A resistência intelectual no labirinto luso

Capa Encostados à Parede2

Estamos cansados, mais velhos, mais cépticos, mas ainda temos força para gerar alternativas que ponha termo a este estado de coisas… para a ruptura e a utopia.

Eduardo Paz Ferreira, Encostados à Parede

Vamberto Freitas

A palavra “resistência” que aqui vai foi também inspirada por um dos ensaios deste novo livro de Eduardo Paz Ferreira, “A coragem da resistência”, que é o sobre José Medeiros Ferreira, lido na conferência de homenagem ao falecido autor e político na Fundação Calouste Gulbenkian, em Fevereiro deste ano. Sem mais demora, permitam-me afirmar que Encostados à Parede: Crónicas de Novos Anos de Chumbo, todo ele, é um civilizadíssimo acto de resistência intelectual, e não só, a praticamente tudo o que temos vivido em Portugal nestes últimos anos, a tudo o que tem sido a nossa vida pública sob as mais diversas acusações e castigos, vindas tanto de estrangeiros, que são supostamente os nossos “parceiros”– não tenho outra maneira de o dizer – como dos seus aliados internos. A nossa geração, em que se inclui o autor deste livro, e parafraseando Charles Dickens, tem vivido o melhor e o pior dos tempos, guerra, fome, emigração, indignidade cívica e, sim, dias de esperança, alegria, por assim dizer, cívica, a sua liberdade, que no nosso país foi sempre uma condição periclitante, constantemente sob ataque de elites que nunca se habituaram a ver a Nação no seu todo. Foi outra sina da nossa geração – viver toda a vida sob reformas ditas estruturais e de vários géneros, fins, e sobretudo ideológicas. O povo português conhece muito bem este modo de vida pública – quarenta e oito anos simultaneamente adormecido e em guerras, uma vez mais, em múltiplas frentes, seguidos de mais quarenta e tantos anos de ebulição sócío-política constante. Durante todo este percurso nacional nunca tínhamos ou pensávamos vir a ter a experiência de povo ocupado, mas é isso exactamente que nos aconteceu, e não tendo sido pela via militar, foi-o por uma via ainda mais degradante – a serviço da Grande Finança sediada entre esses nossos supostos “parceiros”, que até implicou com os nossos feriados e outros costumes, atacando a nossa identidade de povo com novecentos anos de história, cidadãos do primeiro estado moderno da Europa, com as suas fronteiras intactas desde a reconquista iniciada em Guimarães, generoso, sempre, como sabem ou deveriam saber os auto-denominados “verdadeiros finlandeses”, entre outros, pagadores firmes de todas as suas dívidas ditas soberanas. O que está a acontecer a Portugal (e a alguns outros povos do continente e ilhas europeias) é o tema de fundo de Encostados à Parede, o nosso país visto necessariamente no contexto europeu mais alargado, nesse em que, também supostamente, nos integramos. A verdadeira face desta nova versão do Velho Continente, tão historicamente – repito-me aqui – habituado a construir catedrais e logo depois a queimar tudo e todos à sua volta, tem as suas origens na redefinição de uma nova “normalidade”, “inevitabilidade”, de uma “moralidade” internacional definida e imposta por interesses demasiados antigos mas sempre renovados pelas gerações seguintes que, ao contrário do que se diz, têm uma cara, têm uma geografia dispersa, têm os quartéis generais em vários sítios, e dão pelos nomes de bancos e mercados.

