DA POESIA DE LARA GULARTE: Escavações da História Imaginada

foto Lara gularte

 Vamberto Freitas

I pull my ancestors from the soil,

bloodlines lost, are found.

I don’t recognize faces,

I know their souls.

The Scott Valley in Northern California

(Minha Família)”,

Lara Gularte in Tales of the Siskiyou1

I

Os versos “decrescentes” na primeira estrofe do poema acima citado são, na sua própria forma, uma metáfora de parte do esforço ou proposta poética de Lara Gularte: recuperar a humanidade dos seus através da escavação imaginativa de histórias esquecidas, nunca escritas, desses que um dia navegaram do Velho para o Novo Mundo. É claro que a temática de Lara Gularte abrange muito mais do que esta faceta dos açorianos imigrados no oeste americano desde os primórdios do século XIX, mas creio ser precisamente nesse seu gesto elegíaco dos antepassados esquecidos em que assenta todo um imaginário na busca de si própria, de uma identidade como mulher e como ser pertencente a um determinado grupo histórico e “cultural” dentro do complexo mosaico humano e época que lhe couberam na sua sorte existencial. Lara Gularte parece estar a dizer que há uma absoluta necessidade de “recuperar” para os nossos arquivos artísticos as nossas almas “perdidas”, aqueles que nos deram vida e nos moldaram todo um futuro neste lugar e neste tempo. De uma intenção larga e profunda, restam as poucas palavras que aqui a poeta nos oferece (I don’t recognize faces/I know their souls). Do esquecimento total, a humanidade ressuscita, apesar de tudo, no seu essencial, no seu Todo. A memória viva dos que se foram, redime, preenche e dá forma às nossas próprias vidas, explica, por assim dizer, a contínua tragédia e alegria de estar vivo, explica o imperativo de reclamar algum significado para a nossa própria passagem por este mundo, avisando ainda aqueles que nos seguirão de que sem essa homenagem identitária não haveria sentido de pertença e partilha em qualquer parte. O vácuo seria humanamente desagregador, intolerável. Com efeito, esta é uma poesia da nossa perpétua incompletude, mas também da viagem de libertação interior, juntando os restos (re)encontrados, recompondo o possível do nosso inviolável ser. Trata-se de um processo que emprega ou recorre à erudição, sensualidade, catolicismo (quase sempre inevitável nos escritores e poetas luso-americanos), e, uma vez mais, a escavação do chão árido ou congelado, pátrias do destino e da (por vezes, pouca) sorte.

Lara Gularte é uma californiana de terceira geração, residente em San Jose, descendente de emigrantes picoenses que foram para Scott Valley (extremo norte daquele estado) a meados do século XIX, ainda durante a Corrida ao Ouro. É formada com um MFA (Escrita Criativa) pela San Jose State University, e dirige a revista literária Reed Magazine, da mesma universidade, assim como a Convergence-journal.com, páginas de poesia e artes plásticas. Publicou o “chapbook” de Days Between Dancing2 em 2002, e prepara-se neste momento para publicar a poesia recolhida em Tales of the Siskiyou: A Poetry Collection, essa homenagem à história do pioneirisno da sua família naquela parte dos Estados Unidos, destino da maior parte dos açorianos até quase aos nossos dias, e desde que começaram a dar o salto ainda em tempos mais recuados nas velhas baleeiras americanas que escalavam principalmente o Faial, a partir do século XVIII. Extremamente consciente de todo o seu e nosso passado, é Associada da California Pioneers of Santa Clara County, que se dedica à investigação e divulgação do património histórico local. Para além do mais, Lara Gularte tem publicado em inúmeras revistas literárias da net e em papel, tendo já sido premiada e nomeada para o cobiçado Pushcart Prize.3 Toda sua poesia foi já traduzida por alunos finalistas da Universidade dos Açores,4 aguardando publicação em edições bilingues a sair no nosso país, e só agora a começar a ser divulgada neste lado do Atlântico, inicialmente no SAAL-Suplemento Açoriano de Artes e Letras, da revista Saber/Açores.5 A leitura que aqui faço da sua obra assume deliberadamente uma perspectiva diaspórica, particularmente no contexto histórico açoriano. Entretanto, Calder Lowe, director de The Montserrat Review sintetizou de modo lapidar todas as outras questões estéticas e temáticas da poesia de Lara Gularte aquando da publicação do já referido Days Between Dancing:

