Memória De Um Homem Na Cidade

Foto Ferreira Goulart

Muitos/muitos dias há num só dia.

Ferreira Gullar, Poema Sujo

Vamberto Freitas

Editado em Portugal há poucos meses, Poema Sujo de Ferreira Gullar reapresenta-nos a obra que alguns críticos brasileiros consideraram desde a sua publicação em 1976 como “o poema nacional”, tal a sua abrangência linguística e temática, o acto poético “nacional” por excelência em que o mais cerrado intimismo se conjuga perfeitamente com a deriva pública e histórica do Brasil, desde a sua fundação até a meados do século passado. Vinícius de Moraes anunciava então, com alguma hipérbole, por certo, que se tratava do melhor poema da década, em qualquer língua, e afirmava ainda que Ferreira Gullar seria “o último grande poeta brasileiro”. Outros, como Affonso Romano de Sant’Anna, Assis Brasil e o falecido Wilson Martins, pronunciar-se-iam sobre variadas facetas da escrita de Ferreira Gullar, colocando-o sempre no topo da hierarquia literária do país, não na de antigas academias, mas sim segundo o consenso crítico nas mais variadas publicações de quem realmente tem o poder de legitimação e — porque não? — aclamação. Não vamos aqui ajuizar estas e outras inúmeras apreciações ao longo dos anos da obra de Ferreira Gullar (pseudónimo de José Ribamar Ferreira), mas deverá ficar bem vincado para os leitores da actualidade entre nós o espaço privilegiado que o autor passaria a ocupar nas letras do seu país, tendo sido ainda há poucos anos nomeado para o Prémio Nobel, e em 2010 finalmente receberia o reconhecimento máximo em língua portuguesa, o Prémio Camões. Na sua vastíssima obra — tem mais de 80 anos de idade, e um trabalho constante – que inclui outros géneros como teatro, crónica, ensaio e ficção, Poema Sujo continua a ocupar, por seu lado, a centralidade do cânone do próprio autor. Está anunciada para breve a sua nova colectânea de poemas escrita durante a década que passou, Em Alguma Parte Alguma, que felizmente vai ser lançada em Portugal ainda durante este ano em simultâneo com edição brasileira.

Ler Ferreira Gullar, muito especialmente o seu Poema Sujo, é para um açoriano mais do que justificado, não só pela beleza da nossa língua refeita e pela nossa histórica e viva intimidade com o Brasil desde o início, como sobretudo pela sua temática: um acto de escavação e memorialização da terra-pátria enquanto vivendo a dor do exílio, a excomunhão, por assim dizer no caso de Ferreira Gullar, decretada pela política, tal como a nossa fora sempre decretada pela desigualdade económica e social. Não foi por acaso que a literatura nordestina dos anos 30 exerceria uma grande influência entre os nossos modernistas que no arquipélago começavam a manifestar-se nas suas próprias páginas um pouco mais tarde. “Terra-pátria”, no contexto de Poema Sujo, querendo dizer primeiro o nosso lugar de nascimento e ponto referencial de partida para todas as subsequentes caminhadas, depois a memória e a experiência transfiguradas num microcosmo necessariamente de todo o país, e eventualmente da condição humana em geral. Poema Sujo será das poucas obras abertamente “ideológicas” que sobrevivem ao tempo e aos acontecimentos que transformam diária e constantemente os nossos rumos públicos e pessoais. É essa a essência primeira, creio, deste poema de Ferreira Gullar. De uma intimidade quase escatológica parte para tudo o que nos rodeia através do binómio conflituoso que é a sujeira inerente aos homens, bichos e coisas em confronto com a vida vivida, na busca perpétua do lugar harmonioso e belo que nunca deixa de ser, parece, o sonho de todos nós. Um poema desta grandeza linguística e metafórica está aberto a infindáveis interpretações, e esta poderá ser uma outra leitura de aproximação textual quase identitária com uma obra que foi elaborada longe da terra e do seu povo, longe de todos os que constituem o palco do seu “drama em gente”, a razão suprema da sua dor e da sua saudade.

Poema Sujo foi escrito em Buenos Aires em 1975 (dias que vazam agora ambos em pleno coração/de Buenos Aires/às quatro horas desta tarde/de 22 de mão de 1975, específica o autor numa sequência sobre os dias num só dia), após alguns anos de exílio forçado pelo regime militar que então governava o Brasil. Atentemos na data precisa da sua escrita: foi o tempo em que quase todo o continente estava mergulhado na mais dura realidade política, na violência e miséria geral, o assassínio dos dissidentes, por vezes em massa como no Chile pós-Allende, tornado uma acção consertada entre as ditaduras que reinavam perante o conclui, quando não mesmo a colaboração activa, de alguns poderes ocidentais. As artes estavam literalmente aprisionadas, reduzidas, como escreveria mais tarde Nancy T. Baden no seu The Muffled Cries, que naturalmente inclui nalgumas das suas páginas outro testemunho de Ferreira Gullar, a “vozes amordaçadas”. Só que no Brasil, como em quase toda a parte onde se vivia a mesma experiência, nem a ameaça de prisão, tortura e morte violenta conseguiram calar e muito menos destruir os que, por natureza e formação, são capazes de olhar para além de si próprios em irreprimíveis gestos de solidariedade e entendimento, dando voz “aos que voz não têm”. Poema Sujo tem a sua génese, uma vez mais, nesse frenesim intelectual tão longe e próximo do seu país natal, nasce durante os dias e horas em que Ferreira Gullar, diria ele depois, achou por bem deixar o seu “testemunho” final, íntimo, e numa voz tão profunda e abrangente que se tornaria na “fala” da própria comunidade, no grito de um povo que não se queixava de nada mas apenas transmitia a sua “sorte”, ou como havia chegado a um tempo seu e a lugares precisos.

A composição de Poema Sujo é feita de palavras que se encandeiam, se repetem e interligam numa musicalidade sinfónica juntando os elementos contraditórios desta e de qualquer vida em labiríntico limbo e à procura de uma saída sem esquecimento. Na tarde argentina em que o poeta se senta ante uma folha em branco ressuscita todo um mundo e vidas (São Luís, capital do Maranhão, durante os anos da Segunda Guerra Mundial) até então perdidas no tempo, perdidas na implacável passagem dos dias mas agora eternamente resgatadas na literatura, no poema redentor que passa a existir para sempre. Instantes que se prolongam ou repetem, tal como as palavras em Poema Sujo: toda a humanidade se funde na memória do autor, e depois na dos seus leitores. A descrição e nomeação real de cada rua, de cada casa, de cada fatia-de-vida vivida ou presenciada, de acontecimentos locais e mundiais, de amores e ódios, de trabalhadores, abastança e fome, de formas e cores na natureza e nas invenções humanas criam uma narrativa de fôlego que, repita-se, confunde o público e o privado no poeta e, por extensão, em todos aqui observados, reinventados ou reditos. Na literatura moderna de “exílios” ou de “emigração” não são as partidas que nos obcecam, são os regressos, que na verdade nunca mais acontecem, nada e ninguém se queda na permanência que imaginávamos. O poeta, nessa sua outra subversão, parte do mundo, da universalidade sem identidade, para as raízes, carregando em si todos os povos que viu, todas as condições que viveu.

Prego a subversão da ordem/poética, me pagam./Prego/a subversão da ordem política,/me enforcam junto ao campo de ténis dos ingleses/na Avenida Beira-Mar. A “subversão” mais temida, como outros regimes políticos acusavam e acusam a literatura em toda a parte, não está em clamar por qualquer utopia, mas simplesmente pela descrição da “realidade” em palavras que cantam e celebram o coração humano em contradição permanente. Que o poeta, mesmo nas suas palavras de humor e ironia, poderia ser morto num campo de “brincadeira” europeia e de nacionalidade específica, não será de modo nenhum um verso inocente. A literatura, em vozes contraditórias de raiva e beleza, também terá esta virtude suprema em que muitos já não acreditam: liberta, devolve a todo um povo a sua alma e dignidade depois da prisão e da maldição.

Ensaio publicado no meu livro borderCrossings: leituras transatlânticas, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2012.

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Ferreira Gullar, Poema Sujo, Lisboa, ULISSEIA/BABEL, 2010.

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DA POESIA DE LARA GULARTE: Escavações da História Imaginada

foto Lara gularte

 Vamberto Freitas

I pull my ancestors from the soil,

bloodlines lost, are found.

I don’t recognize faces,

I know their souls.

The Scott Valley in Northern California

(Minha Família)”,

Lara Gularte in Tales of the Siskiyou1

I

Os versos “decrescentes” na primeira estrofe do poema acima citado são, na sua própria forma, uma metáfora de parte do esforço ou proposta poética de Lara Gularte: recuperar a humanidade dos seus através da escavação imaginativa de histórias esquecidas, nunca escritas, desses que um dia navegaram do Velho para o Novo Mundo. É claro que a temática de Lara Gularte abrange muito mais do que esta faceta dos açorianos imigrados no oeste americano desde os primórdios do século XIX, mas creio ser precisamente nesse seu gesto elegíaco dos antepassados esquecidos em que assenta todo um imaginário na busca de si própria, de uma identidade como mulher e como ser pertencente a um determinado grupo histórico e “cultural” dentro do complexo mosaico humano e época que lhe couberam na sua sorte existencial. Lara Gularte parece estar a dizer que há uma absoluta necessidade de “recuperar” para os nossos arquivos artísticos as nossas almas “perdidas”, aqueles que nos deram vida e nos moldaram todo um futuro neste lugar e neste tempo. De uma intenção larga e profunda, restam as poucas palavras que aqui a poeta nos oferece (I don’t recognize faces/I know their souls). Do esquecimento total, a humanidade ressuscita, apesar de tudo, no seu essencial, no seu Todo. A memória viva dos que se foram, redime, preenche e dá forma às nossas próprias vidas, explica, por assim dizer, a contínua tragédia e alegria de estar vivo, explica o imperativo de reclamar algum significado para a nossa própria passagem por este mundo, avisando ainda aqueles que nos seguirão de que sem essa homenagem identitária não haveria sentido de pertença e partilha em qualquer parte. O vácuo seria humanamente desagregador, intolerável. Com efeito, esta é uma poesia da nossa perpétua incompletude, mas também da viagem de libertação interior, juntando os restos (re)encontrados, recompondo o possível do nosso inviolável ser. Trata-se de um processo que emprega ou recorre à erudição, sensualidade, catolicismo (quase sempre inevitável nos escritores e poetas luso-americanos), e, uma vez mais, a escavação do chão árido ou congelado, pátrias do destino e da (por vezes, pouca) sorte.

Lara Gularte é uma californiana de terceira geração, residente em San Jose, descendente de emigrantes picoenses que foram para Scott Valley (extremo norte daquele estado) a meados do século XIX, ainda durante a Corrida ao Ouro. É formada com um MFA (Escrita Criativa) pela San Jose State University, e dirige a revista literária Reed Magazine, da mesma universidade, assim como a Convergence-journal.com, páginas de poesia e artes plásticas. Publicou o “chapbook” de Days Between Dancing2 em 2002, e prepara-se neste momento para publicar a poesia recolhida em Tales of the Siskiyou: A Poetry Collection, essa homenagem à história do pioneirisno da sua família naquela parte dos Estados Unidos, destino da maior parte dos açorianos até quase aos nossos dias, e desde que começaram a dar o salto ainda em tempos mais recuados nas velhas baleeiras americanas que escalavam principalmente o Faial, a partir do século XVIII. Extremamente consciente de todo o seu e nosso passado, é Associada da California Pioneers of Santa Clara County, que se dedica à investigação e divulgação do património histórico local. Para além do mais, Lara Gularte tem publicado em inúmeras revistas literárias da net e em papel, tendo já sido premiada e nomeada para o cobiçado Pushcart Prize.3 Toda sua poesia foi já traduzida por alunos finalistas da Universidade dos Açores,4 aguardando publicação em edições bilingues a sair no nosso país, e só agora a começar a ser divulgada neste lado do Atlântico, inicialmente no SAAL-Suplemento Açoriano de Artes e Letras, da revista Saber/Açores.5 A leitura que aqui faço da sua obra assume deliberadamente uma perspectiva diaspórica, particularmente no contexto histórico açoriano. Entretanto, Calder Lowe, director de The Montserrat Review sintetizou de modo lapidar todas as outras questões estéticas e temáticas da poesia de Lara Gularte aquando da publicação do já referido Days Between Dancing:

Lara Gularte é uma poeta corajosa. Em Days Between Dancing ela transporta-nos por um território que é intermitentemente assombrado, lírico e aterrorizador. A sua poesia é meticulosamente forjada e enformada por uma inteligência provocadora e irónica, e é de uma urgência apaixonada. Quer trate as ligações intergeracionais, os pesadelos torturados de um veterano do Vietname, o fantasma sinistro do abuso sexual enquanto criança, ou então as forças ameaçadoras que pairam nas sombras de um casamento sem amor, a sua obra demarca-se pela sua ferocidade, clareza de propósitos, e ainda pela admirável consistência da sua voz. Não há aqui alternativas a uma honestidade sem medos e imagística eloquente. Quando tudo isto acontece ao mesmo tempo, como acontece em Days Between Dancing, a poesia como género reconquista a sua força.6

