SOBRE “IN THE PRESENCE OF SNAKES”, de David Oliveira

Capa In The Presence of Snakes0003

Vamberto Freitas

For Vanessa

*

Se a literatura também nos leva eventualmente a um melhor entendimento de nós próprios, do nosso tempo e do nosso lugar, a presença entre nós do poeta luso-americano David Oliveira é-nos já (ou deveria ser) uma outra referência de beleza e “verdade”. Nascido na pequena cidade de Hanford no Vale de San Joaquim (e antigo aluno do grande poeta Philip Levine, que leccionou na California State University, em Fresno), o poeta vive actualmente em Phnom Penh (Camboja), tendo residido durante muitos anos em Santa Bárbara, a cidade onde também viveu, leccionou e escreveu durante muitos anos Jorge de Sena, e cujo campus da California University alberga desde há muito o importante Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena, dirigido durante muitos anos por outro poeta português, João Camilo. Nem todas as geografias “distantes” (quando vistas aqui das “margens” atlânticas) nos são estranhas ou desligadas das nossas próprias tradições e actualidade cultural e criativa. David Oliveira é um dos directores (entre outras actividades editoriais) da prestigiada revista de poesia Solo, e, segundo me consta, publica aqui e ali noutros periódicos e antologias. Em 2000, fez sair In The Presence of Snakes, tendo ainda no ano seguinte participado activamente (com a leitura dalguns dos poemas do mesmo livro) no Colóquio da Yale University, “Portuguese-American Literature: The First One-Hundred Years”. A poesia de David Oliveira foi, para mim a partir desse convívio, um dos mais gratificantes momentos com a nossa literatura diaspórica em língua inglesa. Na altura falei muito pouco com ele, e nunca mais o encontrei ou com ele comuniquei por outras vias, mas da sua presença em Yale deduzi então que se identificava inteiramente com esse outro mundo da sua ancestralidade, e que não iria desdenhar este meu chamamento da sua pessoa e obra ao rol de escritores e poetas que, em inglês e na América do Norte, estão a construir todo um imaginário literário e cultural também muito nosso.

Antes de mais, devo dizer que o Vale de San Joaquim é para mim uma das mais íntimas e significantes geografias. Para além de ser essa mítica terra da imigração açoriana na América do Norte, é lá onde desde há muito vive praticamente toda a minha família imediata, incluindo a minha filha, Vanessa (precisamente na cidade natal do poeta aqui em foco). Vivi lá pouco mais de um ano, mas era para o Vale que eu viajava a alta velocidade quando sentia a solidão das grandes áreas de Orange County e de Los Angeles, onde estudei, vivi, e trabalhei durante mais de vinte anos. Ainda hoje quando regresso anualmente aos Estados Unidos, raramente me aventuro para fora dos meus e dessas pequenas cidades do Vale onde residem. Se um dia (possibilidade muitíssimo remota) eu voltasse a viver na América, não tenho a mínima dúvida que seria na companhia da minha gente, quase todos eles os meus significant others, nesse outro “território do coração” onde também estão enterrados, como no título do romance da luso-canadiana Erika de Vasconcelos, alguns dos “meus queridos mortos”. Por outras palavras, ou como escreve muito mais artística e eloquentemente David Oliveira no seu poema intitulado exactamente “San Joaquim”: it is your good luck/to always be in a place where things grow. São estes, bem sei, os sentimentalismos das minhas mais comoventes memórias, mas desde que fiz cinquenta anos de idade deixei de pedir desculpa, a mim próprio e aos outros, por muita coisa.

In the Presence of Snakes é feito de uma sequência de poemas admiráveis a todos os níveis linguísticos e imagísticos. Na simplicidade de linguagens que escondem os mais profundos abalos do coração e de um quotidiano de encontros e desencontros, de gente e coisas vistas ao longe e muito de perto, David Oliveira intercala o que parece ser pura autobiografia (à boa maneira do confessionalismo poético anglo-saxónico) com os chamamentos de histórias familiares e de uma “mítica” do grupo a que pertencem por nascença, e que lhe foram transmitidos oral e comoventemente por pais e avós. Recria assim todo um mundo de afectos, gostos e perplexidades. Alguns outros escritores luso-americanos já nos habituaram à dualidade da sua condição existencialista, em que religiosidade e ancestralidade imigrante são outros dois grandes referenciais de toda a sua experiência; alguns deles leram os nossos escritores e poetas canónicos, Fernando Pessoa figurando quase sempre como ponto de partida (Katherine Vaz e Frank X. Gaspar, por exemplo) para a sua existência dupla entre-mundos, tão diferentes como o português e o norte-americano, mas tão apaixonadamente vividos e memorializados. Na poesia de David Oliveira, essas nossas referências literárias poderão não estar presentes, mas povoam os seus poemas, por sua vez, todos os que, encerrados nos ranchos californianos, lhe iam transmitindo todo um modo de ser e estar que para sempre serviu como guião-de-vida fundamental. As sequências do poema “Stations of the Cross” que abre In The Presence of Snakes são seguidas dos não menos maravilhosos “No Vinho a Verdade”, o já referido “San Joaquim” e “In the Presence of Snakes”, entre mais um punhado deles. Em quase todos estes poemas está presente a figura “do avô” açoriano (da Terceira), herói e sábio que, na companhia de outros, (re)construiu uma nova “pátria”, uma vez mais, entre-mundos-outros. A memória dessa fecunda ruralidade junta-se ao cosmopolitismo descomplexado de David Oliveira, agora em errâncias de múltiplas descobertas que nunca excluem os retornos aos seus e aos tempos perdidos. Trata-se de uma poesia de rítmica fulgurante, de invocações (celebrações, melhor dito) constantes à sensualidade do corpo e da vida, de outros modos ainda e sempre repartida, numa luta intelectual e artística contra a passagem do tempo e o desfasamento de um presente sempre incerto, frequentemente (inevitavelmente) alienante. De “No Vinho a Verdade”, no qual o avô lhe oferece o seu primeiro copo (“Wine always tastes like this./In time, we get used to it.”), o poeta regressa à sua memória na última estrofe do memorável “In the Presence of Snakes”, que dá o título ao livro:

How could I have known

I would remember you

in the breath of brandy and coffee?

I always go to bed now

turning on the radio, listening

to the voices

for your exasperated accent

to talk me to sleep

with the lives of the saints,

with just one more story

that can never be enough.

I speak your name in the presence of snakes

and we stand together again,

our bodies taking the temperature of the air

as easily as they take

the temperature of the ground.

We look one more time at a red sun

over a neighbor’s borrowed field,

marking the exact moment we forget to watch,

neither knowing how any of us

move through life

on our delicate stomachs,

and our good intentions,

our invisible feet.

Falta-me só dizer aqui da fina ironia noutros poemas deste livro, e da ternura em quase todos eles. David Oliveira demonstra aqui ser mais um herdeiro autêntico da melhor poesia, digamos, “vivencial” e, simultaneamente, erudita da tradição norte-americana desde Whitman e Eliot até aos melhores dos nossos dias. Diga-se ainda, enfaticamente, que o autor de In the Presence of Snakes passa também a pertencer inteiramente ao espólio e à memória criativa da nossa Diáspora. Por minha parte, agradeço-lhe comovidamente. ∆

_____

David Oliveira, In the Presence of Snakes, Santa Barbara, Brandenburg Press, 2000.

Ensaio incluído no meu livro Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado do espelho, Ponta Delgada, Macaronésia Edições, 2010.

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