Paris já não será uma festa

Capa Submissão

Assim, os identitários europeus admitem abertamente que entre os muçulmanos e a restante população vai rebentar, obrigatoriamente, mais cedo ou mais tarde, uma guerra civil.

Michel Houellebeck, Submissão

Vamberto Freitas

Submissão, do muito controverso escritor francês Michel Houellebeck, é um romance marcante, por várias razões temáticas, neste preciso momento da história europeia. Bem sei que o autor já tem atrás de si várias obras, e algumas delas altamente premiadas no seu país, e também tenho conhecimento do estatuto ambíguo que conquistou para si devido ao seu tratamento das questões ardentes que provêm praticamente de tudo o que tem a ver com o islamismo na França dos nossos dias. Devo colocar desde já na mesa ao que venho. Primeiro, foi uma leitura muitíssimo agradável por encontrar um autor francês da nossa época que escreve com a clareza semântica e o dinamismo linguístico que fazem deste romance uma experiência simultaneamente divertida, histórica e politicamente ponderada, sem a cansativa e tantas vezes artisticamente inútil caça ao símbolo ou à desvenda da metáfora. Segundo, para além da plausibilidade ou não dos dramáticos eventos aqui imaginados e desenvolvidos, a verdade é que Submissão é um romance que nos propõe reflexões políticas, culturais e étnicas que ensombram – como poderão vir a ser uma fonte de riqueza e regeneração europeia, a todos os níveis, ou em todos escalões sociais das diferenciadas geografias humanas do velho continente – a vida quotidiana de todos os cidadãos em países de suma importância em tudo que se refere ao nosso futuro, espalham um sentido, tanto real como doentio, de insegurança generalizada nas ruas das maiores cidades, e sobretudo ensombram um continente cuja história recente não é de dignidade, ou de defesa dos valores humanos mais fundamentais. Se é um romance distópico, na tradição britânica de um George Orwell ou Aldous Husxley, os dois nomes mais proeminentes no Ocidente neste género de literatura, também não será fácil de assim o classificar, para quem precisa destas arrumações literárias. O próprio título do livro vem carregado de significados múltiplos. “Submissão” a quê e a quem – ao islamismo democraticamente vitorioso, à inevitabilidade para onde caminham estas sociedades com uma população vinda de fora, e agora com os seus milhões de descendentes de nome hifenizado, a vontade de ser feliz estando em paz consigo próprio, ou aceitando como fatalidade os rumos das sociedades a que supostamente pertencemos por laços de sangue e longa história? Michel Houellebecq é dos poucos escritores europeus contemporâneos que tem a coragem de lançar na literatura as mais pertinentes questões que estão, mesmo que não sejam evidentes a muitos de nós, a determinar o rumo de uma Europa que deixou de saber qual é o seu papel no mundo, e, muito mais grave ainda, como manter a sua paz interna ou relançar a justiça económica para todos os seus cidadãos. Nesse sentido, sim, creio que este romance vem no seguimento dos que denunciaram vários tipos de totalitarismo – político, em 1984, tecnológico e cultural no Admirável Mundo Novo – num passado ainda na memória colectiva, vem questionar como é que uma sociedade cujos valores já nos são quase quase irreconhecíveis, descontando certa retórica especialmente centrada em Bruxelas e arredores.

Estamos em Paris, em 2022, e o ambiente político vem aquecendo desde há alguns anos com a subida constante da Frente Nacional, e a crescente incapacidade dos conservadores e socialistas em fazerem passar as suas mensagens. O desequilíbrio dessas forças políticas assemelha-se de todo à situação que os próprios leitores conhecem actualmente, e não só em França. Tinha sido formado recentemente uma nova Fraternidade Muçulmana, que depressa conquista, como seria de prever, os votos islâmicos em todo o país. Está quase em pé de igualdade com os socialistas de Hollande e Manuel Valls, aqui brevemente transfigurados sob os seus próprios nomes, assim como outras figuras cimeiras da vida pública francesa. A segunda volta das eleições presidenciais entre os grandes grupos é uma clara ameaça da vitória do partido de Marine Le Pen. A liderança muçulmana, concentrada num Mohammed Ben Abbes, tem uma pregação moderada, trazendo a “paz” aos subúrbios, dialogando com outras forças democráticas, assumindo em termos económicos posições muito próximas das que a oposição de esquerda assume, falando em conservadorismo cultural e respeito pelas religiões “do Livro”, pela “família” tradicional, estendendo deste modo a mão aos conservadores da UMP, que já pouco terreno eleitoral controlam, mas representam vontades atávicas da nação. O palco de emergência está montado. Para se derrotar a extrema direita, só com uma aliança entre o PS e a Fraternidade Muçulmana, o líder desta apontado e logo depois investido como Presidente da República. Toda a narrativa centra-se nos dias seguintes à consumação do que parecia impossível, e no fundo por quase todos indesejável. O mal maior, pensa-se, tinha sido evitado, começava agora o triunfo e prática de uma sharia moderada, mas operando de imediato mudanças tão radicais como impensáveis nos dias presentes, nestes que são os dias dos próprios leitores. Toda a educação, que estava miseravelmente subsidiada pelo Estado, é obrigada a obedecer a novas leis, e quem não concordar na conversão é demitido. As universidades públicas mais prestigiadas têm novo fôlego, e agora dinheiro a rodos – da Arábia Saudita. Aliás, toda a narrativa está mais ou menos referenciada a partir da Universidade de Paris IV, desenrolada e meditada na primeira pessoa por um dos seus professores doutorados em literatura, François, nome como que a imprimir ainda mais força à “natividade” a saque, e depois conquistada pelos outros.