É sobre tudo isto, uma vez mais, que este livro – constituído por crónicas, ensaios e entrevistas provenientes das mais variadas ocasiões e encontros, com a temática e própria voz do autor a dar-lhe o fio condutor e a unidade do seu arranjo em livro – de Eduardo Paz Ferreira se debruça, à semelhança de outros e recentes volumes seus, como creio que o seu feliz e certeiro título é profundamente significante na linguagem vernácula da nossa língua e gente, “Encostados à Parede”, e, na maior parte dos casos, em silêncio ante o poder avassalador que destrói vidas e ameaça um futuro comummente desejado. Quero, no entanto, abordar o livro por outra perspectiva, escavar um pouco da sua estética e dos seus referenciais literários e artísticos em geral por detrás do conteúdo. Primeira observação: estamos perante uma narrativa completa da vida do país no tempo da sua maior crise, abrangendo quase todos os sectores da vida colectiva, que vão desde as políticas financeiras impostas aos cidadãos – não esqueçamos que o seu autor é especialista em finanças públicas e um prestigiado Professor Catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa — às consequências quotidianas para quem as vive, ou é por essas medidas atingido de vários modos. Uma das originalidades desta prosa é que Eduardo Paz Ferreira alia ao rigor das suas análises o subjectivismo que toda a Ética implica, Encostados à Parede tornando-se, página a página, e depois numa secção intitulada “Vim de longe”, uma espécie de autobiografia que lhe permite uma visão das margens para o centro, e do centro para as margens. As suas origens açorianas, nunca esquecidas ou menosprezadas nestas e noutras páginas suas, ocupam aqui um espaço privilegiado – tanto em discurso directo sobre o seu percurso desde os tempos da faculdade nos anos 60 até ao presente, no seu estatuto de intelectual público, com a sua participação nos nossos meios de comunicação, fazendo dele ainda uma das mais ouvidas e lidas referências políticas e culturais. Se a hiper-especialização académica do nosso tempo foi sempre um cerco anti-dialogante com o resto da sociedade, nestes últimos anos desfrutamos de uma positiva contra reacção nesses meios, com alguns dos outrora fechados nas proverbiais torres de marfim a sair a terreno para contribuir para o debate um pouco mais alargado entre todos. Escrever com clareza é bem pouco comum na academia; escrever com o saber e a criatividade de Eduardo Paz Ferreira é ainda mais raro. Quando se dá a junção da cientificidade ou análise fundamentada da matéria, digamo-lo assim, com a beleza da palavra cultivada e transmissora de erudição literária e cultural, teremos prosa como esta, o texto como fonte de ensinamento e prazer puro, nestas páginas acontecendo o inevitável dialogismo entre a política, cultura, e até religião, o mais dramático e lúdico entre nós em irremediável convivência, como no capítulo que recorda alguns dos filmes de várias nacionalidades que mais o comoveram, que mais significaram, juntamente com a literatura, na construção do seu imaginário universalizado, assim como evoca música de vários géneros num chamamento quase constante a tempos, vivências e emoções que lhe servem de fundo a determinados pensamentos ou temas. Sem surpresa para mim, certo famoso fado de Amália, em que ela canta a alegria e bondade da pobreza na casa portuguesa, não lhe agrada de modo algum, o seu humor temperando, suponho, a vontade de ripostar à artista-ícone de um Portugal que se queria acabado e arrumado.

No centro desta narrativa coesa e na polissemia temática que é Encostados à Parede, Paz Ferreira relembra e homenageia três das grandes figuras da resistência democrática portuguesa – o já referido José Medeiros Ferreira (dois ensaios), Ernesto Melo Antunes e Francisco Salgado Zenha. Ao falar deles, o autor indica-nos não só a mundividência em que ele próprio se integra e ante a qual desenvolve certa ideologia, como, intencionalmente, nos oferece vidas consequentes, significantes, que antecedem e nos levam inevitavelmente ao “julgamento” dos que agora nos governam e teorizam sobre novos “valores” e “méritos” do rumos tomados e impostos por outros, que de nós nada sabem, e por nós pouco se importam. Falar do nosso país é falar da Europa em que estamos inseridos, mas à qual mal pertencemos, como talvez diria Medeiros Ferreira nos seus derradeiros dias de vida, ele que foi – tal como este seu grande amigo Eduardo Paz Ferreira continua a ser – um europeísta convicto. Em praticamente todos os textos deste livro o tema é abordado, denunciando os desvios que nos trouxe à presente situação de marginais no que era para ser uma União solidária, social, humanizada. Do mesmo modo, não só recorre às ideias e pronunciamentos de natureza social e económica do Papa Francisco, como lhe dedica toda a sua admiração, concordância e alegria do reavivamento social da Igreja católica, agora essencialmente dando continuidade ao Concílio Vaticano II do Papa João XXIII, o regresso do humanismo, para bem de todos, desse outro lado da Europa, ou pelo menos de certa Europa. Por outras palavras, e tal como deixo claro no passo que me serve de epígrafe neste texto, Paz Ferreira acredita que, ao contrário do que nos tentam fazer crer, a “ruptura” com o mais negro situacionismo é possível, desejada, o contraponto de salvação ao que nos parece ser uma pregação, outra vez, do “fim da história”.