II

Até muito recentemente, pouco ou nada se sabia (para além do conhecimento geral do oeste americano no século XIX) da sorte da maioria dos emigrantes açorianos, ninguém havia resgatado dos diversos arquivos de história social, desde os jornais da época e “documentos” (cartas, fotos, e outros registos) familiares, toda a sua movimentação quotidiana nos diversos escalões sociais a que por ventura ou desventura haviam pertencido. Curiosamente, como mencionarei à frente, Lara Gularte inclui algumas fotos por entre a poesia de Tales of the Siskiyou, permitindo-nos uma leitura entre o fingimento poético e a “realidade” de vidas que ela tenciona “ressuscitar”. Francisco Cota Fagundes deu um primeiro grande passo com Um Português na Corrida ao Ouro: A Autobiografia de Charles Peters,7 acompanhada de uma extensa contextualização feita pelo organizador e tradutor do volume. Donald Warrin e Geoffrey Gomes fariam o mesmo, agora com o monumental Land as Far as the Eye Can See: Portuguese in the Old West,8 estando neste momento a ser traduzido para eventual publicação em Lisboa, enquanto a revista Grande Reportagem,9 que sai com os jornais da Global/Notícias, está a publicar algumas das biografias aí incluídas. Mas a poetização desse passado tem acontecido aos poucos entre vários poetas luso-americanos, como no caso de Frank X. Gaspar em praticamente toda a sua obra ficcional e poética, muito vincadamente na poesia de The Holyoke10 e na ficção de Leaving Pico.11 Em qualquer dos casos, é o acto quase puramente imaginativo que retira do esquecimento as vidas anónimas de pescadores na costa leste americana e a de trabalhadores agrícolas e aventureiros no Oeste. Parte-se de uma pequena história quase sempre contada pelos mais velhos para a reconstituição do que terá sido a existência nos tempos das nossas primeiras fugas à miséria económica e ausência de perspectivas de futuro do seu velho e pobre país (I pull my ancestors from the soil). Salpicada de uma ou outra palavra portuguesa (ou criativa e foneticamente aportuguesada) trata-se de uma poesia que, se não pretende substituir o conhecimento científico das coisas e gentes, oferece-nos quotidianos diaspóricos plausíveis. É claro que, acima de tudo, nos melhores momentos destes e doutros poetas, acontece a estetização de vidas mergulhadas na bruma do tempo, o que só por si justificará o acto poético em qualquer circunstância ou perante todas e quaisquer intenções dos seus autores. Em suma, é dar alma aos que só muito vagamente permanecem na memória (mais como números de censos ou outros cálculos) atribuindo-lhes motivos de vida, adivinhando-lhes alegrias e tristezas, lealdades e traições. Em muita da poesia de Lara Gularte, naturalmente, estão presentes as mulheres, as suas vidas, num obscurantismo rural quase absoluto, vivendo na ausência de sonhos e na dureza dos dias, “chorando” o amor inexistente, sensualidade e desejo tornando-se refúgios primeiros nas noites e nos dias que se repetem no tédio dos campos sem fim ou no enclausuramento das montanhas. A sobriedade assexuada da “mulher gótica” da pradaria americana de Grant Wood, poderá também e de certo modo retratar estas açorianas no exílio californiano, mas os prazeres do corpo e a sedução súbita ou às escondidas tornam-na num ser muito mais completo – a beleza da sua existência redimida nesses raros momentos de afirmação e libertação. “A Rancher’s Wife”:

She raises the shades of the dark trees

and glowing of wheat and pasture.

she opens windows

to the fragrance of honeysuckle,

the sharp smell of manure.

through the kitchen pane

she watches as his calloused hands

lift bales of hay into air.

She opens the screen door,

puts her hands in his,

pulls him inside

She undresses him,

rolls her nylons down around her ankles,

removes heart-shaped lace and girdle

shows him her olive thighs.

She rubs oil in his cracked palms,

removes splinters,

then waits for whatever

his hands will give her.

All night there is intimacy

under a yellow lamp.

At 6:AM she’s calm and slow,

lighting the woodstove

measuring the steady pour of milk,

the breakfast, ready to serve him.12

Não me seria prático enumerar neste espaço todos os poemas em que Lara Gularte procede a esta afirmação da sensualidade em mulheres vindas de uma das mais conservadoras culturas europeias, fortemente condicionada pelo seu Catolicismo condenador. A outra face deste mundo americano reinventado pela poeta oscila sempre entre a contemporaneidade e a sua quase obsessão em dar nome e, uma vez mais, alma e espírito, aos seus mortos esquecidos. Em ambos os casos, acompanhamos a desilusão daqueles que viram as suas vidas escondidas passar-se sem consequência, ou então vidas traumatizadas pelos mais variados acontecimentos indesejados. A solidão desesperada, que um dia Henry David Thoreau catalogou como sendo particularmente americana, atravessa todos estes versos, distinguindo alegremente os poucos momentos de felicidade e realização. É no relacionamento entre homens e mulheres que Lara Gularte vê o seu mundo, e por vezes é a dor absoluta ou a memória magoada que povoa os espaços do Eldorado.13 Como apontou Calder Lowe na sua apreciação citada atrás, a mulher-poeta busca aqui o seu lugar e razão de ser no mundo, tentando também esbater a violência espiritual em que muitos se enredaram, permanecendo para sempre na memória de quem agora os lembra e memorializa. “O passado – diria William Faulkner – não está morto. Nem sequer é passado”. Os dias presentes desta poesia estão natural e irremediavelmente condicionados pela memória do que a poeta viveu, viu e sentiu. Não quero trazer para aqui teoria pós-modernista da cultura ou literatura, mas relembro tão-só que Linda Hutcheon, em The Politics of Postmodernism,14 também reafirma a essencialidade de uma revisitação à história a partir da nossa própria sensibilidade, e não só. Este é um acto poético que pela primeira vez (re)cria as vozes do silêncio-passado, legitima a presença de todo um povo, o açoriano, numa América em que todos os outros, vindos das mais longínquas e diversas nações, reclamam para si continuidade histórica, direito ao sentimento de “pátria”, respeito pelas diferenças culturais enriquecedoras no mosaico norte-americano.15 Se a poeta não podia deixar de “fingir” estas vidas e estes personagens, creio ser significante o facto de em Tales of the Siskiyou Lara Gularte incluir algumas fotos de gentes e lugares, incluindo a pedra tumular de um desses antepassados, dando-nos naturalmente nome, lugar e datas.16 Vemos os olhares perplexos mas determinados de homens e mulheres, em momentos de trabalho, ou em pose frente à objectiva. O acto poético tanto pode ser verbal como visual, certifica que aquela gente existiu, as palavras contam a sua história, (re)arranjam as suas vidas, colocam dor e beleza como pano de fundo, dão sentido às suas (nossas) vidas, criam, como escreveu Leslie Marmon Silko, “comunidade”, onde ela antes não existia ou então ficava nas margens silenciadas. Contra o esquecimento, pois. Diz Lara Gularte na primeira estrofe do poema “Grandfather”: you go during one winter of wilderness/The years have flattened your grave with the earth/wind wiped your name from the granite stone.17

III

Lara Gularte, mais em Tales of the Siskiyou do que em Days Between Dancing – esta última colectânea, na sequência do seu presente e do seu “eu” fingidor ou poético perante o passado inesquecido, molda decididamente todo o seu estado de espírito – faz como que a viagem de regresso às “origens” num agora mitificado Scott Valley. Parte inevitavelmente do pessoal e da história familiar para o contexto comunitário, os mundos da intimidade absoluta de vidas privadas integrando-se num espaço de afectos sociais e culturais mais vastos, metamorfoseando as histórias individualizadas numa história do “grupo”, a poetização celebrante, digamo-lo também assim, da “comunidade”. Na segunda sequência de Tales of the Siskiyou temos poemas com os sugestivos títulos de “The Valley”, “They Meet at Chamarrita” e “Festa do Espírito Santo”. Nestes como na maior parte da sua obra publicada e inédita encontramos de novo Lara Gularte ora em memorialização e diálogo com um qualquer sujeito da família ora em descrições de intimidades de vária natureza num palco público, ocupado pelos que com ela partilham a história da ancestralidade, a estética da convivência tanto para o puro prazer hedonista como para outros rituais profano-religiosos. A memória do grupo, afinal, nunca se dilui por completo na imensidão do seu chão de exílio, que por vezes, especialmente entre as mulheres, é também ou sobretudo um exílio interior. São “personagens” num drama de sobrevivência muito humano, em que raramente ao riso não se segue o choro pelas ausências, pela morte dos amados, pelos sonhos desfeitos. Do choro: She buried his ashes/then planted a tree in them/Nights she sleeps on a cold mattress;18 do riso: The port, dark and sweet, the swirling light of dance/his loosened damp collar, her gray skirts, unfolding/Wrists and hands, the need to touch/The room rises and falls with their hastening breath;19 da celebração colectiva: Incense fills the inside of the church/with absolute presence/Maria Silveira/studies the stained glass/the lambs and saints/She kneels and bows/the host fusing to her tongue/the holiness of her sex/a scent of blossoms.20

Finalmente, queria apontar outras ironias circunstanciais directamente relacionadas com a obra de Lara Gularte. Pela ocasião da entrega e publicação dos trabalhos premiados no já referido concurso literário comemorativo da Corrida ao Ouro na Califórnia, o diário San Jose Mercury News escreveu:

Falando aqui em pinceladas bastante expansivas, a corrida ao Ouro na Califórnia foi uma bigorna onde o Oeste foi temperado e depois reinventado como um novo e maravilhoso destino. Mesmo assim, para alguns de vós que nos escreveram sobre os vossos elos ancestrais a esses tempos, aquele vigoroso período de história americana foi destilado num mundo de particularidades ainda mais espantosas.21

Tomemos em conta que o San Jose Mercury News é a voz primeira de uma cidade e Grande Área que também dá pelo nome de Silicon Valley, precisamente, repita-se, onde reside uma das maiores comunidades portuguesas na costa americana do Pacífico, juntamente com os milhares de outros açorianos que se fixaram no também mítico Vale de San Joaquim. Por outras palavras, o projecto poético de Lara Gularte envolve toda a mítica do Faroeste, colocando os seus e os nossos no centro de um mundo que em pouco mais de um século caminhou do primitivismo fundacional até a uma geografia hoje conhecida em toda a parte por nos ter permitido as comunicações globais instantâneas. Algumas fotografias dos antepassados da poeta ilustram precisamente o suplemento do referido jornal, que se intitula Silicon Valley/Life. Eis o mundo das “margens” em movimento, a colocar-se artística e culturalmente no lugar a que tem direito, a reconhecer-se e a ser reconhecido. No imaginário (intelectualmente canónico) português, as nossas comunidades, à excepção de um pequeno grupo de estudiosos em todo o país, permaneciam até há poucos anos uma “realidade” e uma “história” pouco conhecidas, se não mesmo totalmente ignoradas. Muito do trabalho inicial na recuperação da sua memória estava a ser feito pelas primeiras gerações, limitadas à Imprensa de língua portuguesa ou circulação de livros entre si próprios. A reafirmação cultural em língua inglesa permite-nos cada vez mais o diálogo alargado com todos os outros que connosco partilharam e partilham a construção do Novo Mundo, legitima de outra forma a nossa reivindicação de total pertença a outros e longínquos espaços tornados “pátrias universais”, provavelmente decisivas para a nossa sobrevivência, a todos os níveis, nos tempos vindouros.

Não citei as palavras anteriores crendo que a Arte autêntica procure aplausos, seja de quem for, não creio que os poetas e outros escritores apontem para si e peçam a outros que vejam o que não querem ver ou saber. A força da poesia de Lara Gularte, como a de outros colegas nos EUA que com ela partilham uma Tradição ancestral, movimenta-se entre o inevitável eu poético e o outro. Se nada de novo se diz com esta afirmação, relembrá-lo a alguns nunca será um acto gratuito. No país do individualismo levado a certos extremos filosóficos e ideológicos, a verdade é que ninguém – muito menos os artistas – sobrevive no vácuo histórico do obscurantismo de quem se havia, ou tenta, esquecer-se de si próprio e de quem lhe permitiu uma identidade, seja ela “definida” como for. Se, como outros já escreveram, a nossa liberdade pessoal e originalidade em qualquer representação artística se forja precisamente contra a cultura nacional a que pertencemos, eventualmente o regresso a essa mesma casa comum também acontecerá. O desespero e o aconchego, a dialéctica interiorizada da libertação e da pertença, permitem-nos a oscilação constante e leque de visões contraditórias em que os outros, os leitores, buscam e tentam encontrar a sua própria humanidade – e toda a poesia do seu ser.

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1 Lara Gularte, Tales of the Siskiyou: A Poetry Collection, ainda inédito em forma de livro aquando desta escrita. Reproduzo aqui o que Lara escreve como introdução a estes poemas: “Tales of the Siskiyou is a poetry collection that describes stories based on my Portuguese pioneer family who settled in Scott Valley near Fort Jones California beginning in the mid 1880’s to early 1900’s. Large numbers of Portuguese emigrated to the Siskiyou mountain area of Northern California to hunt for gold and later settled there as ranchers. My great grandmother came to Fort Jones California as a mail order bride during this period and today her homestead remains a local landmark”.

2 Lara Gularte, Days Between Dancing, Stockton, California, The Poet’s Corner Press, 2002. Trata-se de um “chapbook” de temática variada mas no qual Lara Gularte ensaia já o que aqui chamo novamente a escavação da história imaginada, a recriação do passado pelo acto poético.

3 Lara Gularte foi nomeada para o prestigiado Pushcart Prize em 2002 pelo Days Between Dancing. Entretanto, alguns dos poemas da colectânea Tales of the Siskiyou foram seleccionados (“California Bride; 1852 Sonora” e “The Sierras, 1850; Great Aunt Lila and Her Husband Joe”) entre os “Fisrt Place winners” em 1998 pelo San Jose Mercury News Gold Rush Series, um concurso literário do diário de grande expansão da mesma cidade no norte da Califórnia. Outras revistas literárias e culturais onde Lara Gularte tem publicado a sua poesia incluem Downtown Magazine, The Santa Clara Review, The Tule Review, The Manzanita Review e O Progresso. Mais recentemente iniciou a sua colaboração no SAAL-Suplemento Açoriano de Artes e Letras, que dirijo na revista Saber/Açores, de Ponta Delgada. Os seus poemas têm sido publicados no original e em tradução.

