A poesia de Emanuel Félix, ou o eterno instante

Capa E Félix Obra Completa

O tom autêntico ou falso das palavras deixa-se descobrir conforme o conteúdo que exprimem… E de nada valerá ao poeta inautêntico a habilidade formal.

Emanuel Félix in Emanuel Félix, Obra Completa

Vamberto Freitas

Impõe-se aqui desde logo um obrigado imenso ao poeta e escritor Vasco Pereira da Costa pelo seu grandioso trabalho na recolha de tudo que completa a nada menos imensa obra de Emanuel Félix que, para além da poesia, o seu centro fulcral, inclui ainda muita prosa – ficção, crítica e ensaísmo abrangendo praticamente todas as artes, com especial ênfase na pintura e em questões de restauro ou manutenção do património cultural e artístico açoriano. Juntar o trabalho completo e público de uma vida envolve muito mais do que o conhecimento aprofundado e capacidade de avaliação de uma obra tão consequente como esta – exige, em igual medida, uma noção de ética que nem sempre é lembrada em trabalhos como este. Como e de quem “falou” o falecido autor não só define a sua figura como estabelece permanentemente a escala do seu lugar entre o povo e a cultura a que, por nascimento, formação e opção, pertence, passa a partir desse momento de avaliação total – não podemos fugir às implicações de uma “obra completa” – a ser, ele próprio, não uma sombra intimidadora, mas sim um exemplo de como a originalidade de uma carreira seguiu o seu caminho, de como outros poderão imaginar os seus próprios rumos literários sem nunca ceder aos ditames, quase sempre artificiais e inconsequentes, do meio que escolhem para viver e cultivar a sua arte própria. Emanuel Félix nunca será apenas um grande poeta português dos Açores – é um monumento de persistência artística, de originalidade sem medo, de pertença atlântica, de viajante de partidas e regressos contínuos, de descobridor que não aponta o dedo a nada e a ninguém, mas ilumina com a naturalidade de um astro todo um mundo à sua volta, num olhar sereno, como quem diz sem dizer – olhem que eu vi, olhem que há mais mundo para além de nós. Escrevo estas linhas nos dias em que um outro grande autor está a ser discutido por razões semelhantes, o americano Saul Bellow. Foi o grande romancista que abriu toda uma estrada criativa e temática para si e para os seus conterrâneos na literatura do seu país com uma proposta que foi, nos anos 40 do século passado, simultaneamente muito simples e muito corajosa – serei um escritor fiel às minhas origens, se nunca viram, verão agora, sou americano e judeu, filho de imigrantes russos, e a minha visão do mundo e do lugar que nele ocupo ou quero ocupar poderá coincidir ou não com o da maioria na tradição deste que é também o chão a que prefiro pertencer. Qualquer leitor minimamente informado sobre a história literária dos EUA conhece o desfecho brilhante dessa proposta e audácia. Emanuel Félix, para mim, representa algo muito parecido nos Açores perante o restante país, cujo território não corresponde ao mapa, é muito mais vasto e imaginário do que pensavam os provincianos que historicamente pululavam (hoje não sei por andam) entre o Rossio e o Chiado. Ao contrário do que aconteceu com Bellow, o poeta angrense ainda não foi descoberto pelos supostos viajantes universais da nossa literatura. Algumas das melhores vozes literárias e críticas, assim como uns poucos estudiosos da nossa literatura, no entanto, conhecem e acarinham, pela sua força e qualidade, a obra do nosso poeta, entre os quais Eugénio Lisboa e Fátima Freitas Morna. Estamos falados.