Ler mais esta prosa de Eduardo Paz Ferreira em Encostados à Parede: Crónicas de Novos Anos de Chumbo é recordarmos que a linguagem carregada de ética e estética, vastamente referenciada no melhor da cultura portuguesa e ocidental, é em si própria uma das mais eficazes resistências ao que nos degrada e nos oprime. É o contrário do newspeak ou doublespeak orwelliano, de que voltaram a servir-se os admiradores do Bezerro de Ouro, a nova tentação anti-democrática (por certo, nas suas consequências), um vivo discurso contra a imposição das virtudes fantasiadas de um reinventado evangelho societal, sustentado nos nossos dias por novos teólogos austeritários escolhidos e muito bem pagos, que hoje dão ainda por outros nomes.

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Eduardo Paz Ferreira, Encostados à Parede: Crónicas de Novos Anos de Chumbo, Lisboa Quetzal Editores, 2015.

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Eduardo Lourenço em diálogo, sempre

Capa Em diálogo Com E Lourenço

Havia na atmosfera de Coimbra e daquela gente que eu frequentava… havia uma atitude desdenhosa em relação a Nemésio, que era assim uma espécie de saltimbanco, era muito moderno, demais, para eles.

Ana Nascimento Piedade, Em Diálogo Com Eduardo Lourenço

Vamberto Freitas

É certo que Vitorino Nemésio ocupa um pequeno espaço neste novo livro Em Diálogo Com Eduardo Lourenço, uma longa conversa do autor com Ana Nascimento Piedade, mas entenderão as razões que o trago para aqui. Eduardo Lourenço vai para Coimbra nos anos 40, e Nemésio por lá tinha passado mais ou menos vinte anos antes, mas suficientemente conhecido e respeitado para que Lourenço tenha notado e registado o seu estatuto de referência, mesmo que ideologicamente negativa, ou ainda mais enfaticamente por ser assim para o autor de Heterodoxia e O Labirinto da Saudade. Um pouco mais à frente trarei, por razões iguais, um outro passo em que Lourenço destaca, nesta sua habitual linguagem simultaneamente clara e propositadamente elíptica sem nunca deixar de conter significações em todas as direcções, Antero de Quental, o modo como ele vê o lugar do poeta em relação à modernidade que queria para o seu país, e o peso da ilha, mais na sua pessoa do que na sua obra. Portugal sempre foi um país de intelectuais públicos, as vozes que rejeitam as torres de marfim e preferem comunicar com a classe culta através dos meios de comunicação de vária natureza. Lourenço restringiu-se sempre à palavra e ao papel, for força das suas circunstâncias académicas no estrangeiro (França) e, suponho, pelo seu modo de ser – contido, humilde na sua total indiferença à fama, dialogante em voz baixa, rebuscando as infindáveis fontes que lhe poderiam esclarecer mais um pouco sobre quem somos e como somos. Nós, os portugueses em toda a parte, somos o seu tema inesgotável, toda a sua reflexão está especialmente concentrada sobre a nossa sorte durante o século passado, com os chamamentos mais variados, constantes e profundos à nossa literatura, de Camões a Fernando Pessoa. Trabalhar esse seu tema implicou desde logo saber como éramos ou não europeus, como a Europa nos olha e/ou nos afasta, ou como entendemos o percurso singular do pequeno país atlântico que se fez ao mar e preparou antes de ninguém, a partir dos Descobrimentos, a primeira globalização, o primeiro grande movimento entre continentes e povos, as primeiras experiências colonialistas, de povoamento e ocupação de outras terras e gentes. Creio que qualquer leitura da sua obra leva-nos não à absorção da mítica de grandeza, mas sim a como essa empresa marítima trouxe-nos à pequenez dos nossos tempos, à modernidade tardia em que hoje vivemos e tentamos manipular para o nosso desenvolvimento e bem estar como parte mais ou menos integrante de uma Europa que se diz querer “unida” mas sempre desconfiada perante a herança sulista, mediterrânica, ou, como talvez diria Adriano Moreira, o antigo Império Romano. Eduardo Lourenço parte de toda a nossa historiografia e obras literárias maiores para tentar, uma vez mais, compreender como um pequeno país e povo parte de uma geografia cercada por terra num lado e liberta pelo mar no outro deixando uma das maiores heranças culturais e linguísticas no mais longínquo mundo, mesmo que hoje esses povos ignorem essa parte das suas reias origens, ou, como no caso do Brasil, façam tudo para negá-las, descendo a estados mais psiquiátricos do que históricos ou culturais. Para além de tudo isto, ler Em Diálogo Com Eduardo Lourenço é ainda reencontrar o pensamento filosófico desde os Antigos até aos existencialistas do século passado, com Virgílio Ferreira, por um lado, e José Régio por outro, no centro das atenções do autor aqui foco. Não é pouco, concordarão, tudo o que faz destas páginas uma das melhores introduções – ou resumos – de uma das obras mais essenciais e já canónicas na nossa vida intelectual e literária.

