a todos e a ninguém. Tal e qual – é só ligarmos o telejornal num dia qualquer.

“Sodomizaram-no?” – pergunta em entrevista uma jornalista ao deputado conservador e que durante quarenta anos não abrira boca, a propósito de outro colega seu, mas cujas andanças estão em causa. “Ele não sabia – deduz o narrador do momento – o que isso era, pois o vocábulo não frequentava o hemiciclo (ao menos, a horas decentes), não subira à tribuna de honra nem o recordava dos códigos, audições ou debates, logo, não constava do diário das sessões, cujo vocabulário mais terso ele registava em caderninhos azuis de folhas quadrículas, na falta de palavras cruzadas, que se recusaria a buscar na Imprensa profana, com que os colegas adormeciam. Na capa, inscrevera DLP, que julgavam dicionário da língua portuguesa; era, sim, da lábia parlamentar”.

Passos Perdidos é essa narrativa meio clara meio obscura, um jogo de sombras e espelhos entre todos os seus personagens, e muito especialmente uma interpelação sobre o que constitui ou não a nossa identidade, pessoal e colectiva. Quem somos, e que povo somos? De onde veio esta geração em tempos já pós-modernos e pós-revolucionários, que nos governa e assalta como se nada tivessem aprendido do passado, como se história tivesse sido totalmente apagada, ou pelo menos nunca aprendida? “Corrupção” ainda quer dizer alguma coisa entre nós? Será que os teóricos literários mais radicais têm razão quando falam já numa idade pós-humana, não se referindo, supõe-se, exclusivamente às tecnologias hiper-avançadas que parecem fazer de nós meros instrumentos de quem as detém e mobiliza na luta pela supremacia absoluta? Ernesto Rodrigues já viu e viveu muito mundo para além do país da sua nascença, já muito escreveu sobre história e discurso público, que também dão pelo nome de “jornalismo” e “política”. Este seu romance é uma outra transfiguração de todos esses saberes e percursos, os nossos próprios dias projectados em literatura, que é sempre o testemunho mais duradouro e, sim, verdadeiro.

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Ernesto Rodrigues, Passos Perdidos, Âncora Editora, Lisboa, 2014.

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