Lara Gularte é uma poeta corajosa. Em Days Between Dancing ela transporta-nos por um território que é intermitentemente assombrado, lírico e aterrorizador. A sua poesia é meticulosamente forjada e enformada por uma inteligência provocadora e irónica, e é de uma urgência apaixonada. Quer trate as ligações intergeracionais, os pesadelos torturados de um veterano do Vietname, o fantasma sinistro do abuso sexual enquanto criança, ou então as forças ameaçadoras que pairam nas sombras de um casamento sem amor, a sua obra demarca-se pela sua ferocidade, clareza de propósitos, e ainda pela admirável consistência da sua voz. Não há aqui alternativas a uma honestidade sem medos e imagística eloquente. Quando tudo isto acontece ao mesmo tempo, como acontece em Days Between Dancing, a poesia como género reconquista a sua força.6

II

Até muito recentemente, pouco ou nada se sabia (para além do conhecimento geral do oeste americano no século XIX) da sorte da maioria dos emigrantes açorianos, ninguém havia resgatado dos diversos arquivos de história social, desde os jornais da época e “documentos” (cartas, fotos, e outros registos) familiares, toda a sua movimentação quotidiana nos diversos escalões sociais a que por ventura ou desventura haviam pertencido. Curiosamente, como mencionarei à frente, Lara Gularte inclui algumas fotos por entre a poesia de Tales of the Siskiyou, permitindo-nos uma leitura entre o fingimento poético e a “realidade” de vidas que ela tenciona “ressuscitar”. Francisco Cota Fagundes deu um primeiro grande passo com Um Português na Corrida ao Ouro: A Autobiografia de Charles Peters,7 acompanhada de uma extensa contextualização feita pelo organizador e tradutor do volume. Donald Warrin e Geoffrey Gomes fariam o mesmo, agora com o monumental Land as Far as the Eye Can See: Portuguese in the Old West,8 estando neste momento a ser traduzido para eventual publicação em Lisboa, enquanto a revista Grande Reportagem,9 que sai com os jornais da Global/Notícias, está a publicar algumas das biografias aí incluídas. Mas a poetização desse passado tem acontecido aos poucos entre vários poetas luso-americanos, como no caso de Frank X. Gaspar em praticamente toda a sua obra ficcional e poética, muito vincadamente na poesia de The Holyoke10 e na ficção de Leaving Pico.11 Em qualquer dos casos, é o acto quase puramente imaginativo que retira do esquecimento as vidas anónimas de pescadores na costa leste americana e a de trabalhadores agrícolas e aventureiros no Oeste. Parte-se de uma pequena história quase sempre contada pelos mais velhos para a reconstituição do que terá sido a existência nos tempos das nossas primeiras fugas à miséria económica e ausência de perspectivas de futuro do seu velho e pobre país (I pull my ancestors from the soil). Salpicada de uma ou outra palavra portuguesa (ou criativa e foneticamente aportuguesada) trata-se de uma poesia que, se não pretende substituir o conhecimento científico das coisas e gentes, oferece-nos quotidianos diaspóricos plausíveis. É claro que, acima de tudo, nos melhores momentos destes e doutros poetas, acontece a estetização de vidas mergulhadas na bruma do tempo, o que só por si justificará o acto poético em qualquer circunstância ou perante todas e quaisquer intenções dos seus autores. Em suma, é dar alma aos que só muito vagamente permanecem na memória (mais como números de censos ou outros cálculos) atribuindo-lhes motivos de vida, adivinhando-lhes alegrias e tristezas, lealdades e traições. Em muita da poesia de Lara Gularte, naturalmente, estão presentes as mulheres, as suas vidas, num obscurantismo rural quase absoluto, vivendo na ausência de sonhos e na dureza dos dias, “chorando” o amor inexistente, sensualidade e desejo tornando-se refúgios primeiros nas noites e nos dias que se repetem no tédio dos campos sem fim ou no enclausuramento das montanhas. A sobriedade assexuada da “mulher gótica” da pradaria americana de Grant Wood, poderá também e de certo modo retratar estas açorianas no exílio californiano, mas os prazeres do corpo e a sedução súbita ou às escondidas tornam-na num ser muito mais completo – a beleza da sua existência redimida nesses raros momentos de afirmação e libertação. “A Rancher’s Wife”:

She raises the shades of the dark trees

and glowing of wheat and pasture.

she opens windows

to the fragrance of honeysuckle,

the sharp smell of manure.

through the kitchen pane

she watches as his calloused hands

lift bales of hay into air.

She opens the screen door,

puts her hands in his,

pulls him inside

She undresses him,

rolls her nylons down around her ankles,

removes heart-shaped lace and girdle

shows him her olive thighs.

She rubs oil in his cracked palms,

removes splinters,

then waits for whatever

his hands will give her.

All night there is intimacy

under a yellow lamp.

At 6:AM she’s calm and slow,

lighting the woodstove

measuring the steady pour of milk,

the breakfast, ready to serve him.12

Não me seria prático enumerar neste espaço todos os poemas em que Lara Gularte procede a esta afirmação da sensualidade em mulheres vindas de uma das mais conservadoras culturas europeias, fortemente condicionada pelo seu Catolicismo condenador. A outra face deste mundo americano reinventado pela poeta oscila sempre entre a contemporaneidade e a sua quase obsessão em dar nome e, uma vez mais, alma e espírito, aos seus mortos esquecidos. Em ambos os casos, acompanhamos a desilusão daqueles que viram as suas vidas escondidas passar-se sem consequência, ou então vidas traumatizadas pelos mais variados acontecimentos indesejados. A solidão desesperada, que um dia Henry David Thoreau catalogou como sendo particularmente americana, atravessa todos estes versos, distinguindo alegremente os poucos momentos de felicidade e realização. É no relacionamento entre homens e mulheres que Lara Gularte vê o seu mundo, e por vezes é a dor absoluta ou a memória magoada que povoa os espaços do Eldorado.13 Como apontou Calder Lowe na sua apreciação citada atrás, a mulher-poeta busca aqui o seu lugar e razão de ser no mundo, tentando também esbater a violência espiritual em que muitos se enredaram, permanecendo para sempre na memória de quem agora os lembra e memorializa. “O passado – diria William Faulkner – não está morto. Nem sequer é passado”. Os dias presentes desta poesia estão natural e irremediavelmente condicionados pela memória do que a poeta viveu, viu e sentiu. Não quero trazer para aqui teoria pós-modernista da cultura ou literatura, mas relembro tão-só que Linda Hutcheon, em The Politics of Postmodernism,14 também reafirma a essencialidade de uma revisitação à história a partir da nossa própria sensibilidade, e não só. Este é um acto poético que pela primeira vez (re)cria as vozes do silêncio-passado, legitima a presença de todo um povo, o açoriano, numa América em que todos os outros, vindos das mais longínquas e diversas nações, reclamam para si continuidade histórica, direito ao sentimento de “pátria”, respeito pelas diferenças culturais enriquecedoras no mosaico norte-americano.15 Se a poeta não podia deixar de “fingir” estas vidas e estes personagens, creio ser significante o facto de em Tales of the Siskiyou Lara Gularte incluir algumas fotos de gentes e lugares, incluindo a pedra tumular de um desses antepassados, dando-nos naturalmente nome, lugar e datas.16 Vemos os olhares perplexos mas determinados de homens e mulheres, em momentos de trabalho, ou em pose frente à objectiva. O acto poético tanto pode ser verbal como visual, certifica que aquela gente existiu, as palavras contam a sua história, (re)arranjam as suas vidas, colocam dor e beleza como pano de fundo, dão sentido às suas (nossas) vidas, criam, como escreveu Leslie Marmon Silko, “comunidade”, onde ela antes não existia ou então ficava nas margens silenciadas. Contra o esquecimento, pois. Diz Lara Gularte na primeira estrofe do poema “Grandfather”: you go during one winter of wilderness/The years have flattened your grave with the earth/wind wiped your name from the granite stone.17

