Onde a terra se acaba

Capa O Sonho Portugês

O João gostava de falar do sonho português e eu confesso que ainda me entusiasmei. Nunca percebi bem o que era ao certo isso do sonho português, mas achei que ele, estando no Governo, devia saber.

Paulo Castilho, O Sonho Português

Vamberto Freitas

O João, de que fala uma das narradoras neste novo romance de Paulo Castilho, O Sonho Português, é um Secretário de Estado no governo do tempo ficcional actual, pertence a um clã degenerado dos arredores de Lisboa, de sobrenome Mendes, e sonha em várias frentes, como muitos da sua geração – ser promovido a Ministro, e receber uma herança de um tio velho, literalmente podre de rico, a morrer no Alentejo, à beira do odiado Alqueva, que aqui também simboliza um novo Portugal sem imaginação e a enterrar por três dinheiros a sua própria beleza e história, latifundiário e proprietário, vamos lá, não de tudo, mas de muito na nossa capital. Rigorosamente mais ninguém, para além desta cómica “família” de sanguessugas — a morar numa chamada Vivenda Pérola, brevemente a ser herdada pelos que dela já se haviam apropriado — na sua visão e entendimento das coisas, não sonha seja com o que for, a não ser sobreviver sem fome, beber um copo a mais, deitar-se numa cama com alguém, lembrando ou não o seu nome na manhã seguinte, atravessar a rua, suponho ainda, sem ser atropelado. Não haverá desafio maior do que um crítico ou recenseador a tentar penetrar a mente de um autor nos momentos que lhe levam a compor uma determinada narrativa, num determinado tempo. Paulo Castilho é um diplomata experiente e vivido, mas é como romancista que desde sempre o reconheço, desde que, ainda imigrado, li o seu Fora de Horas, de fundo americano, e que no ano da sua publicação arrecadaria alguns dos prémios mais prestigiados no nosso país. Como cidadão sei muito bem o que penso da minha terra natal, da sua estrutura sócio-económica desde há séculos inquinada a favor de uns e condenando todos os outros à estafada luta diária, das suas pretensões de sucesso instantâneo imitando ideologias e experimentalismos económicos, em que as novas classes que se apoderaram do Estado simplesmente querem substituir a velha aristocracia a qualquer custo, como sabemos e sentimos na pele, a nossa História mero detalhe, para eles desconhecida e irrelevante. Imagino, só, o que pensa um autor como este, educado também em escolas noutros pontos do globo – e que entre o romance que li no fim da década de 80 e a obra presente, publicou muito mais. Após uma vida a tentar dignificar a nação ante outros, desde Washington a Londres, vive agora de novo, como nós todos, a nossa história cíclica e que parece sem redenção alguma, a trágica caminhada nacional, que foi sempre esta curva entre a euforia de conquistadores e a depressão de esbanjadores, o descalabro quase total no fim da estrada. Todos os personagens de O Sonho Português manifestam uma personalidade, por assim dizer, de estrangeirados no seu próprio espaço natal, a estranheza dos seus dias vazios e sem perspectivas maiores condiz perfeitamente com tudo o resto – a jangada atlântica à deriva, convidando a todas as transgressões que gratifiquem o aqui e agora por parte de cada um dos seus ocupantes. É um romance cheio de ironia subtil. O único personagem com substância humana, com passado, e sobretudo com uma ideia clara das suas origens e de quem é ou foi e ao que veio na vida, é o velho Leonardo, que na sua abastada solidão alentejana vive rodeado de algumas mulheres serventes e de má língua, o mítico padre amigo não perdendo nunca uma refeição à sua mesa, nem o conselho ou o mexerico seguinte. Creio que estamos aqui ante uma paródia não só de como um autor vê e entende o seu país nestes dias de corrosão social absoluta, mas da própria literatura que o antecede – um velho latifundiário lusitano é tão virtuoso ou condenável como o licenciado ou a licenciada a sobreviver de esquemas, e necessariamente a redefinir as regras da ética que orientam a sua existência. Num país que tem um primeiro-ministro atrás de grades e o povo trabalhador a pagar os roubos de banqueiros riquíssimos, um romance como este é esse jogo de espelhos, ante o qual melhor seria ninguém olhar-se.

