História e mítica açoriana na grande ficção

Capa Meu Mundo

Eram homens e mulheres esquecidos, habituados a olhar em redor e a tudo medir no sentido giratório do Sol que lhes dava a visão do mar e do tempo. Da ciência, tinham a das marés, dos ventos e das grandes chuvas eternas.

João de Melo, O Meu Mundo Não É Deste Reino

Vamberto Freitas

Acaba de sair a oitava edição de O Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo. Desde o ano em que foi originalmente publicado, 1983, muito aconteceu na terra açoriana, que lhe serve de referencial privilegiado, e absolutamente nada que questione ou que lhe retire uma só palavra sobre a mítica origem do povoamento das ilhas, e de seguida a estruturação de toda uma nova sociedade, a primeira a ser realizada fora do continente europeu como resultado da epopeia trágica que seriam os Descobrimentos portugueses então em curso. Se este grande romance dificilmente ficará um dia ultrapassado na miticidade das nossas origens, a sua última parte, que nos traz até à chegada de uma limitada modernidade na primeira metade do século XX, em nada terá sido ultrapassado ou “desmentido” pela própria realidade. Cada sociedade tem a sua classe dominante, que confunde deliberadamente a sua visão e posição societal com a da grande maioria à sua volta. Convém – para esconder os seus próprios falhanços e provincianismo, para que ninguém se revolte contra a marginalidade que são as vidas da maioria dos seus habitantes. A ficção nunca tem de ser fiel a nada na realidade, mas quando se propõe a espelhá-la, quer-se um mínimo de plausibilidade por entre todas as suas invenções, no seu imaginário, para que a cumplicidade do leitor o leve também, sub-conscientemente, a um sentimento de pertença a um mundo que, sim, é do seu reino. Está tudo aqui – a construção das velhíssimas formas de vida entre nós que têm o medo como sentimento primordial, bíblico – o aviso permanente da natureza, que combina a sua paradisíaca beleza com a morte, a grande maioria dos habitantes em questionamento diário acerca de como sobreviver, a governação e domínio total dos privilegiados entre as forças profanas e religiosas, a claustrofobia do cerco e a vontade irreprimível de fuga, com intermitências de fantasia e esperança. A cor e o baile das ilhas poderá ser hoje bem mais brilhante e movimentado, mas a História impõe-se sempre. Em vez de se olhar os barcos à proa em direcção à América, como no poema de Pedro da Silveira, olha-se o céu, e pondera-se um outro voo de salvação, sempre no outro lado, sempre num outro lugar. Aliás, os pássaros, indo e vindo aos gritos ou numa cantilena de lamentações, são uma das metáforas nesta narrativa açoriana. Partem e regressam, os pássaros, e encerram este romance – eis uma boa definição do tema supremo de toda a nossa literatura. O Meu Não É Deste Reino é um herdeiro directo, mesmo que longínquo, da grande história trágico-marítima portuguesa que nos colocou nesta singular geografia de partidas e regressos, numa rota intermediária entre dois continentes e mitos, consciente a cada passo de que a condição humana envolve também esse impulso universal de se querer ver o que fica no outro lado do horizonte.

