Do passado ninguém foge

Capa Perguntem a Sarah Gross

Os seus olhos eram espelhos. Ao olharmos para eles descobríamo-nos de uma maneira como nunca nos víamos, pois Sarah devolvia-nos um reflexo de verdade. Mas os espelhos têm uma limitação; não deixam ver através.

João Pinto Coelho, Perguntem a Sarah Gross

Vamberto Freitas

A historiografia e literatura norte-americanas têm documentado extensivamente a mais dramática de todas as emigrações europeias para o seu país, a partir do fim do século XIX e nas primeiras décadas do século passado – os judeus vindos da “outra Europa”, como lhe chamaria Philip Roth anos mais tarde a propósito de outros temas profundamente relacionados com estes, os escritores sob a tirania comunista naquela parte do mundo. A verdade é que os judeus foram alvo de todas as perseguições (e, pelos vistos, voltam a sentir-se inseguros), um povo sempre escorraçado do velho continente, enquanto, como se sabe, o pior estava para vir ainda com a catástrofe hitleriana. É precisamente nessa época que nasce literária e academicamente a primeira grande geração de intelectuais e escritores judeus-americanos, quase todos eles concentrados em Nova Iorque, hoje parte fundamental do melhor e mais duradouro na literatura modernista do seu país. Raramente era do passado dos seus pais e avós que falavam, antes demarcavam e cultivavam o espaço a que tinham pleno direito sócio-político e cultural, dirigiam o seu contra-discurso à classe culta de então, predominantemente anglo-saxónica, e, talvez ironicamente ou não, pretendiam “europeizar” uma literatura até então mais ou menos provinciana, e que deixava de fora todos os que a ela não pertenciam ou cujas identidades eram outras, mesmo que já parte do mosaico humano desse novo mundo. Apesar de constantes referências ou alusões nos seus ensaios e livros a um legado histórico que lhes era lembrado como um mundo de ameaças e pobreza generalizada, só muito mais tarde Irving Howe, um dos críticos e ensaístas do grupo que ele próprio chamaria de New York Intellectuals, escreveu o seu magnum opus sob o título de World of Our Fathers, publicado em 1976. De qualquer modo, a “viagem” era sempre para “dentro”, parafraseando aqui, sem segundas intenções, Edward Said. Quase todos eles estavam inseridos num espectro ideológico neo-marxista (com Freud pelo meio), era do futuro que se ocupavam, era um outro futuro que desejavam na suposta pátria das nações, era como que partir do silêncio dos seu povo transnacional para um discurso universal e inclusivista, a História pairando sobre todos como um fantasma que deveria ser exorcizado pela arte, particularmente pela literatura, resgatando ainda mais por essa via a rica tradição literária dos antepassados. Para mim, como português imigrado e naturalizado nos EUA durante boa parte da minha vida, nenhum outro grupo de escritores me faria sentir tão próximo do meu chão adoptado, tão fora da pele híbrida de um outro.

Por todas estas razões, e por muito mais, li Perguntem a Sarah Gross, o primeiro romance de João Pinto Coelho, com prazer redobrado, e especialmente pelo simples facto de ser um português o seu autor. Não tem sido nada comum na nossa literatura esta audácia formal e temática, este fôlego narrativo de questões históricas tão prementes e sensíveis para um entendimento mínimo do nosso tempo e da nossa própria civilização. O aconchego globalizado da era que nos foi dado viver permite agora a um autor de qualquer nacionalidade, de qualquer língua ou cultura, abordar esses temas que, quer o reconheçamos ou não, a todos tocaram direta ou indirectamente no Ocidente. O movimento constante entre povos e as suas vozes públicas teriam de resultar nesta empatia intelectual, neste imperativo moral. A Segunda Guerra Mundial decidiu os nossos rumos até hoje, tocou-nos de maneira íntima e assustadora, mesmo sem, felizmente, avistarmos o exército alemão no nosso território, Lisboa tendo sido a verdadeira Cidade Luz de refúgio e passagem para a liberdade, destino sonhado dos que fugiam à morte certa. O romance de João Pinto Coelho não toca nem tinha de tocar nesta parte da história, mas deverá ser lido não esquecendo o vasto pano de fundo no drama que foi o Holocausto. O autor faz o que nenhum outro escritor, que eu saiba, havia feito: o regresso voluntário à Polónia de um filho judeu nos últimos dias da Primeira Grande Guerra, rico e já nascido nos Estados Unidos, na companhia da sua mulher Anna, e filha Sarah, para honrar a terra dos seus pais e ajudar na sua libertação e independência. A cidade natal dos pais, e em que ele naturalmente se fixa, é por demais conhecida, mas antes do nome que viria a significar Crime e Inferno levados às suas últimas e mais desumanas consequências – Oshpitzin, para os judeus que lá viviam há séculos, Auschwitz para a pequena cidade que passou a simbolizar a degradação e o terror de todo indefiníveis. Enquanto o leitor progride na leitura e vai acompanhado Henryk Gross no percurso do seu negócio próspero e estável, no seu prestígio comunitário e intervenção política na sua pátria ancestral, vamos antevendo o que os personagens poderão suspeitar, emitir sinais de alerta, mas nunca admitem o que poderá vir a acontecer, o inimaginável para todos, com a subida de Adolfo Hitler ao poder em Berlim, em 1933. Vão chegando notícias, é certo, do outro lado da fronteira, mas nunca a hipótese do que na realidade viria a acontecer com a invasão-relâmpago do mais cruel e determinado exército na história da humanidade. O romance tem descrições dos acontecimentos subsequentes, desde a cidade-campo de concentração ao gueto de Cracóvia, que quase nos colocam lá em pessoa, nos fazem ver cada momento entre os judeus como se de um filme tridimensional se tratasse. A sua linguagem narrativa permanece, ao longo de cada capítulo ou cena, sem sentimentalismo, não se desvia nunca do pormenor frio e visto de vários ângulos, conforme os personagens em acção ou vivendo aqueles momentos, só cada leitor, cada ouvinte, terá a responsabilidade sentenciosa ou moralizadora. A ficção como história, ou o romance histórico, se preferirem, tem de recorrer a palavras que foram ou não ditas, ficar rente aos factos conhecidos e arquivados, não pode ser construída por entre lágrimas ou raiva. Perguntem a Sarah Gross consegue esse feito só comum na grande literatura deste género, mantendo o leitor atento a cada detalhe, seguindo os passos de cada ser reinventado nas suas páginas, atento à sua forma de vida e visão das coisas, às suas reacções quer num quotidiano normalizado, quer no extremo da vida e da morte. Ler isto de um novo autor português, em que depressa nos esquecemos da própria língua, que nem sempre se deve tornar o signo auto-justificado ou mero jogo supostamente artístico, é de facto uma experiência gratificante a todos os níveis. Não esteve lá? Não é judeu? A maioria dos escritores conhecidos neste género de ficção não estiveram lá, nem sofreram a dor da pertença total nos acontecimentos em foco. João Pinto Coelho junta-se agora a um rol de ficcionistas internacionais, sem lhes dever absolutamente nada, a língua em que escreve possivelmente o único factor que o manterá só dentro das nossas fronteiras e estantes.

Perguntem a Sarah Gross – Sarah é uma das protagonistas principais do romance, filha do malogrado Henryk, e regressada aos Estados Unidos após se safar da catástrofe de modo ambíguo e penalizador, envolvendo um oficial de alta patente das Waffen SS – está estruturado em duas secções, uma delas contada na terceira pessoa, dando-nos a visão panorâmica da história, a outra na primeira pessoa, contada por uma professora americana que havia leccionado numa escola de elite em Connecticut, St. Oswald’s, dirigida precisamente por Sarah. O leitor, ao contrário da própria narradora, sabe quem é, mas não sabe como ela lá chegou até fim da narrativa. Kimberly Parker, doutorada em literatura americana, ela própria em fuga a um passado de violência e indignidade, recorda tudo o que viveu e veio a descobrir de Sarah naqueles anos, mas em retrospectiva, já 2013, septuagenária e ciente da sua responsabilidade perante a memória dos que significantemente se atravessaram na sua vida. Memória e identidade, vida e morte, amor e desamor, partidas e regressos – eis a temática intemporal do romance de João Pinto Coelho. De resto, a sua nota biográfica e os agradecimentos a muitas pessoas que lhe passaram informação denotam que nenhuma destas questões lhe serão alheias pelo conhecimento pessoal que tem tanto da Polónia e da sua atribulada história, como da vida em geral nos EUA. Aliás, o seu conhecimento até ao pormenor do ensino a este nível e com o estatuto elitista numa escola como esta aqui transfigurada permitiu-me lê-lo desde as primeiras páginas com toda a confiança, e fascínio.

Um outro romance que se poderá colocar lado a lado a este é o também recente Para o ano em Jerusalém, de Maria da Conceição Caleiro. No entanto, a questão judaica não nos deveria ser de modo nenhum assunto alheio. Toda a nossa história, inclusive aqui nas ilhas atlânticas, e até hoje, nenhum sentido faria sem lembrarmos constantemente a presença dos judeus entre nós.

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João Pinto Coelho, Perguntem a Sarah Gross, Lisboa, Dom Quixote/Leya, 2015. Publicado no meu “BorderCrossings”, do Açoriano Oriental, 29 de Maio de 2015.

O ser que habitamos

Capa Até para o ano em Jesuralém

Iossef Kowalevsky, esse, embarcaria por Inglaterra, aí encontrou ajuda, judeus portugueses, parece, mas resistiu a ficar. Imaginava a Palestina talvez, impossível na altura, ou o Sul, mais a sul ainda.