III

Lara Gularte, mais em Tales of the Siskiyou do que em Days Between Dancing – esta última colectânea, na sequência do seu presente e do seu “eu” fingidor ou poético perante o passado inesquecido, molda decididamente todo o seu estado de espírito – faz como que a viagem de regresso às “origens” num agora mitificado Scott Valley. Parte inevitavelmente do pessoal e da história familiar para o contexto comunitário, os mundos da intimidade absoluta de vidas privadas integrando-se num espaço de afectos sociais e culturais mais vastos, metamorfoseando as histórias individualizadas numa história do “grupo”, a poetização celebrante, digamo-lo também assim, da “comunidade”. Na segunda sequência de Tales of the Siskiyou temos poemas com os sugestivos títulos de “The Valley”, “They Meet at Chamarrita” e “Festa do Espírito Santo”. Nestes como na maior parte da sua obra publicada e inédita encontramos de novo Lara Gularte ora em memorialização e diálogo com um qualquer sujeito da família ora em descrições de intimidades de vária natureza num palco público, ocupado pelos que com ela partilham a história da ancestralidade, a estética da convivência tanto para o puro prazer hedonista como para outros rituais profano-religiosos. A memória do grupo, afinal, nunca se dilui por completo na imensidão do seu chão de exílio, que por vezes, especialmente entre as mulheres, é também ou sobretudo um exílio interior. São “personagens” num drama de sobrevivência muito humano, em que raramente ao riso não se segue o choro pelas ausências, pela morte dos amados, pelos sonhos desfeitos. Do choro: She buried his ashes/then planted a tree in them/Nights she sleeps on a cold mattress;18 do riso: The port, dark and sweet, the swirling light of dance/his loosened damp collar, her gray skirts, unfolding/Wrists and hands, the need to touch/The room rises and falls with their hastening breath;19 da celebração colectiva: Incense fills the inside of the church/with absolute presence/Maria Silveira/studies the stained glass/the lambs and saints/She kneels and bows/the host fusing to her tongue/the holiness of her sex/a scent of blossoms.20

Finalmente, queria apontar outras ironias circunstanciais directamente relacionadas com a obra de Lara Gularte. Pela ocasião da entrega e publicação dos trabalhos premiados no já referido concurso literário comemorativo da Corrida ao Ouro na Califórnia, o diário San Jose Mercury News escreveu:

Falando aqui em pinceladas bastante expansivas, a corrida ao Ouro na Califórnia foi uma bigorna onde o Oeste foi temperado e depois reinventado como um novo e maravilhoso destino. Mesmo assim, para alguns de vós que nos escreveram sobre os vossos elos ancestrais a esses tempos, aquele vigoroso período de história americana foi destilado num mundo de particularidades ainda mais espantosas.21