Reler O Meu Mundo Não É Deste Reino depois destes anos todos foi-me como que uma experiência de regresso a “casa” e de reencontro com velhos demónios, meus e do livro, a vários níveis. Em primeiro lugar, o romance foi, mais do que eu esperava, reescrito pelo autor, como quem quer dizer aos primeiros leitores e aos que virão às suas páginas pela primeira vez que este é uma espécie de testemunho artístico repensado, e agora feito permanente — a transfiguração definitiva de um tempo colectivo açoriano que fica como metáfora e símbolo do que o seu autor entende ser a génese e a caminhada histórica de todo o seu país. Não se o poderá – nem deverá – lê-lo de modo restritivo, como uma história das ilhas, mas sim como uma imaginada reconstrução de como todo um povo se reinventou a meio atlântico nas mais primitivas e aventureiras circunstâncias, dando continuidade a toda uma cultura e modo de ser e estar que tem as suas origens num país chamado Portugal, e que nunca nesta ficção são esquecidas, até pelas persistentes referências à governação que de lá é decretada ou imposta. Os Açores, aqui, são essa metonímia de um país a braços com as consequências da sua grande epopeia marítima, todos os valores, vícios e virtudes, combates e rendições sócio-políticas e económicas fazem parte, são a essência, de uma pequena comunidade que se chama Nossa Senhora do Rozário (da Achadinha), pertencente a um reino maior repartido ou separado pelo mar. Estamos perante uma comunidade vivendo da e pela natureza pura, que tanto lhe oferece o jardim genesíaco como a chama do inferno, ensimesmada na sua opressão, regida pela ignorância e pelo terror da lei feita à medida dos governantes locais e analfabetos, pela superstição religiosa, cujo representante se chama precisamente “padre Governo”. Nenhum leitor português que conheça o seu país e o seu passado deixará de se reconhecer por inteiro nesta teia de vida, e sobretudo de morte, “a morte numerosa” de que nos fala o narrador. Não esqueço a reacção de Gregory Rabassa, que até hoje nunca visitou as ilhas açorianas, mas verteu este romance de João de Melo para Inglês sob o título de My World Is Not Of This Kingdom. O grande tradutor nova-iorquino quando o leu pela primeira vez diria que nada, desde a sua tradução de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, se assemelhava a este poder da palavra e transfiguração literária. O que entendemos por “universalidade” da experiência humana está aqui presente, só que numa versão bem pouco conhecida, inclusive no nosso país. É esta a grande obra de João de Melo, mesmo que menos falada do que o romance seguinte, Gente Feliz Com Lágrimas, a narrativa que que lhe dá continuidade num referencial geográfico muito mais vasto, e na contemporaneidade dos seus personagens. Por outro lado, quando li este romance pela primeira vez estava eu desde muito jovem nos Estados Unidos, não conhecia a Achadinha, nem sequer a ilha de S. Miguel. Era apenas a ficção e os seus artifícios que me interessavam, se bem que a questão da cultura e da minha própria ancestralidade não me poderiam ser alheias. Hoje, após quase um quarto de século de residência na ilha, ler O Mundo Não É Deste Reino é como quem vê diariamente os seres reais que pululam dentro e fora destas páginas. Recentemente, num ensaio titulado “The Writer’s Shadow”, de Tim Parks, no The New York Review of Books, fala-se na sombra, na personalidade, de um autor que imaginamos, quase sempre de modo simpático, a partir da sua prosa; diria que quando o conhecemos pessoalmente, teremos, provavelmente, um outro olhar no encontro com a sua escrita. Ao contrário do que se possa pensar, esse facto torna a leitura ainda mais exigente, e desculpa-se muito menos o que eventualmente poderemos considerar falhas na narrativa. Não sei como reagirão outros à sua releitura deste livro. No meu caso, o romance ergue-se agora como uma obra prima em que a história açoriana é o seu primeiro protagonista, cada personagem, no entanto, tornado inesquecível pelas suas idiossincrasias, e depois pelo que representa mais vastamente na sua colectividade. Não se pode pedir muito mais de uma peça de ficção.

Um grande romance está também para além da própria história que nos conta. O Meu Mundo Não É Deste Reino apresenta-nos a um grupo de personagens e protagonistas cujas acções e palavras narradas tanto desenvolvem a trama – uma vez mais, a chegada dos primeiros povoadores até a tempos recentes – como cria e desenvolve toda uma personalidade própria de cada um, o leitor não os esquecendo nunca, imaginando-os e percebendo-os, com empatia ou desdém, os seus destinos, a sua sorte na comunidade em que nasceram, vivem, sofrem, ou infligem as maiores patifarias e roubos a outros. É uma história de amor e ódio, de castigo e redenção, um mundo de pobres cavadores e agricultores, de latifundiários nascentes, de mulheres que são amadas ou odiadas. Sobressai em toda a narrativa a luta “demasiado humana” no desconserto das coisas, a raiva de uns temperada pelo humor de outros, pela atenção do narrador a todos os pormenores visíveis ou imaginados que nos definem o relacionamento entre todos, as suas motivações, as suas crenças. Coexistem a mais luminosa beleza das gentes e dos seus afazeres com a mais repelente fealdade humana. À morte sempre presente, ameaçadora, contrapõe-se a esperança de outra vida e dignidade conquistada. A melhor literatura do século passado é feita destes extremos, o tempo em que o primitivismo e a modernidade defrontavam-se na definição e construção das sociedades que são as nossas. No fim do romance os pássaros reaparecem em bandos cantantes, nas suas idas e vindas imparáveis. Como eles, os cavadores de então, como nós, sempre. Não há resolução alguma aqui. Só a história rumo ao desconhecido.

