História e mítica açoriana na grande ficção

Capa Meu Mundo

Eram homens e mulheres esquecidos, habituados a olhar em redor e a tudo medir no sentido giratório do Sol que lhes dava a visão do mar e do tempo. Da ciência, tinham a das marés, dos ventos e das grandes chuvas eternas.

João de Melo, O Meu Mundo Não É Deste Reino

Vamberto Freitas

Acaba de sair a oitava edição de O Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo. Desde o ano em que foi originalmente publicado, 1983, muito aconteceu na terra açoriana, que lhe serve de referencial privilegiado, e absolutamente nada que questione ou que lhe retire uma só palavra sobre a mítica origem do povoamento das ilhas, e de seguida a estruturação de toda uma nova sociedade, a primeira a ser realizada fora do continente europeu como resultado da epopeia trágica que seriam os Descobrimentos portugueses então em curso. Se este grande romance dificilmente ficará um dia ultrapassado na miticidade das nossas origens, a sua última parte, que nos traz até à chegada de uma limitada modernidade na primeira metade do século XX, em nada terá sido ultrapassado ou “desmentido” pela própria realidade. Cada sociedade tem a sua classe dominante, que confunde deliberadamente a sua visão e posição societal com a da grande maioria à sua volta. Convém – para esconder os seus próprios falhanços e provincianismo, para que ninguém se revolte contra a marginalidade que são as vidas da maioria dos seus habitantes. A ficção nunca tem de ser fiel a nada na realidade, mas quando se propõe a espelhá-la, quer-se um mínimo de plausibilidade por entre todas as suas invenções, no seu imaginário, para que a cumplicidade do leitor o leve também, sub-conscientemente, a um sentimento de pertença a um mundo que, sim, é do seu reino. Está tudo aqui – a construção das velhíssimas formas de vida entre nós que têm o medo como sentimento primordial, bíblico – o aviso permanente da natureza, que combina a sua paradisíaca beleza com a morte, a grande maioria dos habitantes em questionamento diário acerca de como sobreviver, a governação e domínio total dos privilegiados entre as forças profanas e religiosas, a claustrofobia do cerco e a vontade irreprimível de fuga, com intermitências de fantasia e esperança. A cor e o baile das ilhas poderá ser hoje bem mais brilhante e movimentado, mas a História impõe-se sempre. Em vez de se olhar os barcos à proa em direcção à América, como no poema de Pedro da Silveira, olha-se o céu, e pondera-se um outro voo de salvação, sempre no outro lado, sempre num outro lugar. Aliás, os pássaros, indo e vindo aos gritos ou numa cantilena de lamentações, são uma das metáforas nesta narrativa açoriana. Partem e regressam, os pássaros, e encerram este romance – eis uma boa definição do tema supremo de toda a nossa literatura. O Meu Não É Deste Reino é um herdeiro directo, mesmo que longínquo, da grande história trágico-marítima portuguesa que nos colocou nesta singular geografia de partidas e regressos, numa rota intermediária entre dois continentes e mitos, consciente a cada passo de que a condição humana envolve também esse impulso universal de se querer ver o que fica no outro lado do horizonte.

