Vamberto Freitas: um olhar sobre a cultura açoriana na era da desterritorialização

Capa A Ilha Em Frente

  1. EMIGRACIÓN E EXILIO NOS ESTADOS UNIDOS DA

  2. AMÉRICA EXPERIENCIAS DE GALICIA E AZORES

Illa de San Simón e Santiago de Compostela

18 a 20 de outubro de 2012

Vamberto Freitas: um olhar sobre a cultura açoriana na era da desterritorialização

Pilar Damião de Medeiros

Resumo: Esta comunicação pretende explorar o contributo social e cultural de Vamberto Freitas como um intelectual açoriano que, para além de oscilar entre duas pátrias: EUA e Açores, tem tido um papel imprescindível no processo de reconhecimento da cultura e literatura Açoriana. O sentimento ambíguo entre a nostalgia, a ausência, a perda de raízes, por um lado, e os novos territórios de experiência, de liberdade e de esperança, por outro, modelou não só a experiência de vida e obra de Vamberto Freitas, mas tornou-o, essencialmente, num intelectual cosmopolita, capaz de interpretar a multidimensionalidade de repertórios, códigos e valores culturais que brotam na(s) esfera(s) pública(s) na era da desterritorialização (Appadurai, 2001). Neste sentido, este trabalho exploratório tenta realçar o papel de Vamberto Freitas, na continuidade e também recriação da identidade e cultura açoriana na nova sociedade global, que é profundamente marcada por novos labirintos culturais (Benhabib, 2002).

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Este trabalho exploratório pretende destacar o contributo de Vamberto Freitas como um intelectual açoriano que, por entre duas pátrias: EUA e Açores (nasceu nos Açores, cresceu e formou-se nos EUA e, posteriormente, retomou à pátria), tem tido um papel imprescindível no debate em torno do reconhecimento da cultura, e em particular da literatura açoriana. A sua narrativa pessoal é claramente marcada por uma fusão de horizontes (Gadamer, 1975: 289-290) culturais. Ou seja, por uma fusão de numerosas referências interculturais fruto da sua vivência no grande mosaico étnico norte-americano. Contudo, foi ao experienciar tal riqueza da contemporânea variedade cultural que o ensaísta destacou o papel da literatura e estudos açorianos como âncora da própria identidade açoriana numa sociedade, cuja complexidade cultural, social e política tende a aumentar com o processo de desterritorialização (Appadurai, 2004). A globalização das nações, refere V. Freitas (1992: 211), e “[…] a consolidação dos laços múltiplos da interdependência entre terras e povos, está por toda a parte a provocar um movimento humano, não em sentido contrário, mas sim como que em ação corretiva, de equilíbrio essencial – a valorização sem apologias das pequenas comunidades, um reencontro com as raízes locais […]”.

O contato, desde cedo na Califórnia, com uma sociedade multicultural, onde coexistiam múltiplos universos simbólicos, códigos culturais e estilos de vida, proporcionou a V. Freitas um elevado grau de autorreflexividade identitário-cultural. Pois, como afirma E. Glissant, 1995: 43), é “[n]a Totalidade-Mundo, [que] eu me transformo trocando-me com o outro, permanecendo eu mesmo, sem renegar-me, sem diluir-me, e é preciso toda uma poética para conceber estes impossíveis […]”. Ora, foi nesta relação poética e dialógica com o “Outro”, que o crítico literário desenvolveu um vasto repertório hermenêutico-cultural. Tal pluralidade de Verstehensrollen (“papéis compreensivos”) contribuiu não só para uma melhor apreensão e entendimento da heterogeneidade das manifestações culturais, como também estimulou o respeito pela “the otherness of the Other” (Benhabib, 2002), i.e., pelas particularidades idiossincráticas de “outros mundos” e de “outras vozes” que se situam no espaço público.

É de salientar que o surgimento de uma sociedade marcadamente multicultural resultou, por um lado, da crescente tendência para a globalização e, por outro, da reivindicação de direitos políticos por parte de grupos culturais minoritários. Com efeito, é a partir dos anos 70 que o multiculturalismo, com a sua acrescida atenção aos valores e necessidades das comunidades étnicas, ganha centralidade na política norte-americana e, posteriormente, na Europa. Todavia, há que reconhecer que no centro do debate público e político sobre o multiculturalismo surgem várias questões, nomeadamente, como conciliar os excessivos particularismos identitário-culturais com os valores democráticos universais como a igual dignidade? Segundo Ch. Taylor ([1992] 1993: 60-61), há que compatibilizar as duas formas de políticas de reconhecimento: i) a política de universalismo ou de igual dignidade e ii) a política de diferença. Segundo o autor,

Con el tránsito del honor a la dignidad sobrevino la política del universalismo que subraya la dignidad igual de todos los ciudadanos, y el contenido de esta política fue la igualación de los derechos y de los títulos. En ella, lo que hay que evitar a toda costa es la existencia de ciudadanos de ‘primera clase’ y de ciudadanos de ‘segunda clase’ […] Por contraste, el segundo cambio, el desarrollo del concepto moderno de identidad, hizo surgir la política de la diferencia.

Ainda sobre este debate, A. Touraine ([2005] 2007: 150) sublinha a necessidade de associar aos direitos culturais os direitos políticos, que são universais, para não corrermos o risco que estes se tornem anti-democráticos, autoritários ou até mesmo instrumentos totalitários e A. Giddens (2002: 8) assume que o processo de reconhecimento de grupos e culturas minoritárias não pode ser um processo liderado pelos “guardiões da tradição”, mas sim por atores cosmopolitas capazes de observar as culturas humanas como constantes criações e recriações, como negociações de fronteiras imaginárias entre o “nós” e o “Outro(s)”. Ou seja, atores com a abertura para questionar não só os seus próprios pressupostos culturais, mas também para manter um diálogo constante e inacabado com os “outros diferentes”, ou até mesmo com os “outros distantes”.

Com efeito, tal reconhecimento político da pluralidade de vozes das minorias no espaço público teve repercussões imediatas no espaço académico, até então impregnado por cânones absolutos. A legitimação institucional dos estudos étnicos na academia norte-americana surge numa altura em que os intelectuais das minorias começaram a desafiar o elitismo intelectual e hermético da academia. Segundo V. Freitas (2012: 187),

[a] escrita ‘étnica’, cuja temática insistia em chamamentos múltiplos e transnacionais, começava a impor-se ao establishment literário e académico do país. Era o novo cosmopolitismo que se contrapunha à noção do suposto intelectual fechado no seu reduto claustrofóbico, sofrendo um existencialismo fabricado, e depois lançando ao mundo algumas das mais ilegíveis e irrelevantes obras.

Com a erupção dos novos movimentos sociais nos anos 60 e 70, muitos dos ativistas revoltaram-se contra a falsa objetividade e neutralidade epistémica da academia e do conhecimento ocidental. Os grupos minoritários, que dantes se encontravam numa situação de marginalidade e discriminação face ao paradigma dominante, insurgem-se veemente contra a colonização do olhar ocidental. É, todavia, com a polémica obra Orientalism (1978) de E. Said, que a hegemonia do discurso ocidental, e a sua já duradoura apropriação enviesada de outras visões do mundo, começa a ser questionada. Tal desconstrução do discurso mainstream, e consequente abertura ao ponto de vista do “Outro” não-cristão, não-europeu, não-branco na academia, originou uma fecundidade epistemológica nos EUA. A emergência de disciplinas originais e inovadoras como gender studies, post-colonial studies, subaltern studies, afro-american studies, gay studies, aboriginal studies, entre outros, resultou, por um lado, da materialização das identity politics no espaço académico, e por outro, da desconstrução dos pressupostos da modernidade sólida (Bauman, 2000). Para S. Hall (2003: 123),

[o] que importa são as rupturas significativas – em que velhas correntes de pensamento são rompidas, velhas constelações deslocadas, e elementos novos e velhos são reagrupados ao redor de uma nova gama de premissas e temas. Mudanças em uma problemática transformam significativamente a natureza das questões propostas, as formas como são propostas e a maneira como podem ser adequadamente respondidas. Tais mudanças de perspetiva refletem não só os resultados do próprio trabalho intelectual, mas também a maneira como os desenvolvimentos e as verdadeiras transformações históricas são apropriados no pensamento e fornecem ao Pensamento, não sua garantia de ‘correção’, mas suas orientações fundamentais, suas condições de existência. É por causa dessa articulação complexa entre pensamento e realidade histórica, refletida nas categorias sociais do pensamento e na contínua dialética entre ‘poder’ e ‘conhecimento’, que tais rupturas são dignas de registo.

Deste modo, enquanto a ruptura com os modelos tradicionais permitiu uma observação mais ampla da pluralidade cultural do tecido social; a deslocação de perspectivas veio possibilitar diferentes formas de problematizar e estudar o mesmo objeto de análise.

Perante este contexto, onde as vozes das minorias conquistam gradualmente espaço na academia, não é admirar que o reconhecimento pela cultura e literatura açoriana se tenha instaurado primeiramente nos EUA. É com o prestigiado impulso de Onésimo T. Almeida, que os estudos açorianos alcançam, em 1978, legitimidade académica e institucional na Brown University, MA. A partir daí, e recorrendo à gíria hegeliana, as questões culturais açorianas deixam o seu espaço restrito e enclausurado an sich (em si) e agora für sich (por si) conquistam um espaço e voz na mouvance da mentalidade geral (Glissant, 1995). De acordo com O. T. Almeida (2011: 10), “[…] operou-se também uma institucionalização da cultura açoriana no discurso oficial e na Universidade: a realidade da personalidade cultural insular e a sua expressão literária e artística em geral passaram a quase não ser contestadas e são regular e sistematicamente afirmadas e defendidas”.

Segundo V. Freitas, a defesa de uma identidade e de uma literatura específica açoriana tem sido, desde longa data, objeto de análise e discussão de um grupo de intelectuais que – desde a criação da revista açoriana de cultura A Memória da Água Viva1 (dirigida por J. H. Santos Barros e Urbano Bettencourt, nasceu em Lisboa e durou dois anos 1978-1980), encabeçada por um espírito de resistência da geração de Abril açoriana, passando pelas tertúlias na freguesia da Maia em São Miguel, até ao último volume da Gávea-Brown: Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos (fundada e dirigida por Onésimo T. Almeida e George Monteiro) – acredita que “[…] a ficção açoriana […] é uma inigualável fonte de história social comum a nós todos, e que, nestes dias de grande confusão política e cultural em todo o mundo, é-nos indispensável a um mais aprofundado entendimento de quem somos e como somos” (Freitas, 1999: 242).

É no interior deste grupo de intelectuais com elevado capital cultural que surge, no pós-25 de Abril e na costa oeste dos EUA, a voz crítica de V. Freitas. A sua irreverência e indignação contra um regime bafiento que mesmo na diáspora transpirava censura, intolerância e fortes rasgos de beatice salazarista por parte de líderes comunitários, colocou a sua condição de pertença cultural no fio da navalha. Do longínquo pacífico, V. Freitas (1999: 202-201-203) apercebe-se de que a sua pátria e, recorrendo à terminologia de Natália Correia, a sua mátria açoriana, estava a viver um grande momento de libertação política. Afirma que essa

pátria que já me era apenas teórica tornava-se agora viva, coisas, gente e livros mexiam e aguavam insistentemente as minhas raízes, dando-me a alegria de um renascimento, e, sim, a dor e perplexidade de quem se sente mais vivo e mais pertencente, mas não sabendo por enquanto o que fazer com essa redescoberta. Eu tinha-me safado deste confronto humano como muitos desenraizados na Califórnia […]”; “Eu pensava nos Açores meramente como sendo uma só ilha, da qual eu conhecia uma freguesia e uma cidadezinha, e na memória as gentes que restavam eram alguns parentes e uma ou outra figura que, como com todos e em toda a parte acontece, me entrara na consciência de menino para de lá nunca mais sair. De repente, quando eu já tão pouco pensava naquela freguesia e naquela ilha, e agora quase já de canudo universitário na mão e politizado à esquerda como todo o bom estudante dos anos 60 e princípios de 70, acontece o 25 de Abril […] O regresso a casa iniciara-se […]” e “[…] sentia que tudo isso tinha a ver comigo, tudo isso era o meu mundo, o meu passado quase perdido, um mundo tão importante […].

Este sentimento de pertença a um povo, a uma geografia, a um clima, a uma história e a uma literatura despertou em V. Freitas o desejo de regressar imediatamente à terra que o viu nascer.

Não obstante, a pátria, outrora imaginária e agora real, enquanto encarada como um novo locus de construção e reconstrução do Self (Eu), potenciador de novas experiências interpessoais, interculturais e políticas, foi também um locus, no qual o crítico literário/professor universitário/ensaísta/cronista/tradutor preferiu adotar uma existência entre “duas margens”2. Porém, não se refugiou no particular, mas adoptou uma atitude cosmopolita de que se “é daqui como de toda a parte”. V. Freitas é, deste modo, um intelectual açoriano/diaspórico que abarca na sua condição humana a globalização, a diáspora e as raízes, a fusão de culturas e um sentimento de multi-pertença identitária. A globalização não é sentida, vivida com algo externo à sua existência, pois não é, nem deve ser, como frisa o sociólogo A. Giddens ([1999] 2000: 23) “[…] apenas mais uma coisa que ‘anda por aí’, remota e afastada do indivíduo. É também um fenómeno ‘interior’, que influencia aspetos íntimos e pessoais das nossas vidas”. Daí a ênfase dada por V. Freitas à (re)criação da própria identidade através da relação dialógica consigo mesmo e com o outro, ao sublinhar que “[n]ão se pode ser do mundo sem sermos primeiro da casa própria, não se pode conhecer ninguém antes de nos conhecermos portas adentro, e muito para além das meras intuições ou dos palpites de quem somos ou deixamos de ser” (Freitas, 2012: 226). Como “filho” dos novos movimentos sociais dos anos 60 e 70 nos EUA e da nova sociedade planetarizada adotou, após o seu regresso à pátria, uma posição de defesa pelos estudos étnicos e pelas particularidades identitárias e estético-literárias do povo açoriano. Pois acredita, tal como outros intelectuais da sua geração, que a literatura açoriana assumiu “[…] um papel no fortalecimento da identidade açoriana e isso, só por si, é dizer que ela valeu e vale alguma coisa. Essa longa tradição prossegue. A literatura pode não aumentar a competitividade económica insular, no entanto é, sem dúvida, uma mais-valia em qualquer cultura, e a nossa prolonga-se numa tradição herdada de longe, e que tem deixado marcas notáveis na história das letras portuguesas” (Almeida, 2011: 15).

