A poesia como memória da nação

Capa Bairro Ocidental Manuel Alegre

pela batida do poema/pela guerra da linguagem/e uma cantada luta de libertação.

Manuel Alegre, Bairro Ocidental

Vamberto Freitas

A melhor poesia e as suas linguagens centram-se predominantemente, para além das formas estruturais que tomem, clássicas ou livres, em certos vectores — nas ideias condicionantes de um tempo e lugar, na condição existencialista do poeta e do seu posicionamento perante os demais à sua volta, como nos exemplos mais canónicos entre nós, ou talvez no Ocidente em geral, combinam as imagens e metáforas que habitam as suas palavras numa comunicação pessoalíssima, tantas vezes indecifrável em primeiras leituras menos atentas, assim como recorrem à grande Tradição em que estão inseridas para um diálogo com o passado, ou como manifesto artístico dirigido ao presente. Em qualquer dos casos, a escrita é, toda ela, um gesto de comunicação colectiva, a palavra como símbolo de sentidos diversos, como signo entendido pelos seus receptores, o leitor como interlocutor, próximo ou distante, partilhando – mas nem sempre, quando lê em tradução — a mesma língua e geografia cultural. O “mapa”, de facto, “não é o território”, não pode ser, como afirmaria o polaco-americano Alfred Korzybsky, intelectual e estudioso de questões ligadas à semântica, avisando-nos sobre a incapacidade, a impossibilidade, a seu ver, das linguagens transmitirem a fundo a “realidade”, o interior do mundo e dos seres nele situados. Cada um recebe e interpreta um texto, um poema, conforme a sua própria experiência de vida, capacidade de reflexão, e/ou erudição livresca adentro de cânone literário nacional e transnacional, ou mesmo regional, comunitário. A questão identitária de cada um de nós – e a que ninguém poderá fugir, mesmo num suposto acto de auto-reinvenção, voluntária ou “forçada” por circunstâncias como a emigração, ou um exílio de outra natureza — envolve também todo esse saber adquirido, para além de uma aprendizagem normativa de convivência no espaço ou torrão natal. Foi por esta perspectiva que li a poesia mais recente de Manuel Alegre, Bairro Ocidental, uma sequência dividida em três partes, cada uma delas significando a polissemia de linguagens, a “vivência” nacional em estado de emergência e em obediência a poderes-outros, o percurso do poeta e a sua oposição perante tal condição de vida, e, necessariamente, lembrando em sucessivos versos a história recorrente do nosso país, como Estado e como “Nação que foi Europa antes de Europa o ser”. A sua obra tem essa continuidade desde o início, cada conjunto de poemas em diálogo entre si e com outros poetas que o antecederam, todos eles regressando consistentemente aos símbolos e momentos dramáticos da longa caminhada do país, agora reduzido a um subjugado “bairro ocidental”, cada grande voz dos séculos passados como que convocada para o recital aberto e acusatório. De Camões a Pessoa, reconhecemo-nos de imediato nesse chamamento da sua arte, em que à beleza da palavra sonora e significante se junta a lamentação ou o grito de constatação – de protesto – pela tragédia multi-secular que nos coube. Com Manuel Alegre, no entanto, como em Fernando Pessoa da Mensagem, suponho, sobressai a recusa de aceitar o chão-pátrio caído, de novo aprisionado por outras forças, por outra falsa “essencialidade” histórica, que outrora rejeitara no marxismo para agora advogá-la nos seus desígnios bolsistas e de agiotagem (aliás, palavra também usada num destes poemas) pura. Bairro Ocidental é o regresso ou a continuação da Praça da Canção ante a nebulosidade de um presente opressivo, a vida de um dos mais antigos povos da Europa reduzida a produtores de riqueza quase exclusivamente para outros.