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João de Melo, O Meu Mundo Não É Deste Reino (8ª Edição, Reescrita pelo Autor), Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015.

A poesia de Emanuel Félix, ou o eterno instante

Capa E Félix Obra Completa

O tom autêntico ou falso das palavras deixa-se descobrir conforme o conteúdo que exprimem… E de nada valerá ao poeta inautêntico a habilidade formal.

Emanuel Félix in Emanuel Félix, Obra Completa

Vamberto Freitas

Impõe-se aqui desde logo um obrigado imenso ao poeta e escritor Vasco Pereira da Costa pelo seu grandioso trabalho na recolha de tudo que completa a nada menos imensa obra de Emanuel Félix que, para além da poesia, o seu centro fulcral, inclui ainda muita prosa – ficção, crítica e ensaísmo abrangendo praticamente todas as artes, com especial ênfase na pintura e em questões de restauro ou manutenção do património cultural e artístico açoriano. Juntar o trabalho completo e público de uma vida envolve muito mais do que o conhecimento aprofundado e capacidade de avaliação de uma obra tão consequente como esta – exige, em igual medida, uma noção de ética que nem sempre é lembrada em trabalhos como este. Como e de quem “falou” o falecido autor não só define a sua figura como estabelece permanentemente a escala do seu lugar entre o povo e a cultura a que, por nascimento, formação e opção, pertence, passa a partir desse momento de avaliação total – não podemos fugir às implicações de uma “obra completa” – a ser, ele próprio, não uma sombra intimidadora, mas sim um exemplo de como a originalidade de uma carreira seguiu o seu caminho, de como outros poderão imaginar os seus próprios rumos literários sem nunca ceder aos ditames, quase sempre artificiais e inconsequentes, do meio que escolhem para viver e cultivar a sua arte própria. Emanuel Félix nunca será apenas um grande poeta português dos Açores – é um monumento de persistência artística, de originalidade sem medo, de pertença atlântica, de viajante de partidas e regressos contínuos, de descobridor que não aponta o dedo a nada e a ninguém, mas ilumina com a naturalidade de um astro todo um mundo à sua volta, num olhar sereno, como quem diz sem dizer – olhem que eu vi, olhem que há mais mundo para além de nós. Escrevo estas linhas nos dias em que um outro grande autor está a ser discutido por razões semelhantes, o americano Saul Bellow. Foi o grande romancista que abriu toda uma estrada criativa e temática para si e para os seus conterrâneos na literatura do seu país com uma proposta que foi, nos anos 40 do século passado, simultaneamente muito simples e muito corajosa – serei um escritor fiel às minhas origens, se nunca viram, verão agora, sou americano e judeu, filho de imigrantes russos, e a minha visão do mundo e do lugar que nele ocupo ou quero ocupar poderá coincidir ou não com o da maioria na tradição deste que é também o chão a que prefiro pertencer. Qualquer leitor minimamente informado sobre a história literária dos EUA conhece o desfecho brilhante dessa proposta e audácia. Emanuel Félix, para mim, representa algo muito parecido nos Açores perante o restante país, cujo território não corresponde ao mapa, é muito mais vasto e imaginário do que pensavam os provincianos que historicamente pululavam (hoje não sei por andam) entre o Rossio e o Chiado. Ao contrário do que aconteceu com Bellow, o poeta angrense ainda não foi descoberto pelos supostos viajantes universais da nossa literatura. Algumas das melhores vozes literárias e críticas, assim como uns poucos estudiosos da nossa literatura, no entanto, conhecem e acarinham, pela sua força e qualidade, a obra do nosso poeta, entre os quais Eugénio Lisboa e Fátima Freitas Morna. Estamos falados.