4 Trata-se de um projecto na cadeira de língua inglesa do quarto ano do curso Português/Inglês (Estudos e Ensino), de 2003/4. Toda a poesia de Lara Gularte em Days Between Dancing e Tales of the Siskiyou: A Poetry Collection foi traduzida para uma eventual edição (ou edições) bilingues a serem editadas no nosso país. Outros poetas luso-americanos cujas obras os mesmos alunos traduziram são: Joseph M. Faria (The Way Home, Fallbrook, CA, Lit Pot Press, Inc., 2003), Michael Garcia Spring (Blue Crow, Fallbrook, CA, Lit Pot Press, Inc., 2003), David Oliveira (In The Presence of Snakes, Santa Barbara, CA, Brandenburg Press, 2000) e George Monteiro (The Coffee Exchange, Providence, Rhode Island, Gávea-Brown, 1982).

5 A divulgação entre nós dos escritores, poetas e ensaístas luso-americanos, a partir dos anos 70 até aos nossos dias, deve-se principalmente à Gávea-Brown/Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, fundada e dirigida por Onésimo T. Almeida na Brown University, tendo como Co-Director, quase desde o começo, George Monteiro, Professor de Literatura Americana na mesma instituição. George Monteiro foi e continua a ser, por sua vez, uma das primeiras vozes consistentes na escrita e análise da literatura luso-americana. Organiza neste momento The Gávea-Brown Book of Portuguese-American Verse, que incluirá poetas desde Emma Lazarus a Frank X. Gaspar. Uma primeira mostra deste projecto foi feita no ensaio “Poesia Luso-Americana nos Estados Unidos: De Emma Lazarus a Frank Gaspar”, primeiro lido no colóquio Portuguese-American Literature: The First One-Hundred Years, na Yale University (2001), e depois publicado no SAAL-Suplemento Açoriano de Artes e Letras (revista Saber/Açores), Nº 11, Janeiro de 2004.

6 Calder Lowe in The Montserrat Review. Tradução minha. Esta apreciação crítica vem na contracapa de Days Between Dancing. Eis o texto no original: “Lara Gularte is a fearless poet. In Days Between Dancing, she transports us through a landscape that is by turns haunting, lyrical, and terrifying. Her poems are meticulously crafted and informed by a provocative, ironic intelligence, and passionate urgency. Whether she is describing an intergenerational connection, a Vietnam veteran’s tortured dreamscape, the sinister specter of childhood molestation, or the threatening forces that hover in the shadow of a loveless marriage, her work is characterized by a ferocity, purposefulness, and consistency of voice that is remarkable. There is no substitute for relentless honesty and compelling imagery, and when these occur in combination as they do in Gularte’s Days Between Dancing, the genre of poetry is revitalized”.

7 Francisco Cota Fagundes, Um Português na Corrida ao Ouro: A Autobiografia de Charles Peters, Lisboa, Edições Salamandra, 1997. Numa recensão crítica que então publiquei, escrevi que: “Uma das mais interessantes curiosidades desta Autobiografia é que não menciona uma só vez qualquer outro açoriano durante tão longo percurso no oeste americano – apesar de já nesta altura, a princípio do século XX, haver uma substancial comunidade açoriana precisamente no norte da Califórnia, e que viria a ser atentamente notada por escritores como Jack London, que retrata mais ou menos pormenorizadamente esses outros imigrantes açorianos no romance Valley of the Moon (1913). In Vamberto Freitas, A Ilha Em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, Lisboa, Edições Salamandra, 1999, p.184.

8 Donald Warrin and Geoffrey Gomes, Land As far As They Eye Can See: Portuguese In The Old West, Spokane, Washington, The Arthur H. Clark Company, 2001.

9 A partir do número 164 da Grande Reportagem, Ano XV, 3ª Série, 28 de Fevereiro 2004. Nos Açores a revista é distribuída com o diário Açoriano Oriental, de Ponta Delgada.

10 Frank H. Gaspar, The Holyoke, Boston, Northeastern University Press, 1988.

11 Frank X. Gaspar, Leaving Pico, Hanover, New Hampshire University Press of New England, 1999. Traduzido em Portugal com o título Deixando a Ilha do Pico, Lisboa, Edições Salamandra, 2002.

12 In Tales of the Siskiyou: A Collection of Poetry, Section II.

13 Alguns destes poemas da “escuridão” deste particular imaginário de Lara Gularte são, entre outros, “After the Second Tour”, “Orchard Man” em Days Between Dancing, e “The Shooting of Manoel Cardoza, Portuguese Immigrant May 29, 1888” e “150 Years Gold Was Discovered in California” em Tales of the Siskiyou: A Collection of Poetry. Por sua vez, Days Between Dancing contém vários poemas que reforçam a visão pessoal quase apocalíptica de Lara Gularte, intitulando vários poemas com meses de Inverno, ou então com a escuridão da noite: “Thinking About Dying at The Beach in December”, “Night”, “In February”, “In March”, “Catching the Autumn”. O primeiro poema do livro, “After the Second Tour”, revisita as noites com o se companheiro, que fez a guerra no Vietname e não escapa ao pesadelo perpétuo de ter visto matar e morrer, transformando o amor de outrora num inferno de medos perseguidores, a escuridão da noite virada metáfora da escuridão do espírito. Eis a abertura do poema: “My henna lips/you loved/before the world began to bleed/through your body/Each night you take Da Nang/and Chu Li to bed with us/Night birds become winged engines/you grow cat pupils/and wild animals hide under the furniture”.

14 Linda Hutcheon, The Politics of Postmodernism, London, Routledge, 1989.

15 Em muita da sua obra, Edward W. Said discutiu frequentemente um mundo da pós-modernidade que é já feito de margens humanas infindáveis, defendendo do mesmo modo o direito às identidades fluidas de cada um ou de cada grupo, não permitindo que as forças hegemónicas culturais vinculem o que é ser-se ou não ser-se do “centro” ou das “margens”, dando ainda a cada um a liberdade de reinvenção pessoal ou identitária conforme as vontades nunca impostas por ninguém, um indivíduo podendo muito bem “pertencer” ou “identificar-se” a várias realidades vividas em geografias múltiplas. Creio ser de leitura fundamental para esclarecimento destas questões e/ou posicionamentos ideológicos, Culture and Imperialism (New York, Alfred A. Knopf, Inc., 1993), assim como a sua autobiografia intitulada Out of Place: A Memoir, New York, Alfred A. Knopf, a Division of Random House, Inc., 1999).

É de elementar justiça aqui relembrar a todos que uma das primeiras teorizações de fôlego sobre a literatura luso-americana deve-se à recém-falecida Nancy T. Baden, Professora de Língua e Literaturas Brasileira e Portuguesa na California State University, em Fullerton. Nos anos 70 e 80 publicou uma sucessão de trabalhos nesta área, que circularam entre um pequeno grupo de estudiosos, que então já se interessavam academicamente por estas questões. Em 1979 organizou uma mesa redonda na sua universidade, pela ocasião das comemorações do Dia das Comunidades, intitulada A literatura Luso-Americana: Que Futuro?, em que participei juntamente com Onésimo T. Almeida, Eduardo Mayone Dias e Urbino de San-Payo. Essas intervenções seriam publicadas na Gávea-Brown/Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, Vol. II, Nº 1, Jan.-June, 1981, pp.14-32. Portuguese-American Literature: Does it Exist? seria publicado na revista Melus/The Journal of the Society for the Study of The Multi-Ethnic Literature if the United States, sob a temática geral The Smelting Price, Volume 6, Number 2, Summer 1979. Este mesmo trabalho seria mais tarde traduzido pelo poeta Urbino San-Payo sob o título Existirá Uma Literatura Luso-Americana? O Frente a Frente Entre a Teoria e a Realidade Numa Literatura em Desenvolvimento, publicado na revista angrense Atlântida, e depois em separata, Nº 2, 3 e 4, Ano de 1984. Entretanto, tinha já publicado um pouco antes Portuguese-American Literature: An Overview, na Gávea-Brown, Vol. I, Nº2 July-Dec., 1980. Começava este ensaio colocando as questões fundamentais, que anos mais tarde nos orientariam a todos: “Portuguese-American Literature is at present but a small facet of the Portuguese experience in the United States. Heretofore, the literary contributions of Portuguese-Americans have not been significant; therefore, it should be clear from the outset that the phenomenon being surveyed here is but a tiny presence when viewed within the context of ethnic literature in the United States. At the same time, however, there are several recent factors which indicate that the Portuguese-American literary production, is possibly in a state of transition and thus it may be fruitful to pause and examine the current state so as to provide background and perspective in the event of future changes or transformation”, p. 29. Estavam ainda longe de aparecer no mundo literário entre nós Katherine Vaz, Frank X. Gaspar, David Oliveira, Sue Fagalde Lick, Joseph M. Faria, Michael Garcia Spring e, agora, Lara Gularte. Nancy T. Baden foi durante muitos anos, desde a sua fundação, Coordenadora de Recensões da mesma revista, por convite do seu Director, Onésimo T. Almeida. Especializada em Literatura Brasileira (a sua tese de doutoramento é sobre a obra de Jorge Amado), nunca deixaria de manter a sua aproximação pessoal e académica aos colegas açorianos nos Estados Unidos. Foi minha professora de Língua e Literatura Portuguesas Na California State University, Fullerton, nos anos 1972/1974.

16 Como na fotografia da pedra tumular de Manoel Cardozo: “Memoria de Manoel Cardozo, Sepultado 29 de Maio de 1888, Idade 38 annos, e natural da Ilha do Pico, Freguesia do Soldão, filho de Thome Cardozo e Isabel Thereza”. Esta foto ilustra em Tales of the Siskiyou o poema “The Shooting of Manoel Cardoza Portuguese Immigrant May29, 1888”, já aqui mencionado noutra parte. A ortografia respeita aqui o original.

17 Do poema “Grandfather” in Tales of the Siskiyou: A Poetry Collection.

18 Do poema “The Widow Silva” in Tales of the Siskiyou: A Collection of Poetry.

19 Do poema “They Meet at Chamarrita” in Tales of the Siskiyou: A Collection of Poetry.

20 Do poema “Festa do Espírito Santo” in Tales of the Siskiyou: A Collection of Poetry.

21SILICON VALLEY/LIFE, Section E, San Jose Mercury News, February 3, 1998. Tradução minha. O original lê: “In the broadest of strokes, The California Gold Rush was an anvil upon which the West was tempered and reworked into a new and wondrous destination. Yet, for those of you who wrote to us about your ancestral ties to the event, that hefty chunk of American history has been distilled to the even more wondrous world of detail”.

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Ensaio incluído no meu livro Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado espelho, Ponta Delgada, Edições Macaronésia, 2010.

“THROUGH A PORTAGEE GATE”: Vidas Contadas e Reinventadas

Portagee GateHe is gone now. His shop is gone. Weld Square is gone. His life has been wiped clean off the board. But I wake in the night and I see his face and I hear his voice.

Prologue” de Through a Portagee Gate

                                                                         Vamberto Freitas

Na capa de Through a Portagee Gate,1 a mais recente “autobiografia” de um luso-americano, Charles Reis Felix, vemos um retrato de uma cara inegavelmente sul europeísta, neste caso para um leitor português, de imediato reconhecida como a de alguém que nos é muito próximo: podia ser pai ou avô de qualquer um de nós. De boné tradicional, camisa de flanela, de sorriso natural e sincero, enfrentando a objectiva, sem qualquer pose, com um castanho cor de terra como moldura, podia ter sido tirado em Portugal, mas não foi. Trata-se do pai do autor, que tinha emigrado de Setúbal para New Bedford a princípio do século passado, tendo lá permanecido o resto da sua longa e pacífica vida, exercendo solitariamente a profissão de sapateiro em oficina própria e só, ou como ele próprio gostava de lembrar ao filho, “um fazedor de sapatos (shoe maker), dignificando-se assim perante muita da sua “concorrência” imediata nos bairros da sua cidade. Se coloco a palavra “autobiografia” entre aspas é porque esta longa narrativa será isso e algo mais: é uma “biografia”, também, do seu pai, assim como uma história social de toda uma comunidade lusa nos Estados Unidos, particularmente a partir dos anos 20 até quase aos nossos dias. Não é a primeira deste género sobre alguém ou uma das nossas comunidades na costa leste americana, mas é a primeira que nos dá um retrato da vida mais ou menos ainda em “colónia” ou mesmo “gueto”, mas um “gueto” à nossa maneira, que depressa se transformaria em “comunidade” pacífica, ordeira, isolada (“rodeada de América por todos os lados”, como certamente também diria aqui Onésimo T. Almeida), tentando viver o sonho americano a partir dos escalões sociais de base durante todo o século aqui prefigurado. New Bedford já tinha então feito a transição de cidade baleeira para a industrialização téxtil, que viria a providenciar o modo de vida de grande parte dos nossos imigrantes lá residentes, recém chegados ou de “longa” data. De certo modo também pioneiros da “modernidade” societal que nascia na época, estamos aqui nas margens da sociedade que simultaneamente luta pela sua ascensão como constitui a força servil às classes dominantes e a uma política de desenvolvimento que olhava as pessoas como peças menores mas fundamentais na engrenagem dura de uma economia totalmente aberta e em expansão desenfreada. As migalhas, por assim dizer, que cairiam da mesa faustosa dos poderes económicos e políticos já eram suficientemente atraentes para os imigrantes que tinham deixado uma situação de vida periclitante na sua terra de origem. Entre a consciência desse seu lugar na sociedade americana e das possibilidades, reais ou sonhadas, que os levariam além da mera sobrevivência, nasceram as nossas comunidades com características que tanto são específicas ao nosso modo de ser como se assemelham em tudo a outros grupos étnicos que chegariam ou já tinham chegado de outros países e culturas: franceses, irlandeses, polacos e judeus europeus. É neste caldeirão humano que Through a Portagee Gate se movimenta em quase 500 páginas de prosa concentrada num só lugar e vidas, mas entrecruzada entre o presente e o passado. Recuamos a um tempo em que se avista a “América” muito pouco e só através de estreitas brechas no muro cultural e sócio-político que separa essas vidas portuguesas em New Bedford de todos os outros, até à chegada (vindos das mais variadas proveniências geográficas e nacionais) dos que aqui são denominados de “bárbaros”, já quase nos nossos dias, esses que supostamente tornariam uma obscura mas estável cidade piscatória e industrial num terreno de instabilidade, crime, e “modernização” turbulenta.2 Through a Portagee Gate é tanto uma celebração de uma vida simples, satisfeita com o seu próprio destino, como um lamento de perdas várias.