Tomemos em conta que o San Jose Mercury News é a voz primeira de uma cidade e Grande Área que também dá pelo nome de Silicon Valley, precisamente, repita-se, onde reside uma das maiores comunidades portuguesas na costa americana do Pacífico, juntamente com os milhares de outros açorianos que se fixaram no também mítico Vale de San Joaquim. Por outras palavras, o projecto poético de Lara Gularte envolve toda a mítica do Faroeste, colocando os seus e os nossos no centro de um mundo que em pouco mais de um século caminhou do primitivismo fundacional até a uma geografia hoje conhecida em toda a parte por nos ter permitido as comunicações globais instantâneas. Algumas fotografias dos antepassados da poeta ilustram precisamente o suplemento do referido jornal, que se intitula Silicon Valley/Life. Eis o mundo das “margens” em movimento, a colocar-se artística e culturalmente no lugar a que tem direito, a reconhecer-se e a ser reconhecido. No imaginário (intelectualmente canónico) português, as nossas comunidades, à excepção de um pequeno grupo de estudiosos em todo o país, permaneciam até há poucos anos uma “realidade” e uma “história” pouco conhecidas, se não mesmo totalmente ignoradas. Muito do trabalho inicial na recuperação da sua memória estava a ser feito pelas primeiras gerações, limitadas à Imprensa de língua portuguesa ou circulação de livros entre si próprios. A reafirmação cultural em língua inglesa permite-nos cada vez mais o diálogo alargado com todos os outros que connosco partilharam e partilham a construção do Novo Mundo, legitima de outra forma a nossa reivindicação de total pertença a outros e longínquos espaços tornados “pátrias universais”, provavelmente decisivas para a nossa sobrevivência, a todos os níveis, nos tempos vindouros.

Não citei as palavras anteriores crendo que a Arte autêntica procure aplausos, seja de quem for, não creio que os poetas e outros escritores apontem para si e peçam a outros que vejam o que não querem ver ou saber. A força da poesia de Lara Gularte, como a de outros colegas nos EUA que com ela partilham uma Tradição ancestral, movimenta-se entre o inevitável eu poético e o outro. Se nada de novo se diz com esta afirmação, relembrá-lo a alguns nunca será um acto gratuito. No país do individualismo levado a certos extremos filosóficos e ideológicos, a verdade é que ninguém – muito menos os artistas – sobrevive no vácuo histórico do obscurantismo de quem se havia, ou tenta, esquecer-se de si próprio e de quem lhe permitiu uma identidade, seja ela “definida” como for. Se, como outros já escreveram, a nossa liberdade pessoal e originalidade em qualquer representação artística se forja precisamente contra a cultura nacional a que pertencemos, eventualmente o regresso a essa mesma casa comum também acontecerá. O desespero e o aconchego, a dialéctica interiorizada da libertação e da pertença, permitem-nos a oscilação constante e leque de visões contraditórias em que os outros, os leitores, buscam e tentam encontrar a sua própria humanidade – e toda a poesia do seu ser.

_______________________

1 Lara Gularte, Tales of the Siskiyou: A Poetry Collection, ainda inédito em forma de livro aquando desta escrita. Reproduzo aqui o que Lara escreve como introdução a estes poemas: “Tales of the Siskiyou is a poetry collection that describes stories based on my Portuguese pioneer family who settled in Scott Valley near Fort Jones California beginning in the mid 1880’s to early 1900’s. Large numbers of Portuguese emigrated to the Siskiyou mountain area of Northern California to hunt for gold and later settled there as ranchers. My great grandmother came to Fort Jones California as a mail order bride during this period and today her homestead remains a local landmark”.

2 Lara Gularte, Days Between Dancing, Stockton, California, The Poet’s Corner Press, 2002. Trata-se de um “chapbook” de temática variada mas no qual Lara Gularte ensaia já o que aqui chamo novamente a escavação da história imaginada, a recriação do passado pelo acto poético.