Maria da Conceição Caleiro, Até para o ano em Jerusalém

Vamberto Freitas

Poderemos falar de referenciais internacionais na literatura portuguesa não como novidade, mas como um recurso temático que hoje parece cada vez mais natural a toda uma geração que cresceu ou chegou à maturidade no novo mundo da globalização, feita realidade através de todos os meios de comunicação imagináveis, com a internet a oferecer a visita imediata e em tempo real a quase todos os recantos do mundo e circunstâncias de pequeno ou grande alcance. Saul Bellow escreveria um seus romances mais apreciados e lembrados de fundo parcialmente africano, sem o autor alguma vez ter visitado o continente, e a crítica ressentiu-se desse facto, apontando-o logo como uma das falhas que passariam mais tarde a ser denominadas como politicamente incorretas, sem que isso, mesmo assim, desfizesse a grandeza de um livro hoje canónico no mundo anglo-saxónico. A verdade é que a arte tem os seus protocolos muito próprios, e hoje os escritores não só têm as imagens históricas do passado e dos seus dias em sua frente a cada instante, como se tornou impossível pensar a nossa rua retirada desse vasto contexto planetário. Por outro lado, quando se escreve sobre o nosso torrão natal poderemos encontrar as raízes que se estendem por territórios longínquos, ligações de sorte e sangue a outros que connosco pisaram terra comum, que connosco beijaram a vida e choraram a morte. A qualquer momento no decorrer das coisas, o aparecimento de uma única pessoa ou acontecimento poderá despoletar a imaginação, ou mais ainda a revisão da história, a memória do que permanecia afundado no tempo esquecido, a rede interligada a tudo que pensávamos improvável ou impossível. Até para o ano em Jerusalém, o romance de Maria da Conceição Caleiro, publicado há poucos dias, é essa curiosa teia de enredos e tragédias humanas, que começam na Polónia em 1939, e acabam em Lisboa, no Brasil e nos Açores. Não há mais ilhas no sentido etimológico do termo – a História chega inevitavelmente pelo mar e pelo ar, os seres humanos carregam consigo passado, presente e futuro, e tudo (nos) acontece para além de línguas faladas ou encontros pré-destinados, de religiões identitárias, de vontades sociais ou noções culturais. Os judeus estão nas ilhas açorianas desde o início, e em números muito superiores ao que uma ou duas famílias contemporâneas mais conhecidas entre nós fariam supor. A Segunda Guerra Mundial fez com que muitos deles se refugiassem temporariamente na terra nacional que um dia foi a sua pátria, só que de Lisboa aos Açores a viagem era ainda mais complicada e perigosa, mas o romance de Conceição Caleiro relembra-nos que, apesar de tudo, a linha de sangue e sentimento fez-se perpetuar. A literatura tem esse outro mérito – reconstituir histórias que parecem meramente pessoais, mas afinal estão alinhadas num longo fio de presença e vida ancestrais.

Até para o ano em Jerusalém acaba na cidade sagrada, mas começa em Lisboa. Maria Luís Kowalevsky, artista plástica e vivendo dias incertos quando descobre que está infectada com HIV, tem um breve caso com o historiador universitário Vicente, a quem tinha falado superficialmente no seu nome estrangeiro (polaco), mas não sabia nada de como o tinha adquirido. Tinha uma carta de uma avó açoriana, de famílias de bem, que tinha saído da sua ilha S. Miguel após ter sido engravidada por outro que não o seu marido. De resto, era o silêncio. A história é contada numa analepse por uma amiga, numa narrativa toda recortada ou constituída por informações dispersas e que nos parecem desconexas, conversas incompletas tiradas de telefonemas e de conversas ao acaso, mistério tanto para o leitor como para a narradora. Quando Vicente vai para o Rio de Janeiro leccionar temporariamente, fugindo ele próprio de um casamento instável, conhece um colega, de nome David Kowalevsky, judeu descendente de imigrantes que lá se tinham estabelecido há muito, e de outros que haviam chegado como refugiados do Holocausto no velho continente. Vicente fala-lhe logo da sua “amiga” em Lisboa. Convidado por este seu colega da faculdade a partilhar algumas festas em sua casa, conhece aí muita gente activa na comunidade judaica local, inclusive seu avô, de nome Iossef Kowalevsky, natural de Danzig, a cidade internacional desde sempre disputada pela Polónia e Alemanha, a primeira vítima da brutal invasão hitleriana, outrora centro de uma outra e grande comunidade judaica. Iossef tinha percorrido um longo caminho na fuga aos nazis após o começo da guerra em 1939. Por acasos dessas conhecidas viagens atribuladas e navios à procura de portos amigos, ou pelo menos não de todo hostis, desembarca numa ilha açoriana, onde permanece algum tempo enquanto espera pela saída rumo ao Brasil, agora na companhia de ilhéus numa embarcação que havia ser fretada por famílias ricas de cá. Iossef tinha guardado esse segredo, para só o revelar na hora da morte. O mistério de Maria Luís começava a revelar-se, o seu nome até então desconhecido recupera a razão de ser, faz parte de uma história não de amor, mas do desejo de um judeu e de uma açoriana linda mas infeliz, vítima de um casamento que tinha as tradicionais visitas às Furnas como aventura maior. Vicente transmite toda esta informação recolhida no Rio de Janeiro, e a narradora organiza, na companhia de Maria Luís e outros amigos, uma viagem a S. Miguel, à descoberta das raízes e da terra, conhecendo e recolhendo mais informação de algumas pessoas que ainda se lembravam do caso. Pouco depois chega David, possivelmente primo desconhecido de Maria Luís, e o prazer puro do seu avô dá lugar agora a uma história de amor e total cumplicidade, incestuosa ou não. Para o ano, disse David a Maria Luís, em Jerusalém, aonde chegam e se amam num conhecido hotel da cidade.

Uma leitura açoriana deste romance, aventuro aqui, poderia levar a um certo simbolismo do esquecimento das nossas próprias origens, ou pelo menos de parte significante delas. Quem chegou às ilhas no início permanece uma questão quase em aberto, a metáfora do judeu errante em nada alheio à nossa sorte de ilhéus, o povo em constante embarque e regressos vários. De qualquer modo, se Até para o ano em Jerusalém é uma representação ficcional em parte baseada em factos ou tão-só imaginários, não afecta minimamente a plausibilidade da sua trama. No entanto, creio ter algum significado a autora, em notas diversas nas últimas páginas do livro, agradecer a algumas individualidades conhecidas entre nós pelos seus estudos açorianos, pelo diálogo vivo ou escrito em que forneceram dados, “em torno dos refugiados judeus no espaço português aquando da Segunda Guerra Mundial”, no Rio de Janeiro, e muito especificamente sobre a história do povo hebraico aqui nas ilhas. Por outro lado, não será muito comum incluir na própria narrativa ilustrações diversas, como uma sequência de fotos da Grande Sinagoga de Danzig, antes e depois da sua destruição, ou um facsímile de uma página de um jornal da época. Outras referências, que colocam este romance algures entre a realidade e a ficção, recorrem a obras e objectos em museus conhecidos do mundo, e que perpetuam este período da história judaica na Europa. A sua linguagem, uma vez mais, obedece à forma estrutural da narrativa – cenas dispersas envolvendo os seus personagens, geografias à primeira vista distantes em tudo, a alegria e segurança do Novo Mundo em contraste com a barbaridade e vulnerabilidade de tudo e todos, em guerra ou em paz, nas terras frias e cansadas do Norte. Um passo descritivo do que sente a narradora na sua visita às Furnas está, do mesmo modo, carregado de simbolismo e metáforas da nossa condição a meio Atlântico.

Aquela terra – diz ela a determinada altura – perturbava. Sempre a bulir lá por dentro, lá pro fundo, e nem se via sempre. Nunca tinha visto nada assim. Sentimentos tão extremos, amor e ódio. Ou os dois juntos, par a par. Fermentava, massa lêveda, adâmica. Vagarosa atmosfera enredada. Chuva miúda, dava vício. Calor húmido, tecto baixo. Transpirávamos. Fez partir muitos, a outros amarrou como as presas de um polvo maldito de tantos braços que se estendiam sem soltar quem foi uma só vez apanhado e por lá foi ficando. Sentia-me já possuída. A certa altura, num dado ponto alto da estrada, do alto, num momento de céu aberto, via-se mar dos dois lados. Senti as lágrimas, por nada. A fragilidade do lugar”.

Até para o ano em Jerusalém deve ser lido pelo muito mais do que nos devolve nas suas páginas, particularmente pelo que me parece ser um dos seus temas predominantes – a nossa identidade por entre a catástrofe, a memória da vida e da morte, do amor e do ódio, de quem e como somos. Só que a terra açoriana é visitada aqui com muita originalidade e olhos de fora – que vêem quase tudo o que nos escapa aqui ao lado, o paraíso e o inferno desafiando-se eternamente.

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Maria da Conceição Caleiro, Até para o ano em Jerusalém, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2015. Publicado originalmente na minha coluna “BorderCrossings” (22 de Maio) do diário Açoriano Oriental.

O canto da cotovia

Capa To Kill a Mockingbird

A única coisa que não obedece à lei da maioria é a nossa consciência.

Harper Lee, To Kill A Mockingbird

Vamberto Freitas

Venho aqui falar do romance de Harper Lee não por continuar a ser um dos romances norte-americanos mais lidos no mundo, mas porque em poucas semanas vamos ler da mesma autora Go Set a Watchman, que vê agora a luz dia todas estas décadas depois, esquecido que estava nos arquivos da autora, e cuja história demonstra o continuo poder da literatura entre a classe culta, entre os que sabem que primeiro era o verbo, e só depois o mundo. To Kill A Mockingbird – cujas duas traduções portuguesas têm os títulos de Por Favor Não Matem a Cotovia e Mataram a Cotovia, desaparecendo destes títulos toda a força poética e semântica do original — foi publicado em 1960, depressa sendo aclamado e denunciado, tornado canónico quase de imediato pelo Prémio Pulitzer que receberia pouco depois, e a partir daí fazendo parte de quase todos os currículos de literatura nas escolas do ensino secundário americano, foco de inveja e das mais desvairadas críticas, as que insinuavam inclusive que não é um romance de qualidade porque até hoje vendeu acima quarenta milhões de exemplares em várias línguas. Harper Lee deve ter a história literária mais serena do seu país, e agora a mais redentiva de sempre, fazendo os críticos nova-iorquinos ter de engolir e engasgar-se com a edição de domingo do The New York Times e da revista The New Yorker. Desde dizer-se que uma criança protagonista não poderia ter a consciência da realidade retratada e todo aquele assomo narrativo (ignorando que todo o romance são as memórias de uma adulta), a referir a cotovia como pássaro de pouca originalidade porque se limita a reproduzir o chilrear de outros melros — disse-se de tudo um pouco. Como Harper Lee conviveu nos anos da adolescência com Truman Capote na pequena cidade de Monroeville, no Alabama (e que aparece no romance como uma personagem cómica e traquinas, de nome Dill), e com quem depois manteria uma profunda amizade durante toda a vida, outros aventuravam que tinha sido ele a escrever To Kill A Mockingbird, não explicando como é que um autor de obras como A Sangue Frio se tinha desviado tão radicalmente do seu estilo e referenciais temáticos. Ignoravam, parece, o essencial: trata-se de uma narrativa que sabiamente combina uma espécie lirismo numa linguagem que, mesmo assim, nunca deixa de ser realista na tradição narrativa sulista, ao mesmo que tempo que memorializa os doces anos da infância numa pequena e protegida cidade do interior, vivendo, sempre, uma mistura de rancor e meiguice preguiçosa nesse meio isolado durante os piores anos da Grande Depressão. Os afro-americanos, os outros em absoluto, serviam de históricos bodes expiatórios, particularmente ante os mais baixos escalões sociais brancos, mas não só.

