Memória e desejo

Capa Daniel Gonçalves

O poema é para momentos inesperados como uma andorinha no inverno ou o advento do amor.

Daniel Gonçalves, Poesia Reanimada

/Vamberto Freitas

São as vidas em busca perpétua da saída da escuridão interior e o reencontro com os momentos de paz e amor que têm movido e comovido quase toda a grande poesia, quando não pretende a falsidade existencialista de um certo cinismo e desapego ante tudo e todos, o poeta ou o intelectual auto-isolado na sua imaginada redoma. Aliás, a poesia é, pela sua própria natureza e motivação, mão estendida e alma aberta ao outro. Daniel Gonçalves ocupa, entre nós, um espaço muito próprio – pouco falado ou projectado publicamente, pelo que me é dado ver, os seus leitores descobrem-no mais cedo ou mais tarde (o meu caso), sentindo-se de imediato recompensados pelo pelo seu vigor metafórico extraído de palavras, linguagens e redutos quotidianos, a sua temática partindo de uma qualquer geografia, que neste caso tanto pode ser uma ilha ou uma cidade qualquer, para o mais vasto espaço de todos – a casa do nosso ser, como a chamam alguns filósofos, a solidão magoada ao encontro, sempre, da outra face da vida, e da felicidade. Estas dualidades tão aparentes não acontecem por mero pensamento ou demiurgia. Ilhéu continental, por assim dizer, o autor do recentemente lançado Poesia Reanimada (Teoria Geral do Amor) nasceu na Suiça, viveu e formou-se no continente português, e desde 1999 reside na ilha de Santa Maria, onde é professor do ensino básico e secundário. Com uma obra premiada desde há anos por instituições nacionais de prestígio (inclusive pela Associação Portuguesa de Escritores/APE), quase se tornou entre nós um “poeta de poetas” – o que escreve e publica fica guardado em círculos reduzidos, e o seu impacto, repita-se, é duradouro. As palavras, quando bem ditas ou escritas, como que criam a sua própria forma poética, como que criam uma estrutura de pensamento, insinuando ou mesmo esclarecendo subitamente ao leitor o significado do que antes poderia parecer obscuro, hermético. Poeta-prosador, na forma e cadência rítmica mais ou menos livre das suas palavras, ele é um caso singular entre nós pelo seu poder de sugestão de como o mundo exterior se torna a perfeita imagem da memória e desejo da voz que nos fala e enlaça no seu labirinto interior, “no interior das palavras, na asa da música”. Escrevi aqui não há muito sobre o poeta-Nobel caribenho Derek Walcott, que dizia que era uma testemunha do mundo à sua volta, que era a comunidade que se erguia como tema dos seus versos. Só que quando o poeta se abre à sua comunidade com toda a candura e empatia em palavras que carregam tudo em si beleza e sentido, o certo é que o mundo que o lê ou escuta revê-se de imediato nessa poetização do que são a sorte e destinos comuns. Tudo é “poesia”? Não, se entendermos o canto do nosso ser como sendo o acto mais essencial ou enraizado da nossa existência, num arranjo estético de palavras muito próprio, se o entendermos como a inevitabilidade da espreita poliédrica por parte de quem entre nós se percebe inteiramente no perpétuo conflito que será a vida entre o eu e o resto do mundo circundante.

Poesia Reanimada poderá ser um título de significados múltiplos, o poeta dando nova forma e força às suas palavras, ou poderá ser uma tentativa, num outro gesto de criação, em que velhas linguagens são reavivadas para espelhar novos estados de alma. Seja como for, a temática que enforma toda a poética de Daniel Gonçalves desliza de poema para poema, sem mais títulos divisórios, ora revendo e reforçando palavras anteriores, ora se encaixando no seguimento de cada nova entrada. Esta última afirmação minha também quer dizer que leio estas páginas como uma espécie de diário poético da sobrevivência do seu autor, e da luta interior à procura da imaginada completude, que a perda de alguém, real ou imaginária, torna impossível. Tudo que o poeta enxerga à sua volta é ou transforma-se em imagem e metáfora das suas mais significantes ausências, desde a esfíngica natureza da terra e da vastidão do mar aos objectos íntimos de quem se foi, ou está para chegar. As palavras recorrentes na maior parte dos seus poemas, como ”silêncio” ou “bainha” não podem escapar ao leitor mais empenhado ou envolvido na bela rapsódia que são estes versos – a doce ou amarga condição existencialista, e o pormenor de um vestido que recorda a mulher desejada, o olhar íntimo de tudo que preenche a memória e reaviva o desejo do poeta, de nós. Eis uma outra “ilha” como “continente”, e um continente como uma outra ilha – o mundo está, todo ele, em nós, a visão do exterior a “miragem” que escolhemos ou ansiamos, o poeta a voz-outra do nosso próprio ser e estar. O pensamento, para além da sua moldura poética, exige a metáfora. É aqui, também, onde residem o que pensamos ser as verdades escondidas no outro lado de evidências supostamente óbvias, exigindo ao leitor a descodificação interpretativa, a sua revelação, como numa das sequências de “A Tua Luz Costurou-me Uma Bainha No Coração”. Uma vez mais, todos estes poemas em forma livre, ou poemas-prosa, parecem um romance com dois personagens, o narrador e a ausência-presença, a quem é dirigido, a personagem sem voz mas tornada saudade infinita.