3 Lara Gularte foi nomeada para o prestigiado Pushcart Prize em 2002 pelo Days Between Dancing. Entretanto, alguns dos poemas da colectânea Tales of the Siskiyou foram seleccionados (“California Bride; 1852 Sonora” e “The Sierras, 1850; Great Aunt Lila and Her Husband Joe”) entre os “Fisrt Place winners” em 1998 pelo San Jose Mercury News Gold Rush Series, um concurso literário do diário de grande expansão da mesma cidade no norte da Califórnia. Outras revistas literárias e culturais onde Lara Gularte tem publicado a sua poesia incluem Downtown Magazine, The Santa Clara Review, The Tule Review, The Manzanita Review e O Progresso. Mais recentemente iniciou a sua colaboração no SAAL-Suplemento Açoriano de Artes e Letras, que dirijo na revista Saber/Açores, de Ponta Delgada. Os seus poemas têm sido publicados no original e em tradução.

4 Trata-se de um projecto na cadeira de língua inglesa do quarto ano do curso Português/Inglês (Estudos e Ensino), de 2003/4. Toda a poesia de Lara Gularte em Days Between Dancing e Tales of the Siskiyou: A Poetry Collection foi traduzida para uma eventual edição (ou edições) bilingues a serem editadas no nosso país. Outros poetas luso-americanos cujas obras os mesmos alunos traduziram são: Joseph M. Faria (The Way Home, Fallbrook, CA, Lit Pot Press, Inc., 2003), Michael Garcia Spring (Blue Crow, Fallbrook, CA, Lit Pot Press, Inc., 2003), David Oliveira (In The Presence of Snakes, Santa Barbara, CA, Brandenburg Press, 2000) e George Monteiro (The Coffee Exchange, Providence, Rhode Island, Gávea-Brown, 1982).

5 A divulgação entre nós dos escritores, poetas e ensaístas luso-americanos, a partir dos anos 70 até aos nossos dias, deve-se principalmente à Gávea-Brown/Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, fundada e dirigida por Onésimo T. Almeida na Brown University, tendo como Co-Director, quase desde o começo, George Monteiro, Professor de Literatura Americana na mesma instituição. George Monteiro foi e continua a ser, por sua vez, uma das primeiras vozes consistentes na escrita e análise da literatura luso-americana. Organiza neste momento The Gávea-Brown Book of Portuguese-American Verse, que incluirá poetas desde Emma Lazarus a Frank X. Gaspar. Uma primeira mostra deste projecto foi feita no ensaio “Poesia Luso-Americana nos Estados Unidos: De Emma Lazarus a Frank Gaspar”, primeiro lido no colóquio Portuguese-American Literature: The First One-Hundred Years, na Yale University (2001), e depois publicado no SAAL-Suplemento Açoriano de Artes e Letras (revista Saber/Açores), Nº 11, Janeiro de 2004.

6 Calder Lowe in The Montserrat Review. Tradução minha. Esta apreciação crítica vem na contracapa de Days Between Dancing. Eis o texto no original: “Lara Gularte is a fearless poet. In Days Between Dancing, she transports us through a landscape that is by turns haunting, lyrical, and terrifying. Her poems are meticulously crafted and informed by a provocative, ironic intelligence, and passionate urgency. Whether she is describing an intergenerational connection, a Vietnam veteran’s tortured dreamscape, the sinister specter of childhood molestation, or the threatening forces that hover in the shadow of a loveless marriage, her work is characterized by a ferocity, purposefulness, and consistency of voice that is remarkable. There is no substitute for relentless honesty and compelling imagery, and when these occur in combination as they do in Gularte’s Days Between Dancing, the genre of poetry is revitalized”.

7 Francisco Cota Fagundes, Um Português na Corrida ao Ouro: A Autobiografia de Charles Peters, Lisboa, Edições Salamandra, 1997. Numa recensão crítica que então publiquei, escrevi que: “Uma das mais interessantes curiosidades desta Autobiografia é que não menciona uma só vez qualquer outro açoriano durante tão longo percurso no oeste americano – apesar de já nesta altura, a princípio do século XX, haver uma substancial comunidade açoriana precisamente no norte da Califórnia, e que viria a ser atentamente notada por escritores como Jack London, que retrata mais ou menos pormenorizadamente esses outros imigrantes açorianos no romance Valley of the Moon (1913). In Vamberto Freitas, A Ilha Em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, Lisboa, Edições Salamandra, 1999, p.184.

