A (Lusa)lândia durante a Grande Depressão

Capa Da Gama,Cary Grant

Neste país todas as coisas são possíveis, e quanto mais inacreditáveis elas são, ainda mais possíveis se tornam. É um país de loucos.

Charles Reis Felix, Da Gama, Cary Grant and the Election of 1934

Vamberto Freitas

No prefácio a este romance Da Gama, Cary Grant, and the Election of 1934 – as aspas e próprio título serão explicados brevemente – George Monteiro deixa cair alguns nomes canónicos americanos para contextualizar a prosa do luso-americano Charles Reis Felix, autor já conhecido por dois outros admiráveis livros, Crossing the Sauer, memórias da Segunda Guerra Mundial, e ainda mais Through a Portagee Gate, uma autobiografia da sua infância e adolescência em New Bedford durante mais ou menos o mesmo período de tempo real da Grande Depressão do livro aqui em foco. Tal como Ernest Hemingway (In Our Time) e Sherwood Anderson (Winesburg, Ohio) nalguma das suas escritas mais domesticadas, afirma Monteiro, esta obra de Reis Felix é construída por uma sucessão de breves fatias-de-vida em que o protagonista, o jovem Seraphin, “vai perdendo a ilusão de como as coisas acontecem no mundo real.” Por outras palavras, por detrás da simplicidade e por vezes aparente ingenuidade das suas palavras, escondem-se em personagens e incidentes revelados todo um modo de ser e estar no mundo que poderá parecer um gueto de várias etnias, na sua maioria fora da estrutura do poder sócio-político, mas é de todo uma outra metonímica da grande sociedade que o rodeia, sobressaindo ainda tanto um modo de vida de determinada classe social como a ideologia ou mundividência que lhes é incutida por vários meios, mantendo desse modo enraizado as mais diversificadas comunidades em convivência, se não aberta, pelo menos pacífica. Adicionarei aqui outro autor muito comparável à prosa destas páginas – John Steinbeck, e a sua consistente atenção numa vasta obra prestada a personagens menores nas suas labutas diárias e enclausuradas nos seus recantos, sem reconhecimento ou projecção para além do próprio bairro onde habitam. Antes de mais nada, queria propor aqui uma leitura dupla, no que à temática da imigração lusa nos Estados Unidos diz respeito, oriunda das ilhas atlânticas e do continente português. Sixty Acres and a Barn, de Alfred Lewis, também publicado há alguns nesta mesma colecção da Universidade de Massachusetts, será o outro perfeito retrato das nossas comunidades na América do Norte nos mesmos tempos reais e ficcionais destes dois romances. Se em Lewis vemos os açorianos e seus descendentes numa Califórnia rural, mas já com toda uma estrutura comunitária desenvolvida, rodeada de férteis campos por todos os lados, mas sobrevivendo no mesmo isolamento cultural, em que “política” seria uma palavra inexistente, em Felix Reis temos uma comunidade totalmente proletarizada, onde convivem com alguma proximidade nas velhas cidades da Nova Inglaterra uma maioria de açorianos e alguns outros vindos de várias partes do nosso país. Em ambos, temos as linguagens depuradas, as de um realismo meio sentimentalista desde sempre associado à fábula que é a vida e mítica americana, a língua inglesa de uma primeira ou segunda geração expressando perfeitamente a duplicidade que é, ou foi, a nossa sorte naquele continente, e a memória indelével do torrão natal.

