Viver e morrer no Rio de Janeiro

Capa Fim Fernanda Torres

Um mau casamento pode ser ótimo para ambas as partes, e o meu foi assim. A Irene abstraiu das tentações e eu também, vivíamos confortavelmente em dois quartos, tudo muito triste e civilizado… Adeus, hormônios, adeus, garotas, adeus, silêncio penoso no quarto, adeus, olhos piedosos. Serei franciscano. Sátiro e franciscano.

Fernanda Torres, Fim

Vamberto Freitas

A literatura de temática ou referencial citadino brasileiro conta, desde meados do século passado, com um estimável rol de escritores de várias gerações, desde Rubem Fonseca a Chico Buarque, Daniel Galera, Paul Scott, e, agora, com o romance titulado simplesmente Fim, a estreia literária de Fernanda Torres. Aliás, outra originalidade desta mesma literatura, onde os personagens pululam numa urbanidade viva e tropical (ao contrário da nossa, na qual as cidades são quase geografias mortas e sempre tristes), será a presença de artistas que se inspiraram na escrita e no quotidiano da sua sociedade para a canção e representação distintas em discos e nos palcos, que felizmente sempre chegaram até nós aqui na terra cansada e distante. Para além dos nomes já citados, não esqueço as memórias (ou autobiografia) de Caetano Veloso, Verdade Tropical, que li há anos algures no interior de São Paulo, a grandeza do silêncio como pano, campo, de fundo. Quando se pensa na literatura em relação às outras artes no Brasil, não há que pretender surpresa, e muito menos alimentar preconceitos – no palco, no ecrã e no canto a língua portuguesa renasce a cada momento, reinventa-se em cada cena, foi sempre de uma viveza extraordinária, de uma criatividade que cruza formas e géneros numa reafirmação contínua da vida. Em qualquer dos casos, a grande Tradição lusitana está quase sempre presente nessas páginas ou vozes – ora como influência angustiante e a rebater, ora doce como memória das origens europeias, a inevitável osmose entre os filhos das caravelas e todos os outros grupos humanos que já lá estavam ou chegariam pouco depois, e construiram esse novo mundo demiúrgico de cor e criatividade. Não nos iludamos, esta literatura não se livra da condição existencialista, em que os homens e as mulheres se defrontam constantemente com a sua solidão, com o vácuo de valores e certezas na modernidade ocidental. A sua originalidade está no modo como reagem à tragédia universal. Enquanto nos quedamos encerrados em quartos de desespero ou em imaginadas e intelectualizadas torres de marfim europeias, estes outros ou dançam na rua em desafio aos deuses (dançando sobre o abismo, como alguém escreveu em relação aos gregos), ou curam a raiva na praia ou na cama.

Fim é um delicioso romance sobre os temas imemoriais da literatura – a vida e a morte, o amor e o desamor, mas aqui perante o irremediável envelhecimento de homens nascidos e formados numa sociedade onde o casamento e o sexo parecem uma contradição irresolúvel, e daí a comédia e sátira, também ao que parece primordial, de vidas humanas tentando o melhor entre a encenada seriedade dos dias e os prazeres supostamente proibidos pela moral dominante. Em nada um leitor português – ou americano, ou francês, ou inglês – achará aqui de novo, só a audácia da nossa língua numa revisitação ao melhor e ao pior de nós – o pecado e o prazer ante a hipocrisia e o dever. O romance de Fernanda Torres está estruturado em capítulos que contam a vida de cinco personagens principais, destacadamente nomeados, encerrando com um epílogo, e vistos desde a infância até à morte por outros seres do seu mundo, inclusive um padre arrependido, homens e mulheres, esposas e amantes, amigos e traidores, uns parte íntima das suas vidas, outros uma espécie coro ou refrão ante o desafio de se estar vivo e permanecer em equilíbrio, onde o impulso lúdico é o mesmo que em toda a parte, e em toda a literatura do género – instinto compensador e cobertura ou contraponto da aridez dos dias, do absurdo de um quotidiano regido pela aparência, produção de inutilidades, ascensão e queda de alguns, com a restante sociedade maioritária permanecendo quase invisível e insignificante. Bem-vindos à conhecida sociedade do Nada em que se tornou o Ocidente, dos Urais à Patagónia. O pior é que o tempo passa, e a festa vai acabando. Um homem a envelhecer, já reclamava Edmund Wilson, é uma indignidade infernal, a semântica aqui não levando à metáfora, mas sim à verdade nua e crua. Um homem a envelhecer e a insistir naquilo que só o Viagra remedeia — é cómico, é trágico, é um actor involuntário que só a morte liberta pondo fim à ilusão, às nossas ilusões, que até parecem genéticas. Vemo-los, Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro, de rua em rua, de café em café, de cama em cama, e todos sabem que falta algo, que nem a beleza de uma moça, nem dinheiro, nem pretensão profissional poderão, separados ou juntos, preencher. Falta a eles próprios um sentido de busca, estão apanhados no labirinto e acossados pelo touro metafórico, que é uma sociedade sem rumo, agarrada tão-só ao hedonismo e à acquisição de coisas, vivendo nesse vazio e em aventura imitada, caindo todos em volta pela lei do tempo e do cosmos. Escreveu Walter Benjamin em Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política: “Como comentário paralelo, diga-se que não há melhor começo para o pensar do que o riso”. Este romance de Fernanda Torres movimenta-se entre tempos e em espaços quase claustrofóbicos (a roda viva nos mesmos bares e ruas, a praia tão monótona como as ondas serenas que se repetem infinitamente), mesmo no coração de uma grande cidade como o Rio de Janeiro, o outro sinal da limitação destas vidas, que ascenderam às altas classes médias para envelhecer e morrer sem, no fundo, deixar rastos. Vede a sorte e a “noção” de vida de quase nós todos, faculdade ou oficina como lugar de alguma aprendizagem útil, e nenhuma sabedoria.