François está, no início do seu percurso aqui, cansado e descrente da academia, prestes a ser demitido pelos que estão agora no poder após a sua recusa de conversão à nova visão do mundo. Vive só, e a namorada, Myriam, uma antiga aluna sua, judia, está prestes a abandonar Paris na companhia dos seus pais, rumo a Israel, com medo do que virá. Realidade e ficção – nem este acto de fuga já é novidade no andamento da Europa dos nossos dias, muitos vendo velhos perigos à vista, mortíferos fantasmas a arreganhar de novo os dentes um pouco por toda a parte. O protagonista mantém-se, ou pretende manter-se, sereno, deambulando de rua em rua, de café em café, de visita em visita aos seus pouquíssimos amigos, ou então a prostitutas de serviço, quase sempre semi-alcoolizado mas perfeitamente lúcido. Memória e solidão. Descrença e alienação. Na faculdade, foge das conversas institucionais demasiado repetitivas, cansativas. Autor de uma tese sobre o escritor francês do século XIX, J. K. Huysmans, a sua narrativa sobre a actualidade refere página a página este como outros escritores europeus da época, numa espécie de correlativo objectivo – a decadência da Europa vem de longe, num processo de perdas civilizacionais, num lamber de feridas, ora em tons de raiva e insurreição, ora através da ironia e retraimento conventual, num isolamento que tem tanto de egoísta como de cansaço. O paralelo com os dias de hoje é nítido, se bem com a devida distância, e inimagináveis convulsões que viriam a seguir durante todo o século passado. A Fraternidade Muçulmuna vence as eleições não por mérito próprio ou apelo à maioria, mas porque os franceses estão divididos em grupos públicos que se tornaram inúteis ou irrelevantes – os extremistas de um lado e outro tomaram a rua perante a essa incapacidade, essa mediocridade, esse nojo em que se havia tornado a política e os negócios públicos em geral. François recorre à literatura, e nela permanece enquanto olha em volta e entende que o que vê é já inevitável. As suas conversas com o marido de uma colega, um agente dos espiões da DGSI, também demitido pelo novo governo após trinta e tal anos de serviço, convence-lhe de que não haverá insurreição alguma, que todos se “submetem”, encarneirados ou em defesa da vida. Bem-vindos a um país europeu no processo (de aparente) amena islamização. Submissão, no entanto, é menos um romance anti-islâmico e muito mais um romance sobre a estupidez pública que reina na Europa, a desorientação dos seus dirigentes, que em mais nada falam do que em “orçamentos”, que mais nada fazem do que jogos políticos de interesses particularizados, e quase sempre obscuros. À espreita estão os outros – determinados, sem dúvidas metafísicas. Os “identitários”, o movimento defensor da França histórica, ou por eles re-imaginada, preparam-se para a guerra civil que virá, como dizem, “mais cedo ou mais tarde”. François, no fim, “submete-se”, e recupera o seu lugar na universidade.

Momento de humor e, se calhar, verdade: mantêm-se fora de tudo isto os chineses residentes no Chinatown parisiense. “Nada, nem sequer um regime muçulmano, parecia capaz de travar a sua intensa actividade – o proselitismo islâmico, tal como a mensagem cristã antes dele, dissolver-se-ia provavelmente sem deixar rasto no oceano desta civilização imensa”. Povo, grande povo, esse do Império do Meio.

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Michel Houellebecq, Submissão (tradução de Carlos Vieira Da Silva), Lisboa, Alfaguara/Penguin Random House, 2015.

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