O Sonho Português está escrito como que em forma de diário, o tempo é o presente, e as entradas estão datadas de 19 de Abril a 16 de Novembro. A família Mendes é constituída por sobrinhos e sobrinhas, e seus filhos e filhas, os restantes são esposas ou namorados e namoradas destes. Residem quase todos na Vivenda Pérola, uma vez mais, numa zona chique e satélite da capital, todos numa existência, no entanto, da mão para a boca, aposentados e a contar o pouco que lhes resta na carteira, mas sempre com a noção de aristocracia anónima e irreconhecida. Tem vários narradores, que nos falam em discurso directo e indirecto – são as histórias de amores e desamores, a procura da sobrevivência na capital, e acima de tudo o início da expectativa que será a morte do tio alentejano, subestimado na sua inteligência e vontades mais íntimas quanto ao estado das suas riquezas e o destino dos seus putativos herdeiros. O tio Leonardo a certa altura convoca alguns dos sobrinhos para a sua casa solarenga em Monsaraz, e dá início a projectos de administração das suas propriedades em Lisboa e noutras partes, e especialmente a uma investigação para saber das causas da morte súbita de um filho, de nome Bruno, que havia partido para Alemanha em tenra idade na companhia da sua divorciada mãe, e havia regressado a Portugal, onde preparava uma tese de mestrado sobre a sua região ancestral, e sugar até não poder mais o seu pai. Dinheiro e drogas levam ao seu previsível fim, mas o seu progenitor finge não saber das causas do seu fim, caído à beira Tejo na margem sul, encarregando dois sobrinhos, Filipe e Beatriz, esta a quem dedica um afecto intenso, de investigar tanto a vida como a obra escrita do mestrando que estava em progresso quando faleceu. Diz que quer proteger a boa memória da família, mas tem algo mais em mente, conhece muito bem o que todos desejam – a sua morte e a herança multi-milionária. Está montada toda a trama do romance, está insinuada a temática – um Portugal atávico, preso às suas fantasias de grandeza parasitária, e uma sucessão de gerações que vão queimando os trilhos de qualquer mudança que nos levaria a outro rumo histórico, a outro futuro. Todos os nossos vícios estão aqui expressos e vividos, toda a nossa descrença na vida colectiva ou nacional, a hipocrisia generalizada marcando todas as palavras ditas, todas acções tomadas, fazendo do inexistente “sonho português” uma caricatura cómica, a safadeza de uns e outros como uma espécie de hino nacional, cuja dramatização é comédia pura, como nos palcos da dramaturgia romana das suas feiras, em que o escravo virava patrão esperto, e o patrão bobo da corte. Por entre tudo e todos, vamos acompanhando os dias e as noites destes imaginados seres sem esperança ou futuro, a não ser a fortuna cobiçada do moribundo alentejano. Visitamos Lisboa nos seus recantos mais sujos e habitados pela crescente marginalidade nas suas ruas, acompanhamos estes homens e mulheres que saltitam de restaurante em restaurante, de quarto em quarto, de cama em cama. Nem sequer os sexo parece trazer qualquer alívio, êxtase, e muito menos redenção destas vidas em limbo, é tudo uma rotina de chatice e desconfiança.

E de repente – diz Filipe, um dos narradores, o mais sensato e intelectualizado – acordei. É isso mesmo. Não apenas a tristeza e a melancolia, mas tudo, a farsa completa que se desenrolava ali à minha volta, a tragicomédia que é a vida disfuncional destes Mendes e da qual, à minha maneira, também faço parte. Somos Portugal. A resposta ali à minha frente. Tão óbvia, custava-me perceber como é que nunca me tinha ocorrido. O meu novo livro está escrito. Falta apenas escolher as palavras.”

O Sonho Português tem uma estrutura que também se assemelha a um policial, mas não é. Na verdade, o leitor é cativado nestas páginas por todos os pormenores das vidas quotidianas destes personagens, pela linguagem limpa dos seus narradores e na qual a metáfora contida leva-nos a repensar o que já sabíamos ou reconhecemos da realidade que serve de referencial ao autor, o desfecho do romance quase de interesse secundário, mas mesmo assim cheio de surpresas, lógicas mas de todo inesperadas. Duas outras qualidades que caracterizam a narrativa – o humor constante, que faz do leitor um cúmplice de certos personagens, alguns conscientes da sua insignificância e vida sem saída, outros perfeitamente sabedores da insinceridade das suas acções ou motivações perante a riqueza que não lhes pertence, ou que lhes pode fugir. A sátira política tem uma longa tradição na nossa literatura, mas nunca nos cansa o riso nervoso e o conforto de sabermos que pouco ou nada mudou entre nós, nenhum leitor se safa de olhar o tal reflexo que preferíamos ser uma ilusão e não o auto-retrato que só a arte nos devolve – sem acusação ou sentença. É como se Eça estivesse entre nós, olhando-nos de soslaio e pensando novas páginas do seu imenso livro que era, é, Portugal.

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Paulo Castilho, O Sonho Português, Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015.

Publicado na coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 19 de Junho de 2015.

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