A ira e a bondade de um crítico literário

Capa The Wound and the Bow

Folheio a revista Life, sinto que não pertenço ao país aí retratado, que nem sequer vivo nesse país.

Edmund Wilson, A Piece of My Mind: Reflections at Sixty

Vamberto Freitas

Praticamente a última metade da carreira e vida de Edmund Wilson, o grande crítico modernista norte-americano desde os anos 20 ao à década de 70 (faleceu em 1972), foram passadas a investigar e depois a relatar criticamente as mais díspares culturas que ele via como não só oferecendo outras faces criativas e culturais da grande tradição do Ocidente, que ele tão completamente havia interiorizado, como agora contestava a hegemonia cultural e política sobre alguns desses povos oprimidos, ignorados e marginalizados. A sua descrença na canonicidade de pensamento e acção no seu próprio país era agora — a partir dos anos 50 — quase total e absoluta. Wilson já quase não lia as novas gerações norte-americanas, ou pelo menos delas não falava nem sobre elas escrevia. Wilson lia e relia alguns autores russos, ou então aprendia novas línguas, como o hebraico e o húngaro, precisamente para facilitar as suas investigações nessas áreas, em que incluía ainda, noutra dimensão e por outras razões, o próprio Canadá a dois passos a norte. É Wilson quem em 1965 publica talvez o primeiro livro nos Estados Unidos dirigido à classe culta sobre a literatura moderna do país vizinho e irmão, O Canada: An American’s Notes on Canadian Culture. Wilson voltaria a explicar no diário The Forties por que é que, igualmente, havia escolhido o Haiti como outra cultura para investigação sua: “Eu estava certo na minha ideia de que o Haiti tem uma importância e um interesse especiais. É o único lugar onde podemos ver Negros independentes [referia-se ao mundo fora de África, obviamente], com uma tradição de vitória na história, altamente desfrutadores de uma cultura desenvolvida”.

Esta foi a fase em que ele não só escrevia melancolicamente que já não se revia de modo algum na América desses seus dias intelectualmente irrequietos, como começava a nova década com o ainda mal compreendido, exactamente porque se insere neste combate à centralidade e outros “protocolos” da cultura e política norte-americana, The Cold War and The Income Tax: A Protest (1963), escrito como resultado de uma longa investigação do IRS (as iniciais são as mesmas que as portuguesas) às finanças de Wilson que, entre 1946 e 1955, pura e simplesmente deixou de declarar e pagar impostos ao Estado como protesto contra os gastos militares. Wilson seria de tal forma punido financeiramente, que chegou a ser aconselhado por um advogado amigo, com toda a seriedade, a abandonar a residência permanente nos Estados Unidos. Foi nesta altura, irónica e justamente, que o Presidente John F. Kennedy o condecorou com a Presidential Medal of Freedom/Medalha Presidencial da Liberdade. O IRS tentaria impedir a condecoração, mas Kennedy responderia que esta contemplava o contributo de Wilson à literatura e cultura do país (literary merit), e não “à boa cidadania”, segundo Jeffrey Meyers em Edmund Wilson: A Biography. Sem que Wilson o soubesse nunca, o FBI, por sua vez, já mantinha sobre ele, desde 1946, como sobre inúmeros outros escritores e intelectuais do país, um ficheiro politicamente ameaçador, como mais tarde viria a ser definitivamente documentado em Dangerous Dossiers: Exposing the Secret War Against America’s Greatest Writers (1988), de Herbert Mitang. De qualquer modo, o panfleto de Wilson foi quase universalmente condenado, pois feria a sensibilidade de certa esquerda e dos “liberais” democratas no país, para quem os impostos são a garantia, para além do mais, da redistribuição da riqueza, e naturalmente do bom funcionamento do Estado Social. O facto é que o pequeno livro é também um eloquente libelo contra o chamado Estado de Segurança Nacional, por essa altura (início dos anos 60) tornado paranoico pelo seu então crescente envolvimento no mortífero conflito do Vietname, e na corrida aos armamentos em plena Guerra Fria. The Cold War and the Income Tax: A Protest era o testemunho de um cidadão implacavelmente lançado contra a prepotência de um Estado na perseguição a um cidadão indefeso. Gore Vidal (“Edmund Wilson, Tax Dodger”, em Homage to Daniel Shays: Collected Essays, 1972), entretanto, numa nota que acompanha a reprodução da sua recensão inicial ao livro de Wilson, chamaria The Cold War and the Income Tax: A Protest “um livro extraordinário”, só comparável aos panfletos de Thomas Paine na agitação apaixonada pela independência das então colónias da América. A recensão de Vidal foi publicada logo após a saída do livro, contrariando (imediatamente a seguir a meia dúzia de palavras que reafirmavam que os impostos são para se pagar, e que Wilson não tinha desculpas) a opinião generalizadamente hostil. Em resposta à lamentação de Wilson de que os Estados Unidos, quer ele continuasse a viver lá ou não, já não seriam um lugar para mim, Vidal levava de seguida a sua ira aos burocratas e a outros na hierarquia do Estado.

