Edmund Wilson na Europa e em Portugal

A Life in Letters

Sempre estive curioso sobre [Eça de] Queiroz, mas o meu preconceito contra as traduções tem impedido até agora que eu leia.

Edmund Wilson, Letters on Literature and Politics 1912-1972

Vamberto Freitas

A citação que vai aqui em epígrafe vem de uma carta que Edmund Wilson, o mais conhecido crítico e ensaísta literário dos EUA durante boa parte do século passado, enviou em Março de 1970 ao escritor britânico V. S. Pritchett, que acabava de lhe enviar um dos seus ensaios, eventualmente publicado em The Mythmakers (1979), ensaios sobre vários escritores europeus. Creio que será supérfluo dizer que Wilson é pouquíssimo conhecido no nosso país pela classe culta que escreve fora dos estudos anglo-americanos nas universidades portuguesas. Já nos nossos dias, Wilson tem sido mencionado com respeito mas de passagem por alguns críticos literários e culturais, como Clara Ferreira Alves, e Paulo Nogueira, ambos no Expresso. Eugénio Lisboa, entretanto, é dos seus mais atentos leitores de Wilson no nosso país, creio que tendo despertado o seu entusiasmo com The Shores of Light: A Literary Chronicle of the Twenties and Thirties. Eugénio Lisboa tem citado Wilson de quando em quando em vários contextos, como aliás já apontei noutras páginas, e mencionou especificamente um outro livro intitulado The Triple Thinkers num ensaio sobre a revista presença e presencismo. Por sua vez, o Professor George Monteiro, hoje jubilado da Brown University e especializado na literatura norte-americana, publicaria no número 75 (1983) da Colóquio-Letras, numa secção então chamada “Carta da América”, um breve texto, “Permanência de Edmund Wilson”, onde dava conta do estatuto crítico (à época) de Wilson nas faculdades e entre a classe culta em geral. Que eu saiba, este representa uma das poucas vezes que no nosso país a obra de Wilson foi abordada com algum detalhe e todo o cuidado académico. No entanto, René Wellek diz no seu influente A History of Modern Criticism 1750-1950 que “Edmund Wilson é o crítico [americano] mais lido e conhecido na Europa”, o que poderá já não ser o caso nos nossos dias. De facto, Wilson apenas concedeu quatro entrevistas à grande imprensa (há a famosa auto-entrevista que Wilson publicou num dos números de The New York Review of Books, outra das publicações intelectuais nova-iorquinas a que ele esteve ligado a partir da fundação a início da década de 60), e duas delas foram a jornais britânicos, e outra um periódico italiano. Valerá a pena, pois, especular aqui sobre as razões que poderão explicar, mesmo que só parcialmente, a ausência de Edmund Wilson como referencial crítico norte-americano no nosso país, quando m durante todos os anos em que ele escreveu e era efectivamente conhecido na restante Europa, alguns dos nomes mais proeminentes da literatura do seu país eram lidos atentamente pelos nossos intelectuais e escritores. Alguns desses nomes presentes entre nós ficaram para sempre ligados à carreira e vida de Edmund Wilson: Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, John dos Passos e John Steinbeck, quem Wilson havia arrasado numa crítica sobre escritores californianos nos anos 30 e 40, intitulada precisamente The Boys in the Backroom, publicada mais tarde em livro autónomo com o mesmo título. Os grandes momentos de influência internacional de Edmund Wilson, no entanto, coincidiram sempre com a desatenção com que historicamente Portugal em geral olhou para a vida intelectual das Américas, incluindo o Brasil, apesar das leituras aqui apontadas, e seguia como referencial intelectual e literário tudo quanto saía de Paris.

Em português, e segundo Edmund Wilson: A Bibliography (1971), de Richard Davis Ramsey, considerada uma das mais completas sobre a obra do mesmo autor, existiam por essa altura duas traduções no Brasil de dois influentes livros seus: O Castelo de Axle (Axle’s Castle), de José Paulo Paes e publicado na Editora Cultrix Ltda., de São Paulo, e Raízes da Literatura (The Wound and the Bow), de Edilson Alkmim Cunha, publicado na Lidador, Coleção Mimesis, Rio de Janeiro. Nos anos mais recentes outros trabalhos foram publicados e divulgados no Brasil, como uma tradução de The Dead Sea Scrolls, assim como Rumo à Estação da Finlândia (To The Finland Station: A Study in the Writing and Acting of History).