8 Donald Warrin and Geoffrey Gomes, Land As far As They Eye Can See: Portuguese In The Old West, Spokane, Washington, The Arthur H. Clark Company, 2001.

9 A partir do número 164 da Grande Reportagem, Ano XV, 3ª Série, 28 de Fevereiro 2004. Nos Açores a revista é distribuída com o diário Açoriano Oriental, de Ponta Delgada.

10 Frank H. Gaspar, The Holyoke, Boston, Northeastern University Press, 1988.

11 Frank X. Gaspar, Leaving Pico, Hanover, New Hampshire University Press of New England, 1999. Traduzido em Portugal com o título Deixando a Ilha do Pico, Lisboa, Edições Salamandra, 2002.

12 In Tales of the Siskiyou: A Collection of Poetry, Section II.

13 Alguns destes poemas da “escuridão” deste particular imaginário de Lara Gularte são, entre outros, “After the Second Tour”, “Orchard Man” em Days Between Dancing, e “The Shooting of Manoel Cardoza, Portuguese Immigrant May 29, 1888” e “150 Years Gold Was Discovered in California” em Tales of the Siskiyou: A Collection of Poetry. Por sua vez, Days Between Dancing contém vários poemas que reforçam a visão pessoal quase apocalíptica de Lara Gularte, intitulando vários poemas com meses de Inverno, ou então com a escuridão da noite: “Thinking About Dying at The Beach in December”, “Night”, “In February”, “In March”, “Catching the Autumn”. O primeiro poema do livro, “After the Second Tour”, revisita as noites com o se companheiro, que fez a guerra no Vietname e não escapa ao pesadelo perpétuo de ter visto matar e morrer, transformando o amor de outrora num inferno de medos perseguidores, a escuridão da noite virada metáfora da escuridão do espírito. Eis a abertura do poema: “My henna lips/you loved/before the world began to bleed/through your body/Each night you take Da Nang/and Chu Li to bed with us/Night birds become winged engines/you grow cat pupils/and wild animals hide under the furniture”.

14 Linda Hutcheon, The Politics of Postmodernism, London, Routledge, 1989.

15 Em muita da sua obra, Edward W. Said discutiu frequentemente um mundo da pós-modernidade que é já feito de margens humanas infindáveis, defendendo do mesmo modo o direito às identidades fluidas de cada um ou de cada grupo, não permitindo que as forças hegemónicas culturais vinculem o que é ser-se ou não ser-se do “centro” ou das “margens”, dando ainda a cada um a liberdade de reinvenção pessoal ou identitária conforme as vontades nunca impostas por ninguém, um indivíduo podendo muito bem “pertencer” ou “identificar-se” a várias realidades vividas em geografias múltiplas. Creio ser de leitura fundamental para esclarecimento destas questões e/ou posicionamentos ideológicos, Culture and Imperialism (New York, Alfred A. Knopf, Inc., 1993), assim como a sua autobiografia intitulada Out of Place: A Memoir, New York, Alfred A. Knopf, a Division of Random House, Inc., 1999).