Reler O Meu Mundo Não É Deste Reino depois destes anos todos foi-me como que uma experiência de regresso a “casa” e de reencontro com velhos demónios, meus e do livro, a vários níveis. Em primeiro lugar, o romance foi, mais do que eu esperava, reescrito pelo autor, como quem quer dizer aos primeiros leitores e aos que virão às suas páginas pela primeira vez que este é uma espécie de testemunho artístico repensado, e agora feito permanente — a transfiguração definitiva de um tempo colectivo açoriano que fica como metáfora e símbolo do que o seu autor entende ser a génese e a caminhada histórica de todo o seu país. Não se o poderá – nem deverá – lê-lo de modo restritivo, como uma história das ilhas, mas sim como uma imaginada reconstrução de como todo um povo se reinventou a meio atlântico nas mais primitivas e aventureiras circunstâncias, dando continuidade a toda uma cultura e modo de ser e estar que tem as suas origens num país chamado Portugal, e que nunca nesta ficção são esquecidas, até pelas persistentes referências à governação que de lá é decretada ou imposta. Os Açores, aqui, são essa metonímia de um país a braços com as consequências da sua grande epopeia marítima, todos os valores, vícios e virtudes, combates e rendições sócio-políticas e económicas fazem parte, são a essência, de uma pequena comunidade que se chama Nossa Senhora do Rozário (da Achadinha), pertencente a um reino maior repartido ou separado pelo mar. Estamos perante uma comunidade vivendo da e pela natureza pura, que tanto lhe oferece o jardim genesíaco como a chama do inferno, ensimesmada na sua opressão, regida pela ignorância e pelo terror da lei feita à medida dos governantes locais e analfabetos, pela superstição religiosa, cujo representante se chama precisamente “padre Governo”. Nenhum leitor português que conheça o seu país e o seu passado deixará de se reconhecer por inteiro nesta teia de vida, e sobretudo de morte, “a morte numerosa” de que nos fala o narrador. Não esqueço a reacção de Gregory Rabassa, que até hoje nunca visitou as ilhas açorianas, mas verteu este romance de João de Melo para Inglês sob o título de My World Is Not Of This Kingdom. O grande tradutor nova-iorquino quando o leu pela primeira vez diria que nada, desde a sua tradução de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, se assemelhava a este poder da palavra e transfiguração literária. O que entendemos por “universalidade” da experiência humana está aqui presente, só que numa versão bem pouco conhecida, inclusive no nosso país. É esta a grande obra de João de Melo, mesmo que menos falada do que o romance seguinte, Gente Feliz Com Lágrimas, a narrativa que que lhe dá continuidade num referencial geográfico muito mais vasto, e na contemporaneidade dos seus personagens. Por outro lado, quando li este romance pela primeira vez estava eu desde muito jovem nos Estados Unidos, não conhecia a Achadinha, nem sequer a ilha de S. Miguel. Era apenas a ficção e os seus artifícios que me interessavam, se bem que a questão da cultura e da minha própria ancestralidade não me poderiam ser alheias. Hoje, após quase um quarto de século de residência na ilha, ler O Mundo Não É Deste Reino é como quem vê diariamente os seres reais que pululam dentro e fora destas páginas. Recentemente, num ensaio titulado “The Writer’s Shadow”, de Tim Parks, no The New York Review of Books, fala-se na sombra, na personalidade, de um autor que imaginamos, quase sempre de modo simpático, a partir da sua prosa; diria que quando o conhecemos pessoalmente, teremos, provavelmente, um outro olhar no encontro com a sua escrita. Ao contrário do que se possa pensar, esse facto torna a leitura ainda mais exigente, e desculpa-se muito menos o que eventualmente poderemos considerar falhas na narrativa. Não sei como reagirão outros à sua releitura deste livro. No meu caso, o romance ergue-se agora como uma obra prima em que a história açoriana é o seu primeiro protagonista, cada personagem, no entanto, tornado inesquecível pelas suas idiossincrasias, e depois pelo que representa mais vastamente na sua colectividade. Não se pode pedir muito mais de uma peça de ficção.

Um grande romance está também para além da própria história que nos conta. O Meu Mundo Não É Deste Reino apresenta-nos a um grupo de personagens e protagonistas cujas acções e palavras narradas tanto desenvolvem a trama – uma vez mais, a chegada dos primeiros povoadores até a tempos recentes – como cria e desenvolve toda uma personalidade própria de cada um, o leitor não os esquecendo nunca, imaginando-os e percebendo-os, com empatia ou desdém, os seus destinos, a sua sorte na comunidade em que nasceram, vivem, sofrem, ou infligem as maiores patifarias e roubos a outros. É uma história de amor e ódio, de castigo e redenção, um mundo de pobres cavadores e agricultores, de latifundiários nascentes, de mulheres que são amadas ou odiadas. Sobressai em toda a narrativa a luta “demasiado humana” no desconserto das coisas, a raiva de uns temperada pelo humor de outros, pela atenção do narrador a todos os pormenores visíveis ou imaginados que nos definem o relacionamento entre todos, as suas motivações, as suas crenças. Coexistem a mais luminosa beleza das gentes e dos seus afazeres com a mais repelente fealdade humana. À morte sempre presente, ameaçadora, contrapõe-se a esperança de outra vida e dignidade conquistada. A melhor literatura do século passado é feita destes extremos, o tempo em que o primitivismo e a modernidade defrontavam-se na definição e construção das sociedades que são as nossas. No fim do romance os pássaros reaparecem em bandos cantantes, nas suas idas e vindas imparáveis. Como eles, os cavadores de então, como nós, sempre. Não há resolução alguma aqui. Só a história rumo ao desconhecido.

________

João de Melo, O Meu Mundo Não É Deste Reino (8ª Edição, Reescrita pelo Autor), Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s