Emanuel Félix, Obra Completa está dividida em três grandes volumes: Poesia, Prosa e Vária. A primeira parte está explícita, quanto ao conteúdo. Escreveria Fátima Freitas Morna: “Fiel à necessidade de mudança mas fiel, acima de tudo, a si própria, a poesia de Emanuel Félix soube reinventar-se em algumas das suas componentes fundamentais, dialogando consigo e retomando, de outras maneiras, temas, motivos, peças de um mesmo universo que ressurgem outras em novos poemas.” O segundo volume consiste no que o autor nos deixou no campo da ficção e na crónica, ambas as formas quase sempre de cariz memorialista, como n’Os Trincos da Memória, recordando figuras e momentos vividos ou testemunhados, quase sempre em Angra do Heroísmo, a cidade natal do escritor. Escrevi na altura que “Onde quer que se encontre dentro e fora do nosso país, são quase sempre os recantos da infância e os imaginários da ilha os seus irremediáveis momentos de emoção”. Emanuel era, como sabem os seus amigos e leitores mais íntimos, um grande contador de histórias, que cativava os seus ouvintes com as palavras, tons de linguagem, gestos e até silêncios que nos preenchiam ou despertavam a imaginação, recriando personagens e situações da sua vida real. Esta sua escrita continua a exercer o mesmo efeito hipnotizador ante os que o lêem pela primeira vez, ou os que revisitam as suas páginas. Por certo que esta será a parte da sua obra menos conhecida, tão avassaladora na forma e na emoção que era a sua poesia, permanecendo o poema “As raparigas lá de casa”, em Habitação das Chuvas, ainda hoje um dos mais lembrados e recitados entre nós ou entre os que vão descobrindo aos poucos a sua obra. O terceiro tomo, como já se disse, contém toda e qualquer outra escrita de Emanuel – os ensaios e monografias sobre artistas plásticos e outros, as questões relacionadas com restauro, uma das suas especialidades e práticas durante anos, as ocasionais recensões e apresentações formais de livros, notas de leitura dispersas por variados periódicos institucionais e suplementos literários dirigidos ao grande público, assim como toda a escrita que sobre ele foi publicada por outros, a grande parte naturalmente dedicada à sua poesia, mas também a que aborda de vários ângulos a sua prosa mais ou menos ficcional. “Trata-se de um conjunto de crónicas – escreveu Urbano Bettencourt sobre um desses livros – que levantam os trincos de uma memória ainda próxima para a reorganizarem e no-la revelarem; a própria tipologia do género favorece a envolvência de uma escrita que combina a modelação narrativa com a reflexão e a divagação e nos dá a imagem de um autor a contas consigo mesmo, na indagação do seu reduto íntimo e das razões que explicam a sua relação com o mundo e o levam a reagir às interpelações deste último (…)”. São nestas páginas que também temos reproduzidas algumas obras de arte, sobre as quais o poeta se dirigiu publicamente, e facsímiles dos originais dos seus poemas, cartas e prosa-outra, escrito tudo na sua inconfundível e cuidada caligrafia. Um velho documento, até mesmo um simples e burocrático regulamento, pode virar objecto de arte com o decorrer do tempo, o que acontece com algumas destas reproduções. Quase ouvimos a sua voz doce e meiga, quase revemos os seus gestos comunicadores, o seu olhar sempre fixado no outro em diálogo e em respeito pelo seu interlocutor ou interlocutores. Não há que fugir a estas emoções – os que com ele conviveram e partilharam toda uma aventura intelectual sentirão a saudade amarga da pessoa, ao que se seguirá o sorriso ante uma obra tão perfeita (como um dia diria dele o seu grande amigo, conterrâneo e colega Álamo Oliveira) na sua forma e abrangência humana, a certeza de que a sua vida foi consequente, e continuará a comover-nos com a sua serenidade e inteligência, seriedade e humor.