A recepção inicial do romance, com esse seu referencial histórico e humano, parecia esquecida, mas agora as mesmas publicações literárias e generalistas não param de falar em Go Set a Wtachman, programado para ser lançado em Julho, com a editora Harper Collins a anunciar uma primeira impressão de dois milhões de exemplares, números que creio já terem sido ultrapassados devido aos pedidos de pré-publicação vindos de todo o mundo. Harper Lee, descontando uns poucos anos em Nova Iorque, viveu sempre na cidade natal, e hoje encontra-se, com 88 anos de idade, numa casa da terceira idade. Este seu “novo” romance foi acidentalmente encontrado pela sua grande amiga e advogada, Tonja Carter, quando revia alguns arquivos e foi surpreendida pelo manuscrito. Ao lê-lo, diria ela pouco depois, estava a reconhecer passos e personagens do romance inicial, mas noutro contexto e já em idade adulta. Não era bem uma sequela, era um “outro” To Kill A Mockingbird. Durante toda a vida Harper Lee recusou tornar-se uma celebridade tão ao gosto popular americano. Retirou-se para a sua pequena cidade, sem falar mais da sua obra, afirmando ainda que não iria escrever qualquer outro livro, apesar dos contínuos incitamentos dos seus leitores. Que se passava aqui? O romance agora encontrado era o livro original que havia sido enviado ao editor em Nova Iorque. Foi aceite, mas com a sugestão que a estória se tornaria ainda mais poderosa se os personagens fossem bem mais novos, crianças e adolesecentes, e o tempo ficcional recuado para os anos 30, os anos da grande raiva das classes que haviam perdido o sonho e o pão. Foi o que a autora fez, arrumando até hoje o manuscrito inicial. É certo que a América muito mudou desde então em tudo que diz respeito às relações raciais, tendo até acontecido o que permanecia impensável, mesmo para as gerações mais novas – um Presidente da República afro-americano, de nome Barak Hussein Obama. Go Set a Watchman, sem tanta ironia como gostaríamos de pensar, sai ainda muito a tempo, tanto como obra de arte transfigurando a longa história do país, como novo aviso ao que voltamos a ver nos ecrãs e a ler nos jornais, o assassínio quase diário de cidadãos nas ruas das grande e pequenas cidades americanas. A recepção de uma obra de arte depende de muitos factores sociais e intelectuais, para além da sua qualidade estética e relevância temática. Este renascimento, ou revisitação, do grande romance de Harper Lee vem apenas confirmar que tudo muda ficando na mesma, ou, como diria também um dia Martin Luther King, mudam-se as leis mas não os corações. Por outro lado, toda a publicidade em volta deste regresso relembra-nos que a literatura poderá ter perdida a centralidade na nossa cultura, mas nunca deixou de ser uma das grandes fontes de prazer puro, e ainda mais de satisfazer a sede que temos de representar e falar da condição humana, da nossa vivência e sobrevivência no grande esquema das coisas, da representação do real através da fala e da escrita, da metáfora como a casa interior que habitamos, a casa do ser que somos.

To Kill A Mockingbird é narrado na primeira pessoa por Jean Louise, já adulta mas recordando o ano ficcional de 1935 quando ainda tinha entre seis a nove anos de idade, e era chamada pelo apelido de Scout, vivendo com o pai, Atticus Finch, advogado e totalmente dedicado aos seus filhos e carreira, e com o seu irmão Jeremy, um pouco mais velho, na cidade de Maycomb. Entre a escola e a casa, o romance naturalmente reduz-se a essa geografia de rua e praça municipal, onde todos são conhecidos, nenhuma vida fora das antenas dos mais atentos, a história de cada enredo de pobreza ou ascensão, a solidão de mulheres e homens vistos pelas crianças com respeito, mas sobretudo como fonte de proibições e opiniões sentenciosas. Por certo que é uma criança a observar e a relatar o que vê ou pensa entender, mas é a narradora adulta que insere considerações de todo o tipo, o passado ainda vivo, visto nos seus contextos e circunstâncias. O toque de gótico narrativo, tão característico da melhor literatura sulista, tanto pode ser uma paródia a outros escritores da época como a irremediável visão do outro lado da nossa humanidade, da estranheza que uns ou outros transportam em si como desafio à comunidade, ou como retiro diabolizado dos costumes e comportamentos socialmente enraizados. São os brancos que dominam em absoluto toda a vida da comunidade, os afro-americanos mantendo-se invisíveis fora dos campos de algodão ou das cozinhas da classe dominante, segregados no outro lado dos bairros para eles vedados, rezando ao mesmo Deus mas em casa própria. Entre a miséria branca e negra existe a linha real e imaginária no mesmo espaço, atravessá-lo em qualquer direcção seria sempre perigoso para uns e outros. Surge uma acusação de violação e violência por uma jovem branca contra o afro-americano Tom Robinson, pobre, analfabeto, trabalhador e pai de família, servente e servidor, e a condenação é quase garantida naquele espaço e naquele tempo, a pena de morte um possível golpe final. Atticus Finch, que raramente fala da realidade racial da sua cidade, decide insurgir-se em defesa do acusado por suspeitar o que então era comum — a falsa acusação a um homem vulnerável, a transposição freudiana da culpa por parte daqueles que pouco mais tinham do que a brancura da sua pele. A cena do julgamento em tribunal é já antológica, o instante em que Atticus Finch levanta dúvidas no seu sereno interrogatório de defesa. Perde a sua causa, e ganha o ostracismo a que a restante cidade o vota. É o momento em que a “consciência não obedece à maioria”, em que a ética se sobrepõe à ignorância e crueldade. Não esqueçamos o ano em que o romance foi publicado, o tempo do protesto concreto nas ruas dos militantes do direitos civis, a subversão como acto de libertação e dignidade. A arte poderá ser também isto – a escuridão em retrato, o testemunho da agonia humana.

Foi na expectativa de ler as recuperadas páginas de Harper Lee que retirei da estante a minha velha e amarelada edição de bolso de To Kill A Mockingbird. Queria voltar a ouvir o inesperado canto da cotovia.

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Harper Lee, Por Favor Não Matem a Cotovia, Lisboa, edição da Difel, 2004, e Mataram a Cotovia, edição da Relógio D’Água, 2012. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings”, do Açoriano Oriental, a 15 de Maio de 2015.

Interview with Vamberto Freitas

Provincetown Arts

Interview with Vamberto Freitas

Oona Patrick

Vamberto Freitas is a Portuguese literary critic who has specialized in Luso-American literature for much of his career, and has been watching and waiting for the emergence of American writers of Portuguese descent, such as Katherine Vaz and our own Frank Gaspar. Freitas, a native of Terceira island in the Azores, lived for twenty-seven years in the United States, where he earned his degrees. He now lives with his wife Adelaide, a well-known poet and novelist, on São Miguel island in the Azores, in a beachfront community just outside the main city of Ponta Delgada. He teaches at the University of the Azores, which was founded in 1976 after the Portuguese revolution of 1974.

Freitas is the author of several works of criticism, and has published opinion and criticism in many reviews, journals, and magazines in Portugal, including the Lisbon paper Diário de Notícias. He has translated Provincetown native Frank Gaspar’s poetry into Portuguese, and while editing an Azorean newspaper’s literary supplement, he published a special edition devoted to Gaspar in October 2005.

The nine volcanic islands of the Azores lie over 900 miles off of Portugal in the mid-Atlantic Ocean, and were first inhabited by Portuguese and Flemish settlers in the fifteenth century. It’s well-known that many of Provincetown’s Portuguese came from São Miguel, the largest island. But Provincetown may have more in common with the more isolated Flores island, which is known for producing many writers and intellectuals despite its small population. In Santa Cruz on Flores, the native poet Roberto de Mesquita’s house has a plaque on it; in a nearby square a bust of him looks out across the town. Such plaques, statues, parks, and avenues honor poets, writers, and teachers throughout the Azores.

Mass emigration shaped Flores, and the Azores as a whole, like erosion. On Flores it left abandoned villages and a current island population of about 4,000, only slightly larger than Provincetown in the winter, and much diminished from its peak of 10,000 in the nineteenth century, when the islands supplied the whaling industry and other passing ships. The story of emigration is a central theme in Azorean culture today—there, the emigrants, loved or resented, have not been forgotten.

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Oona Patrick – Many in Provincetown may not be aware that Frank Gaspar’s poetry, and his Provincetown novel, Leaving Pico, have been translated into Portuguese and published here (with the poetry translated by you). How would you describe the reception of Frank Gaspar’s work in the Azores?

Vamberto Freitas – To begin I might say that Luso-American writers only recently have become present among the most informed readers in the Azores. Katherine Vaz’s novel Saudade, particularly after its translation into Portuguese and published by a major and prestigious house in the continent (ASA), with its “power” to move and influence literary reception in the national press. It received major, major, attention in the leading weeklies and daily newspapers in Lisbon. Prior to that she was already being read and studied in some of our best universities. Frank was read and known in limited literary circles in the Azores who recognized in him a major and of course original voice in Luso-American writing. They soon became aware of his prestige among certain literary circles in the US, the magazines where he published, the prizes his books continuously received up to that time, the names of poets and other writers that reviewed and/or recommend him to the American reading public in general (Mary Oliver, Mark Doty, Jay Parini, Adrienne Rich, Robert Bly, Yusef Komunyakaa, Ray Gonzales, Hilda Raz, among others). I made it a point of calling attention to all this when I began writing commentaries and essays in our regional and national press about him and others, or in academic conferences in Portugal and in the US. So when Frank first appears in translation, his fiction and poetry provoked an immediate “shock of recognition”, leading to a literary dialogue that included other poets and writers from here, “answering” him in their own writings, considering him one of “us”. The poet and essayist Urbano Bettencourt, a native of Frank’s ancestral island of Pico, lost no time in taking off from his discoveries in Frank’s work to sort of “complete” his own vision of the Azorean experience in the homeland and in the American diaspora. Rather than being widely known, Frank has become, for us, a writer’s writer, a status no one would reject, I suppose. Today, most official institutions in the Azores recognize his status among us, and invitations for him to come here for readings have followed since then.

