O canto da cotovia

Capa To Kill a Mockingbird

A única coisa que não obedece à lei da maioria é a nossa consciência.

Harper Lee, To Kill A Mockingbird

Vamberto Freitas

Venho aqui falar do romance de Harper Lee não por continuar a ser um dos romances norte-americanos mais lidos no mundo, mas porque em poucas semanas vamos ler da mesma autora Go Set a Watchman, que vê agora a luz dia todas estas décadas depois, esquecido que estava nos arquivos da autora, e cuja história demonstra o continuo poder da literatura entre a classe culta, entre os que sabem que primeiro era o verbo, e só depois o mundo. To Kill A Mockingbird – cujas duas traduções portuguesas têm os títulos de Por Favor Não Matem a Cotovia e Mataram a Cotovia, desaparecendo destes títulos toda a força poética e semântica do original — foi publicado em 1960, depressa sendo aclamado e denunciado, tornado canónico quase de imediato pelo Prémio Pulitzer que receberia pouco depois, e a partir daí fazendo parte de quase todos os currículos de literatura nas escolas do ensino secundário americano, foco de inveja e das mais desvairadas críticas, as que insinuavam inclusive que não é um romance de qualidade porque até hoje vendeu acima quarenta milhões de exemplares em várias línguas. Harper Lee deve ter a história literária mais serena do seu país, e agora a mais redentiva de sempre, fazendo os críticos nova-iorquinos ter de engolir e engasgar-se com a edição de domingo do The New York Times e da revista The New Yorker. Desde dizer-se que uma criança protagonista não poderia ter a consciência da realidade retratada e todo aquele assomo narrativo (ignorando que todo o romance são as memórias de uma adulta), a referir a cotovia como pássaro de pouca originalidade porque se limita a reproduzir o chilrear de outros melros — disse-se de tudo um pouco. Como Harper Lee conviveu nos anos da adolescência com Truman Capote na pequena cidade de Monroeville, no Alabama (e que aparece no romance como uma personagem cómica e traquinas, de nome Dill), e com quem depois manteria uma profunda amizade durante toda a vida, outros aventuravam que tinha sido ele a escrever To Kill A Mockingbird, não explicando como é que um autor de obras como A Sangue Frio se tinha desviado tão radicalmente do seu estilo e referenciais temáticos. Ignoravam, parece, o essencial: trata-se de uma narrativa que sabiamente combina uma espécie lirismo numa linguagem que, mesmo assim, nunca deixa de ser realista na tradição narrativa sulista, ao mesmo que tempo que memorializa os doces anos da infância numa pequena e protegida cidade do interior, vivendo, sempre, uma mistura de rancor e meiguice preguiçosa nesse meio isolado durante os piores anos da Grande Depressão. Os afro-americanos, os outros em absoluto, serviam de históricos bodes expiatórios, particularmente ante os mais baixos escalões sociais brancos, mas não só.

A recepção inicial do romance, com esse seu referencial histórico e humano, parecia esquecida, mas agora as mesmas publicações literárias e generalistas não param de falar em Go Set a Wtachman, programado para ser lançado em Julho, com a editora Harper Collins a anunciar uma primeira impressão de dois milhões de exemplares, números que creio já terem sido ultrapassados devido aos pedidos de pré-publicação vindos de todo o mundo. Harper Lee, descontando uns poucos anos em Nova Iorque, viveu sempre na cidade natal, e hoje encontra-se, com 88 anos de idade, numa casa da terceira idade. Este seu “novo” romance foi acidentalmente encontrado pela sua grande amiga e advogada, Tonja Carter, quando revia alguns arquivos e foi surpreendida pelo manuscrito. Ao lê-lo, diria ela pouco depois, estava a reconhecer passos e personagens do romance inicial, mas noutro contexto e já em idade adulta. Não era bem uma sequela, era um “outro” To Kill A Mockingbird. Durante toda a vida Harper Lee recusou tornar-se uma celebridade tão ao gosto popular americano. Retirou-se para a sua pequena cidade, sem falar mais da sua obra, afirmando ainda que não iria escrever qualquer outro livro, apesar dos contínuos incitamentos dos seus leitores. Que se passava aqui? O romance agora encontrado era o livro original que havia sido enviado ao editor em Nova Iorque. Foi aceite, mas com a sugestão que a estória se tornaria ainda mais poderosa se os personagens fossem bem mais novos, crianças e adolesecentes, e o tempo ficcional recuado para os anos 30, os anos da grande raiva das classes que haviam perdido o sonho e o pão. Foi o que a autora fez, arrumando até hoje o manuscrito inicial. É certo que a América muito mudou desde então em tudo que diz respeito às relações raciais, tendo até acontecido o que permanecia impensável, mesmo para as gerações mais novas – um Presidente da República afro-americano, de nome Barak Hussein Obama. Go Set a Watchman, sem tanta ironia como gostaríamos de pensar, sai ainda muito a tempo, tanto como obra de arte transfigurando a longa história do país, como novo aviso ao que voltamos a ver nos ecrãs e a ler nos jornais, o assassínio quase diário de cidadãos nas ruas das grande e pequenas cidades americanas. A recepção de uma obra de arte depende de muitos factores sociais e intelectuais, para além da sua qualidade estética e relevância temática. Este renascimento, ou revisitação, do grande romance de Harper Lee vem apenas confirmar que tudo muda ficando na mesma, ou, como diria também um dia Martin Luther King, mudam-se as leis mas não os corações. Por outro lado, toda a publicidade em volta deste regresso relembra-nos que a literatura poderá ter perdida a centralidade na nossa cultura, mas nunca deixou de ser uma das grandes fontes de prazer puro, e ainda mais de satisfazer a sede que temos de representar e falar da condição humana, da nossa vivência e sobrevivência no grande esquema das coisas, da representação do real através da fala e da escrita, da metáfora como a casa interior que habitamos, a casa do ser que somos.