A literatura açoriana, constata V. Freitas, possui um leitmotiv, uma estética, uma intimidade cultural e um discurso muito peculiar, pois “[…] está primeiramente caraterizada pela fuga constante, geográfica e/ou interior do homem das ilhas, onde quase obcessivamente, os artistas [açorianos] […] caminham à procura da sua identidade e tentam penetrar e comunicar a condição humana que lhes foi dado ver e viver” (Freitas, 1992: 7). Segundo o ensaísta, existe igualmente uma relação muito próxima, e até íntima, entre a literatura açoriana e a da diáspora, pois crê ser esse o fio condutor que atravessa fronteiras “[…] em busca de beleza e ‘verdade’ literária que nos diz, rediz e nos reinventa numa já longa história de andanças no outro lado do Atlântico” (Freitas, 2012: 13).

Entretanto, a afirmação e o fortalecimento da cultura e das tradições da “geração atlântica”, por um lado, e a percepção dos efeitos da globalização, por outro, contribuíram para a própria reconfiguração da identidade açoriana. É, neste contexto, que a cultura açoriana parte, a partir dos anos 70, para o exterior, “num diálogo que se quer aberto e descomplexado, refletido e estético” (Freitas, 1999: 34). Ou seja, num diálogo que rejeita as tendências de um discurso hegemónico e absolutizante e que respeita a retórica da diversidade cultural. Segundo O. T. Almeida (2011: 9), o período que se segue, i.e., “[e]ntre a década de 1980 e os princípios deste milénio, os Açores atravessaram um ciclo de grande criatividade a todos os níveis da sua cultura. Houve entusiasmo, cooperação e intercâmbios de vária ordem. […] Estabeleceu-se um arquipélago para além do arquipélago, reunindo as diversas comunidades da diáspora, nomeadamente de Lisboa, Porto, Costa Leste dos EUA, Califórnia, Canadá e Brasil”. Foi a geração do pós-25 de Abril que manteve esse diálogo bidirecional, pois “[…] escrevia-se lá sobre a existência das ilhas, e cá dentro agitavam-se águas paradas, contestavam-se os poderes internos, dava-se, aberta mas criticamente, continuidade à tradição, ligava-se o arquipélago ao todo nacional, e reconhecia-se a incipiente atividade intelectual das nossas ilhas em terra, que sempre foram as nossas comunidades principalmente nos Estados Unidos e no Canadá (V. Freitas, 1999: 38).

Face ao exposto, torna-se evidente que tanto a audácia intelectual e o agudo sentido crítico, como a ação contestatária de V. Freitas no espaço público, vão para além da representação do intelectual pós-moderno proposto por Z. Bauman (1987) que é somente “o de traduzir as diferentes tradições […]”. Este tem tido a capacidade de demonstrar ao longo dos seus ensaios, da crítica literária e das posições culturais assumidasno espaço público açoriano (dentro e fora das ilhas), uma intervenção que é também política e desestabilizadora do status quo. Ao apoiar-se a uma espécie de negatividade estético-literária (Adorno, 1996), V. Freitas luta pela afirmação da cultura insular açoriana e contesta práticas que não considerem as novas contingências identitárias A sua intervenção carismática e comprometida com a cultura e literatura açoriana no espaço académico, no sentido mais restrito, e no espaço público, no sentido mais alargado, tem instigado uma reflexão tanto estética, como política, em torno do papel da cultura na construção da democracia autonómica. Após uma entrevista exploratória ao autor (Setembro, 2012), depreendemos que este aproxima-se à representação do intelectual defendida por E. Said (1993] 2000: 18), que afirma que o intelectual é “[…] um espírito em oposição, mais do que em acomodação […].”

Em suma, Vamberto Freitas tornou-se num dos mais distintos intelectuais açorianos dos séculos XX e XXI. O seu contributo na afirmação dos estudos culturais açorianos como ‘estudos étnicos´ conferiu-lhe um papel destacado tanto nos Açores, como na diáspora. Face às perplexidades e labirintos culturais emergentes da sociedade global, Vamberto Freitas propõe um círculo hermenêutico aberto, que não só adote uma postura simultaneamente crítica e cumulativa, como também instigue uma re-atualização e re-invenção constante do “imaginário cultural açoriano”.

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Referências Bibliográficas

Adorno, T. W. (1966), Negative Dialektik. Frankfurt a. M.: Suhrkamp.

Almeida, O. T. (2011), Açores, Açorianos, Açorianidade: Um espaço cultural. Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura.

Appadurai, A. (2004), Dimensões Culturais da Globalização: A modernidade sem Peias. Lisboa: Teorema.

Bauman, Z. (1987), Legislators and Interpreters. Cambridge: Polity.

Bauman, Z. (2000), Liquid Modernity. Cambridge: Polity.

Benhabib, S. (2002), The Claims of Culture: Equality and Diversity in the Global Era. Princeton: Princeton UP.

Freitas, V. (1992), O Imaginário dos escritores Açorianos: Textos do Cerco e da Fuga. Lisboa: Salamandra.

Freitas, V. (1999), A ilha em frente. Lisboa: Salamandra.

Freitas, V. (2012ª), Entrevista a Vamberto Freitas. Jornal Terra Nostra (09.06. 2012).

Freitas, V. (2012), Bordercrossings: Leitura s Transatlânticas. Ponta Delgada: Letras Lavadas.

Gadamer, H. G. (1975), Wahrheit und Methode. Tuebingen: Mohr.

Giddens, A. ([1999] 2000), O mundo na era da globalização. Lisboa: Presença.

Glissant, E. (1995), Introduction à une poétique du divers. Montréal: Presses de l’Université de Montréal.

Hall, S. (2003), Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: UFMG.

Said, E. (1978), Orientalism. London: Routledge & Kegan.

Sena, J. (s/d), Rever Portugal: Textos Políticos e Afins. Lisboa: Babel.

Taylor, C. ([1992] 1993), El Multiculturalismo y ‘L Política del Reconocimiento’. México: Fondo de Cultura Económica.

Nota Biográfica:

Pilar Damião de Medeiros é doutorada, desde 2007, pela Universidade de Freiburg, Alemanha. Foi Professora Auxiliar Convidada na Universidade de Évora (2007-2009) e é, desde 2009, Prof. Auxiliar Convidada na Universidade dos Açores. Já publicou um livro intitulado Rollenästhetik und Rollensoziologie (Wuerzburg, Koenigshausen & Neumann, 2007) que obteve 3 recensões críticas internacionais e tem 12 artigos e capítulos de livro na área da Teoria crítica da cultura moderna, globalização cultural, cultura política e espaço público. Tem artigos publicados em revistas como International Journal of Interdisciplinary Social Sciences, International Journal of Multidisciplinary Thought, Social Sciences Research Network, Perspectivas e Revista Crítica de Ciências Sociais. É membro efetivo do Centro de Estudos Sociais da Universidade dos Açores.

1Ver Freitas, 2012: 101 (“A Memória da Água-Viva ficará como esse momento de resistência, mas sobretudo, creio, pela nova teorização das questões fulcrais da cultura e literatura, que estavam submergidas num pântano ideológico e opressivo que se havia sobreposto à criatividade das geração anteriores, e reclamando para si tanto o direito de redizer o seu passado como de redimensionar o espaço literário que era todo seu.”)

2 Blogue V. Freitas “Nas duas margens”.

Paris já não será uma festa

Capa Submissão

Assim, os identitários europeus admitem abertamente que entre os muçulmanos e a restante população vai rebentar, obrigatoriamente, mais cedo ou mais tarde, uma guerra civil.

Michel Houellebeck, Submissão

Vamberto Freitas

Submissão, do muito controverso escritor francês Michel Houellebeck, é um romance marcante, por várias razões temáticas, neste preciso momento da história europeia. Bem sei que o autor já tem atrás de si várias obras, e algumas delas altamente premiadas no seu país, e também tenho conhecimento do estatuto ambíguo que conquistou para si devido ao seu tratamento das questões ardentes que provêm praticamente de tudo o que tem a ver com o islamismo na França dos nossos dias. Devo colocar desde já na mesa ao que venho. Primeiro, foi uma leitura muitíssimo agradável por encontrar um autor francês da nossa época que escreve com a clareza semântica e o dinamismo linguístico que fazem deste romance uma experiência simultaneamente divertida, histórica e politicamente ponderada, sem a cansativa e tantas vezes artisticamente inútil caça ao símbolo ou à desvenda da metáfora. Segundo, para além da plausibilidade ou não dos dramáticos eventos aqui imaginados e desenvolvidos, a verdade é que Submissão é um romance que nos propõe reflexões políticas, culturais e étnicas que ensombram – como poderão vir a ser uma fonte de riqueza e regeneração europeia, a todos os níveis, ou em todos escalões sociais das diferenciadas geografias humanas do velho continente – a vida quotidiana de todos os cidadãos em países de suma importância em tudo que se refere ao nosso futuro, espalham um sentido, tanto real como doentio, de insegurança generalizada nas ruas das maiores cidades, e sobretudo ensombram um continente cuja história recente não é de dignidade, ou de defesa dos valores humanos mais fundamentais. Se é um romance distópico, na tradição britânica de um George Orwell ou Aldous Husxley, os dois nomes mais proeminentes no Ocidente neste género de literatura, também não será fácil de assim o classificar, para quem precisa destas arrumações literárias. O próprio título do livro vem carregado de significados múltiplos. “Submissão” a quê e a quem – ao islamismo democraticamente vitorioso, à inevitabilidade para onde caminham estas sociedades com uma população vinda de fora, e agora com os seus milhões de descendentes de nome hifenizado, a vontade de ser feliz estando em paz consigo próprio, ou aceitando como fatalidade os rumos das sociedades a que supostamente pertencemos por laços de sangue e longa história? Michel Houellebecq é dos poucos escritores europeus contemporâneos que tem a coragem de lançar na literatura as mais pertinentes questões que estão, mesmo que não sejam evidentes a muitos de nós, a determinar o rumo de uma Europa que deixou de saber qual é o seu papel no mundo, e, muito mais grave ainda, como manter a sua paz interna ou relançar a justiça económica para todos os seus cidadãos. Nesse sentido, sim, creio que este romance vem no seguimento dos que denunciaram vários tipos de totalitarismo – político, em 1984, tecnológico e cultural no Admirável Mundo Novo – num passado ainda na memória colectiva, vem questionar como é que uma sociedade cujos valores já nos são quase quase irreconhecíveis, descontando certa retórica especialmente centrada em Bruxelas e arredores.

Estamos em Paris, em 2022, e o ambiente político vem aquecendo desde há alguns anos com a subida constante da Frente Nacional, e a crescente incapacidade dos conservadores e socialistas em fazerem passar as suas mensagens. O desequilíbrio dessas forças políticas assemelha-se de todo à situação que os próprios leitores conhecem actualmente, e não só em França. Tinha sido formado recentemente uma nova Fraternidade Muçulmana, que depressa conquista, como seria de prever, os votos islâmicos em todo o país. Está quase em pé de igualdade com os socialistas de Hollande e Manuel Valls, aqui brevemente transfigurados sob os seus próprios nomes, assim como outras figuras cimeiras da vida pública francesa. A segunda volta das eleições presidenciais entre os grandes grupos é uma clara ameaça da vitória do partido de Marine Le Pen. A liderança muçulmana, concentrada num Mohammed Ben Abbes, tem uma pregação moderada, trazendo a “paz” aos subúrbios, dialogando com outras forças democráticas, assumindo em termos económicos posições muito próximas das que a oposição de esquerda assume, falando em conservadorismo cultural e respeito pelas religiões “do Livro”, pela “família” tradicional, estendendo deste modo a mão aos conservadores da UMP, que já pouco terreno eleitoral controlam, mas representam vontades atávicas da nação. O palco de emergência está montado. Para se derrotar a extrema direita, só com uma aliança entre o PS e a Fraternidade Muçulmana, o líder desta apontado e logo depois investido como Presidente da República. Toda a narrativa centra-se nos dias seguintes à consumação do que parecia impossível, e no fundo por quase todos indesejável. O mal maior, pensa-se, tinha sido evitado, começava agora o triunfo e prática de uma sharia moderada, mas operando de imediato mudanças tão radicais como impensáveis nos dias presentes, nestes que são os dias dos próprios leitores. Toda a educação, que estava miseravelmente subsidiada pelo Estado, é obrigada a obedecer a novas leis, e quem não concordar na conversão é demitido. As universidades públicas mais prestigiadas têm novo fôlego, e agora dinheiro a rodos – da Arábia Saudita. Aliás, toda a narrativa está mais ou menos referenciada a partir da Universidade de Paris IV, desenrolada e meditada na primeira pessoa por um dos seus professores doutorados em literatura, François, nome como que a imprimir ainda mais força à “natividade” a saque, e depois conquistada pelos outros.