Para nós açorianos, sempre desconfiados perante o lugar literário dos nossos, vale a pena reter o que nos diz um intelectual desde sempre absolutamente livre de grupos ou movimentos literários. Quando já no fim desta grande conversa agora em forma de livro topamos as palavras do autor sobre Nemésio e Antero, não é só sobre eles que se abrem outras perspectivas que nos poderão abrir a outras leituras das suas obras, mas diz-nos sobretudo algo mais sobre o próprio Eduardo Lourenço e a sua visão do país, de todo o seu país, as ilhas sendo um imaginário demasiado distante e diferente, ou mesmo inexistente no contexto nacional mais alargado. Num tempo em que, de Coimbra a Lisboa, ou se alinhava na linha mestra do pensamento reinante, particularmente entre os neo-realistas que a partir dos anos 40 pontificavam e dominavam a nossa vida intelectual, Lourenço vê naquele que viria a ser o autor de Mau Tempo no Canal e que já era o poeta de uma distinta “modernidade” uma das suas referências mais literariamente empáticas. Às perguntas da sua interlocutora sobre Nemésio (“Talvez demasiado independente, não… Aquelas errâncias dele?”), Lourenço responde: “Não entendiam aquilo. Independente, era. Mas, além do mais, escrevia em francês e coisas deste género…Aquelas errâncias, aquela loucura intrínsica de Vitorino Nemésio, não era assim muito acessível. Só realmente mais tarde é que o conheci e gostei muito dele, pelo menos frequentado assim a intervalos. Muito interessante, e era um grande escritor”. Terão sido estas e outras qualidades que, anos mais tarde, aproximaria ao autor da Praia da Vitória, em termos literários, humanos e até políticos, outra iconoclasta imensa da literatura portuguesa do século passado, a micaelense de nome Natália Correia.