To Kill A Mockingbird é narrado na primeira pessoa por Jean Louise, já adulta mas recordando o ano ficcional de 1935 quando ainda tinha entre seis a nove anos de idade, e era chamada pelo apelido de Scout, vivendo com o pai, Atticus Finch, advogado e totalmente dedicado aos seus filhos e carreira, e com o seu irmão Jeremy, um pouco mais velho, na cidade de Maycomb. Entre a escola e a casa, o romance naturalmente reduz-se a essa geografia de rua e praça municipal, onde todos são conhecidos, nenhuma vida fora das antenas dos mais atentos, a história de cada enredo de pobreza ou ascensão, a solidão de mulheres e homens vistos pelas crianças com respeito, mas sobretudo como fonte de proibições e opiniões sentenciosas. Por certo que é uma criança a observar e a relatar o que vê ou pensa entender, mas é a narradora adulta que insere considerações de todo o tipo, o passado ainda vivo, visto nos seus contextos e circunstâncias. O toque de gótico narrativo, tão característico da melhor literatura sulista, tanto pode ser uma paródia a outros escritores da época como a irremediável visão do outro lado da nossa humanidade, da estranheza que uns ou outros transportam em si como desafio à comunidade, ou como retiro diabolizado dos costumes e comportamentos socialmente enraizados. São os brancos que dominam em absoluto toda a vida da comunidade, os afro-americanos mantendo-se invisíveis fora dos campos de algodão ou das cozinhas da classe dominante, segregados no outro lado dos bairros para eles vedados, rezando ao mesmo Deus mas em casa própria. Entre a miséria branca e negra existe a linha real e imaginária no mesmo espaço, atravessá-lo em qualquer direcção seria sempre perigoso para uns e outros. Surge uma acusação de violação e violência por uma jovem branca contra o afro-americano Tom Robinson, pobre, analfabeto, trabalhador e pai de família, servente e servidor, e a condenação é quase garantida naquele espaço e naquele tempo, a pena de morte um possível golpe final. Atticus Finch, que raramente fala da realidade racial da sua cidade, decide insurgir-se em defesa do acusado por suspeitar o que então era comum — a falsa acusação a um homem vulnerável, a transposição freudiana da culpa por parte daqueles que pouco mais tinham do que a brancura da sua pele. A cena do julgamento em tribunal é já antológica, o instante em que Atticus Finch levanta dúvidas no seu sereno interrogatório de defesa. Perde a sua causa, e ganha o ostracismo a que a restante cidade o vota. É o momento em que a “consciência não obedece à maioria”, em que a ética se sobrepõe à ignorância e crueldade. Não esqueçamos o ano em que o romance foi publicado, o tempo do protesto concreto nas ruas dos militantes do direitos civis, a subversão como acto de libertação e dignidade. A arte poderá ser também isto – a escuridão em retrato, o testemunho da agonia humana.

Foi na expectativa de ler as recuperadas páginas de Harper Lee que retirei da estante a minha velha e amarelada edição de bolso de To Kill A Mockingbird. Queria voltar a ouvir o inesperado canto da cotovia.

_________

Harper Lee, Por Favor Não Matem a Cotovia, Lisboa, edição da Difel, 2004, e Mataram a Cotovia, edição da Relógio D’Água, 2012. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings”, do Açoriano Oriental, a 15 de Maio de 2015.

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