Isto constitui – escreveu Gore Vidal, também na linguagem claríssima de um cidadão sem medo, e consciente das tradições políticas do seu país – uma acusação formidável a nós todos. Edmund Wilson é o nosso mais distinto homem de letras. Ele tem sido sempre (mesmo que os burocratas não o saibam) o grande defensor cultural da América/an American Firster. Perder um homem destes é um sinal que a nossa sociedade está a entrar numa zona de sombras que, uma vez atravessada, significa que é o fim de tudo o que os nossos fundadores esperavam vir a ser um país onde a felicidade seria utilmente procurada. Mesmo assim, o panfleto sombrio de Wilson poderá ser exactamente o abalo de que necessitamos”.

Wilson desde o início e praticamente durante toda a sua carreira havia definido ou clarificado tanto as premissas da sua perspectivação crítica como os objectivos a atingir, ou seja, nunca rejeitou, contrariamente ao que muitos pensarão ainda, a “teorização” frontal do seu trabalho — em ensaios que marcariam decididamente e passariam a ser referenciais incontornáveis no vasto conjunto da sua obra, como, por exemplo, “The Historical Interpretation of Literature”. Para além da essencial contextualização sócio-histórica de cada um desses textos e autores em foco, Wilson interliga as teses do sofrimento (wound) pessoal de cada artista e a consequente “seta despedida”, que seria o objecto de arte produzido. De todas as técnicas ou teorias de abordagem de Wilson durante a sua longa carreira de crítico e ensaísta — em que o marxismo-freudianismo foi uma referência teórica frequentemente convocada — seria o The Wound and the Bow a mais consistente e, para Wilson, “frutífera” para o seu entendimento da cultura e literatura do seu tempo e de geografias diversas. Se no passado os modernistas americanos tinham sido a resistência à sociedade comercial e consumista, que ele tão abertamente detestava, e que, no seu entender, havia destruído o ideal republicano e democrático que estava na base da fundação do seu país, agora as minorias étnicas, dentro e fora dos Estados Unidos, representavam vivamente essa mesma resistência à tentação niveladora dos poderes metropolitanos, constituíam reservas de cultura e consciência num mundo bipolar e “arruinado” pelos seus valores, uma vez mais, mercantilistas e/ou ideologicamente (no caso da União Soviética) totalitários e militaristas. Wilson não só cedo começa a reconhecer a presença de outras literaturas periféricas, mas de óbvio valor estético e testemunhal, como cimenta profundas amizades com alguns escritores desses grupos minoritários, servindo aqui de exemplo o seu relacionamento com Marie-Claire Blais, do Quebeque, ou com os irmãos romancistas haitianos M. Pierre Marcelin e Philippe Thoby Marcelin. Nesta sua busca dos saberes de outros e esquecidos povos, Wilson vai desde a antiguidade dos Essênios (antes de Cristo) à contemporaneidade francófona do Canadá, passando ainda largamente pelas comunidades nativo-americanas dos dois extremos do continente (Apologies to the Iroquois), assim como pelos israelitas, e de outros povos das Caraíbas. Muito antes do reconhecimento nas universidades americanas, já Wilson lia e apreciava toda a obra de M. Aime Césaire, da ilha de Martinique; leu Césaire, aliás, a caminho do Haiti em 1949 quando se preparava para uma série de reportagens sobre a respectiva cultura, e que viriam a constituir uma das secções do significativamente intitulado Red, Black, Blond and Olive. Das impressões imediatas das obras literárias de Césaire, escreveria numa das suas entradas do diário dos anos 40 que se tratava do melhor “da escola de Rimbaud e Lautréamont”.

Resgatava-o assim, real e simbolicamente, das margens esquecidas e ignoradas.

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Este texto foi retirado de um extenso e inédito ensaio meu sobre a obra de Edmund Wilson. Está ligeiramente (re)escrito para estas páginas.

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