Lembrar o passado numa sociedade em transição

Capa Memórias e Reflexões

Uma vida demasiado planeada é uma vida ‘fechada’… e uma ilusão. A cada curva do caminho nova paisagem, a cada dificuldade uma solução.

Machado Pires, Memórias e Reflexões

Vamberto Freitas

Memórias e Reflexões, de Machado Pires. que acaba de ser publicado, é um conjunto de ensaios e outros textos mais curtos, do género a que se refere o próprio título do livro, e, para mim, não totalmente inesperado vindo de quem vem. Combinam todos eles a forma a que o autor já nos tinha dado noutros escritos, simultaneamente o rigor académico e uma voz na primeira pessoa, as linguagens do estudioso da literatura e da história da cultura portuguesas lado a lado com as do humanista, as do cidadão que não se retrai perante a problemática de uma sociedade em mutação global, por vezes de grande violência psicológica para muitos nós, transformações radicais que, enquanto acontecem, são a fonte de insegurança generalizada a vários níveis e de contestação por vários meios. Se me pedissem para resumir a pessoa de Machado Pires, empregaria, sem qualquer hesitação, duas palavras: erudição e ética, o saber como fonte transmissível a outros, e não só como meio de ascensão carreirista ou social, mas sim como referencial essencial à vida de cada um e de todos nós, ou pelo menos às vidas com a responsabilidade de representar e dirigir os destinos de um povo, de uma comunidade. Pode Machado Pires ter vindo de uma geração universitária e literária que marcou o pensamento nacional durante quase todo o século passado português, quando a cultura era ainda considerada a fonte primeira do bem estar e equilíbrio de uma sociedade, a fonte principal da nossa memória e confirmação da nossa identidade ante os outros, mas os dias em que nos escreve livros como este devem ser-lhe — como o serão para muitos outros – “irreconhecíveis”, a retórica pública parecendo radicalmente axiomática dos supostos novos “valores”, nos quais ele não se revê, nem se poderia rever. Se os rumos sócio-políticos actuais nos levam ou não a um futuro que ainda nem concebemos, ou sequer imaginamos, só os deuses o saberão. Memórias e reflexões como estas não são assim tão comuns entre nós, mas deveriam ser. Não será nunca o escritor fechado na sua torre de marfim que justifica este gesto – é o sentido do dever perante os outros, particularmente como fonte informação cultural privilegiada, e sobretudo pelo pensamento que se grava para sempre em benefício das gerações vindouras, o fio de continuidade nas nossas vidas colectivas, o laço que une as gerações e lhes dá um sentido de pertença num mundo que, ideologicamente, se anuncia agora “globalizado”, e no qual a virtude maior é a mera sobrevivência, quando não a sujeição, dos povos menos ricos ou poderosos.

Memórias e Reflexões contém textos que recuam até à infância do seu autor em Angra do Heroísmo, levam-nos aos anos da sua formação em Estudos Portugueses na Universidade de Lisboa, tendo como centro o seu regresso às ilhas aquando da fundação da Universidade dos Açores, em 1976, passando serenamente, sempre, por considerações sobre o 25 de Abril de 1974, e a natureza do regime que o antecedeu e seguiu, terminando com ensaios de fôlego sobre literatura e sociedade, que, de certo modo, são o resumo de toda uma vida de estudo, docência e intervenção na instituição que ajudou a criar, e depois a desenvolver até às suas potencialidades no vasto campo das línguas e literaturas modernas, acreditando desde sempre que só um enquadramento da academia açoriana no todo nacional justificaria e legitimaria o ensino superior na nossa terra, tendo em conta os reduzidos números de uma população dispersa por nove ilhas, distantes umas das outras. Quanto a estas questões, e a outras mais envolvendo a universidade açoriana, deixo para quem de dentro conhece a sua dinâmica direcional, ou nela participa. No que a este tema concerne, direi só que um dos capítulos mais curiosos deste livro trata do incêndio da Reitoria, em 1989, ainda hoje um mistério (foi fogo posto, acto criminoso, ou deficiência de instalações eléctricas?), ao que parece, para todos, inclusive para Machado Pires. A história das raízes e a subsequente política regional e nacional que levou à criação da academia açoriana é e será sempre de superior interesse para qualquer cidadão minimamente consciente do seu lugar no país que é o nosso. De resto, Machado Pires relembra aqui alguns dos seus colegas e amigos mais chegados, como José Martins Garcia, falecido em 2002, grande ficcionista, poeta e ensaísta, que durante os últimos de vida leccionou Literatura Açoriana e Teoria da Literatura na nossa universidade, e a quem o autor chama aqui “um intelectual em estado puro”. Da generosidade, pessoal e institucional, de um e outro, já sabia eu há muitos anos, mas foi-me gratificante reler aqui o que se passava e se passou durante os dias cruciais do nosso salto de uma sociedade ainda quase totalmente ruralizada para uma modernidade tardia, mas agora sólida, como resultado destas e doutras movimentações históricas, vontades políticas, científicas e culturais. Estaríamos todos numa região bem diferente se estes projectos não tivessem sido pensados e concretizados no tempo em que foram. Algumas destas questões e ideias, no que ainda se refere ao ensino superior em Portugal, e não só, assim como o seu papel na consolidação e desenvolvimento das sociedades, já haviam sido abordadas por Machado Pires em Universidade, Humanismo e Tecnologia, de 1994.