É certo que alguns outros estudiosos (com especial atenção a Ana Maria Martins e Machado Pires) da cultura e literatura portuguesas nunca ignoraram as origens de Antero de Quental e a inevitável influência na sua cosmovisão e entendimento único do seu posicionamento ante a realidade lusa total. As suas cartas a partir das visitas que fez a outras ilhas do nosso arquipélago são um vivo testemunho disso. Só que eu nunca tinha lido algo parecido com o que diz Eduardo Lourenço nesta entrevista, trazendo por inteiro a insularidade açoriana do poeta e filósofo, e do seu desconforto paradoxal, não tanto com o que viria a encontrar na sua vivência continental, como o modo que previa a modernidade europeia de que ele próprio abordava em relação à “decadência dos povos insulares”. Lourenço revê ou confirma aqui o paradoxo do homem que seria o primeiro notável socialista em Portugal, com tudo o que isso implicaria no fim do século XIX, ideologicamente e quanto à “modernidade” inerente a essa posição demasiado avançada no contexto de um pequeno país católico fortemente dominado desde sempre por uma Igreja aliada aos sectores sócio-económicos mais retrógrados e egoístas.

Os amigos, – diz Eduardo Lourenço de Antero de Quental quando aborda os precursores da nossa modernidade literária já no século passado – achavam que havia qualquer coisa nele de arcaico… Os amigos, sim. De arcaico neste sentido, quer dizer, eu penso que ele… não fazendo de propósito, fica muito naquele tempo antigo que é mais antigo do que o de Portugal metropolitano e que é o tempo dos Açores. Um outro tempo. Veja que não temos provas de que Antero tenha gostado particularmente de Lisboa. Quando Antero vai procurar refúgio… retira-se… vai para Vila do Conde. Quer dizer, vai para uma ilha. Todo o país já é uma ilha mas não é uma ilha como a dele, que ainda é mais primitiva do que essa ilha, que é a ilha dele… onde ele nasceu, a que ele pertence. Ele, ao nível das ideias, portanto, está a par ou quer estar a par… quer estar em diálogo com as ideias que naquele momento são as ideias mais avançadas da Europa. Mas ele não teve a experiência da modernidade viva, da modernidade presente, dessa que está a fazer o futuro. Ou quando a teve soube-lhe a um antecipado Inferno”.

Concomitantemente com a publicação de Em Diálogo Com Eduardo Lourenço, saiu Do Brasil: Fascínio e Miragem, os seus ensaios e outros textos, inclusive páginas poéticas de um diário, prosa a que não estávamos habituado nas suas obras. Lourenço viveu e ensinou numa universidade da Baía durante os anos 1958-1959, e era sua intenção ficar naquele país, o que não viria a acontecer. O seu carinho pelo Brasil está expresso em directo sob o título de “Nós só existimos no espelho dos outros”, texto de 1995, quando a sua obra foi formalmente reconhecida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Só que eu nunca tinha lido ensaios tão acutilantes sobre certa intelectualidade brasileira e o seu problema em relacionar-se com o passado lusíada. Uma vez mais, ler sobre o Brasil, como tudo o que escreveu Eduardo Lourenço, é ler sobre eles e nós. É esse espelho em casa própria, afinal, que mais nos dói na imagem que nos devolve.

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Ana Nascimento Piedade, Em Diálogo Com Eduardo Lourenço, Gradiva, Lisboa, 2015.

Fronteiras íntimas

Solar de Lalém jardim

True criticism recognizes itself as a mode of memoir… I believe there is no critical method except myself.