OP – What has been the impact of the success of Luso-American and Luso-Canadian writers both here and on the mainland of Portugal?

VF – Fortunately for us, some continental intellectuals and academics for once have recognized these other “Azorean” writers from the American diaspora, and have been instrumental in giving them a Portuguese “national” status. Doctoral theses on their work – or allusive to their work — have already been defended in some of our best universities, and some of these writers have been repeatedly invited to major conferences and other literary events in Lisbon. Luso-American writers, in fact, have achieved what we resident Azorean writers have never enjoyed, with a few exceptions: national recognition. This is historical among us, the discrimination or, more aptly put, “denial” of our cultural life in the Lisbon press. Never mind that some of the canonical works in Portuguese literature have come from the Azoreans since the nineteenth century! I realize that my calling writers such as Frank Gaspar an “Azorean” might raise some tired and cynical eye brows in Lisbon. But so what, new world literature is necessarily cross-cultural with multiple callings upon diverse ancestral histories (think of Salman Rushdie, Amy Tan, Bharati Mukherjee, Chang-Rae Lee, Vikram Seth, Sigrid Nunez, Pico Iyer, Michael Ondaatje, and Ana Castillo, to mention here just a few names from a substantial canon). Those who still don’t recognize this simple and positive fact of globalization should cure their provincialism and inform themselves. Paraphrasing Hunter S. Thompson, we could try to teach them, but it would be wrong. Let them do their own homework. As I wrote in a recent revisitation of Bill Cardoso and one of his books (The Maltese Sangweech & Other Heroes), the recently deceased Luso-American journalist who coined the term “gonzo” for Thompson: Luso-American writers will soon be the only consequential “memory” of our place in American society and history. They are an inseparable part of our history and soul, they are the creative (re)inventors of the country that failed their ancestors, and they are most of all the liberated witnesses of our tragedies and triumphs in the New World. Portugal without its diaspora is nothing but a small and, until recently, rather failed society where a small elite governed and plundered a whole empire in Africa and in Brazil without ever having taken care of its own courageous and suffering people. Until recently, I said… And, no, I’m not a communist or a neo-anything, just a reasonably informed citizen who truly loves his native country and region of birth.

OP – What are the stereotypes of the emigrants in the Azores? And vice-versa? What are some of our images of each other in our respective literatures?

VF – The stereotypes here have been many, sometimes cruel, ignorant and, once again, provincial. Those who stayed through a troublesome history -underdevelopment, colonial war in Africa, dictatorship – greatly, if secretly, envied those who left. Upon the return of the emigrants, we only saw strange and wild clothes, unrecognizable “language” that creatively reflected the emigrant’s new realities and cultural and materialistic references in American society, great boasting, if sometimes false, of triumphs in the new land. Resentment being stupidly justified by putting on airs of superiority on the part of those who had never left. All the contradictions of an unhappy people. Our intellectuals, even in the Azores, suffered from the same ideological anti-Americanism, as some of their fictional and poetical works attest in their supposedly comical representation of emigrant characters.

Salazar was a strange and primitive political creature, a medievalist in twentieth century Europe, protected by American power but always suspicious of their political freedom. Ironically, the Azorean left never broke free of this fascist idea that Portugal was, despite all this, “superior”, at least culturally. My father worked most of his life in the American Air Base at Lajes (island of Terceira), a humble man making his living, but visited occasionally, like many of his colleagues, particularly those like him who spoke a bit of English, by Salazar’s secret police: no looking at American magazines, no “commerce” of any kind with American ideas. So instead, and to our everlasting gratitude, he brought home American ice-cream on Sundays, reaching us half melted after a long walk from the military base. But it was enough, these small and delicious gestures, to motivate the family to emigrate to the US in the early sixties, and later to cure me of nationalist fantasies of any kind. Of course some of my writer colleagues in the Azores still consider me rather strange because all of this cultural and political “ambiguity”.

The stereotypes in the US have been just as ignorant and cruel. Look at some of the canonical works of American literature, from Melville to John Steinbeck. Look at the way they represented Portuguese characters as nothing but bullies, idiots and whores. Professor and poet George Monteiro of Brown University wrote about all this, and then I followed in his tracks here in the Azores. Racism and prejudice are everywhere in these works by intelligent and creative writers who nevertheless were incapable of escaping their northern European heritage of chauvinism vis-a-vis southern Europeans. Tortilla Flat, for example, is a truly libelous novel against our people in California. Is it just fiction? Sure, but where do these “fictional” views come from? Where does Allen Ginsberg – Ginsberg! – vociferous poem of jealousy against Fernando Pessoa, one of the greatest European modernists, today recognized as such even in the US (particularly after the publication of some translations by Richard Zenith and George Monteiro), come from? Forget Hollywood movies, from Jerry Lewis to Julia Roberts. Didn’t George W. Bush recently ask why the Portuguese language should be taught in the US? Where do these views come from? California without the hard work and loyalty of the Azorean communities probably would never have been the greatest agricultural producer and fishing industry in America, at least until mid-twentieth century. Remember Big Dan’s in New Bedford (1984) and how we Portuguese in America became all suspects of being unrepentant rapists in the national media?

Luso-American narratives are also answering the “dominant” cultural discourse in the US, or “talking back to the empire”, finally giving our people there the voice that they, along with any other ethnic or national group, have deserved since the beginning. This is also a very legitimate role of literature – excavating memories and defining the common soul of a people.

OP – In your opinion, what are some of the most important novels to come out of the Azores in the past 20 years or so?

VF – Let’s begin with João de Melo’s O Meu Mundo Não É Deste Reino, translated in the US (My World Is Not of This Kingdom) by that great master, Gregory Rabassa. Follow that with his Gente Feliz Com Lágrimas (no English translation yet, but known in many other languages), and you have, in my opinion, the most eloquent fictional testimony of the tragic Azorean history as lived by our generation, including in the North-American diaspora, Canadian version this time. It is a sustained poetical take without parallel in contemporary Portuguese literature, Lisbon jeouslasies aside. My World Is Not Of This Kingdom proved that a conservative and superstious Catholic culture, as Latin-American writers had discovered a few years before, was inevitably opened to magical realism (as Katherine Vaz would later show us in Saudade), the pleading of our people for life and death in the face of governamental abandonment, corruption, oppression and isolation in the middle of the Atlantic, becoming a sort of chant or biblical poem out of the Old Testament (João was once an ousted seminarian in Lisbon). Faulknerian, almost, in its despair, violence taking the place of love among a gentle people, as modernization begins seeping in, and our society once again saving itself despite its stupid and forever commanding elite. We have a letter here in our home from Rabassa telling my wife, who was once his student in New York, that it was the greatest novel he had read since his translation of Garcia Márquez’s One Hundred Years of Solitude. Debatable, maybe, but the point has been made. Rabassa wrote again in his recent memoirs (If This be Treason) that once he read it, he had to translate it even without knowing where he would publish his “labor of love”. You’ve told me that My World Is Not Of This Kingdom is one of your favorite books. You’ve chosen well.

Raiz Comovida (3 volumes) by Cristóvão de Aguiar is another great a artistic journey into the soul of a people in a small town of S. Miguel, a sustained and sometimes painful excavation of memory where the narrator comes to terms with his fate among the laboring classes in times of darkness and want. Sometimes a sweet revisitation of all those who formed the narrator’s tormented world, sometimes a bitter and violent “libel” against those who would oppress and trivialize the human soul, America always there as a dream of escape, its universal impulse coming from another faulknerian theme: the capacity of people to “endure and persevere” under similar circumstances everywhere. Aguiar belongs to the same generation as João de Melo and Onésimo Almeida (who happens to also be from Aguiar’s hometown, Pico da Pedra, that serves as the geographical reference to Raiz Comovida), sharing the fate of other well known Azorean writers among us who left the islands to study in Lisbon or Coimbra, and who have received national attention, winning major literary prizes and deservedly being widely reviewed in the best of the Portuguese press. Raiz Comovida is also a linguistic feat, where semantic “regionalisms” give color and deeper meanings to the unique experience of being an Azorean in the most isolated territory of the nation, comedy and tragedy coexisting to create a whole world where one would want to belong to but then run away with some of its characters to an imagined salvation of wide spaces and liberty. No other writer among us (at least in our generation) has made language itself become almost a “character” in the novel, making the reader want to read out loud many of the novel’s sections for the sheer pleasure of its music, never losing its multiplicity of meanings constantly signalling the Azoreans’ historical fate. I believe that only a Gregory Rabassa could tackle its translation into the English language, and American readers of serious literature would experience another “shock of recognition”, particularly in the reading of the first volume of Raiz Comovida. Aguiar has written much after this, fiction and a long running diary, once again distinguishing himself with the novel Um Grito em Chamas.

Then we have José Martins Garcia’s novels, a true canon of the existential pain of an Azorean writer and intellectual let loose in the world, and forever castigating his own destiny as a perpetual and incurable Azorean/Portuguese exile everywhere, always a “stranger” even in his indefinable and unwanted “homeland”. We have the power of raw language here, the “islands” as metaphor for the concentration of all human vices and virtues, honor and perfidy. Usually, humanity at its worst. He once told me in an interview published in a Lisbon daily that his happiest five years in life had been spent in Providence, Rhode Island, when he taught Portuguese Literature at Brown University, and wrote what became his doctoral thesis on Fernando Pessoa. If you read one his novels, (Imitação da Morte/An Imitation of Death) you would never guess this biographical detail. A Lisbon journalist, who had been his colleague in the university there many years before, told me during a few drinks that Garcia’s problem had always been clear to him: He had rasgos/moments of a literary genius, who never received his due recognition in his own country. I totally believe that today. When Martins Garcia died in 2002, he had been a Full Professor of Portuguese Literature and Literary Theory at the University of the Azores. I was and still am a mere lecturer there in the same department, but Garcia’s generosity, engaging intellectual dialogue and refusal to pull rank always fascinated me in the context of a straight-jacketed Portuguese academic hierarchy. Is this the same man who created the most nauseate and, to me, sickening protagonists of his genial fiction? Is Martins Garcia the writer who sees the world totally as an unsurpassable abyss? Among us, I believe he was our only total literary artist, uncompromising and absolutely true to his own vision of the human condition, as he perceived it. Do read A Fome, Contrabando Original, and Lugar de Massacre, perhaps our “strangest” war novel fictionalizing the campaign of the reluctant Portuguese army in Guiné-Bissau. America, by the way, is always present!