Essa – relembra Neto (1929-1992) na sua morte, sem redenção ou memória perdurável fora do círculo de amigos e amantes – era a nossa rotina: picuinhas, discussões, mágoas e reconciliações. Eu me viciei nisso, não sabia mais viver sem. O fato de discordar da Célia me mantinha ativo. E sabíamos varrer tudo para debaixo do tapete, o que é fundamental para a saúde de qualquer casamento. Deve-se virar a página, esquecer, zerar, perdoar, passar por cima. As mulheres se negam a entender, insistem em expor as suas razões estúpidas, querem mudar quem está do lado, obrigá-lo a cumprir a papel de príncipe. Os homens assistem, esperando que elas cansem, enquanto repetem os mesmos erros. Elas agridem, xingam, gritam, choram, mas, depois, vão cuidar da janta. Até as feministas vão cuidar da janta. E seguimos juntos, para um dia faltar e deixar o outro aqui, na cova”.

Recentemente, os autores Thomas Mallon e Francine Prose escreveram numa coluna semanal do suplemento literário de The New York Times sobre o romance contemporâneo americano, perguntando se “Os grandes eventos históricos são material de fundo superior às banalidades do quotidiano para a ficção?/Are Grand Historical Events Better Fodder for Fiction Than Everyday Life?”. Que os dois referenciais, responderam, poderão tanto funcionar em conjunto, como separadamente, citando alguns grandes nomes do século XIX, como Tolstoi, e lembrando que já nem a sociedade nem os escritores vivem ou experimentam as circunstâncias históricas de outras épocas. No que se convencionou diferenciar entre material ou vida de fim-de-semana contra Watergate, ou seja, uma vez mais, banalidade social em oposição a grandes acontecimentos que mudam o rumo do mundo, ao estilo de um John Cheever (continuo a seguir os exemplos dos dois colunistas aqui citados) ou, por outro lado, na grandiosidade ficcional de um Don Delillo no romance sobre o assassínio de John F. Jennedy em Libra, a grande ficção do século XX, no entanto, tanto se circunscreve a uma dessas temáticas, como tem sabido fazê-las interagir em páginas brilhantes. O romance de “família” tem já uma grande tradição na América do Norte, foi outro modo de expor ou fazer sangrar as veias mais escondidas daquela sociedade, transfigurando a vida privada no contexto da predominante ideologia ou mundividência nacional. Diremos que entre a ética comunitária e católica que tem regido a vida de espaços como o nosso e o individualismo calvinista da América do Norte, também se poderá explicar as nossas visões e preferências quanto a arte e literatura. Só que um Eça de Queirós também surgiu entre nós, o reduto da família e a grande sociedade numa conjugação perfeita. Em língua portuguesa, os brasileiros têm quase sempre interligado os dois temas, e naturalmente conforme os seus próprios conceitos do que constitui a banalidade de certas vidas e o drama maior, que será a vivência dentro da História, no seu como em qualquer outro país, língua ou cultura.

Para um começo na sua estreia como escritora, a grande actriz que é Fernanda Torres, e regressando aqui às palavras de Walter Benjamin sobre o riso, faz de Fim (das ilusões, da vida) um romance cheio de ironia, humor, e até sátira, a cadência narrativa que nos torna a leitura um acto de prazer puro, e um original reflexo da sociedade aqui espelhada.

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Fernanda Torres, Fim, Lisboa, Companhia das Letras/Peguin Randmon House, 2015.

Publicado a 1 de Maio na minha coluna BoderCrossings do diário Açoriano Oriental, de Ponta Delgada.

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