“o que fica é um livro caído por trás da estante, uma/história que podia ter entrado pela varanda, uma música/com o compasso esquerdo, um cordão que cuida das nossas alianças, enquanto o ouro perde o valor e a poesia/assenta a chuva, o que fica é um mistério de marionetas/a cuidar da casa, um perfume atrasado sem o risco de/nos esquecer. o que fica é a tua mão, tesoura arrancando/do amor um vestido, cosendo as bainhas, com a energia/ das marés”.

Partir para o mundo, chegar do mundo — o nosso lugar uma geografia da imaginação pura, sem território definido, o mundo não vivido, mas pressentido e perscrutado. Ninguém, no entanto, escreve ou cria num vácuo absoluto do Nada, a nossa existência exige um chão seguro e identificável, de onde queremos avistar as chegadas e abraçar as partidas. Creio ser essa a essência da obra poética de Daniel Gonçalves. Ulisses não tem descanso, e a própria língua portuguesa, como o ser português, nunca o esquece, não pode esquecer — a história acaba sempre, com ou sem ironia, por impor-se. Vivemos nos ventos, nas marés, e, uma vez mais, na saudade. Parece avisar o poeta: leva algumas certezas antigas contigo, a música do teu passado, pois nunca se sabe o que nos espera no além-horizonte, ou se o retorno é realizável. “Poesia Reanimada” é a sua própria pátria, a sua casa, “o templo dourado” aonde sempre regressamos, nem que seja só para a reza elegíaca – “regressar a casa que foi grande, sem incomodar o passado, sem entornar a memória…”, ou ainda “a minha vida termina cada vez que subo as escadas e me recolho ao sótão”. O “cansaço”, como em Fernando Pessoa, de que quase todos os nossos poetas modernos são herdeiros directos, não impede nunca os regressos sem fim no nosso destino, o mundo”exterior” a metáfora de significação múltipla, as brechas imaginativas por onde avistamos a alma do poeta, a nossa alma. O “cansaço” do poeta, sim, mirando as folhas vazias à espera que lhe chegue o seu “drama em gente”. Por mais íntima que seja a escrita, não foge nem pode fugir à história em está condenada a inserir-se, e assim dar continuidade a toda uma Tradição linguística, e mesmo temática. Poesia Reanimada parece conter em si todas essas influências absorvidas activa ou subconscientemente, desde Roberto de Mesquita e a solidão no isolamento da natureza ameaçadora que o rodeia à mesma modernidade que propõe, com ironia e riso, o sagrado instante eterno, “eterno enquanto dura”, parafraseando Vinicius de Moraes. A grande poesia – tirando as epopeias renascentistas – desde há muito que deixou de ter nacionalidade, ou lealdades afins. Tem a sua língua, e isso, só isso, a poderá definir ou enquadrar num ou noutro cânone, sempre mais vasto e disperso, lido primeiramente pelos que o partilham. De resto, a sua grandeza reside precisamente aí – no seu impulso natural para acabar com a geografia, rejeitar a estreiteza de falsas pertenças, ideologicamente impostas.

Se a composição de um poema acontece “em momentos inesperados”, a sua leitura, disse-me um dia outro poeta, deve também curvar-se à vontade ou sentido desses momentos em cada leitor. Um livro de poemas lê-se na maior tranquilidade, com ou sem música de fundo, com ou sem um copo ao lado, a luz nunca ferindo a atmosfera de um ritual sereno, sem ordem pre-destinada ou imposta. Leia-se verso a verso, estrofe a estrofe, em páginas abertas quase ao acaso. Só tempo depois de uma leitura integral, que se estende por umas horas ou até dias, virá a inevitável associação de tudo que compõe um mundo, ou um ser inteiro. O resto será mero ruído sem sentido. Eis o que (me) resulta, o que me preenche mais um espaço vazio, deste primeiro encontro com a poesia de Daniel Gonçalves.

_______

Daniel Gonçalves, Poesia Reanimada (Teoria Geral do Amor), Artes e Letras, Livraria SolMar, Ponta Delgada, 2014.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s