Uma última observação sobre este acontecimento editorial entre nós. Não quero de modo algum ser negativo num texto sobre a obra de Emanuel Félix, mas de modo nenhum posso deixar de me pronunciar sobre o formato destes três volumes, que vêm arrumados numa caixa preta, com um pequeno desenho da cara do poeta, e em baixo o título Emanuel Félix, Obra Completa. O livro como objecto de pretensa arte vem de longa data, mas pouco diz aos leitores mais entusiasmados pelo texto do que pela forma, esses que os querem manuseáveis, tantas vezes anotáveis nas margens, por entre linhas, sublinhados, ou até com páginas dobradas. Isto é uma preferência pessoal, minha, e é claro que farei isto mesmo ao meu exemplar. Só que quando o grafismo e o design geral de cada página a torna quase ilegível pela letra minúscula, não será só muito desagradável como já poderá afectar a leitura de muitos outros. Neste caso, é de facto o conteúdo que salva a forma. De resto, a quem se dirige esta obra fundamental de um poeta açoriano? Foi apresentada na Feira do Livro em Lisboa, e agora onde se encontra, em que livrarias? Já basta que não tenhamos o número de leitores que a poesia de Emanuel Félix sempre mereceu a nível nacional. Não será desta vez, creio — espero estar enganado — que esse objectivo seja conseguido, que esta obra chegue a muitas mãos no presente formato, e com toda a certeza com o preço acima dos orçamentos vigiados da maioria dos leitores. Esperemos que um editor mais realista retome o projecto.

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Emanuel Félix, Emanuel Félix, Obra Completa, Volumes I, II e III (Coordenação e revisão da obra de Vasco Pereira da Costa, ilustração da capa de José Nuno da Câmara Pereira), impressão de Nova Gráfica, Lda. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Direcção Regional da Cultura, 2015.

Fronteiras íntimas

V FREITAS BorderCrossings 3

True criticism recognizes itself as a mode of memoir… I believe there is no critical method except myself.

Harold Bloom, The Daemon Knows

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Aqui vai o terceiro volume de borderCrossings. Segue as mesmas linhas temáticas de sempre – literatura e sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste mesmo tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas e espelhadas na prosa, poesia e no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar. Literatura não é sociologia, sabemos, por detrás dos “factos” estudados, no entanto, estão as narrativas que penetram fundo nos seres reinventados, nos personagens que da realidade passam a um palco de dramatização do riso e do choro, que é condição humana. Para mim, a literatura foi sempre um acto profundamente identitário, através da qual “vemos” o outro, o que nos obriga à auto-reflexão de quem somos e como somos. O experimentalismo literário já se tornou (quase) uma noção anacrónica, e suspeita. Se não há nada dizer ou a representar, não haverá forma alguma que salve qualquer escrito. As palavras contam histórias, e essas histórias não perdem a sua complexificação quando escritas em linguagens claras, depuradas, e nas quais a metáfora e o símbolo universalizam, ou devem universalizar, o ser humano em qualquer geografia ou circunstância histórica. No centro da minha intervenção desde há muito que estão as literaturas açoriana e de luso-descendente, na América do Norte, ambas vindas ou intimamente associadas a duas grandes tradições culturais e literárias – a portuguesa e a do Novo Mundo, inclusive os chamados escritores canónicos bem mais conhecidos, mas não mais importantes para quem quer conhecer as suas próprias origens, a ancestralidade que nos colocou nos variados mundos do nosso destino, ou aos quais chegamos em busca de uma sobrevivência digna, ou vontade de ultrapassar os nossos próprios horizontes. Vitorino Nemésio, uma das nossas referências maiores, acertou por inteiro quando afirmou que “para nós a geografia vale tanto quanto a história”. Não conseguimos até hoje a projecção que desejamos, e porventura merecemos? As “margens” já não me incomodam minimamente, e acho inútil e até degradante insistir nessa suposta legitimação vinda de outros. Quem não conhece é que é ignorante, não os que sabem de si, e também dos outros. No mundo lusófono, os açorianos e seus descendentes – esses que escrevem em Inglês, mas têm o longínquo passado dos seus avós como chamamento persistente e desejado – não devem nada a ninguém a leste das ilhas (ou do grande continente a oeste) que é a sua primeira pátria, a dádiva maior dos seus antepassados lusitanos. Por isso, incluí na primeira secção deste livro as duas vertentes indissociáveis da nossa literatura, a açoriana, a luso-americana e, sempre que possível, a luso-canadiana.