Charles Reis Felix, filho do protagonista destas memórias e de mãe também portuguesa, nasceu em New Bedford, mas sairia de lá para sempre em 1941, quando foi estudar para a Universidade de Michigan, tendo combatido na Europa na II Guerra Mundial, experiência narrada nas suas outras memórias, publicadas em 2002, Crossing the Sauer: A Memoir of World War II, tendo recebido elevados elogios da crítica especializada, e de outros, quer pela sua força e honestidade narrativa quer ela sua qualidade literária.3 Reis Felix foi professor do ensino primário, mas escreve desde sempre, esperando boa parte da sua vida antes de ver essas obras publicadas. Segundo informação editorial, tem já pronto para publicação a sua primeira ficção de fôlego, intitulada Da Gama, Gary Grant and the Election of 1934, romance que será editado pelo Center for Portuguese Studies and Culture, da Universidade de Massachusetts Dartmouth.4 Reis Felix, hoje aposentado, reside no norte da Califórnia há muitos anos, tudo indicando que, apesar da idade, continua a escrever.

Through a Portagee Gate segue cronologicamente a vida de Reis Felix desde a infância, desde os anos em que tomou consciência de si próprio e do pequeno mundo circundante de bairro em New Bedford, até ao falecimento de seu pai já na década de 80, exactamente no mesmo sítio e casa onde toda a história destas paginas decorre. Entretanto, a primeira parte da narrativa começa no presente, em que o autor se justifica perante os seus eventuais leitores, explicando as suas motivações para a tarefa, que será reconstituir a vida de seu pai, a sua e a de todos aqueles que com ele partilharam a sua experiência num determinado lugar e tempo. A palavra “Portagee”, aqui, não perde a sua semântica depreciativa, mas carrega boa dose de ironia redentiva. Curiosamente, é um artigo anti-imigrante publicado na Yale Review de 1893, da autoria de Francis A. Walker, à altura presidente do Massachusetts Institute of Tecnology, que desperta toda a “ira” civilizada de Reis Felix, e que o leva a desmontar todo um paradigma de pensamento racista anglo-saxónico, que viria a acentuar-se generalizada e violentamente nos anos 20. O artigo nem menciona os portugueses directamente, mas Reis Felix sabe muito bem que estávamos nele incluído. Não vale a pena entrarmos aqui no seu teor, bastando dizer que apelava aos poderes norte-americanos para se precaverem contra o influxo emigratório de milhões de europeus que ameaçariam a “superioridade”, em todas as suas vertentes, dos que já eram “americanos” nascidos e educados no Novo Mundo. Reis Felix utiliza um passo epsis verbis desse documento como primeiro capítulo de Through a Portagee Gate, para logo depois passar a falar das suas experiências pessoais na Califórnia, onde confirmou todos os preconceitos contra a sua gente lusa, onde testemunhou pessoalmente todas as atitudes estereotipadas daqueles que pouco ou nada de nós conheciam (ou conhecem ainda hoje).5 A história está bem documentada em alguns escritos luso-americanos para que entremos aqui também nos seus pormenores e labirínticos argumentos. De prosa leve mas extremamente fluente e bem estruturada, concisa e claríssima, o autor consegue que depressa esqueçamos que estamos a ler uma autobiografia, colocando-nos ante uma narrativa de força, como que algures entre a ficção e a realidade,6 a sua memória servindo sempre como emolduramento a uma vida que adivinhamos logo nas primeiras páginas ser longa e plena de sentido. Curiosamente, nunca encontramos seu pai perante tais situações socialmente adversas que seria a discriminação aberta ou subtil por outros na sua cidade de residência, pois o seu isolamento era também quase absoluto: viveu entre a sua oficina e a sua casa, não permitindo a ninguém nunca que o maltratassem por qualquer via. Julgava os outros simplesmente através dos “negócios” que com eles fazia, e mais nada. Para ele, os Estados Unidos tinham sido a sua salvação da miséria em Portugal, o sistema nada teria a ver com alguma infelicidade eventual, mas sim os indivíduos que se lhe atravessavam no caminho. Não é um resgate de injustiças contra o pai que leva Reis Felix a esta narrativa, mas sim o resgate da sua própria memória ante o racismo daqueles que nunca o conheceram e nunca entenderiam a profunda dignidade com que viveu e trabalhou entre eles todos. O subtexto de Through a Portagee Gate, torna-se, assim, a defesa de todos os outros que com o seu pai partilharam e partilham esta história tão comum da imigração nos EUA, principalmente os portugueses. Reis Felix não conhece nada da vida dos seus em Portugal (sobre isso, o silêncio do pai era total), mas foi criado até aos 14 anos de idade num Pequeno Portugal americano, com todos os seus estilos de vida muito próprios (a obsessão pelo segurança financeira, por exemplo, implicando uma vida exclusivamente de trabalho e poupança), crenças e sonhos futuros garantidos. Nada do que ouviria no seu embate com outros confirmava o que ele conhecia da sua gente. Assim mesmo, Reis Felix nunca se libertou, ele próprio, de alguns desses preconceitos, mas atenuava-os com o resto da história. Os portugueses, para ele, podiam não ser uma nacionalidade muito “inteligente”, ou vocacionada sequer para a vida da mente, tal como os conhecia no seu meio ambiente americano, mas do mesmo modo atribuía outros “defeitos” ou “virtudes” a outros que “equilibravam”, digamos assim, a dignidade de cada um desses grupos. Aliás, George Monteiro, no prefácio a Through a Portagee Gate, insinua este aspecto “problemático” da narrativa.7 Torna-se irónico para o leitor que Reis Felix escreva tão bem e com tanta força amena uma narrativa destas sem aparentemente perceber que nada desse seu passado étnico ou cultural o impediu de perseguir uma outra vida na literatura, um pai sem formação escolar que imediatamente, chegado o tempo, financiaria com orgulho a sua própria educação universitária. Eis aqui um desses passos ambíguos (particularmente para um escritor que se propõe aqui responder a racistas anglo-saxónicos), mas muito sincero por parte do autor no contexto total de Through a Portagee Gate:

Maybe he really wasn’t Portuguese. Maybe he was Jewish. He had the nose for it. The Jews had been all over the Iberian peninsula at one time. Maybe one of his ancestors had embraced Christianity with a sharp sword at his throat, a favorite means of conversion. Maybe he was Moorish. The Moors had been there for hundreds years. Well, I would prefer Jewish to Moorish.

Through a Portagee Gate lê como um romance em fragmentos, mantendo a presença constante dos seus personagens centrais, nomeadamente o narrador Reis Felix e seu pai. Praticamente toda a “acção” decorre entre a oficina e a casa de família a pouca distância. Todos os outros são vistos entrando ou saindo desse posto de trabalho, ou passeando-se no Weld Square, sujeitos aos pronunciamentos e sentenças do velho sapateiro. Como já aqui foi referido, pertencem aos mais variados grupos étnicos, a maior parte das pessoas ainda com o sotaque e modo de ser da terra de origem. A sua vida interior, a de reis Felix e dos seus, vai-se-nos tornando familiar de página a página, sentimos que o conhecemos intimamente. É isto, supõe-se, que justifica a literatura: entrar em mundos mais ou menos “alheios”, mas confirmando sempre a nossa humanidade comum, o sentido de vidas, afinal, partilhadas, se não na experiência concreta de cada um, pelo menos na “atitude” existencial que um dia definiu a nossa pertença ou a um grupo ou outro. Como terceira “personagem” em Through a Portagee Gate, temos a mãe de Reis Felix, que permanece inconspicuamente em todo o cenário aqui montado, mas tornando-se inesquecível. Está aqui como que uma consciência interrogadora de tudo o que se faz e diz, um coro a uma só voz, questionando cada palavra, cada pensamento, cada sentença do seu marido. Através do seu leve sarcasmo perante tudo quanto diz ou conta o marido do seu dia-a-dia na oficina, ela contradiz, defende os não-presentes, leva a família a saber que existem outros pontos de vista e filosofias de vida em seu redor. Fala-lhe à mesa do seu misebarelismo, do seu mau humor para com os seus, quase sempre, pobres clientes, e, num caso de comédia sem par na literatura luso-americana, de como o governo lhe “apanharia” eventualmente por ele nunca ter pago impostos, mesmo enquanto investindo constantemente em moradias para arrendamento. Aliás, quando Reis Felix nos coloca à mesa de jantar da sua infância e adolescência, tanto esperamos as histórias do pai ou os seus aforismos “filosóficos”, como o contraponto constante e sarcástico da mãe. De tudo isto, fica-nos a ideia clara de como toda uma comunidade, nos seus primórdios, se foi defendendo e construindo, se relacionava entre si e com os outros, se bem que o isolamento de cada grupo seria só quebrado em ocasionais lides comerciais, encontros de rua, mas nunca, como ainda hoje, numa convivência culturalmente íntima. Cada qual ficava entre si, num espaço democraticamente delineado, perseguindo vagamente o sonho americano, a única ideia que “unifica”, como um dia escreveu outro autor norte-americano,9 tão numerosa e diversificada população a princípio e meados do século passado. Creio que não haverá “retrato” social mais completo e esclarecedor da sobrevivência de uma das nossas mais antigas e importantes comunidades na América do Norte. É precisamente a partir dessa sua duplicidade étnica e cultural que Reis Felix organiza Through a Portagee Gate:

I was brought up in the North End of New Bedford among Jickies, Frogs, Polocks, and Portagees, with a sprinkling of Jews for flavor. We were all foreigners or the children of foreigners, so we were all equals. There were strange smells coming from every kitchen. Nobody could lord it over anybody else.10

Portugal tinha já sido ofuscado quase por completo na memória destes “personagens” de Through a Portagee Gate. Mesmo que o seu autor não demonstre muita preocupação com esses chamamentos às suas origens ancestrais (ao contrário do que acontece nalgumas outras narrativas luso-americanas do género) a partir do momento que o seu pai abandonaria para sempre o nosso país em 1915, a verdade é que esta narrativa, ela própria, constitui uma inegável homenagem literária e memorialista aos nossos únicos e corajosos “navegantes” do século passado, de que seu pai foi apenas um entre milhões. Simbolicamente, no entanto, uma das últimas frases proferidas pelo pai de Charles Reis Felix, numa conversa com uma das suas cunhadas pouco antes da sua morte, foi: “Do you still remember Setúbal, Mary?”11 Pode muito bem toda uma cultura nacional de longa história como a nossa não reconhecer devidamente nos seus imaginários literários a maior parte dos que se foram, mas testemunhos destes farão eventualmente parte do nosso legado histórico-cultural e literário, tal como algumas das narrativas canónicas da nossa peregrinação aventureira, ou simplesmente as de sobrevivência pura. Para um país que hoje tanto parece interessar-se por tudo que é norte-americano, especialmente pela literatura e pela cultura popular em geral, que livros como Through a Portagee Gate permanecem ignorados entre nós (raramente se traduzem em Portugal livros de luso-descendentes), só evidencia uma vez mais os complexos e preconceitos intelectuais desse mesmo país. Enquanto grandes escritores como John Steinbeck utilizariam precisamente termos como “Portagee” para nos rebaixar a todos, estes autores luso-descendentes utilizam-nos do mesmo modo, mas num acto de resgate da dignidade de todo um povo, mesmo por vezes tão ambiguamente, como o faz o autor desta outra “saga” nossa nuns Estados Unidos de outros tempos.

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1 Charles Reis Felix, Through a Portagee Gate, North Dartmouth, Massachusetts, Center for Portuguese Studies and Culture, University of Massachusetts, Dartmouth, 2004.

2 O autor utiliza mesmo o termo “barbarians” para descrever a nova onda de residentes que chegariam a New Bedford logo após as mudanças sócio-económicas radicais no país que resultaram da II Guerra Mundial, e que introduziriam grande instabilidade na comunidade com comportamentos pouco convencionais para os que lá estavam desde há muito, desde roubos a violência mortífera. A sua linguagem aqui, hoje politicamente pouco correcta, aplica-se ainda a outras observações suas em relação a outros e adentro do tradicional espírito de rivalidades entre os mais variados grupos étnicos, e, até, aos próprios portugueses, por quem o autor sempre nutriu o mais profundo respeito. Reis Felix apresenta-nos a alguns destes “bárbaros” num capítulo intitulado precisamente “The Americans”: “Once of Americans – escreve – moved into our neighborhood. Their stay was brief but for that time we saw Americans close up”, p. 281.

3 Charles Reis Felix, Crossing the Sauer: A Memoir of World War II, Springfield, NJ, Burford Books, 2002. Um desses recenseadores especializados, Paul Fussel, escreveu que se tratava de “one of the most honest, unforgettable memoirs of the war I’ve read”. George Monteiro, por sua vez, escreveu numa breve recensão intitulada “A Portuguese-American Memoir by a Member of the Greatest Generation” que: “Felix’s writing is clear and crisp, even bordering, at times, on the aphoristic”. Noutra parte do mesmo texto, Monteiro compara ainda estas memórias de Reis Felix a outras grandes obras americanas de Guerra. “(…) Crossing the Sauer nevertheless calls to mind occasionally Stephen Crane’s Red Badge of Courage or his great story ‘The Open Boat’”.

4 Segundo informação publicitária do editor, trata-se também de ficção que tem como tema a experiência imigrante e étnica dos portugueses e luso-americanos na América do Norte.

5 Eis aqui parte desse texto de Francis A. Walker, transcrito por Charles Reis Felix no primeiro capítulo intitulado “Every Foul and Stagnant Pool”, frase tirada do próprio texto em causa. Diz Francis A. Walker, depois de mencionar alguns desses grupos de europeus “from Ireland to the Ural Mountains”: “The stream has fairly begun flowing and it will continue to flow so long as any difference of level, economically speaking, remains, so long as the least reason appears for the broken, the corrupt, the abject, to think that they be better off here than there”, p. 19.