François está, no início do seu percurso aqui, cansado e descrente da academia, prestes a ser demitido pelos que estão agora no poder após a sua recusa de conversão à nova visão do mundo. Vive só, e a namorada, Myriam, uma antiga aluna sua, judia, está prestes a abandonar Paris na companhia dos seus pais, rumo a Israel, com medo do que virá. Realidade e ficção – nem este acto de fuga já é novidade no andamento da Europa dos nossos dias, muitos vendo velhos perigos à vista, mortíferos fantasmas a arreganhar de novo os dentes um pouco por toda a parte. O protagonista mantém-se, ou pretende manter-se, sereno, deambulando de rua em rua, de café em café, de visita em visita aos seus pouquíssimos amigos, ou então a prostitutas de serviço, quase sempre semi-alcoolizado mas perfeitamente lúcido. Memória e solidão. Descrença e alienação. Na faculdade, foge das conversas institucionais demasiado repetitivas, cansativas. Autor de uma tese sobre o escritor francês do século XIX, J. K. Huysmans, a sua narrativa sobre a actualidade refere página a página este como outros escritores europeus da época, numa espécie de correlativo objectivo – a decadência da Europa vem de longe, num processo de perdas civilizacionais, num lamber de feridas, ora em tons de raiva e insurreição, ora através da ironia e retraimento conventual, num isolamento que tem tanto de egoísta como de cansaço. O paralelo com os dias de hoje é nítido, se bem com a devida distância, e inimagináveis convulsões que viriam a seguir durante todo o século passado. A Fraternidade Muçulmuna vence as eleições não por mérito próprio ou apelo à maioria, mas porque os franceses estão divididos em grupos públicos que se tornaram inúteis ou irrelevantes – os extremistas de um lado e outro tomaram a rua perante a essa incapacidade, essa mediocridade, esse nojo em que se havia tornado a política e os negócios públicos em geral. François recorre à literatura, e nela permanece enquanto olha em volta e entende que o que vê é já inevitável. As suas conversas com o marido de uma colega, um agente dos espiões da DGSI, também demitido pelo novo governo após trinta e tal anos de serviço, convence-lhe de que não haverá insurreição alguma, que todos se “submetem”, encarneirados ou em defesa da vida. Bem-vindos a um país europeu no processo (de aparente) amena islamização. Submissão, no entanto, é menos um romance anti-islâmico e muito mais um romance sobre a estupidez pública que reina na Europa, a desorientação dos seus dirigentes, que em mais nada falam do que em “orçamentos”, que mais nada fazem do que jogos políticos de interesses particularizados, e quase sempre obscuros. À espreita estão os outros – determinados, sem dúvidas metafísicas. Os “identitários”, o movimento defensor da França histórica, ou por eles re-imaginada, preparam-se para a guerra civil que virá, como dizem, “mais cedo ou mais tarde”. François, no fim, “submete-se”, e recupera o seu lugar na universidade.

Momento de humor e, se calhar, verdade: mantêm-se fora de tudo isto os chineses residentes no Chinatown parisiense. “Nada, nem sequer um regime muçulmano, parecia capaz de travar a sua intensa actividade – o proselitismo islâmico, tal como a mensagem cristã antes dele, dissolver-se-ia provavelmente sem deixar rasto no oceano desta civilização imensa”. Povo, grande povo, esse do Império do Meio.

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Michel Houellebecq, Submissão (tradução de Carlos Vieira Da Silva), Lisboa, Alfaguara/Penguin Random House, 2015.

Afterthoughts: An Interview With Vamberto Freitas

Sala dos Livros (1)

 

By

Millicent Borges Accardi

Since the 1970’s, Vamberto Freitas has published the most significant reviews and literary criticism available on Portuguese-American literature. A recognized expert on the literary landscape of the Portuguese Diaspora in the US and Canada, Freitas is a writer, essayist and literary critic from the Azores. His critical works include studies and essays on American literature, Portuguese-American literature and criticism, and profiles of Azorean and Azorean-American writers. An eminent translator of Portuguese-American writers like Frank X. Gaspar into Portuguese, Freitas is a life-long champion of the written word. His publishing credits have included coordinating the Azorean Culture Supplement (SAC) and directing the Atlantic Supplement of Arts and Letters (SAAL). He is a member of the Advisory Board for the peer-reviewed Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese American Letters and Studies at Brown University, Rhode Island.

Born in Fontinhas, Terceira Island, Portugal, Freitas immigrated to California with his family as a child, and graduated from California State University, Fullerton, in 1974, with a degree in Latin American Studies. He returned to Portugal as an adult, and now resides in Ponta Delgada, in the Azores. A lecturer at the University of the Azores, Freitas was a regular contributor to the literary supplement of the Lisbon newspaper Diário de Notícias, and still publishes periodically in Jornal de Letras (JL) in Lisbon, and in other national and regional journals.

We conducted this interview in English, over a period of many months via email from 2013-2014.

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Millicent Borges Accardi — Your critical book borderCrossings, (2012) what impact do you anticipate or hope it will have on Portuguese-American literature in the US? North America? Globally?

Vamberto Freitas – Probably not much, I’m sorry to say. Never mind “globally.” On the other hand, we now have cultural and literary niches everywhere, due to global and instant communications. Any text published in an Azorean island can be transmitted to a fair number of interested readers everywhere, as most writers have experienced by now. Portuguese-American literature is just now reaching a maturity – quantity and, I dare say, high quality – in search of a reading public, most probably still limited to a few interested academics and other writers within the lusophone world. But I know for a fact that some of these Portuguese-American writers are already well known as far as Brazil, the novelist Katherine Vaz and the poet/novelist Frank X. Gaspar at the forefront.

The interest in modern Azorean literature will naturally lead to an interest in Portuguese-American writing. After all, Portuguese-American literary works will inevitably become part of two national canons: American and Portuguese. The question of identity in the twenty-first century, in a globalized and increasingly standardized world, is more important to a greater number of people in all modern societies, and especially in multiethnic and multicultural societies, which is practically the whole Western world. As for my book, or books, including Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado do espelho (Azorean and Portuguese-Americans and Imagination: the other side of the mirror), I’m still waiting to see what results or impact they’ve had among a reduced Portuguese-American public.

BorderCrossings: leituras transatlânticas received quite a few notices, and was generously reviewed by Expresso, the leading Lisbon weekly. I’ve also read with much pleasure (and sense of a “mission” on its way to being completed sometime in the future) the long interview that Michael Colson did with the poet Carlo Matos, especially when Carlo says that my last two books of critical essays place me “on the front lines of our movement. He brings some cohesion to what is, at the moment, nothing more than a wild bunch of hungry and exciting young writers. He has written two books which are must-reads for anyone interested in what is going on right now in Portuguese-American literature.” (Portuguese American Journal, 2013). Let me just add this: Carlo’s words are so gratifying for me that they alone justify my having written those two books.

MBA — You are working on the second volume of borderCrossings. What writers will be included?

VF — As far as Portuguese-American writers are concerned, these among others: Sam Pereira, Frank X. Gaspar, Carlo Matos, Julian Silva, Darrell Kastin, Alfred Lewis, and Anthony Barcellos. I’m also about to read for the first time the poet Nancy Vieira Couto, and will very probably include her in a future BorderCrossings.

MBA — What do you think are the next steps in promoting Portuguese-American Literature in the US?

VF – I believe these steps are presently being taken. Great work is being done at the university level: anthologies such as Luso-American Literature: Writings of Portuguese-Speaking Authors in North America (selected and edited by Robert Henry Moser and Antonio Luciano de Andrade Tosta) and the recently released The Gávea-Brown Book of Portuguese American Poetry (Gavea-Brown University Press 2012), beginning with Emma Lazarus’ words in a plaque of the Statue of Liberty, and bringing this steady poetical current from the nineteenth century up to your own generation. And then there is the journal Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese American Letters and Studies (Brown University Press, 2013) of the Department of Portuguese and Brazilian Studies that since the early 80’s has been faithfully publishing the best of Portuguese-American writing, thus introducing this literature to many other universities, libraries, and academic and literary colleagues everywhere.

Here in Portugal we are also doing our part in the popular press and in other publications, with most major Portuguese universities now fairly aware of the existence of Portuguese-American writers and their works. Frank X. Gaspar and Katherine Vaz have participated for many years now in colloquiums and other conferences in Portugal dealing with Diaspora literatures and other narratives. In October of 2008, the University of Lisbon organized a major conference titled precisely “Narrating the Portuguese Diaspora: International Conference on Storytelling”.

The same institution, together with the New University of Lisbon/Universidade Nova de Lisboa, will again organize in July of this year (2013), through their respective Faculty of Letters and Faculty of the Humanities and Social Sciences, another great event under the title “Neither Here Nor There Yet Both: International Conference on the Luso-American Experience”. The yearly Disquiet Dzanc Books Literary Program in Lisbon always includes Portuguese-American writers as active participants. These are huge contributions to both the dissemination and legitimization of Portuguese-American Literature.

As for the US, only the writers themselves and their friends in the press together with a great range of other cultural and literary publications can push for a wider reading public. It takes time, but it will happen. As our young people increasingly enroll in higher education, they will also become aware that they are not alone in their quest or reaffirmation of their dual identities, literature remaining the most serious and lasting repository of ancestral memory and creativity.

MBA — What do you think are important motifs in Portuguese literature?

VF – The notion of “literature and society” has always been a strong thematic pull in our literature, particularly from the so-called first Portuguese literary modernist movement with Fernando Pessoa and Co. The question of bringing and integrating a centuries-old society into the higher European mode has been an intellectual obsession, with the individual artists and thinkers at the center of the storm.

Until very recently, Portugal has been a very homogeneous society, ethnically, religiously and culturally. The question of identity, or of redefining it, has had a rather pointed place in our best literature. It’s been also an epic and anti-epic literature, either the aggrandizement of our long and troubled history, or once again the anti-epic condition after the fall of the empire, an obsessive and masochist turning inward, “the voyage in”, as Edward Said would say.

Obviously, the question of Europe has influenced some of our contemporary writers, but this has only begun to color our best fiction and poetry in our days. The existential pain of being alive in this corner of southern Europe and the simultaneous impulse to move into the Atlantic, now as emigrants and not as discovers and colonialists, is what marks a great part of our best writings, along with a period from the thirties until the seventies when neo-realism, or the protest novel, as was once called in America, reigned supreme, the leftist influence similar to what happened with American literature during the economic troubles in the thirties.

Azorean literature, an integral part of the national canon — even if some continentals don’t know it yet — has had to redefine and reaffirm our regional or island identity, or identities, for there has always been cultural and even linguistic diversity among the nine islands. Obviously, this also includes our first generation of immigrant writers, especially in the United States. Portuguese-Americans are now searching for or establishing a hybrid cultural identity, as they recognize their dual or even multiple cultural heritages as Americans and as descendants of Azorean immigrants, with many of you still having active families and/or distant but recognized relatives within the archipelago itself. The “loyalty”, if you will, towards this fast receding cultural past is an evident development among most Portuguese-American writers. I firmly believe they are rescuing and redefining their own being, and choosing or constructing their own place within the great American human mosaic.
This is why, perhaps, American literature was, throughout twentieth century, and continues to be, one of the most vital and consequential literatures in the world. Its fantastic diversity is what feeds its greatness. No other country in the world, not a single one, can make this claim for its literary arts. The number of American writers who deserve the Nobel Prize every year would be embarrassing for the rest of us, and would cause a new type of rage among others.

MBA – Why do you think P and PA literature has not taken off and become popular in North America like, say for example, Cuban literature?

VF – It’s an old story, Millicent. I’ll give you an example from a few years back. The American translator Gregory Rabassa (who translated One Hundred Years of Solitude, the great translation of Gabriel Garcia Marquez’ novel Cien anos de Soledad, and of many other Latin American and Brazilian writers as well as some Portuguese novels and creative works in different genres), after having translated João de Melo’s O Meu Mundo Não É Deste Reino/My World Is Not Of This Kingdom, submitted it to a major publishing house in New York, and the answer came back a few days later: great novel, but nobody knows anything about the Portuguese, and even less about the Azoreans! I think out of politeness they also may have wanted to say: and nobody cares about them. Rabassa had to wait until 2003, when an ex-student of his who was in charge (as editor, I think) of Aliform Publishing, in Minneapolis, took and published João de Melo’s novel. In the last few years we’ve seen a small change of attitude due to Fernando Pessoa’s inevitability and José Samarago’s translated novels, especially after he received the Nobel Prize in 1998, and also with much help from such influential critics as Harold Bloom, as far as American readers are concerned.

Cuba, on the other hand, is right next door. And its political history in our time made it popular among left leaning critics and publishers, the Cuban dissidents also being supported by the other side. Cuban writers also profited from the Latin literary boom in the 60’s, started by such authors as Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa and Gabriel Garcia Marquez. It seems that for Americans there are only three European countries of any import, both politically and culturally: Great Britain, Germany and France. The rest is mere “periphery”, in every sense of the word.

It isn’t easy to cure such long standing and entrenched ignorance, nor to say anything about the chauvinism with which Anglo-Americans have always looked at southern Europe. Never mind that we’re the cradle of much that is good and virtuous in Western culture: democracy, philosophy and the arts in general (the Greeks), architecture and law (the Romans), and, yes, even the Mediterranean food is an ancient art of goodness and taste. Portugal not only “discovered” or reached most lands that had remained unknown to most Europeans until the caravels left the Tagus River for triumph and tragedy, but began what is called today “globalization,” and on the way “pushed” our part of the world into modernity, both in science and knowledge gained from experience and pure invention. Do read the recent Utopias Em Dói Menor: Conversas Transalânticas com Onésimo (Utopias in Transatlantic Conversations with Onésimo), a summing up of some of these issues by the Brown University Professor Onésimo Teotónio Almeida.

I might be wrong here, but Portuguese-American writers will have to deal with these same issues and resistance within contemporary American culture. You’ll have to be accepted and appreciated one by one, and through literary works that will stand first as great aesthetic performances. Content, theme and referential geographies will then impose themselves on other serious readers of literature. Not every writer in America has the privilege of saying: I also come from a literary tradition of a small nation that, among a few other great writers, produced Fernando Pessoa and José Saramago.

MBA – There is The Interdisciplinary Journal of Portuguese Diaspora Studies which focuses on the Portuguese-American Diaspora. What other literary journals in the US do you read?

VF — The Paris Review, including all the interviews that were collected in the series Writers at Work, now just called The Paris Review Interviews, The New York Review of Books, The New Yorker, The Partisan Review, until their last issue in, I believe, 2003, Kenyon Review and The Southern Review.

I check out The New York Times Book Review every week, just in case they get distracted and review a great novel or a poetry book, or even any book of interest, such a literary biography or autobiography, and then Onésimo T. Almeida brings me piles of it that he saves every Sunday, knowing that I’ll want to feel and smell the paper!

I used to read the British Granta (I have a few issues here in my bookshelf), especially when they did an issue on American or Diaspora literature with writers from their ex-colonies.

MBA — What books would you use if you were teaching a Survey of Portuguese-American literature in the US?

