Rubem Fonseca e os seus demónios

Capa Amálgama R Fonseca

 

Isso era para ser um poema, mas eu não tenho pacto com o diabo.

Rubem Fonseca, Amálgama

Vamberto Freitas

A breve citação de acima vem de um também breve texto com o simples título de “Escrever” no mais recente livro de Rubem Fonseca, Amálgama, uma deliciosa colectânea de escritos dispersos, que inclui um pouco de tudo, inclusive poesia e prosa-outra. Eis Rubem Fonseca nalguns dos seus momentos mais contundentes, irresistíveis, bons, diabólicos. A pertinência de um acto de leitura e de recepção de um texto depende de muitos factores e propósitos momentâneos de cada um, desde o prazer puro a qualquer impulso literário, mas estou em crer que o modo como recebemos e interpretamos um texto está intimamente ligado ao espírito do nosso tempo, mais precisamente aos dias imediatos que vivemos ou tentamos entender. Ninguém como Rubem Fonseca criou e depois cultivou em língua portuguesa a escrita urbanista da nossa modernidade à grande escala. Esqueçam o existencialismo do século passado e as narrativas meio ideológicas meio filosóficas da suposta literatura intelectualizada ou formalmente intrincada, dirigida a académicos e a outros pares, quase sempre incompreensível ou de difícil apreensão pela maioria dos leitores (por vezes, descobrimos que não há mesmo nada a apreender), e fiquemos aqui com a literatura na sua viveza e significados múltiplos para a nossa era, a palavra escorreita carregando em si as mais profundas sugestões de quem somos e como somos, a linguagem como exercício genial de comunicação com os outros, a fonte, uma vez mais, de surpresa, pensamento e sugestão da nossa capacidade para o melhor e para o pior. Ler esta sequência aleatória de textos do autor de A Grande Arte é como se nos tornássemos um daqueles seus personagens de más intenções e acções, é como se entrássemos criminosamente no seu reduto íntimo e espreitássemos a sua desarrumada secretária cheia de papéis ou de palavras soltas, escritos começados e abandonados, escritos-resumo de projectos a desenvolver, escritos-desabafos de um escritor furioso, escritos da bondade e raiva de um citadino a saque mas sem medo. Levamos tudo connosco, fazemos como um dos seus ladrões ou assassinos – estes pedaços de prosa são joias e valem por si, até poderiam ser vendidos a quem quer aprender a escrever ou a construir uma trama para o seu próprio livro, ou fazer poesia de sentimentos ou desejos proibidos. Creio que parte da genialidade de Rubem Fonseca é esta – fazer o leitor pensar que é um participante nas suas estórias, que é um amigo seu passeando em sua companhia pela cidade da sua residência e paixão, que conhece mais do coração humano do que na realidade parece conhecer, que a coexistência do mal e do bem em cada um de nós é demasiado humana e complexa, move toda arte literária desde as nossas origens civilizacionais. Eis a literatura como acto lúdico e erudito – o referencial literário do autor abrange praticamente todas as tradições, a Europa e as Américas o seu espaço familiar e significante.

“O ficcionista – afirma o narrador na primeira pessoa – quanto melhor pior, sofre mais, depois de algum tempo não aguenta o sufoco. Os mais sensatos, se é que se pode chamar de sensato um indivíduo como esse – eu já disse alhures que todo o escritor é louco –, os que têm algum discernimento, e esses são poucos, desistem, no auge da sua carreira dizem BASTA, para desespero dos seus admiradores… Os outros, cada vez mais desesperados com essa insana atividade, entregam-se às drogas ou cometem suicídio… O que eu vou fazer?”