A literatura como documento ou narrativa sócio-histórica, especialmente na forma romanesca vinda da tradição do realismo literário iniciado a meados do século XIX, sempre teve, e ainda terá, supõe-se, uma das suas mais nobres funções, ou seja, lado a lado com outros textos de formas e géneros vários, faz parte fundamental dos nossos arquivos criativos, ou cânone identitário, por assim dizer, que as gerações futuras terão a ser dispor. São estas as fontes primeiras não só de informação, mas sobretudo a base do desenvolvimento de uma sensibilidade crítica e noção de pertença entre os que partilham uma história, mesmo para além de uma língua ou de uma cultura no seu estado natal. O caso da literatura luso-americana é-nos muito mais importante do que alguns poderão pensar, devia, aliás, ser parte integrante de um corpus literário que está associado, afinal, ao principal vector de toda a nossa história, que foi supostamente dar mundos ao mundo, primeiro “descobrindo-os”, depois colaborando na construção das novas sociedades um pouco por toda a parte. Neste romance de Charles Reis Felix voltamos a testemunhar, através de uma família onde já co-habitam sob o mesmo tecto as primeiras e segundas gerações, de como uma federação de etnias, das quais faz parte a portuguesa, construiu uma nova América enquanto se agarrava à memória-pátria para o seu equilíbrio psicológico e auto-estima social num meio em que o poder político pertencia a outros, e logo todos os poderes institucionais de valorização ou legitimação de um dado grupo nacional. A saber: o personagem dominante, aqui identificado simplesmente como Pa (Pai) pelo seu filho de nome Seraphin, que vai misturando o seu protagonismo com o do progenitor, é um sapateiro na cidade fictícia de Gaw (New Bedford), oriundo do continente português. O seu quotidiano é o de um trabalhador e observador silencioso, e silenciado, do pequeno mundo à sua volta nos bairros da classe operária dedicado maioritariamente à indústria de têxteis, durante os anos de chumbo numa América em depressão económica. As pequenas e inconsequentes aventuras de Seraphin, assim como a vida escondida e controlada da sua única irmã, de nome Laura, os dizeres irónicos e depreciativos da sua mãe perante o marido, servem só para mostrar aos leitores de como a sobrevivência tranquila de um grupo como o nosso aconteceu, ou acontece. Onésimo Teotónio Almeida foi quem cunhou há muitos anos o neologismo (Lusa)lândia, definindo-o como um pedaço de Portugal rodeado de América por todos os lados. Ei-la: rodeada, neste caso, de irlandeses, italianos, polacos, alemães, e judeus de várias proveniências. Uma das consistentes cenas cómicas na prosa de Reis Felix são as breves menções às ilhas açorianas, de onde vêm a maior parte dos seus vizinhos na América. São-lhes ainda mais estranhas do que o Grand Canyon no outro lado de um continente-nação, que nunca viram, um mistério no meio do mar, e pouco representam na prosa do autor.

Da Gama, Cary Grant and the Election of 1934 é o título que resume as três dimensões temáticas do romance. Em hilariantes cenas de uma campanha política para o presidente da câmara local, um dos candidatos de nome Secundo B. Alves utiliza um discurso de grande orgulho étnico para comover os seus potenciais votantes lusos, invocando Vasco da Gama como figura representativa da nossa grandeza, utilizando as mesmas palavras quando perde a eleição, mas passa a apoiar um outro numa segunda volta, representando o oportunismo descarado e sem apologias; Cary Grant, o galã do cinema que representava toda a infantilidade e fantasia de fama e beleza das adolescentes americanas, o sonho levando-as sempre para o outro lado do arco-íris, como na famosa canção da mesma época; e a eleição de 1934 como veículo de renovação comunitária por entre a mais descarada corrupção local, simbolizando, poderá ser lido assim, a natureza do poder e da riqueza americana, o coração e vontades humanas nas suas manifestações mais universalistas. Para o pai de Seraphin, é o trabalho, a invisibilidade pública, a vivência atenta mas perfeitamente dividida entre o seu portuguesismo e a americanização dos filhos, a gratidão de não estar na miséria do amado torrão natal que havia deixado no outro lado Atlântico.

“O Inglês – explica o pai de Serphin acerca de certa terminologia referente a mulheres solteiras, num momento de pura comédia para o leitor – é uma língua sem coração, sem sentimentos. Em Inglês chamam uma mulher que não casa uma ‘old maid’… Mas em Português, o que é que dizemos de uma mulher que não é casada? Chamo-la uma solteira. Isto significa ‘uma mulher a viver sozinha’. Usamos estes termos por simpatia. Ela está só, não tem ninguém para cuidar dela. E repara como tudo isto tem a sua lógica. Casada – junta com alguém. Solteira – sozinha. O que poderia ser mais lógico, mais descritivo, mais meigo? Estás a ver a beleza da língua portuguesa? A superioridade da língua portuguesa?”

Na memória de um escritor como Charles Reis Felix (octogenário que vive desde os anos 40 no norte da Califórnia), são estes corriqueiros momentos em família e na cidade da sua infância e adolescência que permanecem e significam algo perdurável para si. Parecem-nos sempre insignificantes, mas a memória retêm-nas, mais nitidamente do que os nossos grandes “acontecimentos” na vida. É delas que muita e grande literatura tem sido feita. Da Gama, Cary Grant, and the Election of 1934 poderá não ser uma obra prima, mas oferece-nos um rico mosaico de como fomos e somos numa vivência diária entre muitos outros, não só sobrevivendo, mas vingando no caminho para os nossos sonhos – sonhos americanos, nesta nossa outra literatura e arte.

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Charles Reis Felix, Da Gama, Cary Grant, and the Election of 1934, Center for Portuguese Studies, University of Massachusetts Dartmouth, Dartmouth, 2005. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

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