And, finally, Adelaide Freitas and her Sorriso Por Dentro da Noite. Published in 2004, Sorriso would soon be reviewed very favorably here, in the continent and in other publications of our communities in the US. At that time the author was an associate professor of American literature and culture in the University of the Azores, and was better known for her poetry and essays in her field and on contemporary Azorean writing. Her novel gives voice to a narrator that “retells” the senses, feelings and sorrows of a small child that is left behind with her grandmother in the islands when her parents emigrate to the US. America is here “imagined” by the this child as she develops her own cognitive powers, through pictures, clothes, and the accompanying American “smells” and “colors” that arrive at her home in S. Bento, the fictionalized name of her native village here in the island of S. Miguel. Besides giving “voice” to a woman-child in her search for love and identity in her depressed and oppressed surroundings of the Azores of the 50’s, Sorriso is the first major creative narrative that looks at emigration from the point of view of those who stayed behind, the consequences of the need and obsession with America as a savior country for our people since the ninetieth century, economics tearing the family and the social fabric apart. When Katherine Vaz read the manuscript of Sorriso she wrote back saying that (aside from all these perspectives) she had never read such violent prose when dealing with the child’s “woman-nature”. I understood Vaz all too well. And here’s the disclaimer: Adelaide Freitas is my wife!

The Azores have a very active and productive literary life, publishing an incredible number of books every year. Of course the contemporary Azorean canon is now substantial and is increasingly being the object of studies at the post-graduate level in many other countries, particularly in Brazil, but also in the US and in Europe. Every reader of our literature will find wide and diversified choices in fiction and poetry. The war novel (African colonial wars of the 60/70’s) has been a very distinguished literary act, even at the national level. A professor in Lisbon has attempted to explain this phenomenon, and I think he hit it right: Azorean writers who participated in the violent African campaigns always felt “doubly” estranged: from their own country at large and from not believing in the fight to maintain an empire that they and their people had never known or identified with.

OP – What’s the significance of the debate over, if I can get this right, “Há ou não uma Literature Açoriana?” Is there or is there not an Azorean Literature?) What’s the latest view?

VF – As some of my colleagues would also tell you: that has become a very tiresome question. Of course there’s an Azorean literature. Was my father and all my ancestors ghosts or real people? The controversy began when in the seventies some Azorean academics and intellectuals began proposing what to some of us was rather obvious: That 500 years of island life, almost always abandoned by Lisbon, the Azoreans had created a “distinct” culture of their own a within the nation, remaining very Portuguese but necessarily having created it’s own view of the world, its own discourse and narratives. Something like, to use just an example, the case of Southern literature within the American traditional canon. Now, since at the same time, after the liberating Portuguese revolution in 1974, there was a separatist movement in the Azores, almost everyone forgot to read the essays of these writers and intellectuals and just assumed that it was all connected to the attempt at creating an Azorean “nation”, justifying its eventual and total independence. Strangely enough, most of those who defended the existence of an Azorean literary canon were associated with the Portuguese left, or so inclined ideologically, strongly against the separatists among us. Onésimo T. Almeida of Brown University was the foremost defender of an Azorean Literature, and created the first course on our literature at his institution. Urbano Bettencourt and the decesased J.H. Santos Barros founded a magazine called A Memória da ÁguaViva, and wrote in the same direction from Lisbon. At that time the Lisbon daily Diário de Notícias asked me to do a whole series of essays explaining “Azorean Literature” to their readers in the continent, from which I took my book O Imaginário dos Escritores Açorianos, and forever acquired new friends and many enemies (particularly those who were left out). On the other hand, many well known Azorean writers still reject the label of “Azorean” for they are convinced it “belittles” them in not being exclusively included in the larger national literary canon. Think of those in America who don’t like being called “ethnic” writers (as William Styron, I believe, once rejected the label of “southern” writer), and you’ll better understand our little “semantic” problem here. Very strange.

But let me add another bit of information concerning the solid existence of Azorean literature, now being studied and disseminated through translation in various countries. Gávea-Brown came out a few years ago with The Possible Journey (selection and translation done by John Kinsella), poems by the recently deceased Emanuel Félix from the island of Terceira, considered even by some continental critics and academics one of our great poets who hasn’t received the more than deserved national recognition. Diniz Borges in California put together not long ago and translated another selection from contemporary Azorean poetry, under the title of On a Leaf of Blue. Just out of the University of Bristol (UK), the magazine Lusophone Studies dedicated a special issue to Azorean literature. David Brookshaw also translated and published in UK some of Onésimo Almeida’s short stories under the title of Tales from the Tenth Island (a reference to our Azorean communities in the US). The University of Massachusetts, Dartmouth, has been in the past few years publishing not only the better known Luso-American writers but also recently dedicated a whole issue of their magazine Portuguese Literary Studies to the works of Vitorino Nemésio. Various master’s and doctoral theses have been defended in some Brazilian universities. Not only do we know Azorean literature exists and exists well, but so do others.

OP – What is “açorianidade”?

VF – The term was coined for us by one of our great writers, Vitorino Nemésio (born in the island of Terceira) in an essay written in1932. He lived in the continent most of his life, and died there, but the Azores were a permanent “obsession” with him. Most of his fictional works reflect this, particularly the masterpiece of Portuguese modern literature, the novel Mau Tempo no Canal, translated in the US (Stormy Isles: An Azorean Tale, 1998) by Professor Francisco Cota Fagundes of the University of Massachusetts, Amherst. Basically, Açorianidade is the cultural stance, the feeling of belonging, and, I would also say, the inescapable history of those who were born and raised in the Azores, or adopt the Azorean vision of the world, a whole way of life, a consciousness of being Portuguese in a particular geographical island-space. I still remember when the Azorean political left would shiver at the mention of the word (the fear of “separateness”, always…), believing in a supposed “universality” of being Portuguese, but only as canonically defined and legitimized by those with institutional power. But the Socialists, in power here since 1996, have wholeheartedly adopted the concept, and now use and abuse it constantly wherever they find Azoreans in the world who will listen to them, or in their very justified political dealings with the central government in Lisbon. Their exercise of power in an autonomous region such as ours apparently taught them what others knew all along: Portugal is a continental and insular country, unified by centuries of a common language, culture and history, but also irremediably diversified, richer at all levels for that very reason.

For those interested in finding out more about açorianidade, I suggest a reading of A Profile of the Azorean (Gávea-Brown, 1980) by Onésimo T. Almeida.

OP – Does the feeling of being considered “marginal” weigh on writers here, or did it once? It seems more and more Azorean writers are being recognized and reviewed on the mainland and elsewhere. Was there a point at which things began to change for Azorean writers?

VF – Yes and no, as an answer to all your questions. We’re still a bit resentful of our absence in the national press as far as our literary life is concerned. Azorean writers can only escape this fate by moving to the continent, and it better be Lisbon or Coimbra, and the writer better be able to “cultivate” those in the publishing world, everyone, from journalists to editors to publishers of all stripes and interests. And when the book is “about” Azorean life, things become harder still, it is almost as if we were from a foreign country with a culture of little interest. Most continentals outside these two cities have the same complaints, Lisbon centralizing the whole life of the country. But things are changing for all of us. The foundation of new universities all over the country has brought pride to their communities, and local governments underwrite some local authors. I suppose the same happens in America, this feeling of “isolation”. Move to New York or perish in the backlands? Faulkner once said that the major sources of his fiction, his references for local history and life in general, were the local writers in Oxford, Mississippi, those nobody else, we assume, ever read. Precisely because we live in what were once “isolated” islands, we now have in the Azores a very strong intellectual tradition; we’ve had to reinvent everything here, and our newspapers and other periodicals are very generous with the space they dedicate to literature. And yes, our isolation probably led to our love of literature, the need to “communicate” with others and among ourselves. Poetry is very much loved and cultivated here. A friend once joked with me: I’ll probably be the only famous Azorean for never having written a book! When I picked up Frank Gaspar at the airport on his first visit to the Azores a few years ago, we stopped at the university coffee-shop early in the morning and began discussing poetry. He looked at me, and said, I can’t believe this; I’ve been here for fifteen minutes and already talking about what I love most! We’re very proud of this cultural ambience – book launchings (or book parties, as you say in America) occur every week, sometimes one event competing with another.

OP – What can you tell us about NEO magazine, with its interesting mix of Azoreans and writers from all over the world—why so inclusive?

VF – Neo was founded in 2001 here in the Department of Modern Languages and Literatures by my colleague John Starkey, a Luso-American who chose the Azores to live and work. It was such an original little magazine that even some of the inattentive press in Lisbon noticed and reported it in glowing terms. He decided from the beginning that Luso-American writers would be included – fiction, poetry or any kind of creative or academic writing. But then he opened it to any writer or poet whose work deserved being published and recognized, whether a student or a full professor, a famous writer or an unknown author. Neo, really, is to me a kind of metaphor for the Azorean inclusive cultural attitude. Located between two great continents, Europe and America, deeply attached to the “idea” of getting on in new worlds, always searching for “an unknown island ahead”, language discrimination, particularly where English is involved, makes no sense for us. Neo is published yearly and has survived up until now, issue number 7 having just come out and paying homage to Patricia Goedicke, recently deceased.

OP – I’m curious about an early twentieth-century Azorean woman writer you compared to Gertrude Stein. Was she a lesbian? Did she embrace her outsider status, or did she simply have no choice?

VF – In attitude, absolutely, but she even has something of Stein’s look and dress, as they lived approximately in the same time period. More, she was born in Paris in 1867 (where Stein lived many years and exercised her influence among such young writers such as F. S. Fitzgerald, Hemingway and many of those associated with American “lost generation”). She died in 1946, always having lived way ahead of her time, in ideas, life style, and as a courageous “inventor” of true “public life” in the Azores. She challenged centuries-old mores in a conservative and old culture. Fiction writer and poet, early protector of animals in the islands, a place and time where to violently kick a dog in public was perfectly acceptable. Yes, she assumed her lesbianism and, of course, took an unrepentant feminist stance, fearful polemicist in the local press, and still greatly respected by her community. Today, her house in Ponta Delgada is an officially and publicly recognized cultural point to be noticed, displaying a prominent plaque with her name. Her literary works are, in my opinion, rather limited, but her presence alone helped liberate a whole generation. For more, you may read Alice Moderno: A Mulher e a Obra/Alice Moderno: The Woman and Her Works, by Maria da Conceição Vilhena, retired Professor of the University of the Azores. Alice Moderno was a true human monument to our liberty and political-cultural dignity. Not bad for a so-called “isolated” community.