De resto, estão aqui as minhas abordagens às mais variadas obras de ficção, poesia e ensaio que, em língua portuguesa, são essenciais a uma alargada contextualização das realidades que vivemos numa contemporaneidade já sem fronteiras limitativas para a nossa imaginação ou sentimento de pertença a espaços e a culturas que ainda há poucas décadas residiam só na nossa imaginação, por certo, mais míticas do que reais, como no caso de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no Brasil, que recordo aqui nalguns textos referentes a obras de jovens escritores brasileiros. Vivemos desde sempre, e intensamente, a nossa história nacional, essa que esporadicamente foi decidida a partir das ilhas açorianas, e, por sua vez, cada decisão tomada em Lisboa sempre teve, tem e terá imediato impacto directo nas nossas vidas a meio atlântico. Somos parte integrante da Nação, mas, como açorianos, não pertencemos de todo ao seu imaginário. Porém, quanto a literatura e escritos-outros, o nosso contributo tem sido imenso – desde Antero de Quental e a outras conhecidas figuras dos séculos XIX e XX, até a um rol cada vez mais conhecido de escritores e poetas nossos contemporâneos. Se entre eles encontrarem um ou outro livro de autores vindos de outras línguas, é porque falar de nós sem termos consciência do nosso lugar no resto do mundo seria, no mínimo, estranho. A verdade é que hoje o movimento de livros e intelectuais dos mais variados países por todas as capitais, ou nos mais variados eventos literários e culturais, é quase, felizmente, um acontecimento diário.

Não me seria possível escrever sem me dirigir à literatura norte-americana, parte primeira da minha formação na Universidade Estadual da Califórnia, em Fullerton. Presto aqui homenagem a dois dos meus grandes mestres que leccionaram na minha alma mater: William Koon, pela introdução, e depois estudo profundo, da literatura sulista, e não só, redefinindo o que é “regionalista” ou “nacional” numa cultura moderna e pluralista, como é a dos Estados Unidos; Michael Holland, um dos últimos new critics na academia americana nos primeiros anos da década de 70, formado que era em literatura europeia, dizendo-me repetidamente que quase toda a teoria da literatura que então despontava nos departamentos de línguas e literaturas por toda a parte era um waste of time/tempo perdido, e saber ler e interpretar qualquer texto, de qualquer género, requer apenas sensibilidade crítica e estética, procedendo ele depois à definição do que torna um texto uma peça de arte, ou outra coisa. Michael exagerava brilhantemente — achava que o close-reading, com a sua atenção ao tempo ficcional, ao tom da linguagem ou à sua ironia ou não, ao andamento rítmico da narrativa (leiam sempre em voz alta, quando vos for possível, aconselhava ainda ele, para não perderem a musicalidade bela de um bom texto), ao ponto de vista do narrador ou da narradora, a sua fiabilidade na história que nos conta, era a única chave essencial à desconstrução ou descodificação de um texto. Não havia muito mais a levar em conta – esqueçam a biografia de um autor, o texto ou valia por si, ou não valia nada, o nome do autor apenas um nome, absolutamente dispensável para além de o podermos identificar e arrumar na estante. De acordo com tudo – menos neste último ponto. Em cada autor poderá residir toda a história do nosso lugar e tempo. Edmund Wilson, que dizia detestar a nova crítica, tornar-se-ia a minha referência inescapável quanto a biografismo e historicismo na percepção ou interpretação de uma peça literária. Um olhar de cada extremo para o meio da ponte, o equilíbrio possível, suspenso na dúvida ou na interrogação, que qualquer leitura aprofundada requer.

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Odisseia açoriana, ou Ítaca reencontrada

Capa Arquipélago Joel Neto

Nenhum homem – dizia Graciete – podia considerar a sua vida completa até regressar a casa.

