Do passado ninguém foge

Capa Perguntem a Sarah Gross

Os seus olhos eram espelhos. Ao olharmos para eles descobríamo-nos de uma maneira como nunca nos víamos, pois Sarah devolvia-nos um reflexo de verdade. Mas os espelhos têm uma limitação; não deixam ver através.

João Pinto Coelho, Perguntem a Sarah Gross

Vamberto Freitas

A historiografia e literatura norte-americanas têm documentado extensivamente a mais dramática de todas as emigrações europeias para o seu país, a partir do fim do século XIX e nas primeiras décadas do século passado – os judeus vindos da “outra Europa”, como lhe chamaria Philip Roth anos mais tarde a propósito de outros temas profundamente relacionados com estes, os escritores sob a tirania comunista naquela parte do mundo. A verdade é que os judeus foram alvo de todas as perseguições (e, pelos vistos, voltam a sentir-se inseguros), um povo sempre escorraçado do velho continente, enquanto, como se sabe, o pior estava para vir ainda com a catástrofe hitleriana. É precisamente nessa época que nasce literária e academicamente a primeira grande geração de intelectuais e escritores judeus-americanos, quase todos eles concentrados em Nova Iorque, hoje parte fundamental do melhor e mais duradouro na literatura modernista do seu país. Raramente era do passado dos seus pais e avós que falavam, antes demarcavam e cultivavam o espaço a que tinham pleno direito sócio-político e cultural, dirigiam o seu contra-discurso à classe culta de então, predominantemente anglo-saxónica, e, talvez ironicamente ou não, pretendiam “europeizar” uma literatura até então mais ou menos provinciana, e que deixava de fora todos os que a ela não pertenciam ou cujas identidades eram outras, mesmo que já parte do mosaico humano desse novo mundo. Apesar de constantes referências ou alusões nos seus ensaios e livros a um legado histórico que lhes era lembrado como um mundo de ameaças e pobreza generalizada, só muito mais tarde Irving Howe, um dos críticos e ensaístas do grupo que ele próprio chamaria de New York Intellectuals, escreveu o seu magnum opus sob o título de World of Our Fathers, publicado em 1976. De qualquer modo, a “viagem” era sempre para “dentro”, parafraseando aqui, sem segundas intenções, Edward Said. Quase todos eles estavam inseridos num espectro ideológico neo-marxista (com Freud pelo meio), era do futuro que se ocupavam, era um outro futuro que desejavam na suposta pátria das nações, era como que partir do silêncio dos seu povo transnacional para um discurso universal e inclusivista, a História pairando sobre todos como um fantasma que deveria ser exorcizado pela arte, particularmente pela literatura, resgatando ainda mais por essa via a rica tradição literária dos antepassados. Para mim, como português imigrado e naturalizado nos EUA durante boa parte da minha vida, nenhum outro grupo de escritores me faria sentir tão próximo do meu chão adoptado, tão fora da pele híbrida de um outro.