VF — We now have, fortunately, plenty from which to choose. I would definitely use Luso-American Literature: Writings by Portuguese-Speaking Authors in North America (Moser and Andrade Tosta), Portuguese American Literature, a collection of essays by Reinaldo Francisco Silva, and of course The Gávea-Brown Book of Portuguese American Poetry (Clemente e Monteiro). What a great contribution the work of these academics has made to our cultural and literary canons in the Diaspora, and here in Portugal. Most examples of our best prose and poems are contained within these two anthologies. I would choose some poems and prose represented in these works, and then extended passages from such works as Through a Portugee Gate, the autobiography of Charles Reis Felix, and passages from Never Backward: The Autobiography of Lawrence Oliver (San Diego, California), written in the 70’s and giving us a whole vision of Azorean immigrants in the fishing industries. For the reading of whole novels I would probably assign Saudade by Katherine Vaz, Leaving Pico by Frank X. Gaspar, and Land of Milk and Money by Anthony Barcellos. I would also use prose, poems and even dramatic writings from a first generation of writers, particularly from those belonging to my own generation, those who introduced a kind of late literary modernism and postmodernism into immigrant writings in the Portuguese language, beginning in the 70’s up to today.

MBA — Can you describe a typical day?

VF – Early in the morning to the university, late in the afternoon home again. In between classes, I try to get done anything related to the infernal (as Jorge de Sena used to say) bureaucratic exigencies now made from every teacher in the Western world, leading, of course, to nothing most of the time. Any free minute I have, I read and/or do some writing. This is really a daily routine. I write every day, even if it is just a single line or a paragraph that will then let me “rethink” about it later until it is completed. For the past two years I have only worked on my weekly columns for the Açoriano Oriental (Ponta Delgada) and Portuguese Times (New Bedford), some of these pieces being also published occasionally in the literary page Maré Cheia edited by Diniz Borges in the Portuguese Tribune/Tribuna Portuguesa (Modesto, CA, newspaper), or even for one or another publication in Lisbon. These are short essays I then compile into borderCrossings: leituras transatlânticas, shaping them into what becomes – or I hope they become – my own narrative as a literary and cultural history here and in the Diaspora, including Brazilian literary works pertaining to our historical presence there.

During the last ten years, my personal life has been dedicated to taking care of my wife Adelaide, limiting almost totally my movements, even within the islands. I seldom participate in literary or cultural events, but then I spent a whole lifetime travelling from one conference to another. I have sort of sublimated my present condition — plenty of time to read at home, reflect upon what I read, and then do as much writing as I wish or need to do.

MBA — You spent most of your youth in Orange County, California: what compelled you to return to Portugal, to live?

VF – Love. I fell in love with the woman who would become my wife when I met her at a literary conference, here in São Miguel, in 1990. But then I was professionally ready to return to Portugal, either the continent or the Azores. I had been teaching for fourteen years at a high school in southern California, but also writing regularly for Diário de Notícias, the Lisbon leading daily until the mid-nineties, and also for Azorean and Portuguese-language weeklies in our immigrant communities. I found myself returning frequently, visiting Lisbon and my native Terceira Island.

Everything fell into place when I met Adelaide and we decide to marry. She was my perfect companion for many years, until she got stricken with the disease that is now slowly destroying her. She was an Associate Professor of American Literature at the University of the Azores, and also an essayist, poet and novelist. Adelaide finished her novel Sorriso Por Dentro Da Noite (now being translated into English in the US) shortly after she was diagnosed with Alzheimer’s. Our whole life together had language and literature as the basis for our work, pleasure and passion.

MBA — What do you miss about California?

VF – Space! I miss getting on my car and driving at high speed in the early morning hours through the serpentine (out of LA) and then the flat, mythical California 99 up to Tulare, in the San Joaquin Valley, where most of my family lives. I miss the best bookstores in Orange County or in the LA area, including Westwood where I used to hang out on some Saturday nights, going to film premiers or to a bookstore with huge tables of hard cover remainders. I miss walking through the beautiful campus of my alma mater, California State University, at Fullerton, and sit in the quad in the California spring and summer reading a magazine or simply watching people go by, books under their arms, laughter in their hearts.

Portuguese society is in an extreme depressed state, and we hardly see a way out of this economic and financial mess. The only thought or ray of hope that keeps us going with our lives and professional responsibilities is remembering that Portugal is almost nine hundred years old, and we always survive a maddening State governed by incompetent, corrupt and shamelessly greedy politicians. And I miss the huge cholesterol-filled American breakfast I used to eat by stopping midway on 99, after descending the LA mountains, and right before Bakersfield.

MBA — How often do you return to the US? Do you have family here?

VF – I used to go back every year when Adelaide could still travel, either to visit the family in the San Joaquin Valley and in the LA area, or to participate in literary events on both coasts. Now it’s been more than five years since my last visit. The more I know and experience “Europe” the more America becomes dear to me. I compare the period we’re living through, politically speaking, with the 30’s: America elected a real  social democrat, Franklin D. Roosevelt, and “Europe” elected Hitler, and permitted and then “accepted” the traitorous Vichy regime in France, opposed only by a handful of courageous French in the Resistance; today the US elected Barak Hussein Obama, another great American social democrat, and “Europe” elected that charming lady by the name of Angela Merkel (greatly admired by right-wing Republicans), and my country is “occupied” by a foreign financial and political power called, without any shame or remorse, “The Troika”.

Please don’t ask me why I write “Europe” in quotation marks. I’m not the only one who does. I now dream of having my country back, and a passport that simply states: República Portuguesa/Portuguese Republic. Obviously, it’s not going to happen. Germany wants and demands a new empire, which makes me miss America, especially California, even more; too late at my age and present family circumstances.

MBA — What are your pet peeves as far as things you do not like in writing. Techniques or gimmicks writers use that irritate you? Or maybe genres you personally dislike?

VF – No idiotic proverbs in my writing, ever. I dislike and avoid writers who are always asking what I’m working on, just as measure of their own “greatness”, or trying their insecure ideas on you, pretending humbleness but actually getting free information out of you. I refuse to listen to a writer telling me about “constructing” a situation or character in their work in progress. I no longer get past any second page of deliberately obscure prose. No, I have never and will never read Finnegan’s Wake, and will die just as knowledgeable and happy about literature in general.

I don’t like reading drama, but I adore a seeing a great play. Opera, for me, is the silliest and most ingenuous genre in the arts, all that supposed love, betrayal, abandonment, blood, sweat, tears and murder — in Italian or German, mostly. Poupa-me!

MBA — What are you reading? What’s on your bedside table?

VF — On my bedside table, just a Chinese alarm clock that often fails to go off. My desk here keeps on getting piled up, as with most compulsive readers and writers. At the moment I have to read books that will fit into the thematic line of my borderCrossings: Páginas sobre Açorianidade, by António M. B. Machado Pires; Late Rapturous (poems), by Frank X. Gaspar; The Gávea-Brown Book of Portuguese American Poetry, selected by Alice R. Clemente and George Monteiro; The Face in the Water (poems), by Nancy Vieira Couto; Al-Andalus Rediscovered: Iberia’s New Muslims, by Marvine Howe; American Dreamers: How The Left Changed a Nation, by Michael Kazin; Mazagran: Recordações & outras fantasias, by J. Rentes de Carvalho; Os Malaquias, by Andréa Del Fuego (a Brazilian writer who received the José Saramago Literary Prize in 2011); Exílio, by Marcela Tagliaferri (also Brazilian, and little known in Portugal); Joseph Anton: A Memoir, by Salman Rushdie; the fourth volume of The Paris Review Interviews, a reprint of writers at work from the 50’s to 2008.

MBA — Across the board, there is a lack of exports from Portugal to the US. Portugal has GREAT wines, foods, music and yet most are unknown in the United States. Other small countries seem to have their cultural exports more widely adopted and enjoyed. Why do you think Portugal has been ignored? Hidden?

VF – I believe I have given some tentative answers to some of your previous questions. We have never been part of the American imaginary, or imagination. Their loss, obviously. But you have to remember that we figure in the imagination of some American intellectuals and academics at a higher level. When most American writers think of us, from Mark Twain to John Steinbeck, for example, we’d rather be forgotten: all their prejudices and Anglo-American chauvinism come forth. Again, ignorance is, unfortunately, a universal vice or a widespread condition.

For example, in Innocents Abroad, Twain writes in a passage about visiting the Azores: “The community is eminently Portuguese — that is to say, it is slow, poor, shiftless, sleepy, and lazy.” Even when Barak Obama, in a speech about a year ago, wanted to score some points with the American public, he cried out that “We’re not Portugal.” Well, no, we existed centuries before the United States became a super power, before America, as an organized country, was even “imagined”, and we “connected the world” (as CNN International likes do brag for themselves) way before the pilgrims arrived at Plymouth, and we also demonstrated to the rest of Europe that they would not fall off the water if they sailed in a straight course, and “we” wrote one of the greatest epic poems in European literature (The Lusiads by Luís Vaz de Camões) at least two centuries before those thirteen British colonies organized themselves into a federal state, and we brought spices from the Far East that the English are still trying to figure how to use in their bland “cuisine.”

Yes, we’re just a small country of a little over ten million people, and presently going through some rough waters. But we’re used to them, we’re survivors. We’ve been around for a long time, and will continue to be around for a long time, European Union — or no European Union.

MBA — Can you give us a short quote from something you have written?

VF – From a critical piece (1980) published in The Portuguese Tribune on a book of great poetical prose, Plural Transitivo, by Urbino de San-Payo, an immigrant from northern Portugal, who lived with his wife for many years in Beverly Hills while in the service of some movie barons: “A América tornou-se-lhe, como talvez para a maioria de nós, numa espécie de ‘bela indesejada’, um fruto proibitivo e logo saboroso demais para largar. Parte dele (de nós) morreu cá; parte dele (de nós) nasceu cá. É de toda essa ambiguidade que nascem as presentes crónicas. Está agora a pagar, com paciência e estilo próprio, a sua pena”.

Translation: “America became for him, maybe for most of us, a kind of ‘Undesired Beauty,’ a forbidden fruit, thus too tasty to let go. Part of him (of us) died here; part of him (of us) was born there. It is out of this ambiguity that these chronicles are born. He is now paying, in patience and in his own style, his sentence”.

MBA — What frustrates you with your writing?

VF – Writing has always been a pleasure for me. What frustrates me? The new graphics in most Portuguese periodicals: it’s as if now the text illustrates the pictures, rather than the other way around. Space! Write just a few words, they demand, even if to discuss with readers a great and complex novel, or any other book! Therefore, I feel privileged in writing for Açoriano Oriental, The Portuguese Times and Tribuna Portuguesa — all the space I need within rational limits. I could publish more often in Lisbon, but book reviews or essays are relegated to whatever corner is left from “cultural” news, and favored “personalities” in the arts. I look at The New York Review of Books with much pleasure – here’s a real literary and cultural journal.

MBA — Is there something you are trying to accomplish but haven’t yet?

VF – Write a literary biography of my Azorean generation, both here and in the United States. Write a book on some currents in the criticism and essays of Edmund Wilson.

MBA — Do you think there is such a thing as Portuguese-American or Portuguese-Canadian literature (as a separate canon?). Like, for example, Italian-American literature? If so, what are the “markers” of Portuguese-North American writing?

VF – Yes, I do, but limited to the United States. Portuguese-Canadians are still lagging behind in their writings in which Portuguese ancestral roots would be present. However, we have two great Portuguese-Canadian writers that I am aware of, and I have written on their novels: My Darling Dead Ones (translated into Portuguese as Meus Queridos Mortos) and Bteween the Stilness and the Grove, by Erika Vasconcelos, and Barnacle Love (translated as Terra Nova), by Anthony De Sa. There is an Angolan-born writer, Paulo da Costa, residing in British Columbia, who has a very good book of interrelated short stories, The Scent of a Lie. But a “canon” they do not make, yet.

I do believe, however, that there is now a substantial canon of Portuguese-American literature. One cannot use numbers of books to define a “canon,” but from the 90’s up to today our literary production (of books written by Portuguese-Americans) in the US has been developing at a great pace (thanks also to your generation) and with undeniable quality. Of course, this is always a subjective judgment – as all judgments are — on any critic’s part.

There is now a whole literary corpus which distinguishes itself for having a clear thematic unifying line: the Portuguese experience of being either a son or daughter, or even of a generation further removed from its roots, of immigrants from all parts of Portugal, the Continent or the islands, in America. In addition, all of these writers (some mentioned here, many others not), whether in prose, poetry or in any other form, make multiple artistic callings on their ancestral histories and memories. As for Portuguese-American writing being a separate canon, yes and no.

Most American literature, from its very beginnings, is richly “divided” into a great human or ethnic mosaic: Anglo-Americans, Irish-Americans, Afro-Americans, Hispanic-Americans, Jewish-Americans, Southern Literature, etc. Yet, they, or at least most of them, all fit into the national canon of American literature, as is shown, for example, in The Heath Anthology of American Literature, in which even an Indian-American and award-wining writer, Bharati Mukherjee (who is a friend of Katherine Vaz, let’s appreciate these connections for they are very important) is present. There is no other country in the world that can boast such artistic diversity and richness. Portuguese-American literature has to promote itself to the point where future and “open”, well-informed, national anthologies will include some of our writers. We’ve been much distanced from these cultural objectives, but I firmly believe we’ll get there, despite some of the historical attitudes we’ll have to overcome, mentioned before in our conversation.

MBA — Who are your favorite Portuguese writers? Can you share a significant line or passage and explain its importance?

VF – Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis, Eugénio Lisboa, Onésimo T. Almeida, Urbano Bettencourt, João de Melo, Eduardo Lourenço, Almeida Faria, and many other literary modernists, including a good number of Azorean, Brazilian and, of course, Portuguese-American writers. Camões is a founding father, and one loves him as such, as well as Fernão Mendes Pinto, the first great anti-imperialist European writer. Wish he’d be around for us in these darkened times.

Jorge de Sena, from his great poem “In Crete, With the Minotaur”, in a translation by George Monteiro (In Crete, With the Minotaur and Other Poems):

I shall collect nationalities like shirts that are shed –

One wears them and one throws them away – with all the respect

Due clothes one has worn and which have given good wear.