6 George Monteiro, que prefacia Through a Portagee Gate, escreve sobre o aspecto artístico desta obra: “There is, finally, only one thing Felix can do for himself, for his father, for his family, for his neighborhood, and that is to write as well as he can. That is, to turn the re-collections of experience into imaginative art. This act of imagination is a form of philanthropy that is seldom if ever recognized for what it is”, pp. xii-xiii.

7 Afirma ainda George Monteiro: “(…) What is one to make of the author’s perhaps too-sharp eye for the embarrassing detail, his predilection for casting incidents and character ironically, his sometimes ham-fisted satire at the expense of the ethnics (including the Portuguese) who appear in his narrative?”, p. xiii.

8 Through a Portagee Gate, p. 262. Generalizações como está são muito frequentes em toda a narrativa. No mesmo capítulo do passo aqui citado, Reis Felix ainda acerca do pai: “Just as there those among us who are un-American, so my father was un-Portuguese. He never took a cent off his children (…)”; ou ainda. “He was un-Portuguese in another way. Envy is the common flaw in the Portuguese character. The Portuguese is very much concerned with what others have (…), p. 261.

9 O (falecido) jornalista e historiador Theodore H. White desenvolveu esta ideia em quase todos os seus livros de análise política e histórias de algumas campanhas presidenciais norte-americanas, inclusive no seu Breach of Faith: The Fall of Richard Nixon (1975).

10 Through a Portagee Gate, p. 317.

11 Through a Portagee Gate, p. 461.

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Ensaio escrito em 2006, e depois incluído no meu livro Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado do espelho, Ponta Delgada, Edições Macaronésia, 2010.

A poesia (também) como pátria imaginada

Capa Praça da Canção

 

Canto conforme a circunstância/circunstância não minha mas dos homens todos./É noite estou fechado é noite/minha canção acesa sobre o mundo.

Manuel Alegre, Praça da Canção

Vamberto Freitas

Em Terra Devastada, T. S. Eliot elege o mês de Abril como “o mais cruel dos meses”, o tempo da morte presente dando lugar ao renascimento da vida, a podridão da terra transformando-se no campo de cheiro e brilho primaveril, a semente e a flor prometendo a visão de todos os paraísos perdidos. Num poema que nos fazia transpirar de frustração interpretativa nas faculdades americanas, numa época em que estava decididamente fora de moda ler o que então chamávamos, com todo o desprezo, “os elitistas” da literatura ocidental, os seus versos de abertura são de facto devastadores na sua verdade e na sua beleza. Os intérpretes mais sabedores transmitiam-nos o que ainda não sabíamos reconhecer – o genial jogo da forma lúdica das palavras que só declamadas nos dão a musicalidade da linguagem, enquanto carregam em si as mais poderosas metáforas de aproximação a um outro entendimento da condição humana desde os tempos imemoriais, esses versos de abertura do grande poema tornando-se o intróito do canto quase incomparável na língua inglesa, significando, uma vez mais, a verdade da natureza implacável, transformando-se na metáfora da vida e da morte. Retenhamos ainda uma das mais pungentes e pessimistas imagens do poema: T. S. Eliot, na altura um expatriado bancário em Londres a olhar do seu escritório as multidões de trabalhadores oprimidos e tristes arrastando-se na famosa ponte do Tâmisa, rumo à dureza do nebuloso dia londrino, o pessimismo do poeta na terra sem promessa, o contraditório da aristocrática Europa ao virar do século, e que ele havia sonhado na América profunda e inculta da sua nascença. Abril é, aqui, o mês da ambiguidade do nosso próprio ser: “Abril é o mais cruel dos meses, germina/Lilases da terra morta, mistura/Memória e desejo, aviva/Agónicas raízes com a chuva da primavera”.

Retiremos da Praça da Canção, de Manuel Alegre, as palavras “ideologia” e “política”, mas nunca a palavra História, assim com “H” maiúsculo, e, creio que assim melhor se deverá entender, numa outra interpretação, a grande, marcante, e já canónica poesia do “País de Abril”, o poema como geografia afectiva, onde habita a “memória e desejo”, o passado triste (aliás palavra recorrente nestas páginas) de todo um povo por entre a sua insistência secular de libertação e felicidade, numa definição individualmente humana e colectivamente histórica. Cada leitor traz para um texto ou poema, sabemos, as circunstâncias da sua vida, as etapas decisivas do seu percurso, não há leitura num vácuo. Saído do meu país na adolescência com destino a terras distantes, “pátria” para mim foi sempre uma noção tão real como imaginária, a memória do passado em ajustamento constante a cada presente vivido na ausência de um sentido claro de pertença em qualquer um dos lados das fronteiras da minha, ou nossa, existência. Quando li pela primeira vez na Califórnia alguns destes poemas de Manuel Alegre, nos tempos seguintes ao 25 de Abril de 1974, experimentei outro “choque de reconhecimento” melvelliano: aqui estava a memória não vivida do meu país, mas a dor e o descalabro contínuo da guerra em África (de que falávamos nalgumas aulas de Ciências Políticas) provocando em mim o mesmo que, pouco antes, havia sentido aquando do violento golpe em Santiago do Chile. As “pátrias imaginárias” de que nos fala Salman Rushdie são-nos tão reais como o chão que pisamos, e, pelo menos no meu caso pessoal, só a grande literatura as perpetuou em mim, dando-me as “imagens e as miragens”, de que um dia José Martins Garcia me diria ser o modo como sempre vimos o outro lado do mar, as Américas, ou, ao contrário para outros açorianos, o nosso restante país a leste. Se os que ficavam neste Portugal em guerra, e política e economicamente miserável, começavam, por força da história, a viajar forçadamente entre as suas margens da Europa e África, sendo eles os sujeitos da Praça da Canção, os outros — como eu, à distância – estavam igualmente presentes na voz que Manuel Alegre fez ecoar nessa prisão real e metafórica que era o nosso território, quando se dirigia aos seus leitores – ou ouvintes, como veio a acontecer com alguns destes poemas – relembrando e protestando a emigração forçada dos seus compatriotas, o exílio exterior e interior generalizado, a nossa condição de povo messiânico mas perdido. Não é preciso ser nativo de um espaço linguístico e cultural para absorver um poema ou qualquer outro texto, movidos que somos pelo que entendemos ser o universalismo do sentir humano, a angústia existencial que parece comum a todos os povos. Só que quando vem da nossa própria Tradição, quando na sua idiossincrasia de falas e saberes nos reconhecemos comovidamente, quando o espelho nos reflete a nossa própria imagem, o sentido de pertença que nos havia sido roubado pelas forças dominantes num dado momento da nossa história acontece pelas palavras, é-nos recuperado pelos significados de uma memória que parece genética, pelo desejo renovado, neste caso, de um regresso ao nosso próprio ser e chão, são as “letras de sangue”, “canto da nossa tristeza”, que o poeta nos devolve pelo seu punho e pela sua voz. Quando lia e leio um poema como “Trova do Emigrante”, leio-me, e leio os meus compatriotas, o destino de França sendo o mesmo que o das Américas, o destino comum dos nossos, a verdade da nossa peregrinação involuntária, que tentavam justificar por qualquer instinto de aventura natural ao povo português: Não tem sede de aventura/nem quis a terra distante./A vida o fez viajante./Se busca terras de França/é que a sorte lhe foi dura/e um homem também se cansa. Toda a literatura é uma dialéctica da vida, toda a grande literatura é um diálogo com o outro, a viagem em busca da imaginada ilha sempre em frente, a salvação e regeneração pessoal e colectiva, quando a nossa casa comum é assaltada pelos comerciantes da miséria e da morte.

Praça da Canção não fica nem poderia ficar pelo choro de um um povo caído, contém em si, como muitos outros já escreveram sobre este livro, publicado em 1965, e de imediato feito uma espécie de manifesto, lido e cantado, da raiva e esperança nacional, a nossa história como moldura, referenciando ainda todo o arquivo vivo e criativo que é uma grande literatura como a nossa, desde Camões aos poetas e outros escritores do século passado. Uma vez mais, li-o e lei-o sempre a partir do meu passado transnacional, linguístico e literário. Regressemos à sempre inevitável questão de literatura e política, em qualquer época ou espaço nacional. Não será nunca a política que cria ou pensa a literatura, mas o seu contrário. Se toda a literatura deveria ser, para além de tudo o mais, uma reafirmação da vida, por assim dizer, um determinado posicionamento societal, comunitário, é, ipso facto, parte fulcral do sua temática. Se Praça da Canção é esse grito memorial contra a opressão e pela liberdade de um povo, é do mesmo modo, e com a mesma força, essa afirmação da vida, esse desejo do, e crença no futuro. Não será mera coincidência que percebi sempre nestes poemas outro hino à democracia, tal como algum tempo antes havia encontrado em Walt Whitman, no seu único volume de poesia, Folhas de Relva, o song of myself/canção de mim mesmo, o modernista que Fernando Pessoa havia adoptado desde cedo como a sua influência maior, com ou sem ansiedade de o ultrapassar. Ninguém lê Whitman, e fala em ideologia ou política, ou pelo menos ninguém o lerá só por essa perspectiva, mas todos percebem que é ele o primeiro a cantar a liberdade e a feliz modernidade do seu país, a cantar a multitude humana e diversa em seu redor, e isso apesar de ter participado e visto de perto a primeira grande guerra civil total. Praça da Canção, e para além do seu autor ter vivido uma das tragédias maiores do seu país, não fica por menos, é essa festa de ser e estar vivo, é essa narrativa ritmada pela liberdade e pela modernidade civilizada, como em “Corpo Inteiro”: Cantando é como se dissesse: estou aqui./Cantando eu nego o que me nega/acto de amor/coração perpendicular ao tempo./Cantando é como se dissesse: estou aqui/na multidão que está dentro de mim./Recuso a morte cantando/recuso a solidão.

Resta aqui relembrar que estar nos Açores não é nada de novo para Manuel Alegre, todos sabem da sua biografia desde o seu tempo de tropa em S. Miguel, na companhia de Melo Antunes, a quem dedica nesta edição de Praça da Canção, comemorativa dos 50 anos da sua publicação, o poema “País de Abril”. Como gesto natural das suas frequentes visitas às ilhas, publicou ainda os poemas sob o título Pico, e mais tarde fez sair Escrito no mar: Livro dos Açores, com fotografias de Jorge Barros. Quando editou toda a sua poesia até 1989 em O Canto e as Armas (D. Quixote), foi João de Melo que assinou o prefácio. A presente edição é prefaciada por José Carlos de Vasconcelos, num texto que contextualiza, e revê a história da recepção original desta obra nos anos de chumbo, num país sob ditadura e guerra.

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Manuel Alegre, Praça da Canção (4ª edição), Lisboa, Publicações D. Quixote, 2015.

Adelaide Freitas: da Literatura Açoriana e Norte Americana

Nas Duas Margens Adelaide

Teresa Martins Marques

Adelaide Freitas é um nome que não carece de apresentação nos Açores. Tendo nascido em 1949, na Achadinha do Nordeste, a mesma localidade da ilha de São Miguel em que nascera, dois meses antes, João de Melo, que haveria de ser seu companheiro na escola primária e, mais tarde, objecto dos seus trabalhos ensaísticos,1 terminado o liceu em Ponta Delgada, vai graduar-se na Southeastern Massachusetts University, em Darmouth, bem como na City University of New York, regressando, mais tarde, à ilha, onde completará o doutoramento sobre a obra de Herman Melville, em 1987. Pode dizer-se que desde essa altura a Baleia Branca não mais a abandonou. No seu mais recente livro Nas Duas Margens da Literatura Norte-Americana e Açoriana 2 (que inclui textos em português e em inglês), a ensaísta continua a estudar Melville em estimulantes ensaios como «A solidão: sua dimensão existencial em Bartleby the Scrivener», «Moby Dick e a recuperação da Memória: Portugal na sua atlanticidade», «Os açorianos em Moby Dick», bem como no admirável e fastasmático texto que encerra o livro: «Uma baleia vê os homens: o reacordar da humanidade», onde Adelaide aflora o mito da Atlântida, das Ilhas Afortunadas, bafejadas pelo Espírito Santo, cruzando-o com as lições de Jung, Eliade e Edgar Morin, mas também do Pessoa da Mensagem, de Nemésio e Natália Correia e ainda de António Tabucchi, Fernando Aires e João de Melo.

Conforme nos diz Vamberto Freitas, na nota de apresentação do livro, este foi organizado pela autora numa fase da sua saúde já muito problemática, todavia os textos foram escritos em anos de grande produtividade criativa. Digno de figurar entre os mais exigentes estudos de género é justamente o ensaio «Para uma sensibilização ao universo feminino – e o grito se fez fala e a fala fez-se mulher», em que a autora parte de Minoo Farhangmeh e das Novas Cartas Portuguesas para se deter com minúcia num trecho decisivo d’ A Melancolia do Geógrafo de Brigitte Paulino-Neto: “ Ela está de gatas, descalça, despenteada a suar. O outro, na moldura da porta, ocupa o lugar do Sol. Só pode ser ele. Ela endireita-se bruscamente, senta-se nos calcanhares, olha-o como se se tratasse de Deus Pai. Fica assim entre o balde e o pano, muito direita diante do homem que se ergue nas suas botas, em contraluz de pernas afastadas, radioso, enquanto ela permanece ajoelhada.” Esta mulher ainda não conquistou o seu lugar, ainda não se libertou da condição de objecto-trapo, mas uma revoada de outras mulheres voa para fora da via crucis. Encontramo-las na Madona de Natália, mas também nas obras de Fátima Borges, Madalena Caixeiro, Judite Jorge ou Lúcia Costa Melo. A Cor do Ciclame dos Desertos de Fátima Borges é a medida certa da procura que confunde tempo e lugar, porque sabe que estes são uma díade inseparável, como não o sabem os gramáticos que tudo catalogam e separam: “ Aqui é um advérbio de tempo contra o que tão categoricamente sempre afirmaram os fazedores de gramáticas.” Aqui é o lugar da mulher que procura o que lhe falta e que sempre acaba encontrando o que não procura. Voz de silêncio, que grita mais alto que a trombeta em dia de Juízo, o ajuste de contas, a seu tempo, chegará.