Por todas estas razões, e por muito mais, li Perguntem a Sarah Gross, o primeiro romance de João Pinto Coelho, com prazer redobrado, e especialmente pelo simples facto de ser um português o seu autor. Não tem sido nada comum na nossa literatura esta audácia formal e temática, este fôlego narrativo de questões históricas tão prementes e sensíveis para um entendimento mínimo do nosso tempo e da nossa própria civilização. O aconchego globalizado da era que nos foi dado viver permite agora a um autor de qualquer nacionalidade, de qualquer língua ou cultura, abordar esses temas que, quer o reconheçamos ou não, a todos tocaram direta ou indirectamente no Ocidente. O movimento constante entre povos e as suas vozes públicas teriam de resultar nesta empatia intelectual, neste imperativo moral. A Segunda Guerra Mundial decidiu os nossos rumos até hoje, tocou-nos de maneira íntima e assustadora, mesmo sem, felizmente, avistarmos o exército alemão no nosso território, Lisboa tendo sido a verdadeira Cidade Luz de refúgio e passagem para a liberdade, destino sonhado dos que fugiam à morte certa. O romance de João Pinto Coelho não toca nem tinha de tocar nesta parte da história, mas deverá ser lido não esquecendo o vasto pano de fundo no drama que foi o Holocausto. O autor faz o que nenhum outro escritor, que eu saiba, havia feito: o regresso voluntário à Polónia de um filho judeu nos últimos dias da Primeira Grande Guerra, rico e já nascido nos Estados Unidos, na companhia da sua mulher Anna, e filha Sarah, para honrar a terra dos seus pais e ajudar na sua libertação e independência. A cidade natal dos pais, e em que ele naturalmente se fixa, é por demais conhecida, mas antes do nome que viria a significar Crime e Inferno levados às suas últimas e mais desumanas consequências – Oshpitzin, para os judeus que lá viviam há séculos, Auschwitz para a pequena cidade que passou a simbolizar a degradação e o terror de todo indefiníveis. Enquanto o leitor progride na leitura e vai acompanhado Henryk Gross no percurso do seu negócio próspero e estável, no seu prestígio comunitário e intervenção política na sua pátria ancestral, vamos antevendo o que os personagens poderão suspeitar, emitir sinais de alerta, mas nunca admitem o que poderá vir a acontecer, o inimaginável para todos, com a subida de Adolfo Hitler ao poder em Berlim, em 1933. Vão chegando notícias, é certo, do outro lado da fronteira, mas nunca a hipótese do que na realidade viria a acontecer com a invasão-relâmpago do mais cruel e determinado exército na história da humanidade. O romance tem descrições dos acontecimentos subsequentes, desde a cidade-campo de concentração ao gueto de Cracóvia, que quase nos colocam lá em pessoa, nos fazem ver cada momento entre os judeus como se de um filme tridimensional se tratasse. A sua linguagem narrativa permanece, ao longo de cada capítulo ou cena, sem sentimentalismo, não se desvia nunca do pormenor frio e visto de vários ângulos, conforme os personagens em acção ou vivendo aqueles momentos, só cada leitor, cada ouvinte, terá a responsabilidade sentenciosa ou moralizadora. A ficção como história, ou o romance histórico, se preferirem, tem de recorrer a palavras que foram ou não ditas, ficar rente aos factos conhecidos e arquivados, não pode ser construída por entre lágrimas ou raiva. Perguntem a Sarah Gross consegue esse feito só comum na grande literatura deste género, mantendo o leitor atento a cada detalhe, seguindo os passos de cada ser reinventado nas suas páginas, atento à sua forma de vida e visão das coisas, às suas reacções quer num quotidiano normalizado, quer no extremo da vida e da morte. Ler isto de um novo autor português, em que depressa nos esquecemos da própria língua, que nem sempre se deve tornar o signo auto-justificado ou mero jogo supostamente artístico, é de facto uma experiência gratificante a todos os níveis. Não esteve lá? Não é judeu? A maioria dos escritores conhecidos neste género de ficção não estiveram lá, nem sofreram a dor da pertença total nos acontecimentos em foco. João Pinto Coelho junta-se agora a um rol de ficcionistas internacionais, sem lhes dever absolutamente nada, a língua em que escreve possivelmente o único factor que o manterá só dentro das nossas fronteiras e estantes.

Perguntem a Sarah Gross – Sarah é uma das protagonistas principais do romance, filha do malogrado Henryk, e regressada aos Estados Unidos após se safar da catástrofe de modo ambíguo e penalizador, envolvendo um oficial de alta patente das Waffen SS – está estruturado em duas secções, uma delas contada na terceira pessoa, dando-nos a visão panorâmica da história, a outra na primeira pessoa, contada por uma professora americana que havia leccionado numa escola de elite em Connecticut, St. Oswald’s, dirigida precisamente por Sarah. O leitor, ao contrário da própria narradora, sabe quem é, mas não sabe como ela lá chegou até fim da narrativa. Kimberly Parker, doutorada em literatura americana, ela própria em fuga a um passado de violência e indignidade, recorda tudo o que viveu e veio a descobrir de Sarah naqueles anos, mas em retrospectiva, já 2013, septuagenária e ciente da sua responsabilidade perante a memória dos que significantemente se atravessaram na sua vida. Memória e identidade, vida e morte, amor e desamor, partidas e regressos – eis a temática intemporal do romance de João Pinto Coelho. De resto, a sua nota biográfica e os agradecimentos a muitas pessoas que lhe passaram informação denotam que nenhuma destas questões lhe serão alheias pelo conhecimento pessoal que tem tanto da Polónia e da sua atribulada história, como da vida em geral nos EUA. Aliás, o seu conhecimento até ao pormenor do ensino a este nível e com o estatuto elitista numa escola como esta aqui transfigurada permitiu-me lê-lo desde as primeiras páginas com toda a confiança, e fascínio.

Um outro romance que se poderá colocar lado a lado a este é o também recente Para o ano em Jerusalém, de Maria da Conceição Caleiro. No entanto, a questão judaica não nos deveria ser de modo nenhum assunto alheio. Toda a nossa história, inclusive aqui nas ilhas atlânticas, e até hoje, nenhum sentido faria sem lembrarmos constantemente a presença dos judeus entre nós.

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João Pinto Coelho, Perguntem a Sarah Gross, Lisboa, Dom Quixote/Leya, 2015. Publicado no meu “BorderCrossings”, do Açoriano Oriental, 29 de Maio de 2015.

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