I am my own homeland. The homeland

I write about is the language into which by chance of generations

I was born.

This is, for me, part of the greatest emigrant/immigrant poem ever written in the Portuguese language. It encapsulates all the themes, all the anxieties suffered, I believe, by all those who, willingly or unwillingly, become strangers in a strange land, when flags and national anthems say very little to their hearts. It is a ferociously anti-nationalist poem, yet patriotic in the best sense of the word: adherence to a language, solidarity with all who become the others anywhere, and yet survive with courage and dignity.

MBA — If I asked you at age 12 what you wanted to be when you grew up, what would you have said?

VF – Underwater archeologist, after having read a book by Jacques Cousteau, whose title I don’t remember, about his underwater explorations of ancient civilizations in the Adriatic Sea. There was just a little problem with my early ambition: I’m terrified of the ocean, and never learned how to swim! I believe I’ve always been a continental posing as an islander.

MBA — Who has been your biggest influence? Or mentor?

VF – Three great professors at California State University, Fullerton: Nancy T. Baden (Portuguese and Brazilian literatures), Michael Holland (American and European literatures), and William Koon (American, particularly Southern, literature). They taught me the essential theorical or hermeneutical approaches to any text, but also gave me the firm idea that great literature is always a portrait not only of an individual and his circumstances – as Ortega y Gasset wrote – but also of a whole society or community. All the rest is wasteful narcissistic gesture that may be fun but inconsequential at all levels.

Then there was my epiphanic discovery of Edmund Wilson in the early 70’s. Again, literature, society and history are the fundamental references of all great prose and poetry. He showed me that clear and concise writing can only come from deep involvement with a text, from an almost intuitive understanding of subtexts and historical undercurrents in any narrative. He seldom wrote on books he didn’t like, rather ignored or dismissed them in private letters, as he did with his friend/nemesis Vladimir Nabokov about Lolita, even though he helped to get it published in America. He was also a master of, let’s say, critical creative writing, using and elevating the good works of others while creating his own narratives on American literature and culture. On the other hand, Wilson was the first great, canonical critic of the twentieth century to dedicate himself to minority cultures and ethnic literatures: Red, Black, Blond and Olive: Studies of Four Civilizations (1956), Apologies to the Iroquois (1960), and even Canadian literature, almost totally ignored in the US when he published O Canada: An American’s Notes on Canadian Culture (1963). We may even include here The Scrolls from the Dead Sea (1959). More than from anybody else, I drew from him the certainty that those “isolated” literatures not only have to be given their due, but that we must: these literatures are the aesthetic and permanent records of other cultures and their existence and contributions to the building of societies, to the sharing of their humanity with all others. He did this after explaining to the American readers the early literary modernism, coming first from Europe (Axel’s Castle: A Study in the Imaginative Literatures of 1870-1930 (1930), and cultivated in America, with New York as the center or heart for invention and literary daring.

MBA — What draws you to literature?

VF – All of the above.

MBA — Is there a tune or music that has affected you?

VF – “The World Over”, by Frank Sinatra, and recently “Saudade,” by Mariza, from her fantastic album Terra. “Adagios” by Albinoni and “The Four Seasons” by Vivaldi always affect my state of mind, help me remember that sadness and happiness are most natural feelings or sentiments shared by all humanity, as dark winter is followed by spring and summer.

MBA — The critic and writer George Monteiro at Brown University states, “It is time for an anthology of Portuguese American poetry. If it cannot be called The Oxford Book of Portuguese American Verse, we propose to call it, with little or no levity, The Gávea-Brown Book of Portuguese American Verse.” What impact do you think this anthology will have?

VF – I have it here in front of me, to read word by word, line by line, including every biographical note of the twenty four poets gathered in its pages. It is one of the greatest and timely contributions to Portuguese-American literature, encompassing various generations, from Emma Lazarus in the nineteenth century to the present. You won’t say it, but I will: your poetry opens the anthology. Congratulations on being so prominently present in such a book.

I also want to take this opportunity to state the following: No one among us has done even a fraction of the work in bringing Portuguese-American literature to the forefront as Professor, essayist and poet George Monteiro. Fortunately, since The Gávea-Brown Book of Portuguese American Poetry was also organized and selected by Alice R. Clemente, his own poetry has been justly included in these pages. His poems in The Coffee Exchange (1982) and in Double Weaver’s Knot (1988) are now part of the canon we’ve been discussing along this conversation.

I can think of no more important and, once again, timely book for all of us – it is now a permanent book of academic reference, pure pleasure as text, setter of standards among future poets. I also appreciate the criteria in putting it together, and I’ll quote from the introduction: “Early on, we determined that our selection of poetry by Portuguese-Americans would be governed by aesthetic rather cultural criteria… While it will include poems on Portuguese-American themes, the major criterion for inclusion is that the poems themselves – regardless of subject matter or theme – be work of the highest aesthetic quality.”

And so it should be. No hiding here behind fabricated identity excuses. Yet, it is also, and rightly so, questions of identity that come forth in these marvelous and competent poems. All literature is memory and identity, confirmation or an exercise in the search for them. Not a single institution either in the US or in Portugal has done as much since the 70’s to promote Portuguese-American writers – and, no, I’m not forgetting anybody or any other institution. George Monteiro and Onésimo T. Almeida started it all, and now with the active collaboration of Professor Alice R. Clemente, secretaries and others, continue to do their work with Gávea-Brown: a Bilingual Journal of Portuguese American Letters and Studies, founded in 1980. Gávea-Brown continues to be the flag publication for Portuguese-American writing — essays, book reviews, fiction, poetry, and any document pertinent to our studies or curiosity in this field.

With the contributions of Tagus Press at UMass, Dartmouth, in publishing or republishing books by Portuguese-American authors of all generations, we are now probably in a much better cultural and literary position than many other ethnic or minority writers.

MBA — What do you think writers can do to enhance communication between North America and Portugal?

VF – Continue to do the things you’re now doing: publishing, going to readings and conferences, coming to Portugal every chance you get, participate, when invited, in writing and discussion programs, such as the summer gathering of Disquiet, in Lisbon. We here in Portugal should organize more literary events for that very purpose throughout the academic year, and of course invite as many Portuguese-American writers as financial support permits. Unfortunately, you know all too well of our current national situation, financial and economic meltdown with no end in sight, despite government propaganda to the contrary.

MBA — Why do you think so few Portuguese writers’ work is translated into English?

VF – Only a very few foreign writers sell well in the US. Without generous institutional financial support nothing can be done about it. Most of our writers, some of the best in contemporary European literature, would quickly end up in the remainder tables. But again, this is also true of many of the best and serious American writers. Our personal collection here in our house, with hundreds of American hard cover books of fiction, poetry and essays of all types and subjects was practically all bought from those tables when Adelaide and I made frequent trips to America.

MBA — Why do you think the immigrant experience can be bitter sweet?

VF – The greatest spiritual and cultural hurt happens when you leave family, friends,

language, and all native references built and cultivated over many generations to restart life in a foreign and distant land. Eventually, the immigrant readjusts and assimilates a new way of being and living, even reinventing his language, creating new families through marriages and births of sons, daughters, and the following generations.

Nevertheless, an immigrant will forever be a divided soul, permanently longing for what has been lost: longing for his/her homeland, and in periodical visits, if they happen, longing for the new county and the acquired costums. But the Portuguese people have made movement from one continent to another a historical way of being in the world, accept for our traditional elite, always steady, rapacious and unjust. Exactly what we are living at this moment. Just in the last few years, over two hundred thousand of our people have emigrated in search of a better life. Not too long ago one of our sickening politicians actually declared in a public event in Brazil that our well-educated and no so well-educated young people should leave what he cynically called the “comfort zone”, that is, their families, friends, language and all the native references I’ve mentioned, while he, no doubt, excusing himself from such ventures, and continuing to suck out of the public treasury.

MBA — Which comes first? The character or the plot?

VF – Character, of course. Plot is really out of fashion, unless you’re reading a political or a crime thriller. I myself am a great fan of Raymond Chandler (The Long Goodbye and The Lady In The Lake), and of Rubem Fonseca (A Grande Arte and Agosto), Brazilian novelist, and one of the best writers of the Portuguese language who rightly combines politics and delinquent crime in all his novels and short stories. In 2003, he received the most prestigious literary prize in the Portuguese-speaking world, Prémio Camões.

MBA — Do you consider yourself a realist or a romantic?

VF – Perhaps a romantic realist? This is what keeps me, and I think most Portuguese, going. We believe in ourselves despite a country that has been searching for its rightful place in the world since the loss of the empire. We bite our lips and dry our tears, but keep going. Anywhere in the world! A few days ago a television program discussed and showed young and older Portuguese people in other countries in Europe, and far away (Australia and Hong Kong, for example). They talked about missing family and friends, but then would smile and say they were alright, and being successful in their various professions or occupations. This is our people, a great people, or no less greater than those of any other nationality or country.

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A breve tradução da citação tirada de Plural Transitivo, de Urbino San-Payo, é da responsabilidade de Elizabeth Figueiredo Kastin.

Onde a terra se acaba

Capa O Sonho Portugês

O João gostava de falar do sonho português e eu confesso que ainda me entusiasmei. Nunca percebi bem o que era ao certo isso do sonho português, mas achei que ele, estando no Governo, devia saber.

Paulo Castilho, O Sonho Português

Vamberto Freitas

O João, de que fala uma das narradoras neste novo romance de Paulo Castilho, O Sonho Português, é um Secretário de Estado no governo do tempo ficcional actual, pertence a um clã degenerado dos arredores de Lisboa, de sobrenome Mendes, e sonha em várias frentes, como muitos da sua geração – ser promovido a Ministro, e receber uma herança de um tio velho, literalmente podre de rico, a morrer no Alentejo, à beira do odiado Alqueva, que aqui também simboliza um novo Portugal sem imaginação e a enterrar por três dinheiros a sua própria beleza e história, latifundiário e proprietário, vamos lá, não de tudo, mas de muito na nossa capital. Rigorosamente mais ninguém, para além desta cómica “família” de sanguessugas — a morar numa chamada Vivenda Pérola, brevemente a ser herdada pelos que dela já se haviam apropriado — na sua visão e entendimento das coisas, não sonha seja com o que for, a não ser sobreviver sem fome, beber um copo a mais, deitar-se numa cama com alguém, lembrando ou não o seu nome na manhã seguinte, atravessar a rua, suponho ainda, sem ser atropelado. Não haverá desafio maior do que um crítico ou recenseador a tentar penetrar a mente de um autor nos momentos que lhe levam a compor uma determinada narrativa, num determinado tempo. Paulo Castilho é um diplomata experiente e vivido, mas é como romancista que desde sempre o reconheço, desde que, ainda imigrado, li o seu Fora de Horas, de fundo americano, e que no ano da sua publicação arrecadaria alguns dos prémios mais prestigiados no nosso país. Como cidadão sei muito bem o que penso da minha terra natal, da sua estrutura sócio-económica desde há séculos inquinada a favor de uns e condenando todos os outros à estafada luta diária, das suas pretensões de sucesso instantâneo imitando ideologias e experimentalismos económicos, em que as novas classes que se apoderaram do Estado simplesmente querem substituir a velha aristocracia a qualquer custo, como sabemos e sentimos na pele, a nossa História mero detalhe, para eles desconhecida e irrelevante. Imagino, só, o que pensa um autor como este, educado também em escolas noutros pontos do globo – e que entre o romance que li no fim da década de 80 e a obra presente, publicou muito mais. Após uma vida a tentar dignificar a nação ante outros, desde Washington a Londres, vive agora de novo, como nós todos, a nossa história cíclica e que parece sem redenção alguma, a trágica caminhada nacional, que foi sempre esta curva entre a euforia de conquistadores e a depressão de esbanjadores, o descalabro quase total no fim da estrada. Todos os personagens de O Sonho Português manifestam uma personalidade, por assim dizer, de estrangeirados no seu próprio espaço natal, a estranheza dos seus dias vazios e sem perspectivas maiores condiz perfeitamente com tudo o resto – a jangada atlântica à deriva, convidando a todas as transgressões que gratifiquem o aqui e agora por parte de cada um dos seus ocupantes. É um romance cheio de ironia subtil. O único personagem com substância humana, com passado, e sobretudo com uma ideia clara das suas origens e de quem é ou foi e ao que veio na vida, é o velho Leonardo, que na sua abastada solidão alentejana vive rodeado de algumas mulheres serventes e de má língua, o mítico padre amigo não perdendo nunca uma refeição à sua mesa, nem o conselho ou o mexerico seguinte. Creio que estamos aqui ante uma paródia não só de como um autor vê e entende o seu país nestes dias de corrosão social absoluta, mas da própria literatura que o antecede – um velho latifundiário lusitano é tão virtuoso ou condenável como o licenciado ou a licenciada a sobreviver de esquemas, e necessariamente a redefinir as regras da ética que orientam a sua existência. Num país que tem um primeiro-ministro atrás de grades e o povo trabalhador a pagar os roubos de banqueiros riquíssimos, um romance como este é esse jogo de espelhos, ante o qual melhor seria ninguém olhar-se.