Do silêncio que se faz voz fala-nos ainda um dos mais brilhantes ensaios do livro – «Língua/linguagens, ou a ética da sobrevivência, em Saudade» (também em versão inglesa), no qual Adelaide aponta a insistência da autora na criação de personagens “que «perdem» alguns dos cinco sentidos, ora calando-os, ora recuperando-os ou reinventando-os.” É o caso de Clara, que, intermitentemente, perde e recupera a fala, em situações traumáticas associadas a morte, o mesmo se passando com o seu companheiro, Hélio, que «fechara os olhos para o mundo».

Estamos num universo complexo, intrigante e deveras perturbador já que Adelaide luta contra uma doença que lhe perturba a linguagem, tendo dedicado os seus últimos anos, com saúde, à escrita do romance – Sorriso por Dentro da Noite – 3 recebido com aplauso generalizado nos meios literários dos Açores e da diáspora, mostrando a emigração do ponto de vista de uma criança que os pais deixam para trás, ao cuidado de uma avó.

O trabalho ensaístico que aqui apresentamos era, afinal, antecâmara da ficcionista, sem que deixe de ser aquilo que primacialmente é: trabalho de indagação e de iluminação dos textos literários. Diálogo implícito com o leitor, mediação de um a um Outro. Voyage au Bout de la Nuit, segundo Céline, ou Sorriso por Dentro da Noite, segundo Adelaide Freitas. Kafka entendia que um livro tem de ser o machado para quebrar o mar gelado dentro de nós. Poucos serão os livros aos quais se aplicam tão bem aquelas palavras, retiradas de uma carta ao amigo Oskar Pollak (1904). Este livro adquire para o sujeito-leitor essa a função salvífica abrindo, por esta forma, uma porta de acesso ao mundo da infância. Neste universo até a esperança é cruel como o mês de Abril, não por acaso o mês do nascimento de Xana – a personagem-protagonista (e também da autora), e bem assim o mês em que parte a mãe da criança. Não por acaso uma das epígrafes do romance é retirada de T.S. Eliot: “April is the cruellest month, breeding/ Lilacs out of dead land, mixing/ Memory and desire, stirring/ Dull roots with spring rain(…)” retomado explicitamente no incipit: “ Tudo ali aconteceu, quando a Xana balbuciou maamãã…// Estava-se na Primavera. Gota a gota caíam as primeiras chuvas de Abril – the cruellest month. Cruel também era o que a minha avó acabava de ouvir.”(p.13)

O tema centralizador do romance será a idealização da figura materna e a consequente dificuldade de vinculação. A criança inaugura a linguagem, sob o signo do equívoco, trocando as referências das figuras vinculativas. Equívoco e castigo, prefigurado em Sísifo: “Pacientemente, e com esforço colossal, a vovó pegava na menina ao colo como pedra de Sísifo.”(p.13). E, desde logo, se demarca a figura da ausência, a mãe em efígie: “ o belo retrato da minha mãe” a que chama “ mulher emoldurada” . Distante, inatingível. Como no romance Saudade, de Katherine Vaz, também no Sorriso funciona o silêncio como marcador de decepção, fuga ao real, diluição:“ Sempre que se sentia traída ou magoada, punha as mãos atrás das costas, e recuava, recuava, até tocar na parede. Entrava para dentro dela e permanecia, assim, entre os tabiques (…) Por entre as ripas só se viam os olhos pretos, pretos, como as noites sem luar nem estrelas.” (p.16)

Buscam-se estratégias securitárias na ritualização do comportamento, criando-se uma realidade paralela contra o marasmo ilhado, os sonhos “trancados” das mulheres, como nos ensaios de Adelaide Freitas, sobre a condição feminina:

“ As mulheres, por seu lado, rostos encolhidos, roupas acinzentadas em corpos vergados, e sonhos trancados, recolhiam-se a casa, de certa forma receosas e pasmadas…” (p.18) Estamos perante um ferrete do destino, uma herança com marca de diferença: “ Seria louca aquela menina?- perguntavam as mulheres umas às outras: Teria o demónio consigo, ou herdado a asa que transportou para o outro mundo a irmã Serafina morta aos catorze meses…” (p.19)

Xana, a menina furtiva, não aceita o mundo real. Como Clara, a intermitente muda personagem de Katherine Vaz, Xana vive num mundo construído “por dentro da noite”. Fora de si é o mundo do dinheiro. Na definição da pragmática irmã Carolina: “rico quer dizer que por mais asneiras que se façam se tem sempre razão” (p.26). Tão iguais no fundo, tão diferentes nos processos sublimantes, Carolina resolve o abandono pela via da agressão, aquela irá tentar resolvê-lo pela fuga. Xana tem uma vinculação substitutiva na figura avó. Carolina ficará sozinha com a sua raiva e é ela a verdadeira deserdada de afectos. Espoliados são todos estes açorianos, até mesmo de chão, pois o peso do silêncio é ainda o do medo do terramoto:

“ O sofrimento e o medo eram de silêncio absoluto; temia-se a própria fala, não fossem as coisas piorar. E quando se pensava estar fora de perigo, o abanão veio de novo, e as paredes cederam, e a empena da casa virada a Norte desabou, em parte, como baralho de cartas. A fúria do terramoto subtraiu um quarto à nossa casa.” (p.46)

Tal como o terramoto faz ruir a casa, também a idealização da figura materna fará estragos irreparáveis na pequena Xana. Nenhuma mãe real pode competir com o sonho de uma imaginária mãe. Quando a mãe americana finalmente regressa, a criança açoriana fugirá para dentro da sua noite e recusará a mãe real, demasiado pedestre para poder competir com altura do sonho da criança. Quando tudo se subtrai, nesta aritmética da falta, alguma coisa seguramente permanece: a força expressiva do seu verbo, a fluidez da frase, a discreta modulação do ritmo, a clareza da narrativa, como apontou Ana Marques Gastão. Por isso a voz ficcional e ensaística de Adelaide Freitas não emudece e está aí para se fazer ouvir.
Adelaide Freitas, Sorriso por Dentro da Noite, Vila Nova de Gaia, Editora Ausência, 2004.

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1 Reunidos em João de Melo e a Literatura Açoriana, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1993.

2 Edição do II Congresso Internacional da Imprensa Não Diária, Ponta Delgada, 2008.

3 Adelaide Freitas, Sorriso por Dentro da Noite, Vila Nova de Gaia, Editora Ausência, 2004.

A (Lusa)lândia durante a Grande Depressão

Capa Da Gama,Cary Grant

Neste país todas as coisas são possíveis, e quanto mais inacreditáveis elas são, ainda mais possíveis se tornam. É um país de loucos.

Charles Reis Felix, Da Gama, Cary Grant and the Election of 1934

Vamberto Freitas

No prefácio a este romance Da Gama, Cary Grant, and the Election of 1934 – as aspas e próprio título serão explicados brevemente – George Monteiro deixa cair alguns nomes canónicos americanos para contextualizar a prosa do luso-americano Charles Reis Felix, autor já conhecido por dois outros admiráveis livros, Crossing the Sauer, memórias da Segunda Guerra Mundial, e ainda mais Through a Portagee Gate, uma autobiografia da sua infância e adolescência em New Bedford durante mais ou menos o mesmo período de tempo real da Grande Depressão do livro aqui em foco. Tal como Ernest Hemingway (In Our Time) e Sherwood Anderson (Winesburg, Ohio) nalguma das suas escritas mais domesticadas, afirma Monteiro, esta obra de Reis Felix é construída por uma sucessão de breves fatias-de-vida em que o protagonista, o jovem Seraphin, “vai perdendo a ilusão de como as coisas acontecem no mundo real.” Por outras palavras, por detrás da simplicidade e por vezes aparente ingenuidade das suas palavras, escondem-se em personagens e incidentes revelados todo um modo de ser e estar no mundo que poderá parecer um gueto de várias etnias, na sua maioria fora da estrutura do poder sócio-político, mas é de todo uma outra metonímica da grande sociedade que o rodeia, sobressaindo ainda tanto um modo de vida de determinada classe social como a ideologia ou mundividência que lhes é incutida por vários meios, mantendo desse modo enraizado as mais diversificadas comunidades em convivência, se não aberta, pelo menos pacífica. Adicionarei aqui outro autor muito comparável à prosa destas páginas – John Steinbeck, e a sua consistente atenção numa vasta obra prestada a personagens menores nas suas labutas diárias e enclausuradas nos seus recantos, sem reconhecimento ou projecção para além do próprio bairro onde habitam. Antes de mais nada, queria propor aqui uma leitura dupla, no que à temática da imigração lusa nos Estados Unidos diz respeito, oriunda das ilhas atlânticas e do continente português. Sixty Acres and a Barn, de Alfred Lewis, também publicado há alguns nesta mesma colecção da Universidade de Massachusetts, será o outro perfeito retrato das nossas comunidades na América do Norte nos mesmos tempos reais e ficcionais destes dois romances. Se em Lewis vemos os açorianos e seus descendentes numa Califórnia rural, mas já com toda uma estrutura comunitária desenvolvida, rodeada de férteis campos por todos os lados, mas sobrevivendo no mesmo isolamento cultural, em que “política” seria uma palavra inexistente, em Felix Reis temos uma comunidade totalmente proletarizada, onde convivem com alguma proximidade nas velhas cidades da Nova Inglaterra uma maioria de açorianos e alguns outros vindos de várias partes do nosso país. Em ambos, temos as linguagens depuradas, as de um realismo meio sentimentalista desde sempre associado à fábula que é a vida e mítica americana, a língua inglesa de uma primeira ou segunda geração expressando perfeitamente a duplicidade que é, ou foi, a nossa sorte naquele continente, e a memória indelével do torrão natal.

A literatura como documento ou narrativa sócio-histórica, especialmente na forma romanesca vinda da tradição do realismo literário iniciado a meados do século XIX, sempre teve, e ainda terá, supõe-se, uma das suas mais nobres funções, ou seja, lado a lado com outros textos de formas e géneros vários, faz parte fundamental dos nossos arquivos criativos, ou cânone identitário, por assim dizer, que as gerações futuras terão a ser dispor. São estas as fontes primeiras não só de informação, mas sobretudo a base do desenvolvimento de uma sensibilidade crítica e noção de pertença entre os que partilham uma história, mesmo para além de uma língua ou de uma cultura no seu estado natal. O caso da literatura luso-americana é-nos muito mais importante do que alguns poderão pensar, devia, aliás, ser parte integrante de um corpus literário que está associado, afinal, ao principal vector de toda a nossa história, que foi supostamente dar mundos ao mundo, primeiro “descobrindo-os”, depois colaborando na construção das novas sociedades um pouco por toda a parte. Neste romance de Charles Reis Felix voltamos a testemunhar, através de uma família onde já co-habitam sob o mesmo tecto as primeiras e segundas gerações, de como uma federação de etnias, das quais faz parte a portuguesa, construiu uma nova América enquanto se agarrava à memória-pátria para o seu equilíbrio psicológico e auto-estima social num meio em que o poder político pertencia a outros, e logo todos os poderes institucionais de valorização ou legitimação de um dado grupo nacional. A saber: o personagem dominante, aqui identificado simplesmente como Pa (Pai) pelo seu filho de nome Seraphin, que vai misturando o seu protagonismo com o do progenitor, é um sapateiro na cidade fictícia de Gaw (New Bedford), oriundo do continente português. O seu quotidiano é o de um trabalhador e observador silencioso, e silenciado, do pequeno mundo à sua volta nos bairros da classe operária dedicado maioritariamente à indústria de têxteis, durante os anos de chumbo numa América em depressão económica. As pequenas e inconsequentes aventuras de Seraphin, assim como a vida escondida e controlada da sua única irmã, de nome Laura, os dizeres irónicos e depreciativos da sua mãe perante o marido, servem só para mostrar aos leitores de como a sobrevivência tranquila de um grupo como o nosso aconteceu, ou acontece. Onésimo Teotónio Almeida foi quem cunhou há muitos anos o neologismo (Lusa)lândia, definindo-o como um pedaço de Portugal rodeado de América por todos os lados. Ei-la: rodeada, neste caso, de irlandeses, italianos, polacos, alemães, e judeus de várias proveniências. Uma das consistentes cenas cómicas na prosa de Reis Felix são as breves menções às ilhas açorianas, de onde vêm a maior parte dos seus vizinhos na América. São-lhes ainda mais estranhas do que o Grand Canyon no outro lado de um continente-nação, que nunca viram, um mistério no meio do mar, e pouco representam na prosa do autor.

Da Gama, Cary Grant and the Election of 1934 é o título que resume as três dimensões temáticas do romance. Em hilariantes cenas de uma campanha política para o presidente da câmara local, um dos candidatos de nome Secundo B. Alves utiliza um discurso de grande orgulho étnico para comover os seus potenciais votantes lusos, invocando Vasco da Gama como figura representativa da nossa grandeza, utilizando as mesmas palavras quando perde a eleição, mas passa a apoiar um outro numa segunda volta, representando o oportunismo descarado e sem apologias; Cary Grant, o galã do cinema que representava toda a infantilidade e fantasia de fama e beleza das adolescentes americanas, o sonho levando-as sempre para o outro lado do arco-íris, como na famosa canção da mesma época; e a eleição de 1934 como veículo de renovação comunitária por entre a mais descarada corrupção local, simbolizando, poderá ser lido assim, a natureza do poder e da riqueza americana, o coração e vontades humanas nas suas manifestações mais universalistas. Para o pai de Seraphin, é o trabalho, a invisibilidade pública, a vivência atenta mas perfeitamente dividida entre o seu portuguesismo e a americanização dos filhos, a gratidão de não estar na miséria do amado torrão natal que havia deixado no outro lado Atlântico.