Wilson, paradoxalmente, não se interessava pelas literaturas hispânicas e de língua portuguesa. Dizia não compreender, por exemplo, o que constituía a grandeza de Dom Quixote, e que nunca tinha sido capaz de chegar ao fim do romance de Cervantes. Wilson não só era um homem naturalmente de fortes opiniões, como vinha de um certo tempo e imbuído de influências que faziam do “lugar” e da “raça” — sem que isso significasse necessariamente racismo da parte dele — conceitos influentes, faziam parte decisiva da sua cosmovisão e sistema de valores. Mas Wilson tinha também uma grande capacidade de emendar a mão, sendo o alargamento de referências intelectuais, literárias e, sim, humanas uma das suas mais consistentes características da sua pessoa e da sua contínua aprendizagem. Em 1970 (dois anos antes da sua morte) muito provavelmente leu Eça, pois Wilson não rejeitava nunca uma oportunidade para um encontro literário com o desconhecido, especialmente quando uma recomendação vinha de um amigo ou figura em que ele depositava toda a confiança nestas avaliações. Wilson poderia — eis outra hipótese — não sentir o mesmo distanciamento ante os portugueses que sentia ante os hispânicos. “Quando me envias livros como este tornas tudo obrigatório”. Pritchett acabava também de publicar esse um longo ensaio intitulado “Eça de Queiroz: A Portuguese Diplomat”, por ocasião da publicação de The Illustrious House of Ramires, a tradução de A Ilustre Casa de Ramires. Mais tarde, em The Mythmakers, V. S. Pritchett abordava, para além de Eça de Querós, alguns dos mais influentes escritores da tradição ocidental, desde Chehov e Dostoevsky a Machado de Assis, Gabriel Garcia Márques e Jorge Luís Borges. Entretanto, era sempre capaz de reconhecer em si próprio o que, numa análise fria, admitia ser suas as lacunas de conhecimentos, como já aqui foi indicado. Wilson escrevera no prefácio a The Bit Between My Teeth, ainda em 1952, e precisamente no momento em que se virava para as literaturas e culturas mais ou menos desconhecidas por aquela altura nos Estados Unidos, que sentia algumas graves faltas e falhas no sua visão crítica e literária nesses dois mundos, afinal vizinhos ali a sul.

Os departamentos de literatura comparada, – escrevia agora num mea culpa um tanto tardio, mas sem qualquer medo de se expôr aos seus críticos, particularmente na academia – algo absolutamente desconhecido nos meus tempos de faculdade, têm começado a aparecer nas maiores universidades do país. As minhas piores desqualificações como um crítico de olho sinóptico tem sido o meu desconhecimento do português e do espanhol, tal como a minha ignorância total das literaturas latino-americana; mas um bom número de estudantes, tradutores e professores começaram recentemente a cultivar esta área de estudos, e é indubitavelmente verdade, tal como dizem, que as culturas dos mundos hispânico e anglo-saxónico das Américas do sul e do norte, agora ambas misturadas com outros elementos, irão fertilizar-se umas às outras”.

A literatura europeia, claro está, esteve sempre no centro da atenções de Wilson, desde o mencionado Axle´s Castle, para além de outros já também referidos, a Travel’s In Two Democracies e Europe Without Baedeker. Nos países europeus de literaturas maiores, Portugal será onde é menos conhecido, pelo menos até há pouco tempo. Estou em crer que a perduração de estudos anglo-americanos entre nós acabará por convocar a sua presença em prol de um melhor e muito mais aprofundado conhecimento da literatura modernista americana. Por outro lado, existe ainda alguma ficção e poesia, se bem que seja a parte menor da sua vastíssima obra. Auto-negava o seu estatuto de “crítico”, e insistia em que era um jornalista literário. Estas auto-definições faziam parte, é assim que o interpreto, do seu desprezo pelo que, nos anos pós-II Guerra foi a usurpação pelas universidades do discurso literário e “cultural”, com os resultados que hoje são por todos conhecidos – e lamentados. Na verdade, foi por certo um dos últimos verdadeiros homens de letras, mesmo que isso já se tenha tornado um cliché — humanista, renascentista, para quem a arte literária era um modo de vida, na qual a estética e o pensamento estavam sempre interligados, até mesmo na sua própria escrita crítica. Wilson foi um escritor consequente, perdura, por direito próprio, no tempo. A literatura como memória dos povos, como sinal de civilização e convivência.

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Edmund Wilson, Letters on Literature and Politics 1912-1972 (Selected and Organized by Elena Wilson), New York, NY, Farrar, Straus and Giroux, 1977. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

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