Emanuel Félix, Obra Completa está dividida em três grandes volumes: Poesia, Prosa e Vária. A primeira parte está explícita, quanto ao conteúdo. Escreveria Fátima Freitas Morna: “Fiel à necessidade de mudança mas fiel, acima de tudo, a si própria, a poesia de Emanuel Félix soube reinventar-se em algumas das suas componentes fundamentais, dialogando consigo e retomando, de outras maneiras, temas, motivos, peças de um mesmo universo que ressurgem outras em novos poemas.” O segundo volume consiste no que o autor nos deixou no campo da ficção e na crónica, ambas as formas quase sempre de cariz memorialista, como n’Os Trincos da Memória, recordando figuras e momentos vividos ou testemunhados, quase sempre em Angra do Heroísmo, a cidade natal do escritor. Escrevi na altura que “Onde quer que se encontre dentro e fora do nosso país, são quase sempre os recantos da infância e os imaginários da ilha os seus irremediáveis momentos de emoção”. Emanuel era, como sabem os seus amigos e leitores mais íntimos, um grande contador de histórias, que cativava os seus ouvintes com as palavras, tons de linguagem, gestos e até silêncios que nos preenchiam ou despertavam a imaginação, recriando personagens e situações da sua vida real. Esta sua escrita continua a exercer o mesmo efeito hipnotizador ante os que o lêem pela primeira vez, ou os que revisitam as suas páginas. Por certo que esta será a parte da sua obra menos conhecida, tão avassaladora na forma e na emoção que era a sua poesia, permanecendo o poema “As raparigas lá de casa”, em Habitação das Chuvas, ainda hoje um dos mais lembrados e recitados entre nós ou entre os que vão descobrindo aos poucos a sua obra. O terceiro tomo, como já se disse, contém toda e qualquer outra escrita de Emanuel – os ensaios e monografias sobre artistas plásticos e outros, as questões relacionadas com restauro, uma das suas especialidades e práticas durante anos, as ocasionais recensões e apresentações formais de livros, notas de leitura dispersas por variados periódicos institucionais e suplementos literários dirigidos ao grande público, assim como toda a escrita que sobre ele foi publicada por outros, a grande parte naturalmente dedicada à sua poesia, mas também a que aborda de vários ângulos a sua prosa mais ou menos ficcional. “Trata-se de um conjunto de crónicas – escreveu Urbano Bettencourt sobre um desses livros – que levantam os trincos de uma memória ainda próxima para a reorganizarem e no-la revelarem; a própria tipologia do género favorece a envolvência de uma escrita que combina a modelação narrativa com a reflexão e a divagação e nos dá a imagem de um autor a contas consigo mesmo, na indagação do seu reduto íntimo e das razões que explicam a sua relação com o mundo e o levam a reagir às interpelações deste último (…)”. São nestas páginas que também temos reproduzidas algumas obras de arte, sobre as quais o poeta se dirigiu publicamente, e facsímiles dos originais dos seus poemas, cartas e prosa-outra, escrito tudo na sua inconfundível e cuidada caligrafia. Um velho documento, até mesmo um simples e burocrático regulamento, pode virar objecto de arte com o decorrer do tempo, o que acontece com algumas destas reproduções. Quase ouvimos a sua voz doce e meiga, quase revemos os seus gestos comunicadores, o seu olhar sempre fixado no outro em diálogo e em respeito pelo seu interlocutor ou interlocutores. Não há que fugir a estas emoções – os que com ele conviveram e partilharam toda uma aventura intelectual sentirão a saudade amarga da pessoa, ao que se seguirá o sorriso ante uma obra tão perfeita (como um dia diria dele o seu grande amigo, conterrâneo e colega Álamo Oliveira) na sua forma e abrangência humana, a certeza de que a sua vida foi consequente, e continuará a comover-nos com a sua serenidade e inteligência, seriedade e humor.

Uma última observação sobre este acontecimento editorial entre nós. Não quero de modo algum ser negativo num texto sobre a obra de Emanuel Félix, mas de modo nenhum posso deixar de me pronunciar sobre o formato destes três volumes, que vêm arrumados numa caixa preta, com um pequeno desenho da cara do poeta, e em baixo o título Emanuel Félix, Obra Completa. O livro como objecto de pretensa arte vem de longa data, mas pouco diz aos leitores mais entusiasmados pelo texto do que pela forma, esses que os querem manuseáveis, tantas vezes anotáveis nas margens, por entre linhas, sublinhados, ou até com páginas dobradas. Isto é uma preferência pessoal, minha, e é claro que farei isto mesmo ao meu exemplar. Só que quando o grafismo e o design geral de cada página a torna quase ilegível pela letra minúscula, não será só muito desagradável como já poderá afectar a leitura de muitos outros. Neste caso, é de facto o conteúdo que salva a forma. De resto, a quem se dirige esta obra fundamental de um poeta açoriano? Foi apresentada na Feira do Livro em Lisboa, e agora onde se encontra, em que livrarias? Já basta que não tenhamos o número de leitores que a poesia de Emanuel Félix sempre mereceu a nível nacional. Não será desta vez, creio — espero estar enganado — que esse objectivo seja conseguido, que esta obra chegue a muitas mãos no presente formato, e com toda a certeza com o preço acima dos orçamentos vigiados da maioria dos leitores. Esperemos que um editor mais realista retome o projecto.

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Emanuel Félix, Emanuel Félix, Obra Completa, Volumes I, II e III (Coordenação e revisão da obra de Vasco Pereira da Costa, ilustração da capa de José Nuno da Câmara Pereira), impressão de Nova Gráfica, Lda. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Direcção Regional da Cultura, 2015.

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