O Sonho Português está escrito como que em forma de diário, o tempo é o presente, e as entradas estão datadas de 19 de Abril a 16 de Novembro. A família Mendes é constituída por sobrinhos e sobrinhas, e seus filhos e filhas, os restantes são esposas ou namorados e namoradas destes. Residem quase todos na Vivenda Pérola, uma vez mais, numa zona chique e satélite da capital, todos numa existência, no entanto, da mão para a boca, aposentados e a contar o pouco que lhes resta na carteira, mas sempre com a noção de aristocracia anónima e irreconhecida. Tem vários narradores, que nos falam em discurso directo e indirecto – são as histórias de amores e desamores, a procura da sobrevivência na capital, e acima de tudo o início da expectativa que será a morte do tio alentejano, subestimado na sua inteligência e vontades mais íntimas quanto ao estado das suas riquezas e o destino dos seus putativos herdeiros. O tio Leonardo a certa altura convoca alguns dos sobrinhos para a sua casa solarenga em Monsaraz, e dá início a projectos de administração das suas propriedades em Lisboa e noutras partes, e especialmente a uma investigação para saber das causas da morte súbita de um filho, de nome Bruno, que havia partido para Alemanha em tenra idade na companhia da sua divorciada mãe, e havia regressado a Portugal, onde preparava uma tese de mestrado sobre a sua região ancestral, e sugar até não poder mais o seu pai. Dinheiro e drogas levam ao seu previsível fim, mas o seu progenitor finge não saber das causas do seu fim, caído à beira Tejo na margem sul, encarregando dois sobrinhos, Filipe e Beatriz, esta a quem dedica um afecto intenso, de investigar tanto a vida como a obra escrita do mestrando que estava em progresso quando faleceu. Diz que quer proteger a boa memória da família, mas tem algo mais em mente, conhece muito bem o que todos desejam – a sua morte e a herança multi-milionária. Está montada toda a trama do romance, está insinuada a temática – um Portugal atávico, preso às suas fantasias de grandeza parasitária, e uma sucessão de gerações que vão queimando os trilhos de qualquer mudança que nos levaria a outro rumo histórico, a outro futuro. Todos os nossos vícios estão aqui expressos e vividos, toda a nossa descrença na vida colectiva ou nacional, a hipocrisia generalizada marcando todas as palavras ditas, todas acções tomadas, fazendo do inexistente “sonho português” uma caricatura cómica, a safadeza de uns e outros como uma espécie de hino nacional, cuja dramatização é comédia pura, como nos palcos da dramaturgia romana das suas feiras, em que o escravo virava patrão esperto, e o patrão bobo da corte. Por entre tudo e todos, vamos acompanhando os dias e as noites destes imaginados seres sem esperança ou futuro, a não ser a fortuna cobiçada do moribundo alentejano. Visitamos Lisboa nos seus recantos mais sujos e habitados pela crescente marginalidade nas suas ruas, acompanhamos estes homens e mulheres que saltitam de restaurante em restaurante, de quarto em quarto, de cama em cama. Nem sequer os sexo parece trazer qualquer alívio, êxtase, e muito menos redenção destas vidas em limbo, é tudo uma rotina de chatice e desconfiança.

E de repente – diz Filipe, um dos narradores, o mais sensato e intelectualizado – acordei. É isso mesmo. Não apenas a tristeza e a melancolia, mas tudo, a farsa completa que se desenrolava ali à minha volta, a tragicomédia que é a vida disfuncional destes Mendes e da qual, à minha maneira, também faço parte. Somos Portugal. A resposta ali à minha frente. Tão óbvia, custava-me perceber como é que nunca me tinha ocorrido. O meu novo livro está escrito. Falta apenas escolher as palavras.”

O Sonho Português tem uma estrutura que também se assemelha a um policial, mas não é. Na verdade, o leitor é cativado nestas páginas por todos os pormenores das vidas quotidianas destes personagens, pela linguagem limpa dos seus narradores e na qual a metáfora contida leva-nos a repensar o que já sabíamos ou reconhecemos da realidade que serve de referencial ao autor, o desfecho do romance quase de interesse secundário, mas mesmo assim cheio de surpresas, lógicas mas de todo inesperadas. Duas outras qualidades que caracterizam a narrativa – o humor constante, que faz do leitor um cúmplice de certos personagens, alguns conscientes da sua insignificância e vida sem saída, outros perfeitamente sabedores da insinceridade das suas acções ou motivações perante a riqueza que não lhes pertence, ou que lhes pode fugir. A sátira política tem uma longa tradição na nossa literatura, mas nunca nos cansa o riso nervoso e o conforto de sabermos que pouco ou nada mudou entre nós, nenhum leitor se safa de olhar o tal reflexo que preferíamos ser uma ilusão e não o auto-retrato que só a arte nos devolve – sem acusação ou sentença. É como se Eça estivesse entre nós, olhando-nos de soslaio e pensando novas páginas do seu imenso livro que era, é, Portugal.

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Paulo Castilho, O Sonho Português, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015.

Publicado na coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 19 de Junho de 2015.

Bill Cardoso e o seu “The Maltese Sangweech & Other Heroes”*

Capa B Cardoso

Vamberto Freitas

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Ye Gods!, como escreveu frequentemente o grande e sempre controverso Hunter S. Thompson, herói do Jornalismo Gonzo para toda uma geração irrequieta na América, principalmente para a minha a partir dos anos 70, estudantes universitários que éramos nesses tempos e leitores assíduos de revistas da contra-cultura como a Rolling Stone. Mas a exclamação aqui não vai para o autor do já clássico (e objecto de culto) Fear and Loathing in Las Vegas: A Savage Journey to the Heart of the American Dream (1971), mas sim para o seu grande amigo, e de certo modo mentor para muitos outros, Bill Joseph Cardoso, luso-americano nascido em Cambridge, Massachusetts, criado na vizinha Sommerville, cidade do mesmo estado, eventual “residente” algures nos Açores e nas Canárias no princípio dessa mesma década, e depois na Califórnia até ao seu falecimento a 26 de Fevereiro de 2006. Dos pormenores das suas origens ancestrais lusas pouco sabe o seu público leitor; mas sabe-se que era filho, o mais novo de entre três irmãos, de um imigrante português (“born to an aristocratic family in Portugal”, escreveu sobre o seu pai Bryan Marquard do The Boston Globe no seu obituário de Bill Cardoso de 15 de Março de 2006), e de mãe luso-americana, natural de New Bedford. Não, Cardoso (atentem no “s”, e não no “z” de muitos outros luso-americanos) nunca escondeu ser “Portuguese”, muito pelo contrário, como veremos adiante, mas até hoje, nos seus trabalhos publicados, mais não disse, o que se espera venha a acontecer na publicação dos trabalhos póstumos, em que ele ia trabalhando até ser surpreendido pela morte aos 68 anos de idade no seu esconderijo privilegiado de Kelseyville, na Califórnia. A sua carreira, no entanto, foi bem distinta, a certa altura sendo considerado “um deus para a sua geração”. Formou-se em jornalismo na Boston University, e em 1967, depois de passar pelo Valley News de West Lebanon e pelo Concord Monitor, ambos de New Hampshire, ingressou nos quadros do prestigiado The Boston Globe, onde com rapidez viria a ser nomeado “editor” – director – da respectiva Globe Sunday Magazine, páginas que lhe permitiriam muito mais criatividade e subjectividade de jornalista-escritor assim como o poder de convidar outros da mesma estirpe do Novo Jornalismo norte-americano. Pouco depois do seu nome se tornar referência respeitada e apetecida entre algumas das mais influentes revistas da época, Cardoso demitir-se-ia e tornar-se-ia num free lancer, altura em que vem “trabalhar” uns tempos no nosso arquipélago, supõe-se que em escrita-outra. Publicaria depois na Harper’s Weekly, Esquire, Ramparts, Outside, New Times, Playboy, City of San Francisco, entre outras publicações de igual renome e alcance político-intelectual da Nova Esquerda do seu país. Thompson, quando Cardoso ocupou esse seu lugar no The Boston Globe, escreveu a vários amigos, como hoje consta das suas cartas reunidas em Fear and Loathing in America: The Brutal Odyssey of an Outlaw Journalist/The Gonzo Letters, Volume II, 1968-1976, elogiando-o sem reservas algumas, e prevendo que ele depressa tomaria o lugar de director da Esquire, o que, para a felicidade dos seus leitores, suponhamos, nunca viria a acontecer.

Eis o facto mais importante na relação de amizade e profissional entre Bill Cardoso e Hunter S. Thompson, relação essa que duraria uma vida inteira entre duas figuras nada “fáceis”. Os dois conheceram-se em 1968 num autocarro da Imprensa (cujas subsequentes reportagens sobre a campanha do “esquerdista” Eugene McCarthy tornariam o luso-americano conhecido e respeitado em todo o país) que cobria a então dinâmica e muito atribulada campanha presidencial em curso no país. Thompson andava quase sempre só, meia dúzia de cervejas à sua frente, fumando interminavelmente através da sua célebre e longa piteira, óculos escuros escondendo as aventuras da noite anterior. Bill aproximou-se, fumaram uns charros, e simpatizaram de imediato um com o outro. Quando Thompson publica uma das suas mais famosas narrativas em 1970, “The Kentucky Derby is Decadent and Depraved”, Cardoso, ainda no The Boston Globe, escreve-lhe e simplesmente declara que o que ele acabava de publicar era totalmente diferente do que até então se tinha visto adentro do Novo Jornalismo americano, e classifica a dita narrativa (que tinha sido escrita sob o efeito de drogas e álcool) de “Gonzo”, ou seja, Jornalismo Gonzo. Mesmo sem saber o que a palavra significava, Thompson adaptou-a de imediato e passou a auto-descrever a sua obra com esse termo. Ainda hoje é uma palavra que desperta viva discussão, pois Bill Cardoso raramente foi claro a esse respeito, dizendo uma coisa, depois outra. Mas a sua etimologia portuguesa (ou espanhola, italiana, francesa) também tem sido considerada, tema que tenciono retomar num outro ensaio.

Por essa altura, numa carta datada de 10 de Setembro de 1971, Hunter S. Thompson escreve-lhe para os Açores pedindo que ele “arranjasse” maneira de o trazer às ilhas juntamente com a sua namorada para umas férias de Natal, e, por certo, para cerveja sem fim, charros e escandaleira vária, quando alguém os aborrecesse! Thompson, na sua irreprimível e irreverente linguagem de sempre, refere-se às ilhas, que ele desconhecia por completo, como “that filthy place”, e continua delirantemente a sugerir que Cardoso também conspirasse para que essa viagem fosse inteiramente paga pela Rolling Stone. “One possibility – escreve Thompson – is that you might work out – or at least put me onto – some kind of free-ride hookup with wherever airline services that filthy place. What better way to get right smack in the middle of the Hip Map than inviting the Sports Editor of Rolling Stone out for a visit? With one fell stroke, I could make Funchal (que Thompson tencionava visitar de seguida aos Açores) the ‘in’ place to go this year. Maybe you could check out that crowd at the Hilton on this… maybe you can convince Wenner – fundador e director da Rolling Stone – that it’s important for RS to be seen in the Azores…”. É difícil não acreditar que Cardoso tenha nos seus ficheiros alguma coisa ainda por publicar sobre a sua estadia numa ilha açoriana, onde ele, noutra parte, dizia visitar para “descanso espiritual”. Toda a sua geração, aliás, se caracteriza por essa independência radical face aos periódicos em que publicavam e especialmente ante a todos os Poderes públicos na sua sociedade, tendo-lhes permitido a reinvenção da escrita jornalística na língua inglesa, na qual o autor se posiciona com um “eu” de todo subjectivo, e até criando “situações” ou “incidentes” ficcionais para melhor explicar a natureza de um “acontecimento” ou “personagem” da vida real. Quando esta gente aparecia num acontecimento de importância pública, como num congresso político nacional, os jornalistas convencionais como que morriam de inveja (como outros têm escrito nas suas memórias), pela liberdade que um Thompson ou um Cardoso exerciam sem apologias nas suas narrativas – e efectivamente são narrativas, com toda a carga semântica que a palavra carrega em si.

Tenho aqui um brevíssimo resumo de factos imprescindíveis para qualquer apreciação do trabalho de Bill Cardoso, e, sim, reclamá-lo (por que não?) como um dos nossos antecessores lusos consequentes numa posição de grande alcance na escrita contemporânea americana, podendo servir de exemplo a jovens das nossas comunidades que ambicionem a lugares e carreiras semelhantes. Mais do que isso, para mim, será o meu fascínio por o ter num distinto rol de jornalistas-escritores americanos que marcaram e mudaram para sempre a ética e estética no modo como se traz a público os afazeres de toda uma sociedade da nossa época; um dos “nossos”, e que assim se assumia constantemente, mesmo que a sua temática não abordasse, no que já se conhece, a sua experiência vivencial luso-americana. Mas também John dos Passos nunca o faria (de igual modo, considerado uma referência e consciência incontornáveis para a sua geração Modernista nova-iorquina dos anos 20), e nem por isso deixamos hoje de o incluir como “voz” parcialmente “nossa”, tendo uma certa associação luso-americana ido ao ponto de o condecorar pouco antes de falecer, em nome de toda a nossa comunidade nos Estados Unidos.

The Maltese Sangweech & Other Heroes (New York, ATHENEUM, 1984) é a colectânea de “ensaios”, quase todos publicados ao longo dos 70 e abordando uma diversificada gama de temas e acontecimentos, desde os famosos crimes na Chinatown de San Francisco por essa altura à “histórica” luta entre Muhammad Ali e George Foreman no Zaire, acontecimento “desportivo” internacional que mobilizou algumas outras das mais famosas figuras do jornalismo e literatura americana, como Norman Mailer e Joyce Carol Oates. Pelo meio, Bill Cardoso visita outras figuras, cidades e acontecimentos que ficaram bem marcados – “mitificados” – na consciência nacional do seu país, ou pelo menos entre todos os que liam nesses anos de “loucura” e “revolução” a Imprensa de alternativa à esquerda, ou a intelectualmente elitista: “Chowchilla Kidnap”, “Oregon: Sometimes a Great Nation”, “The San Francisco Bosox”, “Singing in the Canaries”, “The Smothers Brothers Get Their Sh-t Together”, entre outras páginas de igual fulgurância narrativa.