Joel Neto, Arquipélago

Vamberto Freitas

Há romances que demarcam para si um espaço tão profundo e firme que nunca mais ninguém – que o leia – poderá olhar esse referencial de geografia humana com os mesmos olhos, e muito menos sem rever todo o seu entendimento desse território, seja ele dos seus afectos pessoais e ancestrais, ou tão-só um ponto de luz – ou escuridão – na vastidão do mundo, na memória de quem o viu ou viveu. Não é o lugar que cria ou sequer define a arte, é a arte que o espelha numa luminosidade universal a quem olha em busca de si próprio, ou nesse mesmo lugar se enreda sem, até a esse momento, a consciência de como lá chegou, ou o acaso, o destino, que lá o fez nascer. Parecemos todos estranhos em terra estranha, desconhecemo-nos mutuamente, até que a grande arte junte os pedaços de que somos feitos, e os coloque no emaranhado a que chamamos sociedade, assemelhando-se àquela visão de conjunto perfeito e misteriosamente belo que temos ao subir a Serra do Cume, na Ilha Terceira, e olhar o xadrez de pasto e pedra – a natureza no seu estado primordial e a determinação humana em mexer com ela a seu favor. Arquipélago, o novo romance de Joel Neto, o próprio título significando logo à partida um conjunto de terras desconexas rodeadas de mar por todos os lados, não será facilmente ultrapassado entre nós na sua dimensão formalista e temática, na expansividade da sua narrativa, no inter-relacionamento das suas muitas personagens de várias gerações, no mistério tornado história plausível, no seu diálogo com a melhor parte da tradição literária açoriana modernista. Tanto nas epígrafes de certos capítulos como na própria prosa das suas primeiras páginas, Arquipélago presta essa homenagem a outros escritores, essa cortesia de quem está consciente das suas raízes intelectuais, da sua história, da sua pertença a uma comunidade de família e concidadãos, das suas influências, pacíficas ou clamando por respostas, ou até contestação – cita prosa e poesia de outros, relembra aos seus leitores as origens reias e reinventadas da sua própria obra. Resta agora dizer que este seu romance é nada menos do que uma espécie de súmula literária de tudo o que no género o antecedeu, olhando o passado e tentando perceber o presente para rasgar ou propor novas visões, revisões, de quem somos ou pensamos ser, e de como nos integramos no grande esquema de um novo mundo em construção. É a essencial, a inevitável “viagem para dentro”, o reencontro homérico, é o (nosso) livro de todos os regressos, após todas as partidas que o antecedem nas obras de alguns dos mais conhecidos ou canónicos autores açorianos a partir de meados do século passado.

A estrutura narrativa de Arquipélago é esse labirinto de tempos, personagens e cenas que eventualmente convergem numa só história, levando-nos até fim na busca e eventual confirmação de um só tema, apesar de um intrincado fio condutor que nos leva a prolongadas e inesperadas digressões, a sinuosas veredas, pessoais e colectivas, a reacções de uns e outros a catástrofes aqui transfiguradas em acontecimentos ainda na memória quase fotográfica de cada um deles. Da força das raízes não se livra o doutorando José Artur Drumonde, regressado de Lisboa à sua terra natal, a freguesia da Terra Chã, onde se depara com os mistérios do passado da sua gente, mortes por explicar, a ilha dolente ainda traumatizada por outras violências, uma vez mais, indelevelmente gravadas na alma de todos, fonte de verdades e mentiras da ilha, evidência de que por detrás de cada cara inocente ou falas sem nexo espreita também a capacidade de matar e amar, a humanidade atávica enquanto pretendendo a modernidade precária do mundo em que todos nós vivemos, aqui e além dos nossos enevoados horizontes ilhéus. No centro do romance está o momento mais catastrófico e traumatizante das ilhas para esta geração – o terramoto de 1 de Janeiro de 1980. Os mortos foram enterrados, mas os lares ficaram desfeitos, e mais ainda as vidas mergulhadas no medo e na incerteza, e sobretudo na sabedoria desperta que leva a questionar todo e qualquer conforto em crenças maiores. A ilha será invadida por trolhas estranhos que reerguem as casas, mas tudo o resto são como as manhãs do Outono, o frio por entre o nevoeiro, a ameaça constante de tudo e todos, o silêncio e a quietude da natureza, quase sempre interpretada como presságio da terra tremida ou explosiva. Arquipélago é um romance ritualístico, de choro e riso, e no qual os antigos serão revistos como homens ou mulheres de bem ou do mal, ora de vontades e acções livres, ora guiados pela ignorância, acreditando em temerosos castigos divinos, e escravidão social raramente questionada. A personagem de primeira referência é também o avô de José Artur, de nome José Guilherme Drumonde. À sua volta gira a felicidade, o bem-estar do seu clã, a casa por ele construída marcando sempre os pontos de partida, e anos mais tarde, já muito depois da sua morte, sobretudo as chegadas. No outro lado da memória e obsessão determinante do seu neto regressado à ilha em busca de respostas está a morte, nos dias após o sismo e envolta em mentiras, da menina e amiga de infância, Elisabete Dutra, de apelido Sarralha, nascida da pobreza e para a pobreza, nascida da violência e destinada a um sacrifício levado a cabo por gente à procura de aplacar deuses e demónios do seu pequeno mundo. Nunca uma ilha açoriana tinha sido transfigurada desta maneira, o realismo fantástico levando-nos a algo mais do que havia já acontecido noutras ficções nossas. Nunca uma casa-concha caída e recuperada em nome da continuidade geracional, escondendo segredos macabros tardiamente revelados, significou tanto nas nossas melhores páginas da literatura, aqui tão memorável, a reconfirmação de que a geografia vale “tanto quanto a história”. Arquipélago tem ainda uma estrutura policial que nos faz suspender a incredulidade, e mais ainda seguir um jogo de investigação e especulação contínua sobre a mítica de uma Atlântida, alimentada nos nossos dias também por supostas e diversas descobertas que atestam por toda ilha a presença de povos esquecidos, que estiveram ou por cá passaram muito antes dos portugueses. Se toda a literatura é um imaginado memorial sobre as origens das nossas vidas, o proverbial jogo de espelhos reflectindo todas as verdades contraditórias da História legitima esta audácia intelectual, e tenta responder ao que resposta, concludente, nunca teve, entre qualquer povo do planeta – de onde somos e que fazemos aqui?