OP – Who do you see as the most neglected Portuguese writer, or the one most overdue for translation into English and other languages?

VF – Neglected, I don’t know, but I would venture that two Portuguese writers definitely deserve to be translated into English, and both of them lived and worked in US for many years: José Rodrigues Miguéis and Jorge de Sena. Miguéis lived in Manhattan from the 30’s until his death in 1980, but wrote all of his works in Portuguese and for a Portuguese reading public back home. Some of his short stories, dealing with the diverse immigrant experience in American society, have been translated by George Monteiro, and David Brookshaw also translated some of his writings under the title The Poliedric Mirror. Some of his novels are definitely relevant for readers anywhere interested in twentieth-century European “historical” or “existentialist” fiction, perhaps Portugal as metaphor for political upheaval and totalitarianism in our time. Sena, who died 1n 1978, was a Professor of Portuguese Literature at the University of California, Santa Barbara, and also one of our foremost poets and novelists. Some have claimed that his Sinais de Fogo is one of the best novels in our modern literature, dealing with the Spanish Civil War and its impact on Portugal across the border. Sena had been an “exile” in Brazil from Salazar’s Portugal before arriving in the United States, never forgiving the Portuguese fascists for the fate of our nation until the 70’s, and this uncompromising stance characterizes all his works, fiction and poetry. I am convinced that once translated, his literary stature among informed American readers would equal that of Fernando Pessoa.

OP- From what I can understand, few Azorean writers actually live in real isolation outside the larger towns or cities. Is isolation a real fear here, or do certain landscapes suggest something that’s just not the case on all the islands?

VF – You’re right, very few of us live in real isolation. How can you live in isolation in the twenty-first century, in a world of globalized communication and transportation? I constantly listen to my favorite radio station in California, Pacifica Radio in Berkeley and in Los Angeles. Our only writer here in S. Miguel living in a “rural” town (Maia) is Daniel de Sá, a well known and respected novelist. He is a retired school teacher, and I’ve noticed recently that besides publishing regularly, he spends a great amount time in the net talking to his friends all over the world! Our smallest island, Corvo, with a population of a little over 360 people, has now even attracted some Brazilian women who met their men through the internet, then married and moved here, as the music teachers who have arrived from countries such as Russia and Ukraine. We’re five hours by plane from Boston, and two from Lisbon. There was recently a local colloquium on multiculturalism in one of our smaller cities in order to discuss those who have moved here from Africa, Brazil and Eastern Europe, and how we can all get along and “profit” culturally from the richness of this new “island” diversity. No, isolation is no longer “a real fear here”.

OP – On the other hand, maybe isolation can be good for certain writers. You told me that Flores, the westernmost island, almost an hour by air from the central group, has long been famous in Portugal for its writers and intellectuals (despite a current population of only about 4,500). Why writers at the end of the world? Is it, like Norman Mailer says, that artists have a “tropism” for the end of the land (Key West, Provincetown, etc.)? Or maybe it also has something to do with the traditional distance from authority of both Provincetown and Flores? Or have writers from Flores simply had the need to speak to the world, despite their seclusion, sort of like Emily Dickinson?

VF – Norman Mailer might have been right, and maybe the distance from “authority” creates in us a certain audacity in freely communicating to the world — and to ourselves — what is going on in our heart and soul. Some political elders tell me that even Salazar’s secret police was much more “tolerant” in the Azores than in the continent, they probably felt, So what, let these “isolated” heretics say what they will! Yes, “distant” Flores has given us some of our best writers and poets. Alfred Lewis, who left the island at a very young age, would become the first Portuguese immigrant in the US to publish a novel (Home Is An Island, 1951) with Random House, and actually be favorably reviewed in The New York Times. Roberto de Mesquita (Almas Cativas/Imprisoned Souls) is now recognized as having introduced symbolist poetry to the whole country, even though it took decades for the national literary establishment to recognize this. Pedro da Silveira, poet and essayist, is now perhaps the most quoted Azorean literary figure among us, having put together the first proposal for a canon of Azorean poetry, and for having been one of the first and foremost defenders of the existence of Azorean literature as an autonomous body from the national canon. With Pedro (who lived and died in Lisbon a few years ago) America was always present in his poetry, and he actually held American citizenship somehow inherited in other and more tolerant times from his father who had lived in California. Here’s George Monteiro’s translation of one his poems, simply titled “Island”, from the anthology The Sea Within (Gávea-Brown, 1983), which is now out print, but soon to be updated and published in Great Britain with translations by John Kinsella:

Only this:

Closed sky, hovering heron. Open sea.

A distant boat’s hungering prow

Eyeing forever those bountiful Californias.

OP – What are you working on now? Can you tell us a little about your upcoming book of essays?

VF – I have almost ready for publication a book of essays on Luso-American writers tentavely titled Imaginários Luso-Americanos: O Outro Lado do Espelho. I also am working on the collected essays on the same subject by my deceased professor Nancy T. Baden, of California State University, Fullerton. She was one of the first students of our literature in America in the early 70’s, and led me in this direction from the beginning. It is a theorical framework that helped us in the broader contextualization of our own Portuguese-American writings by bringing in other ethnic groups and their literary historicity in the US.

OP – You’ve said that mass tourism is inevitable in the Azores—the mass tourism of cruise ships and casinos. (They’re building a new cruise ship and ferry terminal on reclaimed land along the waterfront of Ponta Delgada right now, in front of the harbor walk and the sidewalk cafes.) Do you think there is a future for “cultural tourism” here? What are your fears about the impact of mass tourism on the culture, or the soul, of the Azores?

VF – This is provoking a very lively debate in the Azores at this time. Yes, cultural and ecological tourism is a possibility, National Geographic having recently described the Azores as the second most desirable group of islands in the world for those looking for “restful” and uncrowded tourism. I don’t think we’ll ever have mass tourism here: the weather is too unpredictable and one casino will not a (Las Vegas style) playground make. The culture and the soul of the Azores can only be consoled by the calm and intelligent presence of others among us.

OP – Many believe that some kind of mind-set came to Provincetown with the Portuguese that wasn’t present in majority Anglo-American areas nearby, and this ingredient led to the town becoming both an artists’ colony and later a gay resort. I was also interested to read that there’s a large open gay community and well-known gay beach on your home island of Terceira. Is there anything you can identify in the attitudes or worldview of the Azoreans, who are a mix of cultures and races themselves, that might have made Provincetown such a supportive place for people who might not have fit in elsewhere?

VF – Maybe. Paradoxically, we’ve always been a conservative Catholic culture, but a most tolerant one. As a matter of fact, some of our most significant religious festivals are still a real indication of this. The Holy Ghost Festivals, for example, come from a tradition of the people’s challenge to the Church’s “canonical” notion of things, it is a religious and profane ritual that not only remains strong in all the islands, but it is deeply celebrated in all our communities in the US and in Southern Brazil, bringing together all the generations. We’re a very easy going and tolerant people, with an “inclusive” culture. Don’t forget our early contacts with other peoples in the world during the globalization process that Portugal initiated with the Discoveries. In fact, One of our kings during the heyday of that adventure “ordered” the first Portuguese leaving to colonize Brazil to go there “and mix our blood” with those they encountered. We have never shared the Anglo puritanical attitudes toward sex or any other fundamental human pleasures. Perhaps this is where Provincetown’s tolerance has also come from. Frank’s novel Leaving Pico depicts its young protagonist first encountering his love for books by borrowing them from a gay couple that vacationed there during the summers.

OP – You visited Provincetown after having read Leaving Pico. What did you think of the town? Was it what you expected? Could you see the Azorean influence?

VF – I loved it! It reminded me in many ways of the Azores, it’s relaxed life style, the absence of the stressful rat race that characterizes the American suburban cities where I had always lived in Southern California. And then Provincetown represented to me America at its best, a place where artists and some writers retreated to create one of the most vital literatures in the world. Not too far way, in Wellfleet, one of my literary heroes lived and worked for many years: Edmund Wilson. I hope women in Provincetown, who may be reading this, forgive me for my intellectual choice here! I saw the Azores everywhere, but perhaps I was still under the deep impression and “suggestions” of Frank’s novel. I could almost “hear” our people in the streets echoing Frank’s reinvented community of the 50’s, the women gossiping in chopped up language and the men boasting under the wonderful influence of a few cheap beers or whiskey.

OP – You lived in the US for many years. Are there any attitudes in the US toward the Portuguese that still make you angry? What did you think of the recent film Passionada? How far has it come from Mystic Pizza’s representation of a Portuguese-American woman? (And why do you suppose the women always have to end up with Anglo men in the movies?)

VF – They don’t make me angry, just sad at such persistent ignorance about any people not belonging to the so-called dominant culture in the great human mosaic that is America. I never enjoyed being called a “Portagee” when I first arrived at the age of thirteen (1964) in the San Joaquin Valley. Our resentments concerning these and many other attitudes are many, including those of the older immigrants or Luso-Americans of that time, for we were “trivialized” in many ways; please do read Francisco Cota Fagundes’ powerful and incomparable memoirs, Hard Nocks: An Azorean-American Odyssey. He speaks for many of us who underwent the radical change of leaving our native culture in Azorean small towns and confronting the process of readjusting our lives and vision of the world in an America before the advent of multiculturalism and greater sensitivity to the Other.

Never mind about Passionada, and much less about Mystic Pizza. So in the movies our women always fall for Anglo guys. Let their audiences live the fantasy. Women coming from an ancient and rich culture in Europe, themselves the offspring of a great and wonderful mixture of peoples in the Iberian Peninsula, not seeing a way out except by falling madly in love with those they sneeringly called “white bread”, rich looking on the outside and totally empty on the inside. Right. But then so what if they really do fall in love with others. So what?

OP – What was the Portuguese diaspora literary scene like when you first became interested in it? What made you decide to specialize in it?