“O Inglês – explica o pai de Serphin acerca de certa terminologia referente a mulheres solteiras, num momento de pura comédia para o leitor – é uma língua sem coração, sem sentimentos. Em Inglês chamam uma mulher que não casa uma ‘old maid’… Mas em Português, o que é que dizemos de uma mulher que não é casada? Chamo-la uma solteira. Isto significa ‘uma mulher a viver sozinha’. Usamos estes termos por simpatia. Ela está só, não tem ninguém para cuidar dela. E repara como tudo isto tem a sua lógica. Casada – junta com alguém. Solteira – sozinha. O que poderia ser mais lógico, mais descritivo, mais meigo? Estás a ver a beleza da língua portuguesa? A superioridade da língua portuguesa?”

Na memória de um escritor como Charles Reis Felix (octogenário que vive desde os anos 40 no norte da Califórnia), são estes corriqueiros momentos em família e na cidade da sua infância e adolescência que permanecem e significam algo perdurável para si. Parecem-nos sempre insignificantes, mas a memória retêm-nas, mais nitidamente do que os nossos grandes “acontecimentos” na vida. É delas que muita e grande literatura tem sido feita. Da Gama, Cary Grant, and the Election of 1934 poderá não ser uma obra prima, mas oferece-nos um rico mosaico de como fomos e somos numa vivência diária entre muitos outros, não só sobrevivendo, mas vingando no caminho para os nossos sonhos – sonhos americanos, nesta nossa outra literatura e arte.

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Charles Reis Felix, Da Gama, Cary Grant, and the Election of 1934, Center for Portuguese Studies, University of Massachusetts Dartmouth, Dartmouth, 2005. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

Edmund Wilson na Europa e em Portugal

A Life in Letters

Sempre estive curioso sobre [Eça de] Queiroz, mas o meu preconceito contra as traduções tem impedido até agora que eu leia.

Edmund Wilson, Letters on Literature and Politics 1912-1972

Vamberto Freitas

A citação que vai aqui em epígrafe vem de uma carta que Edmund Wilson, o mais conhecido crítico e ensaísta literário dos EUA durante boa parte do século passado, enviou em Março de 1970 ao escritor britânico V. S. Pritchett, que acabava de lhe enviar um dos seus ensaios, eventualmente publicado em The Mythmakers (1979), ensaios sobre vários escritores europeus. Creio que será supérfluo dizer que Wilson é pouquíssimo conhecido no nosso país pela classe culta que escreve fora dos estudos anglo-americanos nas universidades portuguesas. Já nos nossos dias, Wilson tem sido mencionado com respeito mas de passagem por alguns críticos literários e culturais, como Clara Ferreira Alves, e Paulo Nogueira, ambos no Expresso. Eugénio Lisboa, entretanto, é dos seus mais atentos leitores de Wilson no nosso país, creio que tendo despertado o seu entusiasmo com The Shores of Light: A Literary Chronicle of the Twenties and Thirties. Eugénio Lisboa tem citado Wilson de quando em quando em vários contextos, como aliás já apontei noutras páginas, e mencionou especificamente um outro livro intitulado The Triple Thinkers num ensaio sobre a revista presença e presencismo. Por sua vez, o Professor George Monteiro, hoje jubilado da Brown University e especializado na literatura norte-americana, publicaria no número 75 (1983) da Colóquio-Letras, numa secção então chamada “Carta da América”, um breve texto, “Permanência de Edmund Wilson”, onde dava conta do estatuto crítico (à época) de Wilson nas faculdades e entre a classe culta em geral. Que eu saiba, este representa uma das poucas vezes que no nosso país a obra de Wilson foi abordada com algum detalhe e todo o cuidado académico. No entanto, René Wellek diz no seu influente A History of Modern Criticism 1750-1950 que “Edmund Wilson é o crítico [americano] mais lido e conhecido na Europa”, o que poderá já não ser o caso nos nossos dias. De facto, Wilson apenas concedeu quatro entrevistas à grande imprensa (há a famosa auto-entrevista que Wilson publicou num dos números de The New York Review of Books, outra das publicações intelectuais nova-iorquinas a que ele esteve ligado a partir da fundação a início da década de 60), e duas delas foram a jornais britânicos, e outra um periódico italiano. Valerá a pena, pois, especular aqui sobre as razões que poderão explicar, mesmo que só parcialmente, a ausência de Edmund Wilson como referencial crítico norte-americano no nosso país, quando m durante todos os anos em que ele escreveu e era efectivamente conhecido na restante Europa, alguns dos nomes mais proeminentes da literatura do seu país eram lidos atentamente pelos nossos intelectuais e escritores. Alguns desses nomes presentes entre nós ficaram para sempre ligados à carreira e vida de Edmund Wilson: Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, John dos Passos e John Steinbeck, quem Wilson havia arrasado numa crítica sobre escritores californianos nos anos 30 e 40, intitulada precisamente The Boys in the Backroom, publicada mais tarde em livro autónomo com o mesmo título. Os grandes momentos de influência internacional de Edmund Wilson, no entanto, coincidiram sempre com a desatenção com que historicamente Portugal em geral olhou para a vida intelectual das Américas, incluindo o Brasil, apesar das leituras aqui apontadas, e seguia como referencial intelectual e literário tudo quanto saía de Paris.

Em português, e segundo Edmund Wilson: A Bibliography (1971), de Richard Davis Ramsey, considerada uma das mais completas sobre a obra do mesmo autor, existiam por essa altura duas traduções no Brasil de dois influentes livros seus: O Castelo de Axle (Axle’s Castle), de José Paulo Paes e publicado na Editora Cultrix Ltda., de São Paulo, e Raízes da Literatura (The Wound and the Bow), de Edilson Alkmim Cunha, publicado na Lidador, Coleção Mimesis, Rio de Janeiro. Nos anos mais recentes outros trabalhos foram publicados e divulgados no Brasil, como uma tradução de The Dead Sea Scrolls, assim como Rumo à Estação da Finlândia (To The Finland Station: A Study in the Writing and Acting of History).

Wilson, paradoxalmente, não se interessava pelas literaturas hispânicas e de língua portuguesa. Dizia não compreender, por exemplo, o que constituía a grandeza de Dom Quixote, e que nunca tinha sido capaz de chegar ao fim do romance de Cervantes. Wilson não só era um homem naturalmente de fortes opiniões, como vinha de um certo tempo e imbuído de influências que faziam do “lugar” e da “raça” — sem que isso significasse necessariamente racismo da parte dele — conceitos influentes, faziam parte decisiva da sua cosmovisão e sistema de valores. Mas Wilson tinha também uma grande capacidade de emendar a mão, sendo o alargamento de referências intelectuais, literárias e, sim, humanas uma das suas mais consistentes características da sua pessoa e da sua contínua aprendizagem. Em 1970 (dois anos antes da sua morte) muito provavelmente leu Eça, pois Wilson não rejeitava nunca uma oportunidade para um encontro literário com o desconhecido, especialmente quando uma recomendação vinha de um amigo ou figura em que ele depositava toda a confiança nestas avaliações. Wilson poderia — eis outra hipótese — não sentir o mesmo distanciamento ante os portugueses que sentia ante os hispânicos. “Quando me envias livros como este tornas tudo obrigatório”. Pritchett acabava também de publicar esse um longo ensaio intitulado “Eça de Queiroz: A Portuguese Diplomat”, por ocasião da publicação de The Illustrious House of Ramires, a tradução de A Ilustre Casa de Ramires. Mais tarde, em The Mythmakers, V. S. Pritchett abordava, para além de Eça de Querós, alguns dos mais influentes escritores da tradição ocidental, desde Chehov e Dostoevsky a Machado de Assis, Gabriel Garcia Márques e Jorge Luís Borges. Entretanto, era sempre capaz de reconhecer em si próprio o que, numa análise fria, admitia ser suas as lacunas de conhecimentos, como já aqui foi indicado. Wilson escrevera no prefácio a The Bit Between My Teeth, ainda em 1952, e precisamente no momento em que se virava para as literaturas e culturas mais ou menos desconhecidas por aquela altura nos Estados Unidos, que sentia algumas graves faltas e falhas no sua visão crítica e literária nesses dois mundos, afinal vizinhos ali a sul.

Os departamentos de literatura comparada, – escrevia agora num mea culpa um tanto tardio, mas sem qualquer medo de se expôr aos seus críticos, particularmente na academia – algo absolutamente desconhecido nos meus tempos de faculdade, têm começado a aparecer nas maiores universidades do país. As minhas piores desqualificações como um crítico de olho sinóptico tem sido o meu desconhecimento do português e do espanhol, tal como a minha ignorância total das literaturas latino-americana; mas um bom número de estudantes, tradutores e professores começaram recentemente a cultivar esta área de estudos, e é indubitavelmente verdade, tal como dizem, que as culturas dos mundos hispânico e anglo-saxónico das Américas do sul e do norte, agora ambas misturadas com outros elementos, irão fertilizar-se umas às outras”.

A literatura europeia, claro está, esteve sempre no centro da atenções de Wilson, desde o mencionado Axle´s Castle, para além de outros já também referidos, a Travel’s In Two Democracies e Europe Without Baedeker. Nos países europeus de literaturas maiores, Portugal será onde é menos conhecido, pelo menos até há pouco tempo. Estou em crer que a perduração de estudos anglo-americanos entre nós acabará por convocar a sua presença em prol de um melhor e muito mais aprofundado conhecimento da literatura modernista americana. Por outro lado, existe ainda alguma ficção e poesia, se bem que seja a parte menor da sua vastíssima obra. Auto-negava o seu estatuto de “crítico”, e insistia em que era um jornalista literário. Estas auto-definições faziam parte, é assim que o interpreto, do seu desprezo pelo que, nos anos pós-II Guerra foi a usurpação pelas universidades do discurso literário e “cultural”, com os resultados que hoje são por todos conhecidos – e lamentados. Na verdade, foi por certo um dos últimos verdadeiros homens de letras, mesmo que isso já se tenha tornado um cliché — humanista, renascentista, para quem a arte literária era um modo de vida, na qual a estética e o pensamento estavam sempre interligados, até mesmo na sua própria escrita crítica. Wilson foi um escritor consequente, perdura, por direito próprio, no tempo. A literatura como memória dos povos, como sinal de civilização e convivência.

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Edmund Wilson, Letters on Literature and Politics 1912-1972 (Selected and Organized by Elena Wilson), New York, NY, Farrar, Straus and Giroux, 1977. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

Rubem Fonseca e os seus demónios

Capa Amálgama R Fonseca

 

Isso era para ser um poema, mas eu não tenho pacto com o diabo.

Rubem Fonseca, Amálgama

Vamberto Freitas

A breve citação de acima vem de um também breve texto com o simples título de “Escrever” no mais recente livro de Rubem Fonseca, Amálgama, uma deliciosa colectânea de escritos dispersos, que inclui um pouco de tudo, inclusive poesia e prosa-outra. Eis Rubem Fonseca nalguns dos seus momentos mais contundentes, irresistíveis, bons, diabólicos. A pertinência de um acto de leitura e de recepção de um texto depende de muitos factores e propósitos momentâneos de cada um, desde o prazer puro a qualquer impulso literário, mas estou em crer que o modo como recebemos e interpretamos um texto está intimamente ligado ao espírito do nosso tempo, mais precisamente aos dias imediatos que vivemos ou tentamos entender. Ninguém como Rubem Fonseca criou e depois cultivou em língua portuguesa a escrita urbanista da nossa modernidade à grande escala. Esqueçam o existencialismo do século passado e as narrativas meio ideológicas meio filosóficas da suposta literatura intelectualizada ou formalmente intrincada, dirigida a académicos e a outros pares, quase sempre incompreensível ou de difícil apreensão pela maioria dos leitores (por vezes, descobrimos que não há mesmo nada a apreender), e fiquemos aqui com a literatura na sua viveza e significados múltiplos para a nossa era, a palavra escorreita carregando em si as mais profundas sugestões de quem somos e como somos, a linguagem como exercício genial de comunicação com os outros, a fonte, uma vez mais, de surpresa, pensamento e sugestão da nossa capacidade para o melhor e para o pior. Ler esta sequência aleatória de textos do autor de A Grande Arte é como se nos tornássemos um daqueles seus personagens de más intenções e acções, é como se entrássemos criminosamente no seu reduto íntimo e espreitássemos a sua desarrumada secretária cheia de papéis ou de palavras soltas, escritos começados e abandonados, escritos-resumo de projectos a desenvolver, escritos-desabafos de um escritor furioso, escritos da bondade e raiva de um citadino a saque mas sem medo. Levamos tudo connosco, fazemos como um dos seus ladrões ou assassinos – estes pedaços de prosa são joias e valem por si, até poderiam ser vendidos a quem quer aprender a escrever ou a construir uma trama para o seu próprio livro, ou fazer poesia de sentimentos ou desejos proibidos. Creio que parte da genialidade de Rubem Fonseca é esta – fazer o leitor pensar que é um participante nas suas estórias, que é um amigo seu passeando em sua companhia pela cidade da sua residência e paixão, que conhece mais do coração humano do que na realidade parece conhecer, que a coexistência do mal e do bem em cada um de nós é demasiado humana e complexa, move toda arte literária desde as nossas origens civilizacionais. Eis a literatura como acto lúdico e erudito – o referencial literário do autor abrange praticamente todas as tradições, a Europa e as Américas o seu espaço familiar e significante.

“O ficcionista – afirma o narrador na primeira pessoa – quanto melhor pior, sofre mais, depois de algum tempo não aguenta o sufoco. Os mais sensatos, se é que se pode chamar de sensato um indivíduo como esse – eu já disse alhures que todo o escritor é louco –, os que têm algum discernimento, e esses são poucos, desistem, no auge da sua carreira dizem BASTA, para desespero dos seus admiradores… Os outros, cada vez mais desesperados com essa insana atividade, entregam-se às drogas ou cometem suicídio… O que eu vou fazer?”