A América e os “personagens” que sobressaem aqui estão num constante estado de mutação: o suposto negrume de um passado recente está a dar lugar a uma nova sociedade e a um novo mundo, que ninguém percebia e ninguém sabia para onde ia. “This is the end”, como cantaram apocalipticamente os Doors, à semelhança do estado psíquico destes outros singulares intérpretes literários, entre os quais figurava proeminentemente Bill Cardoso; eram todos de igual inconstância e azedume, mas também celebratórios, como se vivessem de facto os últimos dias da Criação. Tudo valia, e as coisas e pessoas públicas eram chamadas pelo seu nome, sem receios nem medos alguns. Não só se previa o fim do chamado Sonho Americano – clamava-se pela morte de toda uma ideologia que havia levado a América ao Vietname e aos tiros mortíferos da Kent State University, exigia-se o respeito e a dignidade de todos os marginalizados e até então amordaçados na América, os antigos heróis viravam “demónios”, e os novos “demónios”, heróis. Na escrita jornalística, todas as regras eram subvertidas, menos a gramática – o “sujeito” da “reportagem” não era já a figura pública em foco, mas sim o próprio jornalista como representante de uma outra cidadania, livre e de todo contestatária, denunciadora e afirmativa. O estilo desta escrita é tão pessoalizado, que a imitação torna-se impossível, como outros já afirmaram – como na ficção, ficamos a saber muito mais do autor da peça do que dos “acontecimentos” que eles eram pagos para relatarem ao seu público, e descaradamente “trivializavam” num gesto de carnavalização dialógica e ridicularização das poderosas figuras públicas, que mais se serviam do que serviam, fazendo o leitor aproximar-se humanamente dos autores-denunciadores, cidadãos total e absolutamente livres, dando largas aos seus prazeres, ante um Poder corrompido e caduco.

Em The Maltese Sangweech & Other Heroes Bill Cardoso refere-se vezes sem fim, e deixa outros referir, que é “Portuguese” ou “Portigee” (quando menciona como se riam de nós em anedotas os Oakies do Vale de San Joaquim), refere os “Azores” e “Portugal”, fala de Salazar e Caetano e da opressão no nosso país, que ele conheceu directamente desde os anos 60 – mas sempre de passagem e sem juízos de valor. Raramente os seus leitores, uma vez mais, deixam de saber da sua ancestralidade. Cardoso por vezes deixa cair comicamente esse facto da sua vida, ensinando uma vez como se escreve em Português (erradamente, diga-se) “tramacos/tremoços”, “matar o bicho”, explica aos seus amigos o que “cao” quer dizer (do navegador Diogo Cão), “marihuana (“Portuguese spelling”, explica ele), em Zaire puxa dos seus galões como sendo “Portuguese” em certas situações, e noutro ensaio explica o horrendo acidente de aviação numa pista de Tenerife: “ (…) A KLM 747 and a Pan Am 747 had collided on a runway in Tenerife, killing 581 people. The worst air disaster in history. The Pan Am plane had been prevented from landing at Las Palmas because of a bomb scare. (Some lunatic demanding independence for the Azores, Madeira, the Canaries and Cape Verde islands… taken as a confederation of archipelagos, a very weird confection indeed.)” Quantos de nós, açorianos, sabíamos que estávamos “conotados”, pelo menos o nome do nosso arquipélago, com o pior acidente de aviação até àquela data?

Para surpresa de alguns, a Tradição literária e intelectual assumidamente luso-americana vem de longa data até aos nossos dias, felizmente. Os nossos escritores de sucessivas primeiras gerações, os que escreveram e escrevem em Português, um dia ficarão só na memória cultural do seu país de origem, quando muito. Bill Cardoso é “nosso”, e pertence também aos “outros” – serão eles a única memória, verdadeiramente nacional, substancial ou meramente camuflada, num futuro muito próximo, da nossa presença e, diria, distinta afirmação na América do Norte. ▼

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* Bill Cardoso deixou outro livro publicado, Dr. Kurland and Dr. O’Connor: The Story of a Feud (1990).

Este texto faz parte do meu livro de ensaios “Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado do espelho”, Ponta Delgada, Macaronésia Edições, 2010

 

A poesia como memória da nação

Capa Bairro Ocidental Manuel Alegre

pela batida do poema/pela guerra da linguagem/e uma cantada luta de libertação.

Manuel Alegre, Bairro Ocidental

Vamberto Freitas

A melhor poesia e as suas linguagens centram-se predominantemente, para além das formas estruturais que tomem, clássicas ou livres, em certos vectores — nas ideias condicionantes de um tempo e lugar, na condição existencialista do poeta e do seu posicionamento perante os demais à sua volta, como nos exemplos mais canónicos entre nós, ou talvez no Ocidente em geral, combinam as imagens e metáforas que habitam as suas palavras numa comunicação pessoalíssima, tantas vezes indecifrável em primeiras leituras menos atentas, assim como recorrem à grande Tradição em que estão inseridas para um diálogo com o passado, ou como manifesto artístico dirigido ao presente. Em qualquer dos casos, a escrita é, toda ela, um gesto de comunicação colectiva, a palavra como símbolo de sentidos diversos, como signo entendido pelos seus receptores, o leitor como interlocutor, próximo ou distante, partilhando – mas nem sempre, quando lê em tradução — a mesma língua e geografia cultural. O “mapa”, de facto, “não é o território”, não pode ser, como afirmaria o polaco-americano Alfred Korzybsky, intelectual e estudioso de questões ligadas à semântica, avisando-nos sobre a incapacidade, a impossibilidade, a seu ver, das linguagens transmitirem a fundo a “realidade”, o interior do mundo e dos seres nele situados. Cada um recebe e interpreta um texto, um poema, conforme a sua própria experiência de vida, capacidade de reflexão, e/ou erudição livresca adentro de cânone literário nacional e transnacional, ou mesmo regional, comunitário. A questão identitária de cada um de nós – e a que ninguém poderá fugir, mesmo num suposto acto de auto-reinvenção, voluntária ou “forçada” por circunstâncias como a emigração, ou um exílio de outra natureza — envolve também todo esse saber adquirido, para além de uma aprendizagem normativa de convivência no espaço ou torrão natal. Foi por esta perspectiva que li a poesia mais recente de Manuel Alegre, Bairro Ocidental, uma sequência dividida em três partes, cada uma delas significando a polissemia de linguagens, a “vivência” nacional em estado de emergência e em obediência a poderes-outros, o percurso do poeta e a sua oposição perante tal condição de vida, e, necessariamente, lembrando em sucessivos versos a história recorrente do nosso país, como Estado e como “Nação que foi Europa antes de Europa o ser”. A sua obra tem essa continuidade desde o início, cada conjunto de poemas em diálogo entre si e com outros poetas que o antecederam, todos eles regressando consistentemente aos símbolos e momentos dramáticos da longa caminhada do país, agora reduzido a um subjugado “bairro ocidental”, cada grande voz dos séculos passados como que convocada para o recital aberto e acusatório. De Camões a Pessoa, reconhecemo-nos de imediato nesse chamamento da sua arte, em que à beleza da palavra sonora e significante se junta a lamentação ou o grito de constatação – de protesto – pela tragédia multi-secular que nos coube. Com Manuel Alegre, no entanto, como em Fernando Pessoa da Mensagem, suponho, sobressai a recusa de aceitar o chão-pátrio caído, de novo aprisionado por outras forças, por outra falsa “essencialidade” histórica, que outrora rejeitara no marxismo para agora advogá-la nos seus desígnios bolsistas e de agiotagem (aliás, palavra também usada num destes poemas) pura. Bairro Ocidental é o regresso ou a continuação da Praça da Canção ante a nebulosidade de um presente opressivo, a vida de um dos mais antigos povos da Europa reduzida a produtores de riqueza quase exclusivamente para outros.

O destaque dado a duas estrofes do poema “Pátria Minha” na contracapa de Bairro Ocidental não vai passar despercebido a nenhum leitor. O jogo de palavras e metáforas nesse terceiro poema do livro, que se segue a um outro intitulado “A Arte de Pontaria”, afirma desde logo o que poderemos deduzir ser a intenção do poeta – a clareza desses versos de denúncia e rejeição de tudo o que nos trivializa e menospreza, através de acções ou da própria retórica vinda de poderes agora perfeitamente identificados. Bairro Ocidental dirige-se a um povo cercado, e que parece já sem voz, com a excepção de uma Cassandra lusa que, noutro poema, clamava por justiça e dignidade/ouvissem ou não ouvissem ela era a sibila/e apontava o cavalo dentro da cidade. Os seus alvos, uma vez mais, têm agora um rosto e uma geografia, chamam-se a Troika juntamente com outros servidores domésticos obedecendo às ordens de uma “Eurolândia”, onde tudo é permitido/bruxela-se um país berlina-se outro… Bem sei que é sempre questionável reproduzir aqui versos soltos, tirados de poemas que contêm em si quase sempre outros versos que introduzem não tanto ambiguidade, mas sim significados múltiplos, e mesmo na força das suas linguagens militantes nunca perdem a sua subtileza linguística, nem o prazer da sua rítmica e musicalidade. A poesia de e para Manuel Alegre é para ser lida, mas ainda mais, creio, para ser dita, teatralizada. Só que a abrangência dos referenciais literários e históricos como ponto de partida para a recriação do nosso presente é vasta e rica, como num grande e colorido painel de sinais a descobrir e a interpretar. A imagem predominante saída da leitura integral desta poesia é a de um país que vem de um passado de grandes feitos e heroicidades, de epopeias, trágicas é certo, mas agora caído num labirinto continental demasiadamente forte e apostado em fazer prevalecer o que, nas suas fortalezas financeiras, mais ou menos escondidas, decidiu ser o futuro para outros povos na sua vizinhança — na “periferia”, como dizem — que pouco conhecem ou valorizam, o seu chauvinismo generalizado sendo o que sempre foi. Por outras palavras, é o regresso de um imperialismo repensado, o imperialismo interno, mas nada menos devorador após a retirada forçada e fim das pilhagens seculares noutros continentes e entre outros povos. Estamos reduzidos a cifrões e a orçamentos, a “equilíbrios” devastadores, penalizadores, ao contrário do que tenta fazer passar a imagem de homens “de fato e gravata, pasta na mão e de falas mansas”, a rapinagem disfarçada de “economia” e “ajustamento financeiro”. A palavra “pátria” é de novo invocada pelo poeta, sem apologia, a palavra que tentam classificar como sendo anacrónica e sem sentido numa era supostamente “globalizada”, e em que de facto as bandeiras começam a sinalizar a cor e o desenho do dinheiro, e não a história ou dignidade soberana e livre de um povo – entre nós e o futuro há arame farpado…/Entre nós e amanhã há uma taxa de juro/ uma empresa de rating Bruxelas Berlim/entre hoje e o futuro há outra vez um muro/resgate é a palavra que nos diz/tens de explodir o não dentro do sim/não te feches em torres de marfim/o poema tem de ser o teu país. Suponho que as imagens aqui estampadas (“arame farpado” e “muro”) não precisam de explicações a ninguém, quanto a alusões directas a uma história continental recente, com muitas testemunhas ainda vivas. Poderiam dizer que sofremos hoje o mesmo que impusemos a outros durante alguns séculos. Só que toda a obra do poeta foi sempre também a voz da anti-epopeia, da resistência aos tiranos de casa, até aos nossos dias finais em África, pagando como poucos o alto preço do exílio forçado, a instabilidade dos dias e dos anos, a dureza de se ser involuntariamente o outro, a incerteza do regresso, o desejo mais profundamente humano, como atesta a mítica de praticamente toda a literatura da civilização a que pertencemos.

Esta longa resistência do poeta e da sua da obra poderão ter outra forma, outros contextos e necessariamente outras linguagens, mas permanece o que também poderíamos considerar um dos seus outros temas mais constantes, e que atravessa toda a sua escrita, em qualquer forma ou género – a dádiva de se estar vivo e presente entre os seus, a reafirmação do direito sagrado à esperança, a crença inabalável no amor e na generosidade. O acto da escrita, já se sabe, é exactamente isso, a vontade de dialogar com o outro, a solidariedade da vida em comunidade. Muitos dos poemas de Manuel Alegre regressam sempre ao outro lado da vida – a aproximação a quem completa as nossas caminhadas de descoberta e felicidade. “Paris 64”, a cidade e o ano do início do seu longo combate aos opressores do seu e nosso país: na solidão absoluta do exílio irremediável/no desamparo das estações de metro à noite/contra a adversidade do Mundo/sem lugar/e mesmo assim/apesar de tudo e contra tudo/amar.

É o regresso da poesia como resistência. É o resgate, afinal, de que mais precisamos neste momento – o da memória, a recusa do esquecimento de quem e como somos. Bairro Ocidental. A Europa antes de ela ser.

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Manuel Alegre, Bairro Ocidental, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 12 de Julho, 2015.

SOBRE “IN THE PRESENCE OF SNAKES”, de David Oliveira

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Vamberto Freitas

For Vanessa

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Se a literatura também nos leva eventualmente a um melhor entendimento de nós próprios, do nosso tempo e do nosso lugar, a presença entre nós do poeta luso-americano David Oliveira é-nos já (ou deveria ser) uma outra referência de beleza e “verdade”. Nascido na pequena cidade de Hanford no Vale de San Joaquim (e antigo aluno do grande poeta Philip Levine, que leccionou na California State University, em Fresno), o poeta vive actualmente em Phnom Penh (Camboja), tendo residido durante muitos anos em Santa Bárbara, a cidade onde também viveu, leccionou e escreveu durante muitos anos Jorge de Sena, e cujo campus da California University alberga desde há muito o importante Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena, dirigido durante muitos anos por outro poeta português, João Camilo. Nem todas as geografias “distantes” (quando vistas aqui das “margens” atlânticas) nos são estranhas ou desligadas das nossas próprias tradições e actualidade cultural e criativa. David Oliveira é um dos directores (entre outras actividades editoriais) da prestigiada revista de poesia Solo, e, segundo me consta, publica aqui e ali noutros periódicos e antologias. Em 2000, fez sair In The Presence of Snakes, tendo ainda no ano seguinte participado activamente (com a leitura dalguns dos poemas do mesmo livro) no Colóquio da Yale University, “Portuguese-American Literature: The First One-Hundred Years”. A poesia de David Oliveira foi, para mim a partir desse convívio, um dos mais gratificantes momentos com a nossa literatura diaspórica em língua inglesa. Na altura falei muito pouco com ele, e nunca mais o encontrei ou com ele comuniquei por outras vias, mas da sua presença em Yale deduzi então que se identificava inteiramente com esse outro mundo da sua ancestralidade, e que não iria desdenhar este meu chamamento da sua pessoa e obra ao rol de escritores e poetas que, em inglês e na América do Norte, estão a construir todo um imaginário literário e cultural também muito nosso.