VF – Up the until the 90’s, very limited, even though George Monteiro (author of The Coffee Exchange, a wonderful dialogue with his own Luso-American past and with the most significant Portuguese modernist writing) and Onésimo Almeida had already founded the magazine Gávea-Brown precisely to spread the news and give us all a serious intellectual platform for analyses and all kinds of studies. A few years later, Katherine Vaz and Frank Gaspar appear on the scene, and many other writers and poets who believed they were alone in various parts of the country began realizing they actually they were part of growing literary community. To mention a few of those names: Julian Silva, Charles Felix Reis, David Oliveira, Sue Fagalde Lick, Lara Gularte, Art Coelho, Michael Garcia Spring and Joseph Faria. After having dedicated myself to Azorean literature for many years, I realized that through this Luso-American generation I could combine my two significant worlds, Azores and America, in on going act to better understand my own life experience and to some day leave a record for future generations of those who are defining and rescuing our life in America.

OP – What’s behind the recent publication or republication of some early Portuguese-American writers (Alfred Lewis’s second novel—and the one in New York?)? How has the Portuguese diaspora literary scene changed? What would you like to see from such Luso-American/Canadian writers as Gaspar, Vaz, and Vasconcellos in the future?

VF – I believe I’ve given you part of the answer explaining the current creative surge and spreading interest in Luso-American writing, even in our national universities here, as I’ve mentioned before. And then academia everywhere is always following the trends that it previously ignored. Governmental and other institutional grants all of a sudden become available, and so does academia’s new found love. That which had been ignored, now occupies center stage, and perhaps academic tedium with the same old literary and “national” canons leads some to a “rediscovery” of familiar grounds. This is all for the better, of course. Some in Lisbon are now talking about organizing a major conference bringing together most of the Luso-American writers and those who study them. The power structure here is always very attentive to possible new and influential allies in America, and to those who can give them “prestige” in their support for the arts in a culture such as ours. One could say much worst things about them, not bad at all for a young but successful democracy in Southern Europe. By the way, the first great book written by a Portuguese intellectual from Lisbon on our Azorean communities in California was by António Ferro, sometime official Propagandist for the Salazar’s dictatorship. His book, published in 1927 (Novo Mundo, Mundo Novo/New World, World Anew) had a simple message: wish our people in Portugal, he wrote, could be as creative, as free and as audacious as our emigrants in California, greatly impressed as he was with seeing Azorean women wearing overalls on top of tractors cultivating the land.

As for the last part of your question, I simply wish Luso-American writers continue to be good writers, no matter what subject or cultural matter they decide to work on.

OP – As a critic who has specialized in their literature, what would you say to Azoreans and their descendants involved in the arts in diaspora communities? How are they doing? What’s still missing?

VF – Be proud of our history in America, trust your instincts, and, yes, be audacious and forever free. Honor, above all, your cultural and literary heritage in your ancestral land and in America. Not many people can count Camões, Fernando Pessoa and Jorge de Sena as masters of language and thought, not that many people can claim artists as different from one another as John dos Passos, Frank X. Gaspar, Katherine Vaz, Erika de Vasconcellos (in Canada), and some others, as their models on North American soil. Don’t ever be afraid to fail as writers, just write, and see what happens.

*Provincetown Arts, 2008-2009 issue. Esta é a versão completa da entrevista.

A ira e a bondade de um crítico literário

Capa The Wound and the Bow

Folheio a revista Life, sinto que não pertenço ao país aí retratado, que nem sequer vivo nesse país.

Edmund Wilson, A Piece of My Mind: Reflections at Sixty

Vamberto Freitas

Praticamente a última metade da carreira e vida de Edmund Wilson, o grande crítico modernista norte-americano desde os anos 20 ao à década de 70 (faleceu em 1972), foram passadas a investigar e depois a relatar criticamente as mais díspares culturas que ele via como não só oferecendo outras faces criativas e culturais da grande tradição do Ocidente, que ele tão completamente havia interiorizado, como agora contestava a hegemonia cultural e política sobre alguns desses povos oprimidos, ignorados e marginalizados. A sua descrença na canonicidade de pensamento e acção no seu próprio país era agora — a partir dos anos 50 — quase total e absoluta. Wilson já quase não lia as novas gerações norte-americanas, ou pelo menos delas não falava nem sobre elas escrevia. Wilson lia e relia alguns autores russos, ou então aprendia novas línguas, como o hebraico e o húngaro, precisamente para facilitar as suas investigações nessas áreas, em que incluía ainda, noutra dimensão e por outras razões, o próprio Canadá a dois passos a norte. É Wilson quem em 1965 publica talvez o primeiro livro nos Estados Unidos dirigido à classe culta sobre a literatura moderna do país vizinho e irmão, O Canada: An American’s Notes on Canadian Culture. Wilson voltaria a explicar no diário The Forties por que é que, igualmente, havia escolhido o Haiti como outra cultura para investigação sua: “Eu estava certo na minha ideia de que o Haiti tem uma importância e um interesse especiais. É o único lugar onde podemos ver Negros independentes [referia-se ao mundo fora de África, obviamente], com uma tradição de vitória na história, altamente desfrutadores de uma cultura desenvolvida”.

Esta foi a fase em que ele não só escrevia melancolicamente que já não se revia de modo algum na América desses seus dias intelectualmente irrequietos, como começava a nova década com o ainda mal compreendido, exactamente porque se insere neste combate à centralidade e outros “protocolos” da cultura e política norte-americana, The Cold War and The Income Tax: A Protest (1963), escrito como resultado de uma longa investigação do IRS (as iniciais são as mesmas que as portuguesas) às finanças de Wilson que, entre 1946 e 1955, pura e simplesmente deixou de declarar e pagar impostos ao Estado como protesto contra os gastos militares. Wilson seria de tal forma punido financeiramente, que chegou a ser aconselhado por um advogado amigo, com toda a seriedade, a abandonar a residência permanente nos Estados Unidos. Foi nesta altura, irónica e justamente, que o Presidente John F. Kennedy o condecorou com a Presidential Medal of Freedom/Medalha Presidencial da Liberdade. O IRS tentaria impedir a condecoração, mas Kennedy responderia que esta contemplava o contributo de Wilson à literatura e cultura do país (literary merit), e não “à boa cidadania”, segundo Jeffrey Meyers em Edmund Wilson: A Biography. Sem que Wilson o soubesse nunca, o FBI, por sua vez, já mantinha sobre ele, desde 1946, como sobre inúmeros outros escritores e intelectuais do país, um ficheiro politicamente ameaçador, como mais tarde viria a ser definitivamente documentado em Dangerous Dossiers: Exposing the Secret War Against America’s Greatest Writers (1988), de Herbert Mitang. De qualquer modo, o panfleto de Wilson foi quase universalmente condenado, pois feria a sensibilidade de certa esquerda e dos “liberais” democratas no país, para quem os impostos são a garantia, para além do mais, da redistribuição da riqueza, e naturalmente do bom funcionamento do Estado Social. O facto é que o pequeno livro é também um eloquente libelo contra o chamado Estado de Segurança Nacional, por essa altura (início dos anos 60) tornado paranoico pelo seu então crescente envolvimento no mortífero conflito do Vietname, e na corrida aos armamentos em plena Guerra Fria. The Cold War and the Income Tax: A Protest era o testemunho de um cidadão implacavelmente lançado contra a prepotência de um Estado na perseguição a um cidadão indefeso. Gore Vidal (“Edmund Wilson, Tax Dodger”, em Homage to Daniel Shays: Collected Essays, 1972), entretanto, numa nota que acompanha a reprodução da sua recensão inicial ao livro de Wilson, chamaria The Cold War and the Income Tax: A Protest “um livro extraordinário”, só comparável aos panfletos de Thomas Paine na agitação apaixonada pela independência das então colónias da América. A recensão de Vidal foi publicada logo após a saída do livro, contrariando (imediatamente a seguir a meia dúzia de palavras que reafirmavam que os impostos são para se pagar, e que Wilson não tinha desculpas) a opinião generalizadamente hostil. Em resposta à lamentação de Wilson de que os Estados Unidos, quer ele continuasse a viver lá ou não, já não seriam um lugar para mim, Vidal levava de seguida a sua ira aos burocratas e a outros na hierarquia do Estado.

Isto constitui – escreveu Gore Vidal, também na linguagem claríssima de um cidadão sem medo, e consciente das tradições políticas do seu país – uma acusação formidável a nós todos. Edmund Wilson é o nosso mais distinto homem de letras. Ele tem sido sempre (mesmo que os burocratas não o saibam) o grande defensor cultural da América/an American Firster. Perder um homem destes é um sinal que a nossa sociedade está a entrar numa zona de sombras que, uma vez atravessada, significa que é o fim de tudo o que os nossos fundadores esperavam vir a ser um país onde a felicidade seria utilmente procurada. Mesmo assim, o panfleto sombrio de Wilson poderá ser exactamente o abalo de que necessitamos”.

Wilson desde o início e praticamente durante toda a sua carreira havia definido ou clarificado tanto as premissas da sua perspectivação crítica como os objectivos a atingir, ou seja, nunca rejeitou, contrariamente ao que muitos pensarão ainda, a “teorização” frontal do seu trabalho — em ensaios que marcariam decididamente e passariam a ser referenciais incontornáveis no vasto conjunto da sua obra, como, por exemplo, “The Historical Interpretation of Literature”. Para além da essencial contextualização sócio-histórica de cada um desses textos e autores em foco, Wilson interliga as teses do sofrimento (wound) pessoal de cada artista e a consequente “seta despedida”, que seria o objecto de arte produzido. De todas as técnicas ou teorias de abordagem de Wilson durante a sua longa carreira de crítico e ensaísta — em que o marxismo-freudianismo foi uma referência teórica frequentemente convocada — seria o The Wound and the Bow a mais consistente e, para Wilson, “frutífera” para o seu entendimento da cultura e literatura do seu tempo e de geografias diversas. Se no passado os modernistas americanos tinham sido a resistência à sociedade comercial e consumista, que ele tão abertamente detestava, e que, no seu entender, havia destruído o ideal republicano e democrático que estava na base da fundação do seu país, agora as minorias étnicas, dentro e fora dos Estados Unidos, representavam vivamente essa mesma resistência à tentação niveladora dos poderes metropolitanos, constituíam reservas de cultura e consciência num mundo bipolar e “arruinado” pelos seus valores, uma vez mais, mercantilistas e/ou ideologicamente (no caso da União Soviética) totalitários e militaristas. Wilson não só cedo começa a reconhecer a presença de outras literaturas periféricas, mas de óbvio valor estético e testemunhal, como cimenta profundas amizades com alguns escritores desses grupos minoritários, servindo aqui de exemplo o seu relacionamento com Marie-Claire Blais, do Quebeque, ou com os irmãos romancistas haitianos M. Pierre Marcelin e Philippe Thoby Marcelin. Nesta sua busca dos saberes de outros e esquecidos povos, Wilson vai desde a antiguidade dos Essênios (antes de Cristo) à contemporaneidade francófona do Canadá, passando ainda largamente pelas comunidades nativo-americanas dos dois extremos do continente (Apologies to the Iroquois), assim como pelos israelitas, e de outros povos das Caraíbas. Muito antes do reconhecimento nas universidades americanas, já Wilson lia e apreciava toda a obra de M. Aime Césaire, da ilha de Martinique; leu Césaire, aliás, a caminho do Haiti em 1949 quando se preparava para uma série de reportagens sobre a respectiva cultura, e que viriam a constituir uma das secções do significativamente intitulado Red, Black, Blond and Olive. Das impressões imediatas das obras literárias de Césaire, escreveria numa das suas entradas do diário dos anos 40 que se tratava do melhor “da escola de Rimbaud e Lautréamont”.