Rubem Fonseca, e não o seu narrador, é que vai continuar a escrever, não tem outra saída, nem os seus leitores querem outra coisa. Li numa folha qualquer que até já deixou o seu predilecto Piriquita. Não é fácil, particularmente para um luso-brasileiro de nome José, que os seus narradores insistem em nunca deixar de cair nesta Amálgama, como não deixam cair as contínuas referências às mais variadas lusitanidades da sua experiência e memória, desde os poetas e escritores que de quando em quando eles convocam na sua prosa até às origens de outras gentes e geografias dos seus afectos. Para um dos mais universalistas escritores na nossa língua, isso desfaz toda a resistência que outros deste lado Atlântico poderiam invocar nas suas supostas “dificuldades” que têm em ler o seu idoma transformado em signos tropicalistas, e de grande dimensão em termos geográficos, imaginários, culturais. O inventor mais bem sucedido do romance “policial” na língua de Camões não necessitaria de prestar essa homenagem em praticamente todas as suas páginas de ficção, mas algo mais acontece adentro do género escolhido – a literatura no seu estado de perfeição. Isso, para mim, quer dizer que quando o leio, faço-o com a mesma intenção com que leio os nossos clássicos a partir do século XIX, ou seja, com o maior prazer solitário mas depois partilhado, rever deste outro modo o meu lugar e a sua história através da transfiguração artística de que só os grandes criadores são capazes. É por esse meio do crime e da violência fingida numa grande cidade como o Rio de Janeiro que tudo isso converge – o anjo e o demónio em nós todos, a verdade e a mentira do nosso quotidiano e ante os restantes que nos rodeiam, a dor de uns e a raiva da humilhação, o coração da bondade e da crueldade, o desejo e a perversidade, a generosidade e a ganância selvática. As suas personagens, todas elas, transportam em si este estado do ser humano na sua completude e diabólica contradição, o herói e anti-herói indecifráveis e indissociáveis no mesmo homem ou na mesma mulher. As suas linguagens estão sempre em consonância com a criatura que as enuncia ou a circunstância que as provoca, no palavrão doce ou repugnante e na oração poética e apaziguadora que o leitor ouve em directo, em cada uma das palavras ou expressões, visualiza o terror na cara do outro, ou o sorriso da salvação quando o afago acontece, a morte passando ao lado. Todos estes escritos funcionam como “fábulas”, aliás título que o narrador dá a um destes contos. Não há ensinamentos na literatura, dizem alguns. Só que cada pedaço de prosa como esta obriga-nos a tentar perceber o que também poderá servir de ponto de partida para outros raciocínios e percepções, – esqueçamos essa do exemplo “moralista” de antigamente – ou nada mais é do que a vociferação de loucos.

Ler Rubem Fonseca é esquecer por um instante toda a redenção que clamamos perante os deuses indiferentes, ou então de sorriso ainda mais cruel na contemplação dos que ainda acham que vão encontrar a saída do labirinto. A humanidade está aqui como que no seu estado primordial, puro, toda a sua existência parece uma encenação de condenados sem perdão. É frequente a citação dos grandes autores ocidentais, desde os gregos até aos nossos dias, mas como quem está a rir-se de como somos capazes de nunca deixarmos de sonhar ou de pretender que em cada um de nós reside algo mais do que um animal à solta em selvas de todo o tipo, com os predadores da mesma espécie sempre à espreita e medindo o momento de assalto mortífero, torturador, saqueador. Não há aqui política nem ideologia – só o instinto do prazer e da preservação. É um reflexo perturbador, como quem diz ao leitor — se já o pensaste, eu já o fiz, sem remorso algum. No texto (ou conto, pois a designação tem pouca importância nestas páginas) precisamente intitulado “Fábula”, já referido anteriormente, o autor resume ao que vem, e o que nos oferece.

“Como disse um estudioso, a fábula é um conto de moralidade popular, uma lição de inteligência, de justiça, de sagacidade, trazida até nós desde a mais remota antiguidade… As Fábulas de Esopo são uma lição de astúcia, de sagacidade, uma lição de moral?… Podem jogar essa merda no lixo. O meu exemplar eu já joguei”.

Rubem Fonseca já recebeu o Prémio Camões, e cinco vezes (a mais recente em 2014) o Prémio Jabuti, o mais prestigiado do Brasil. Em 2012 foi homenageado no nosso país com o Prémio Correntes d’Escrita, na Póvoa do Varzim, e agora a sua obra completa está ser publicada entre nós, finalmente. Quando vejo um dos seus livros numa mesa de qualquer livraria nossa, e verifico que ainda não tenho na minha colecção, compro-o de imediato, sem sequer o folhear. Já sei que a seguir me esperam momentos de descoberta e espanto. Ler Rubem Fonseca é também um acto de humildade – ver manipular a nossa língua com tamanha destreza e imaginação é uma oferenda dos deuses, mesmo que, como aqui já se disse, sejam cruéis e gozadores. A epígrafe que utilizei neste meu texto foi tirada do conto que citei noutra parte. Essa de o escritor não se querer meter com os poetas ou ser cúmplice do seu pacto com diabo, é mais uma invenção do narrador. Toda a prosa do autor, em qualquer forma, desmente essa outra diatribe.

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Rubem Fonseca, Amálgama, Porto, Porto Editora/Sextante, 2014.

Hemingway e as suas (quatro) mulheres

Capa Mrs. Hemingway

Nunca ninguém nos diz isto: que na escrita não há método. Escrever é um lugar sem lei.

Naomi Wood, Mrs. Hemingway

Vamberto Freitas

Se Ernest Hemingway realmente disse ou não isto em Paris por volta de 1926 à sua primeira esposa, Hadley Richardson, pouco interessa ao leitor no contexto que é a leitura do romance simplesmente intitulado Mrs. Hemingway, de Naomi Wood, doutorada em literatura pela University of East Anglia, que também se dedica à escrita ficcional. Visto que a geografia de afectos e criatividade permanentes do autor ia principalmente de Madrid e Paris à ilha de Key West, na Flórida, a Cuba, e depois a Ketchum, no estado de Idaho, a autora desta biografia romanceada teve, ela própria, de percorrer longas distâncias nas suas investigações, para além de uma quantidade de leitura dispersa e de natureza vária, que afastaria a maioria dos escritores no activo. Não que a investigação de qualquer tema literário e dos seus autores não exija em muitos outros casos igual trabalho e dedicação, só que sobre Hemingway, o escritor tutelar de toda uma geração norte-americana que a partir dos anos 20 inventou o modernismo literário e revolucionou a literatura no seu país e, mais vastamente, em língua inglesa, já se escreveu tanto, inclusive memórias publicadas das suas esposas ou biografias póstumas, que é preciso ter toda a audácia do mundo para “rever” o homem e a sua vida entre a cama e a secretária. Primeira contextualização aqui: o imaginado “romantismo” em volta da vida de Hemingway tem e não tem a ver com a sua obra, a vida e a arte ora confundindo-se nas páginas de ficção e não-ficção do próprio autor, ora pouco ou nada tendo a ver com a passagem dos dias, marcados pelas bebedeiras e, no fim da vida, pelo estado de paranoia que levaria ao suicídio com uma caçadeira na sua casa do interior americano, numa manhã de Setembro de 1961. Os dias são longos, e por mais dissipação alcoólica ou aventura perigosa que um homem ou mulher procure, vêm os momentos de serenidade e fulgor artístico. Ernest Hemingway tinha vivido tudo o que a maioria de nós (felizmente, suponho) nunca viverá, tinha tudo para se sentir inteiramente realizado, recebendo em 1954 o Prémio Nobel, ou seja mundialmente consagrado numa idade relativamente nova, tinha, uma vez mais, tudo pela frente, tinha a possibilidade de outros tantos anos de escrita e influência entre os leitores e os seus pares menos invejosos. Esqueçamos aqui a reinvenção do estilo contundente até então só praticado por correspondentes telegráficos, a escrita despida de adjectivos, a força do substantivo e do verbo sem quaisquer rendilhados barrocos ou obscuramente metafóricos, oferecendo aos seus leitores a brutalidade da consciência humana, a “masculinidade” ante o perigo ou a luta, ou a beleza implícita mas feroz da natureza pura. A parte fulcral da obra de Hemingway a partir da sua estreia em 1925 com os contos de In Our Time, e logo de seguida com o hoje clássico The Sun Also Rises (Fiesta, na tradução portuguesa), contém essa dualidade conflituosa e violenta em cada um dos personagens, a Primeira Grande Guerra e a Guerra Civil de Espanha sendo o fundo e o referencial de dois dos seus mais lidos e citados romances – Um Adeus às Armas e Por Quem os Sinos Dobram. Toda a obra do Hemingway é esse testemunho de homens e de mulheres em momentos extremos de vida e morte, até ao seu aparente apaziguamento, já nos ano 50 e a viver o mormaço tropical de Cuba, em O Velho e o Mar – o sinal, poderá ser também lido assim, do seu cansaço ou absoluta descrença nas grandes causas que livraram o mundo do inferno, mas deixando-o sem destino ou significado. Não há grandeza literária que resista à alma queimada no fogo ou no vazio.

Mrs. Hemingway é um romance de propósitos modestos, mas um exercício de linguagens e percepções, que se nada esclarecem sobre a obra do próprio autor, oferecem ao leitor uma prolongada espreita à vida quotidiana de um grande criador literário do nosso tempo, nos precisos momentos em que ele não está a escrever mas sim a lidar com o mais comum do nosso ser – o amor, a solidão, a dúvida, os impulsos latentes mas proibidos, a procura da felicidade num mundo ora indiferente ora hostil. A originalidade destas páginas é simples e significante – falam em sucessão cronológica as suas quatro esposas, a partir do seu primeiro casamento com a já mencionada Hadley em Paris, em 1921, e portanto no começo da sua carreira. É esta a chamada Geração Perdida que Fiesta traz em epígrafe, e que se convencionou dizer que lhe foi nomeada ou vaticinada por Gertrude Stein, a medonha deusa dos modernistas americanos voluntariamente expatriados na Europa após a sua experiência na Primeira Grande Guerra. Quase tudo isto sobre os dias de álcool, sexo e ambição ficou registado no também célebre Paris É uma Festa (A Moveable Feast), só que aqui temos o ponto de vista exclusivo das mulheres que com ele se deitaram, e sobretudo sofreram. Mrs. Hemingway reconstrói vidas que, para a maioria de nós, parecem absolutamente livres, improváveis, e sem freios sociais de qualquer espécie ou crença. No primeiro grupo reencontramos nas margens da Cidade Luz alguns dos nomes que para sempre estarão associados ao modernismo americano inventado neste lado do Atlântico: F. Scott Fitzgerald e sua mulher Zelda, Gerald e Sara Murphy, o casal milionário que lhes proporcionava uma visão do paraíso nas suas mansões e festas, arte e dinheiro como o único modo de vida desejado após a catástrofe selvagem do velho continente. A verdade é que estes e demais autores americanos que ficariam na história literária do seu país (e do mundo) pouco interagiam com os franceses ou outros, alguns deles ganhando a vida em agências noticiosas ou publicações de língua inglesa, visitando, convivendo e comprando os seus livros na ainda existente e famosa livraria Shakespeare and Company, que os acarinhava, e por vezes publicava as suas obras mais controversas, como o Ulisses, de James Joyce. Vemo-los na azáfama da escrita e boémia, na cama e no desespero, a sociedade convencional sempre à distância. Nesse primeiro casamento de Ernest Hemingway já se plantava o segundo – a amiga de Hadley, a herdeira milionária Pauline Pfeiffer, era também a amante de Ernest, até que se tornaria a sua segunda esposa, aqui de nome Fife. No fim da Segunda Guerra Mundial, Hemingway está de novo em Paris, e já começara um caso com a jornalista (ainda hoje lida nos Estados Unidos, e de fama segura) Mary Gellhorn. Hemingway tinha sido um dos “libertadores” (1944) do Hotel Ritz, em Paris, e procedeu ao despejo sistemático, juntamente com os seus companheiros de armas, de todas as garrafas encontradas na cave, alegremente oferecidas pelos empregados do luxuoso hotel. Foram dois grandes egos em choque permanente, fazendo lembrar o casamento do seu outro grande amigo e colega, o crítico Edmund Wilson e Mary MacCarthy, chutos e pontapés, e nem sempre só metafóricos, ocorrendo nas horas mais incertas e atribuladas. Segui-se rapidamente Mary Welsh, também jornalista e que o havia encontrado em Londres sob bombardeamento nazi. Welsh sacrificaria a sua vida profissional pelo apoio ao grande escritor, e foi quem o encontraria naquela manhã de Setembro estirado e a sangrar na cozinha, já sem vida, e com a caçadeira atravessada no peito, tentando depois fazer passar que se trataria de um acidente. A condição existencial de Hemingway era por demais conhecida para que essa outra ficção fosse aceita. Suicidou-se, como se havia suicidado o seu pai. Os seus últimos dias são de uma tristeza sem fim, “convencido” de que era perseguido por toda a gente, especialmente pelo FBI, e que lhe retirariam todo o seu sustento material.

Não há “método” na escrita — nem na vida, pelo menos nestas vidas. As quatro esposas de Ernest Hemingway, após os ciúmes e raivas iniciais, comunicavam-se entre si, falavam das últimas do Papá Hemingway, como ele gostava de ser chamado, nos seus afazeres literários e sobretudo nas traições constantes. Cada uma delas tinha de se conformar ainda com o imparável desfile de amantes ocasionais. O prémio supremo, parece, era a vida agitada ao lado do homem sem rumo nos últimos anos, e sobretudo ao lado escritor maior, que já era muito antes da sua morte. A vida de Hemingway foi esse espectáculo aventureiro e trágico nos mais diversos palcos durante a primeira metade do século passado. Das guerras na Europa à pesca nas Américas e aos safaris em África, ficou tudo documentado numa obra que continua a ser um dos mais eloquentes referenciais de um certo existencialismo de combate e celebração em “tempos escuros”. Este romance de Naomi Wood remete-nos de imediato para um ou outro livro de Ernest Hemingway, faz-nos relembrar, afinal, que, com ou sem “método”, com ou sem “lei”, a solidez e beleza da sua obra está muito para além da sua vida íntima, é um memorial só dado pelos deuses aos seus escolhidos.

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Naomi Wood, Mrs. Hemingway, London, Picador, 2014. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.