Antes de mais, devo dizer que o Vale de San Joaquim é para mim uma das mais íntimas e significantes geografias. Para além de ser essa mítica terra da imigração açoriana na América do Norte, é lá onde desde há muito vive praticamente toda a minha família imediata, incluindo a minha filha, Vanessa (precisamente na cidade natal do poeta aqui em foco). Vivi lá pouco mais de um ano, mas era para o Vale que eu viajava a alta velocidade quando sentia a solidão das grandes áreas de Orange County e de Los Angeles, onde estudei, vivi, e trabalhei durante mais de vinte anos. Ainda hoje quando regresso anualmente aos Estados Unidos, raramente me aventuro para fora dos meus e dessas pequenas cidades do Vale onde residem. Se um dia (possibilidade muitíssimo remota) eu voltasse a viver na América, não tenho a mínima dúvida que seria na companhia da minha gente, quase todos eles os meus significant others, nesse outro “território do coração” onde também estão enterrados, como no título do romance da luso-canadiana Erika de Vasconcelos, alguns dos “meus queridos mortos”. Por outras palavras, ou como escreve muito mais artística e eloquentemente David Oliveira no seu poema intitulado exactamente “San Joaquim”: it is your good luck/to always be in a place where things grow. São estes, bem sei, os sentimentalismos das minhas mais comoventes memórias, mas desde que fiz cinquenta anos de idade deixei de pedir desculpa, a mim próprio e aos outros, por muita coisa.

In the Presence of Snakes é feito de uma sequência de poemas admiráveis a todos os níveis linguísticos e imagísticos. Na simplicidade de linguagens que escondem os mais profundos abalos do coração e de um quotidiano de encontros e desencontros, de gente e coisas vistas ao longe e muito de perto, David Oliveira intercala o que parece ser pura autobiografia (à boa maneira do confessionalismo poético anglo-saxónico) com os chamamentos de histórias familiares e de uma “mítica” do grupo a que pertencem por nascença, e que lhe foram transmitidos oral e comoventemente por pais e avós. Recria assim todo um mundo de afectos, gostos e perplexidades. Alguns outros escritores luso-americanos já nos habituaram à dualidade da sua condição existencialista, em que religiosidade e ancestralidade imigrante são outros dois grandes referenciais de toda a sua experiência; alguns deles leram os nossos escritores e poetas canónicos, Fernando Pessoa figurando quase sempre como ponto de partida (Katherine Vaz e Frank X. Gaspar, por exemplo) para a sua existência dupla entre-mundos, tão diferentes como o português e o norte-americano, mas tão apaixonadamente vividos e memorializados. Na poesia de David Oliveira, essas nossas referências literárias poderão não estar presentes, mas povoam os seus poemas, por sua vez, todos os que, encerrados nos ranchos californianos, lhe iam transmitindo todo um modo de ser e estar que para sempre serviu como guião-de-vida fundamental. As sequências do poema “Stations of the Cross” que abre In The Presence of Snakes são seguidas dos não menos maravilhosos “No Vinho a Verdade”, o já referido “San Joaquim” e “In the Presence of Snakes”, entre mais um punhado deles. Em quase todos estes poemas está presente a figura “do avô” açoriano (da Terceira), herói e sábio que, na companhia de outros, (re)construiu uma nova “pátria”, uma vez mais, entre-mundos-outros. A memória dessa fecunda ruralidade junta-se ao cosmopolitismo descomplexado de David Oliveira, agora em errâncias de múltiplas descobertas que nunca excluem os retornos aos seus e aos tempos perdidos. Trata-se de uma poesia de rítmica fulgurante, de invocações (celebrações, melhor dito) constantes à sensualidade do corpo e da vida, de outros modos ainda e sempre repartida, numa luta intelectual e artística contra a passagem do tempo e o desfasamento de um presente sempre incerto, frequentemente (inevitavelmente) alienante. De “No Vinho a Verdade”, no qual o avô lhe oferece o seu primeiro copo (“Wine always tastes like this./In time, we get used to it.”), o poeta regressa à sua memória na última estrofe do memorável “In the Presence of Snakes”, que dá o título ao livro:

How could I have known

I would remember you

in the breath of brandy and coffee?

I always go to bed now

turning on the radio, listening

to the voices

for your exasperated accent

to talk me to sleep

with the lives of the saints,

with just one more story

that can never be enough.

I speak your name in the presence of snakes

and we stand together again,

our bodies taking the temperature of the air

as easily as they take

the temperature of the ground.

We look one more time at a red sun

over a neighbor’s borrowed field,

marking the exact moment we forget to watch,

neither knowing how any of us

move through life

on our delicate stomachs,

and our good intentions,

our invisible feet.

Falta-me só dizer aqui da fina ironia noutros poemas deste livro, e da ternura em quase todos eles. David Oliveira demonstra aqui ser mais um herdeiro autêntico da melhor poesia, digamos, “vivencial” e, simultaneamente, erudita da tradição norte-americana desde Whitman e Eliot até aos melhores dos nossos dias. Diga-se ainda, enfaticamente, que o autor de In the Presence of Snakes passa também a pertencer inteiramente ao espólio e à memória criativa da nossa Diáspora. Por minha parte, agradeço-lhe comovidamente. ∆

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David Oliveira, In the Presence of Snakes, Santa Barbara, Brandenburg Press, 2000.

Ensaio incluído no meu livro Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado do espelho, Ponta Delgada, Macaronésia Edições, 2010.

Lembrar o passado numa sociedade em transição

Capa Memórias e Reflexões

Uma vida demasiado planeada é uma vida ‘fechada’… e uma ilusão. A cada curva do caminho nova paisagem, a cada dificuldade uma solução.

Machado Pires, Memórias e Reflexões

Vamberto Freitas

Memórias e Reflexões, de Machado Pires. que acaba de ser publicado, é um conjunto de ensaios e outros textos mais curtos, do género a que se refere o próprio título do livro, e, para mim, não totalmente inesperado vindo de quem vem. Combinam todos eles a forma a que o autor já nos tinha dado noutros escritos, simultaneamente o rigor académico e uma voz na primeira pessoa, as linguagens do estudioso da literatura e da história da cultura portuguesas lado a lado com as do humanista, as do cidadão que não se retrai perante a problemática de uma sociedade em mutação global, por vezes de grande violência psicológica para muitos nós, transformações radicais que, enquanto acontecem, são a fonte de insegurança generalizada a vários níveis e de contestação por vários meios. Se me pedissem para resumir a pessoa de Machado Pires, empregaria, sem qualquer hesitação, duas palavras: erudição e ética, o saber como fonte transmissível a outros, e não só como meio de ascensão carreirista ou social, mas sim como referencial essencial à vida de cada um e de todos nós, ou pelo menos às vidas com a responsabilidade de representar e dirigir os destinos de um povo, de uma comunidade. Pode Machado Pires ter vindo de uma geração universitária e literária que marcou o pensamento nacional durante quase todo o século passado português, quando a cultura era ainda considerada a fonte primeira do bem estar e equilíbrio de uma sociedade, a fonte principal da nossa memória e confirmação da nossa identidade ante os outros, mas os dias em que nos escreve livros como este devem ser-lhe — como o serão para muitos outros – “irreconhecíveis”, a retórica pública parecendo radicalmente axiomática dos supostos novos “valores”, nos quais ele não se revê, nem se poderia rever. Se os rumos sócio-políticos actuais nos levam ou não a um futuro que ainda nem concebemos, ou sequer imaginamos, só os deuses o saberão. Memórias e reflexões como estas não são assim tão comuns entre nós, mas deveriam ser. Não será nunca o escritor fechado na sua torre de marfim que justifica este gesto – é o sentido do dever perante os outros, particularmente como fonte informação cultural privilegiada, e sobretudo pelo pensamento que se grava para sempre em benefício das gerações vindouras, o fio de continuidade nas nossas vidas colectivas, o laço que une as gerações e lhes dá um sentido de pertença num mundo que, ideologicamente, se anuncia agora “globalizado”, e no qual a virtude maior é a mera sobrevivência, quando não a sujeição, dos povos menos ricos ou poderosos.

Memórias e Reflexões contém textos que recuam até à infância do seu autor em Angra do Heroísmo, levam-nos aos anos da sua formação em Estudos Portugueses na Universidade de Lisboa, tendo como centro o seu regresso às ilhas aquando da fundação da Universidade dos Açores, em 1976, passando serenamente, sempre, por considerações sobre o 25 de Abril de 1974, e a natureza do regime que o antecedeu e seguiu, terminando com ensaios de fôlego sobre literatura e sociedade, que, de certo modo, são o resumo de toda uma vida de estudo, docência e intervenção na instituição que ajudou a criar, e depois a desenvolver até às suas potencialidades no vasto campo das línguas e literaturas modernas, acreditando desde sempre que só um enquadramento da academia açoriana no todo nacional justificaria e legitimaria o ensino superior na nossa terra, tendo em conta os reduzidos números de uma população dispersa por nove ilhas, distantes umas das outras. Quanto a estas questões, e a outras mais envolvendo a universidade açoriana, deixo para quem de dentro conhece a sua dinâmica direcional, ou nela participa. No que a este tema concerne, direi só que um dos capítulos mais curiosos deste livro trata do incêndio da Reitoria, em 1989, ainda hoje um mistério (foi fogo posto, acto criminoso, ou deficiência de instalações eléctricas?), ao que parece, para todos, inclusive para Machado Pires. A história das raízes e a subsequente política regional e nacional que levou à criação da academia açoriana é e será sempre de superior interesse para qualquer cidadão minimamente consciente do seu lugar no país que é o nosso. De resto, Machado Pires relembra aqui alguns dos seus colegas e amigos mais chegados, como José Martins Garcia, falecido em 2002, grande ficcionista, poeta e ensaísta, que durante os últimos de vida leccionou Literatura Açoriana e Teoria da Literatura na nossa universidade, e a quem o autor chama aqui “um intelectual em estado puro”. Da generosidade, pessoal e institucional, de um e outro, já sabia eu há muitos anos, mas foi-me gratificante reler aqui o que se passava e se passou durante os dias cruciais do nosso salto de uma sociedade ainda quase totalmente ruralizada para uma modernidade tardia, mas agora sólida, como resultado destas e doutras movimentações históricas, vontades políticas, científicas e culturais. Estaríamos todos numa região bem diferente se estes projectos não tivessem sido pensados e concretizados no tempo em que foram. Algumas destas questões e ideias, no que ainda se refere ao ensino superior em Portugal, e não só, assim como o seu papel na consolidação e desenvolvimento das sociedades, já haviam sido abordadas por Machado Pires em Universidade, Humanismo e Tecnologia, de 1994.

Este posicionamento, por assim dizer, académico e intelectual de Machado Pires fica ainda mais reforçado com o seu regresso a temas antigos, como açorianidade e portugalidade. Devo relembrar a todos, porque isso leva-nos a compreender melhor algumas das abordagens do autor referentes a estas questões identitárias, que ele, para além de conterrâneo, foi assistente de Vitorino Nemésio na faculdade durante os anos da sua formação em Lisboa, tendo convivido e sido amigo do autor de Mau Tempo no Canal. Se é sempre a partir de Camões e Fernando Pessoa que Machado Pires parte para o seu entendimento de se ser português, nas ilhas ou em qualquer parte do nosso território nacional, o saber clássico e a poetização da portugalidade tornam-se precisamente um dos pontos de partida para as suas outras reflexões, mais próximas de casa é da poesia de Roberto de Mesquita a Vitorino Nemésio que ele desenvolve desde sempre os seus próprios conceitos de açorianidade, recorrendo à vasta obra do autor terceirense, e nunca esquecendo os modos de vida fluidos e diversos dos açorianos no além fronteiras, quer na América do Norte, quer no Brasil, com especial incidência em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde o resgate das raízes açóricas são desde há muito uma das constantes intelectuais e literárias de várias gerações a sul do equador. Tudo na vida do autor o leva a nunca esquecer que um português das ilhas, consciente da diferença na unidade nacional, perfeitamente conhecedor da cultura multidimensionada e diversificada de um pequeno país como o nosso, aonde, escreveria Fernando Pessoa, se nasce para depois se morrer no mundo – ou, também poderíamos dizer, aonde se morre, para das cinzas renascer em quase toda parte. A literatura, como reflexo da sociedade e testemunha das suas raízes, é para Machado Pires a justificação primeira de toda uma vida a ela dedicada. Para além das teorias literárias pós-modernas, muitas delas mal digeridas, e agora colocadas de parte por muitos outros, é a erudição e a capacidade hermenêutica de cada estudioso que nos levam à possibilidade de sabermos quem somos e de onde viemos.

A Literatura Açoriana – escreve ele com toda a clareza e saber – deve à sua componente insular grande parte da sua especificidade. O mar é o seu ‘condimento épico’, porque isola, condiciona quer a interioridade, quer o desejo de evasão nem sempre conseguido. Costumo considerar um dos pilares (em tempo e em qualidade) de Literatura de significação Açoriana as Almas Cativas de Roberto de Mesquita, não só pela qualidade literária de bom simbolista, mas também pela captação de uma ‘alma das coisas’, de um pampsiquismo dolente que é muito destas ilhas e muito da visão do autor. As ilhas condicionam a interioridade e a contemplação, sobretudo enquanto varandas do mar, enquanto vizinhança de outras ilhas, com mar sempre pelo meio”.

Memórias e Reflexões, diga-se por fim, é muito mais do que o que aqui deixei dito, ou interpretado. Há nesta prosa autobiográfica e crítica de Machado Pires uma certa melancolia ante os dias presentes, projectos estancados, políticas e ideologias que têm na insegurança e incertezas generalizadas da nossa sociedade um dos seus triunfos e, talvez, legitimação por meios que não o do consenso ou o do bom senso. Titulos como “A nova decadência”, e uma contundente “Carta ao Primeiro Ministro” são exemplos do que acabo de afirmar. Poderão ser também a manifestação de uma vida, a de Machado Pires, que não foi nem está fechada, o professor e o escritor-ensaísta que nunca deixa, ou não quer deixar – nem deve deixar – de intervir na vida da sua sociedade, no diálogo sempre em curso sobre o nosso passado, presente e futuro

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Machado Pires, Memórias Reflexões, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2015.

*Publicado na minha coluna “BorderCrossings”, do Açoriano Oriental, 5 de Junho de 2015.