Este posicionamento, por assim dizer, académico e intelectual de Machado Pires fica ainda mais reforçado com o seu regresso a temas antigos, como açorianidade e portugalidade. Devo relembrar a todos, porque isso leva-nos a compreender melhor algumas das abordagens do autor referentes a estas questões identitárias, que ele, para além de conterrâneo, foi assistente de Vitorino Nemésio na faculdade durante os anos da sua formação em Lisboa, tendo convivido e sido amigo do autor de Mau Tempo no Canal. Se é sempre a partir de Camões e Fernando Pessoa que Machado Pires parte para o seu entendimento de se ser português, nas ilhas ou em qualquer parte do nosso território nacional, o saber clássico e a poetização da portugalidade tornam-se precisamente um dos pontos de partida para as suas outras reflexões, mais próximas de casa é da poesia de Roberto de Mesquita a Vitorino Nemésio que ele desenvolve desde sempre os seus próprios conceitos de açorianidade, recorrendo à vasta obra do autor terceirense, e nunca esquecendo os modos de vida fluidos e diversos dos açorianos no além fronteiras, quer na América do Norte, quer no Brasil, com especial incidência em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde o resgate das raízes açóricas são desde há muito uma das constantes intelectuais e literárias de várias gerações a sul do equador. Tudo na vida do autor o leva a nunca esquecer que um português das ilhas, consciente da diferença na unidade nacional, perfeitamente conhecedor da cultura multidimensionada e diversificada de um pequeno país como o nosso, aonde, escreveria Fernando Pessoa, se nasce para depois se morrer no mundo – ou, também poderíamos dizer, aonde se morre, para das cinzas renascer em quase toda parte. A literatura, como reflexo da sociedade e testemunha das suas raízes, é para Machado Pires a justificação primeira de toda uma vida a ela dedicada. Para além das teorias literárias pós-modernas, muitas delas mal digeridas, e agora colocadas de parte por muitos outros, é a erudição e a capacidade hermenêutica de cada estudioso que nos levam à possibilidade de sabermos quem somos e de onde viemos.

A Literatura Açoriana – escreve ele com toda a clareza e saber – deve à sua componente insular grande parte da sua especificidade. O mar é o seu ‘condimento épico’, porque isola, condiciona quer a interioridade, quer o desejo de evasão nem sempre conseguido. Costumo considerar um dos pilares (em tempo e em qualidade) de Literatura de significação Açoriana as Almas Cativas de Roberto de Mesquita, não só pela qualidade literária de bom simbolista, mas também pela captação de uma ‘alma das coisas’, de um pampsiquismo dolente que é muito destas ilhas e muito da visão do autor. As ilhas condicionam a interioridade e a contemplação, sobretudo enquanto varandas do mar, enquanto vizinhança de outras ilhas, com mar sempre pelo meio”.

Memórias e Reflexões, diga-se por fim, é muito mais do que o que aqui deixei dito, ou interpretado. Há nesta prosa autobiográfica e crítica de Machado Pires uma certa melancolia ante os dias presentes, projectos estancados, políticas e ideologias que têm na insegurança e incertezas generalizadas da nossa sociedade um dos seus triunfos e, talvez, legitimação por meios que não o do consenso ou o do bom senso. Titulos como “A nova decadência”, e uma contundente “Carta ao Primeiro Ministro” são exemplos do que acabo de afirmar. Poderão ser também a manifestação de uma vida, a de Machado Pires, que não foi nem está fechada, o professor e o escritor-ensaísta que nunca deixa, ou não quer deixar – nem deve deixar – de intervir na vida da sua sociedade, no diálogo sempre em curso sobre o nosso passado, presente e futuro

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Machado Pires, Memórias Reflexões, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2015.

*Publicado na minha coluna “BorderCrossings”, do Açoriano Oriental, 5 de Junho de 2015.

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