É de elementar justiça aqui relembrar a todos que uma das primeiras teorizações de fôlego sobre a literatura luso-americana deve-se à recém-falecida Nancy T. Baden, Professora de Língua e Literaturas Brasileira e Portuguesa na California State University, em Fullerton. Nos anos 70 e 80 publicou uma sucessão de trabalhos nesta área, que circularam entre um pequeno grupo de estudiosos, que então já se interessavam academicamente por estas questões. Em 1979 organizou uma mesa redonda na sua universidade, pela ocasião das comemorações do Dia das Comunidades, intitulada A literatura Luso-Americana: Que Futuro?, em que participei juntamente com Onésimo T. Almeida, Eduardo Mayone Dias e Urbino de San-Payo. Essas intervenções seriam publicadas na Gávea-Brown/Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, Vol. II, Nº 1, Jan.-June, 1981, pp.14-32. Portuguese-American Literature: Does it Exist? seria publicado na revista Melus/The Journal of the Society for the Study of The Multi-Ethnic Literature if the United States, sob a temática geral The Smelting Price, Volume 6, Number 2, Summer 1979. Este mesmo trabalho seria mais tarde traduzido pelo poeta Urbino San-Payo sob o título Existirá Uma Literatura Luso-Americana? O Frente a Frente Entre a Teoria e a Realidade Numa Literatura em Desenvolvimento, publicado na revista angrense Atlântida, e depois em separata, Nº 2, 3 e 4, Ano de 1984. Entretanto, tinha já publicado um pouco antes Portuguese-American Literature: An Overview, na Gávea-Brown, Vol. I, Nº2 July-Dec., 1980. Começava este ensaio colocando as questões fundamentais, que anos mais tarde nos orientariam a todos: “Portuguese-American Literature is at present but a small facet of the Portuguese experience in the United States. Heretofore, the literary contributions of Portuguese-Americans have not been significant; therefore, it should be clear from the outset that the phenomenon being surveyed here is but a tiny presence when viewed within the context of ethnic literature in the United States. At the same time, however, there are several recent factors which indicate that the Portuguese-American literary production, is possibly in a state of transition and thus it may be fruitful to pause and examine the current state so as to provide background and perspective in the event of future changes or transformation”, p. 29. Estavam ainda longe de aparecer no mundo literário entre nós Katherine Vaz, Frank X. Gaspar, David Oliveira, Sue Fagalde Lick, Joseph M. Faria, Michael Garcia Spring e, agora, Lara Gularte. Nancy T. Baden foi durante muitos anos, desde a sua fundação, Coordenadora de Recensões da mesma revista, por convite do seu Director, Onésimo T. Almeida. Especializada em Literatura Brasileira (a sua tese de doutoramento é sobre a obra de Jorge Amado), nunca deixaria de manter a sua aproximação pessoal e académica aos colegas açorianos nos Estados Unidos. Foi minha professora de Língua e Literatura Portuguesas Na California State University, Fullerton, nos anos 1972/1974.

16 Como na fotografia da pedra tumular de Manoel Cardozo: “Memoria de Manoel Cardozo, Sepultado 29 de Maio de 1888, Idade 38 annos, e natural da Ilha do Pico, Freguesia do Soldão, filho de Thome Cardozo e Isabel Thereza”. Esta foto ilustra em Tales of the Siskiyou o poema “The Shooting of Manoel Cardoza Portuguese Immigrant May29, 1888”, já aqui mencionado noutra parte. A ortografia respeita aqui o original.

17 Do poema “Grandfather” in Tales of the Siskiyou: A Poetry Collection.

18 Do poema “The Widow Silva” in Tales of the Siskiyou: A Collection of Poetry.

19 Do poema “They Meet at Chamarrita” in Tales of the Siskiyou: A Collection of Poetry.

20 Do poema “Festa do Espírito Santo” in Tales of the Siskiyou: A Collection of Poetry.

21SILICON VALLEY/LIFE, Section E, San Jose Mercury News, February 3, 1998. Tradução minha. O original lê: “In the broadest of strokes, The California Gold Rush was an anvil upon which the West was tempered and reworked into a new and wondrous destination. Yet, for those of you who wrote to us about your ancestral ties to the event, that hefty chunk of American history has been distilled to the even more wondrous world of detail”.

___________

Ensaio incluído no meu livro Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado espelho, Ponta Delgada, Edições Macaronésia, 2010.

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