Resgatava-o assim, real e simbolicamente, das margens esquecidas e ignoradas.

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Este texto foi retirado de um extenso e inédito ensaio meu sobre a obra de Edmund Wilson. Está ligeiramente (re)escrito para estas páginas.

Viver e morrer no Rio de Janeiro

Capa Fim Fernanda Torres

Um mau casamento pode ser ótimo para ambas as partes, e o meu foi assim. A Irene abstraiu das tentações e eu também, vivíamos confortavelmente em dois quartos, tudo muito triste e civilizado… Adeus, hormônios, adeus, garotas, adeus, silêncio penoso no quarto, adeus, olhos piedosos. Serei franciscano. Sátiro e franciscano.

Fernanda Torres, Fim

Vamberto Freitas

A literatura de temática ou referencial citadino brasileiro conta, desde meados do século passado, com um estimável rol de escritores de várias gerações, desde Rubem Fonseca a Chico Buarque, Daniel Galera, Paul Scott, e, agora, com o romance titulado simplesmente Fim, a estreia literária de Fernanda Torres. Aliás, outra originalidade desta mesma literatura, onde os personagens pululam numa urbanidade viva e tropical (ao contrário da nossa, na qual as cidades são quase geografias mortas e sempre tristes), será a presença de artistas que se inspiraram na escrita e no quotidiano da sua sociedade para a canção e representação distintas em discos e nos palcos, que felizmente sempre chegaram até nós aqui na terra cansada e distante. Para além dos nomes já citados, não esqueço as memórias (ou autobiografia) de Caetano Veloso, Verdade Tropical, que li há anos algures no interior de São Paulo, a grandeza do silêncio como pano, campo, de fundo. Quando se pensa na literatura em relação às outras artes no Brasil, não há que pretender surpresa, e muito menos alimentar preconceitos – no palco, no ecrã e no canto a língua portuguesa renasce a cada momento, reinventa-se em cada cena, foi sempre de uma viveza extraordinária, de uma criatividade que cruza formas e géneros numa reafirmação contínua da vida. Em qualquer dos casos, a grande Tradição lusitana está quase sempre presente nessas páginas ou vozes – ora como influência angustiante e a rebater, ora doce como memória das origens europeias, a inevitável osmose entre os filhos das caravelas e todos os outros grupos humanos que já lá estavam ou chegariam pouco depois, e construiram esse novo mundo demiúrgico de cor e criatividade. Não nos iludamos, esta literatura não se livra da condição existencialista, em que os homens e as mulheres se defrontam constantemente com a sua solidão, com o vácuo de valores e certezas na modernidade ocidental. A sua originalidade está no modo como reagem à tragédia universal. Enquanto nos quedamos encerrados em quartos de desespero ou em imaginadas e intelectualizadas torres de marfim europeias, estes outros ou dançam na rua em desafio aos deuses (dançando sobre o abismo, como alguém escreveu em relação aos gregos), ou curam a raiva na praia ou na cama.

Fim é um delicioso romance sobre os temas imemoriais da literatura – a vida e a morte, o amor e o desamor, mas aqui perante o irremediável envelhecimento de homens nascidos e formados numa sociedade onde o casamento e o sexo parecem uma contradição irresolúvel, e daí a comédia e sátira, também ao que parece primordial, de vidas humanas tentando o melhor entre a encenada seriedade dos dias e os prazeres supostamente proibidos pela moral dominante. Em nada um leitor português – ou americano, ou francês, ou inglês – achará aqui de novo, só a audácia da nossa língua numa revisitação ao melhor e ao pior de nós – o pecado e o prazer ante a hipocrisia e o dever. O romance de Fernanda Torres está estruturado em capítulos que contam a vida de cinco personagens principais, destacadamente nomeados, encerrando com um epílogo, e vistos desde a infância até à morte por outros seres do seu mundo, inclusive um padre arrependido, homens e mulheres, esposas e amantes, amigos e traidores, uns parte íntima das suas vidas, outros uma espécie coro ou refrão ante o desafio de se estar vivo e permanecer em equilíbrio, onde o impulso lúdico é o mesmo que em toda a parte, e em toda a literatura do género – instinto compensador e cobertura ou contraponto da aridez dos dias, do absurdo de um quotidiano regido pela aparência, produção de inutilidades, ascensão e queda de alguns, com a restante sociedade maioritária permanecendo quase invisível e insignificante. Bem-vindos à conhecida sociedade do Nada em que se tornou o Ocidente, dos Urais à Patagónia. O pior é que o tempo passa, e a festa vai acabando. Um homem a envelhecer, já reclamava Edmund Wilson, é uma indignidade infernal, a semântica aqui não levando à metáfora, mas sim à verdade nua e crua. Um homem a envelhecer e a insistir naquilo que só o Viagra remedeia — é cómico, é trágico, é um actor involuntário que só a morte liberta pondo fim à ilusão, às nossas ilusões, que até parecem genéticas. Vemo-los, Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro, de rua em rua, de café em café, de cama em cama, e todos sabem que falta algo, que nem a beleza de uma moça, nem dinheiro, nem pretensão profissional poderão, separados ou juntos, preencher. Falta a eles próprios um sentido de busca, estão apanhados no labirinto e acossados pelo touro metafórico, que é uma sociedade sem rumo, agarrada tão-só ao hedonismo e à acquisição de coisas, vivendo nesse vazio e em aventura imitada, caindo todos em volta pela lei do tempo e do cosmos. Escreveu Walter Benjamin em Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política: “Como comentário paralelo, diga-se que não há melhor começo para o pensar do que o riso”. Este romance de Fernanda Torres movimenta-se entre tempos e em espaços quase claustrofóbicos (a roda viva nos mesmos bares e ruas, a praia tão monótona como as ondas serenas que se repetem infinitamente), mesmo no coração de uma grande cidade como o Rio de Janeiro, o outro sinal da limitação destas vidas, que ascenderam às altas classes médias para envelhecer e morrer sem, no fundo, deixar rastos. Vede a sorte e a “noção” de vida de quase nós todos, faculdade ou oficina como lugar de alguma aprendizagem útil, e nenhuma sabedoria.

Essa – relembra Neto (1929-1992) na sua morte, sem redenção ou memória perdurável fora do círculo de amigos e amantes – era a nossa rotina: picuinhas, discussões, mágoas e reconciliações. Eu me viciei nisso, não sabia mais viver sem. O fato de discordar da Célia me mantinha ativo. E sabíamos varrer tudo para debaixo do tapete, o que é fundamental para a saúde de qualquer casamento. Deve-se virar a página, esquecer, zerar, perdoar, passar por cima. As mulheres se negam a entender, insistem em expor as suas razões estúpidas, querem mudar quem está do lado, obrigá-lo a cumprir a papel de príncipe. Os homens assistem, esperando que elas cansem, enquanto repetem os mesmos erros. Elas agridem, xingam, gritam, choram, mas, depois, vão cuidar da janta. Até as feministas vão cuidar da janta. E seguimos juntos, para um dia faltar e deixar o outro aqui, na cova”.

Recentemente, os autores Thomas Mallon e Francine Prose escreveram numa coluna semanal do suplemento literário de The New York Times sobre o romance contemporâneo americano, perguntando se “Os grandes eventos históricos são material de fundo superior às banalidades do quotidiano para a ficção?/Are Grand Historical Events Better Fodder for Fiction Than Everyday Life?”. Que os dois referenciais, responderam, poderão tanto funcionar em conjunto, como separadamente, citando alguns grandes nomes do século XIX, como Tolstoi, e lembrando que já nem a sociedade nem os escritores vivem ou experimentam as circunstâncias históricas de outras épocas. No que se convencionou diferenciar entre material ou vida de fim-de-semana contra Watergate, ou seja, uma vez mais, banalidade social em oposição a grandes acontecimentos que mudam o rumo do mundo, ao estilo de um John Cheever (continuo a seguir os exemplos dos dois colunistas aqui citados) ou, por outro lado, na grandiosidade ficcional de um Don Delillo no romance sobre o assassínio de John F. Jennedy em Libra, a grande ficção do século XX, no entanto, tanto se circunscreve a uma dessas temáticas, como tem sabido fazê-las interagir em páginas brilhantes. O romance de “família” tem já uma grande tradição na América do Norte, foi outro modo de expor ou fazer sangrar as veias mais escondidas daquela sociedade, transfigurando a vida privada no contexto da predominante ideologia ou mundividência nacional. Diremos que entre a ética comunitária e católica que tem regido a vida de espaços como o nosso e o individualismo calvinista da América do Norte, também se poderá explicar as nossas visões e preferências quanto a arte e literatura. Só que um Eça de Queirós também surgiu entre nós, o reduto da família e a grande sociedade numa conjugação perfeita. Em língua portuguesa, os brasileiros têm quase sempre interligado os dois temas, e naturalmente conforme os seus próprios conceitos do que constitui a banalidade de certas vidas e o drama maior, que será a vivência dentro da História, no seu como em qualquer outro país, língua ou cultura.

Para um começo na sua estreia como escritora, a grande actriz que é Fernanda Torres, e regressando aqui às palavras de Walter Benjamin sobre o riso, faz de Fim (das ilusões, da vida) um romance cheio de ironia, humor, e até sátira, a cadência narrativa que nos torna a leitura um acto de prazer puro, e um original reflexo da sociedade aqui espelhada.

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Fernanda Torres, Fim, Lisboa, Companhia das Letras/Peguin Randmon House, 2015.

Publicado a 1 de Maio na minha coluna BoderCrossings do diário Açoriano Oriental, de Ponta Delgada.