O elenco de personagens de Arquipélago é extenso, e vem listado na sua abertura. Uma das epígrafes de capítulo traz uma citação de um dos mais conhecidos romances do americano Jonathan Franzen. Vejo aqui uma característica narrativa que me faz lembrar a prosa lapidar do autor de Correções e Liberdade – uma complexa trama de relacionamentos, incidentes, estados de alma, e em particular um mosaico comunitário que cobre todas as classes sociais, com especial atenção a figuras cuja originalidade e estilo de vida rural açoriano são-nos históricos, permanecem como referências de toda uma geração, hoje adulta, e até com experiência vivencial e cultural do mundo em toda a parte. Joel Neto sabe muito bem que o realismo literário está de volta, como sabe ainda mais que uma narrativa referenciada numa cultura de raiz católica e supersticiosa como a nossa não dispensa nem a sua magia nem a sua noção do sagrado e do fantástico. Representam, quase todas estas personagens, arquétipos muito nossos, desde o criador de gado ao taberneiro de freguesia, a mulheres servis ou contestatárias do seu lugar pré-destinado ou imposto pela tradição. São de imediato reconhecíveis, mas sem nunca em caso algum perderem a sua originalidade. O narrador faz o que a boa ficção tem de fazer – com descrições e observações precisas imprime na nossa mente toda uma personalidade e vida interior dos seus personagens mais relevantes, em que até o seu cão de estimação se torna inesquecível, Papillon, pois claro, cuja missão principal é ficar ou fugir da prisão na companhia do seu dono, assim como, já agora, faz com o velho e hidráulico Citroen, a que desde sempre lhe deram a alcunha de Boca de Sapo, carro herdado do avô. Nada disto é tão comum na nossa literatura como poderão pensar, antes teremos personagens ao serviço de ideias perecíveis ou ideologicamente motivadas, e raramente o contrário. Por outro lado, a sensualidade do lugar e das gentes é uma constante, a história de amor aqui outro ponto fulcral da narrativa. Luísa, divorciada, oriunda de Santa Maria, empresária turística e vivendo só com uma filha, inteligente e sensível a tudo que a rodeia, são-nos ambas inesquecíveis.

Por fim, diga-se que a narrativa começa no presente, e termina com um epílogo escrito em 2048 por André Gouveia Drumonde, filho do protagonista, e residente na casa e na freguesia ancestrais. Continuam todos a ser daqui, como são de toda a parte, ou de nenhures. O ciclo açoriano não se fechava com a morte das sucessivas gerações, perpetuava-se, a memória dos que nos seguem tão viva e actuante como a nossa, como a de todos os antepassados.

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Joel Neto, Arquipélago, Lisboa, Marcador Editora, 2015.