O destaque dado a duas estrofes do poema “Pátria Minha” na contracapa de Bairro Ocidental não vai passar despercebido a nenhum leitor. O jogo de palavras e metáforas nesse terceiro poema do livro, que se segue a um outro intitulado “A Arte de Pontaria”, afirma desde logo o que poderemos deduzir ser a intenção do poeta – a clareza desses versos de denúncia e rejeição de tudo o que nos trivializa e menospreza, através de acções ou da própria retórica vinda de poderes agora perfeitamente identificados. Bairro Ocidental dirige-se a um povo cercado, e que parece já sem voz, com a excepção de uma Cassandra lusa que, noutro poema, clamava por justiça e dignidade/ouvissem ou não ouvissem ela era a sibila/e apontava o cavalo dentro da cidade. Os seus alvos, uma vez mais, têm agora um rosto e uma geografia, chamam-se a Troika juntamente com outros servidores domésticos obedecendo às ordens de uma “Eurolândia”, onde tudo é permitido/bruxela-se um país berlina-se outro… Bem sei que é sempre questionável reproduzir aqui versos soltos, tirados de poemas que contêm em si quase sempre outros versos que introduzem não tanto ambiguidade, mas sim significados múltiplos, e mesmo na força das suas linguagens militantes nunca perdem a sua subtileza linguística, nem o prazer da sua rítmica e musicalidade. A poesia de e para Manuel Alegre é para ser lida, mas ainda mais, creio, para ser dita, teatralizada. Só que a abrangência dos referenciais literários e históricos como ponto de partida para a recriação do nosso presente é vasta e rica, como num grande e colorido painel de sinais a descobrir e a interpretar. A imagem predominante saída da leitura integral desta poesia é a de um país que vem de um passado de grandes feitos e heroicidades, de epopeias, trágicas é certo, mas agora caído num labirinto continental demasiadamente forte e apostado em fazer prevalecer o que, nas suas fortalezas financeiras, mais ou menos escondidas, decidiu ser o futuro para outros povos na sua vizinhança — na “periferia”, como dizem — que pouco conhecem ou valorizam, o seu chauvinismo generalizado sendo o que sempre foi. Por outras palavras, é o regresso de um imperialismo repensado, o imperialismo interno, mas nada menos devorador após a retirada forçada e fim das pilhagens seculares noutros continentes e entre outros povos. Estamos reduzidos a cifrões e a orçamentos, a “equilíbrios” devastadores, penalizadores, ao contrário do que tenta fazer passar a imagem de homens “de fato e gravata, pasta na mão e de falas mansas”, a rapinagem disfarçada de “economia” e “ajustamento financeiro”. A palavra “pátria” é de novo invocada pelo poeta, sem apologia, a palavra que tentam classificar como sendo anacrónica e sem sentido numa era supostamente “globalizada”, e em que de facto as bandeiras começam a sinalizar a cor e o desenho do dinheiro, e não a história ou dignidade soberana e livre de um povo – entre nós e o futuro há arame farpado…/Entre nós e amanhã há uma taxa de juro/ uma empresa de rating Bruxelas Berlim/entre hoje e o futuro há outra vez um muro/resgate é a palavra que nos diz/tens de explodir o não dentro do sim/não te feches em torres de marfim/o poema tem de ser o teu país. Suponho que as imagens aqui estampadas (“arame farpado” e “muro”) não precisam de explicações a ninguém, quanto a alusões directas a uma história continental recente, com muitas testemunhas ainda vivas. Poderiam dizer que sofremos hoje o mesmo que impusemos a outros durante alguns séculos. Só que toda a obra do poeta foi sempre também a voz da anti-epopeia, da resistência aos tiranos de casa, até aos nossos dias finais em África, pagando como poucos o alto preço do exílio forçado, a instabilidade dos dias e dos anos, a dureza de se ser involuntariamente o outro, a incerteza do regresso, o desejo mais profundamente humano, como atesta a mítica de praticamente toda a literatura da civilização a que pertencemos.

Esta longa resistência do poeta e da sua da obra poderão ter outra forma, outros contextos e necessariamente outras linguagens, mas permanece o que também poderíamos considerar um dos seus outros temas mais constantes, e que atravessa toda a sua escrita, em qualquer forma ou género – a dádiva de se estar vivo e presente entre os seus, a reafirmação do direito sagrado à esperança, a crença inabalável no amor e na generosidade. O acto da escrita, já se sabe, é exactamente isso, a vontade de dialogar com o outro, a solidariedade da vida em comunidade. Muitos dos poemas de Manuel Alegre regressam sempre ao outro lado da vida – a aproximação a quem completa as nossas caminhadas de descoberta e felicidade. “Paris 64”, a cidade e o ano do início do seu longo combate aos opressores do seu e nosso país: na solidão absoluta do exílio irremediável/no desamparo das estações de metro à noite/contra a adversidade do Mundo/sem lugar/e mesmo assim/apesar de tudo e contra tudo/amar.

É o regresso da poesia como resistência. É o resgate, afinal, de que mais precisamos neste momento – o da memória, a recusa do esquecimento de quem e como somos. Bairro Ocidental. A Europa antes de ela ser.

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Manuel Alegre, Bairro Ocidental, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 12 de Julho, 2015.

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