Rubem Fonseca, e não o seu narrador, é que vai continuar a escrever, não tem outra saída, nem os seus leitores querem outra coisa. Li numa folha qualquer que até já deixou o seu predilecto Piriquita. Não é fácil, particularmente para um luso-brasileiro de nome José, que os seus narradores insistem em nunca deixar de cair nesta Amálgama, como não deixam cair as contínuas referências às mais variadas lusitanidades da sua experiência e memória, desde os poetas e escritores que de quando em quando eles convocam na sua prosa até às origens de outras gentes e geografias dos seus afectos. Para um dos mais universalistas escritores na nossa língua, isso desfaz toda a resistência que outros deste lado Atlântico poderiam invocar nas suas supostas “dificuldades” que têm em ler o seu idoma transformado em signos tropicalistas, e de grande dimensão em termos geográficos, imaginários, culturais. O inventor mais bem sucedido do romance “policial” na língua de Camões não necessitaria de prestar essa homenagem em praticamente todas as suas páginas de ficção, mas algo mais acontece adentro do género escolhido – a literatura no seu estado de perfeição. Isso, para mim, quer dizer que quando o leio, faço-o com a mesma intenção com que leio os nossos clássicos a partir do século XIX, ou seja, com o maior prazer solitário mas depois partilhado, rever deste outro modo o meu lugar e a sua história através da transfiguração artística de que só os grandes criadores são capazes. É por esse meio do crime e da violência fingida numa grande cidade como o Rio de Janeiro que tudo isso converge – o anjo e o demónio em nós todos, a verdade e a mentira do nosso quotidiano e ante os restantes que nos rodeiam, a dor de uns e a raiva da humilhação, o coração da bondade e da crueldade, o desejo e a perversidade, a generosidade e a ganância selvática. As suas personagens, todas elas, transportam em si este estado do ser humano na sua completude e diabólica contradição, o herói e anti-herói indecifráveis e indissociáveis no mesmo homem ou na mesma mulher. As suas linguagens estão sempre em consonância com a criatura que as enuncia ou a circunstância que as provoca, no palavrão doce ou repugnante e na oração poética e apaziguadora que o leitor ouve em directo, em cada uma das palavras ou expressões, visualiza o terror na cara do outro, ou o sorriso da salvação quando o afago acontece, a morte passando ao lado. Todos estes escritos funcionam como “fábulas”, aliás título que o narrador dá a um destes contos. Não há ensinamentos na literatura, dizem alguns. Só que cada pedaço de prosa como esta obriga-nos a tentar perceber o que também poderá servir de ponto de partida para outros raciocínios e percepções, – esqueçamos essa do exemplo “moralista” de antigamente – ou nada mais é do que a vociferação de loucos.

Ler Rubem Fonseca é esquecer por um instante toda a redenção que clamamos perante os deuses indiferentes, ou então de sorriso ainda mais cruel na contemplação dos que ainda acham que vão encontrar a saída do labirinto. A humanidade está aqui como que no seu estado primordial, puro, toda a sua existência parece uma encenação de condenados sem perdão. É frequente a citação dos grandes autores ocidentais, desde os gregos até aos nossos dias, mas como quem está a rir-se de como somos capazes de nunca deixarmos de sonhar ou de pretender que em cada um de nós reside algo mais do que um animal à solta em selvas de todo o tipo, com os predadores da mesma espécie sempre à espreita e medindo o momento de assalto mortífero, torturador, saqueador. Não há aqui política nem ideologia – só o instinto do prazer e da preservação. É um reflexo perturbador, como quem diz ao leitor — se já o pensaste, eu já o fiz, sem remorso algum. No texto (ou conto, pois a designação tem pouca importância nestas páginas) precisamente intitulado “Fábula”, já referido anteriormente, o autor resume ao que vem, e o que nos oferece.

“Como disse um estudioso, a fábula é um conto de moralidade popular, uma lição de inteligência, de justiça, de sagacidade, trazida até nós desde a mais remota antiguidade… As Fábulas de Esopo são uma lição de astúcia, de sagacidade, uma lição de moral?… Podem jogar essa merda no lixo. O meu exemplar eu já joguei”.

Rubem Fonseca já recebeu o Prémio Camões, e cinco vezes (a mais recente em 2014) o Prémio Jabuti, o mais prestigiado do Brasil. Em 2012 foi homenageado no nosso país com o Prémio Correntes d’Escrita, na Póvoa do Varzim, e agora a sua obra completa está ser publicada entre nós, finalmente. Quando vejo um dos seus livros numa mesa de qualquer livraria nossa, e verifico que ainda não tenho na minha colecção, compro-o de imediato, sem sequer o folhear. Já sei que a seguir me esperam momentos de descoberta e espanto. Ler Rubem Fonseca é também um acto de humildade – ver manipular a nossa língua com tamanha destreza e imaginação é uma oferenda dos deuses, mesmo que, como aqui já se disse, sejam cruéis e gozadores. A epígrafe que utilizei neste meu texto foi tirada do conto que citei noutra parte. Essa de o escritor não se querer meter com os poetas ou ser cúmplice do seu pacto com diabo, é mais uma invenção do narrador. Toda a prosa do autor, em qualquer forma, desmente essa outra diatribe.

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Rubem Fonseca, Amálgama, Porto, Porto Editora/Sextante, 2014.

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