Harold Bloom, The Daemon Knows

Vamberto Freitas

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Aqui está o regresso de BorderCrossings. Segue as mesmas linhas temáticas de sempre – literatura e sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste mesmo tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas e espelhadas na prosa, poesia e no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar. Literatura não é sociologia, sabemos, por detrás dos “factos” estudados, no entanto, estão as narrativas que penetram fundo nos seres reinventados, nos personagens que da realidade passam a um palco de dramatização do riso e do choro, que é a condição humana. Para mim, a literatura foi sempre um acto profundamente identitário, através da qual “vemos” o outro, o que nos obriga à auto-reflexão de quem somos e como somos. O experimentalismo literário já se tornou (quase) uma noção anacrónica, e suspeita. Se não há nada dizer ou a representar, não haverá forma alguma que salve qualquer escrito. As palavras contam histórias, e essas histórias não perdem a sua complexificação quando escritas em linguagens claras, depuradas, e nas quais a metáfora e o símbolo universalizam, ou devem universalizar, o ser humano em qualquer geografia ou circunstância histórica. No centro da minha intervenção desde há muito que estão também as literaturas açoriana e luso-descendente, na América do Norte, ambas vindas ou intimamente associadas a duas grandes tradições culturais e literárias – a portuguesa e a do Novo Mundo, inclusive os chamados escritores canónicos bem mais conhecidos, mas não mais importantes para quem quer conhecer as suas próprias origens, a ancestralidade que nos colocou nos variados mundos do nosso destino, ou aos quais chegámos em busca de uma sobrevivência digna, ou vontade de ultrapassar os nossos próprios horizontes. Vitorino Nemésio, uma das nossas referências maiores, acertou por inteiro quando afirmou que “para nós a geografia vale tanto quanto a história”. Não conseguimos até hoje a projecção que desejamos, e porventura merecemos? As “margens” já não me incomodam minimamente, e acho inútil e até degradante insistir nessa suposta legitimação vinda de outros. Quem não conhece é que é ignorante, não os que sabem de si, e também dos outros. No mundo lusófono, os açorianos e seus descendentes – esses que escrevem em Inglês, mas têm o longínquo passado dos seus avós como chamamento persistente e desejado – não devem nada a ninguém a leste das ilhas (ou do grande continente a oeste) que é a sua primeira pátria, a dádiva maior dos seus antepassados lusitanos. Por isso, incluí na primeira secção deste livro as duas vertentes indissociáveis da nossa literatura, a açoriana, a luso-americana e, sempre que possível, a luso-canadiana.

De resto, estarão aqui as minhas abordagens às mais variadas obras de ficção, poesia e ensaio que, em língua portuguesa, são essenciais a uma mais alargada contextualização das realidades que vivemos numa contemporaneidade já sem fronteiras limitativas para a nossa imaginação ou sentimento de pertença a espaços e a culturas que ainda há poucas décadas residiam só na nossa imaginação, por certo, mais míticas do que reais, como caso de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no Brasil, que já recordei aqui nalguns textos referentes a obras de jovens escritores brasileiros. Vivemos desde sempre, e intensamente, a nossa história nacional, essa que esporadicamente foi decidida a partir das ilhas açorianas, e, por sua vez, cada decisão tomada em Lisboa sempre teve, tem e terá imediato impacto directo nas nossas vidas a meio atlântico. Somos parte integrante da Nação, mas, como açorianos, não pertencemos de todo ao seu imaginário. Porém, quanto a literatura e escritos-outros, o nosso contributo tem sido imenso – desde Antero de Quental e outras conhecidas figuras dos séculos XIX e XX, até a um rol cada vez mais conhecido de escritores e poetas nossos contemporâneos. Se entre eles encontrarem um ou outro livro de autores vindos de outras línguas, é porque falar de nós sem termos consciência do nosso lugar no resto do mundo seria, no mínimo, estranho. A verdade é que hoje o movimento de livros e intelectuais dos mais variados países por todas as capitais, ou nos mais variados eventos literários e culturais, é quase, felizmente, um acontecimento diário.

Não me seria possível escrever sem me dirigir à literatura norte-americana, parte primeira da minha formação na Universidade Estadual da Califórnia, em Fullerton. Presto aqui homenagem a dois dos meus grandes mestres que leccionaram na minha alma mater: William Koon, pela introdução, e depois estudo profundo, da literatura sulista, e não só, redefinindo o que é “regionalista” ou “nacional” numa cultura moderna e pluralista, como é a dos Estados Unidos; Michael Holland, um dos últimos new critics na academia americana nos primeiros anos da década de 70, formado que era em literatura europeia, dizendo-me repetidamente que quase toda a teoria da literatura que então despontava nos departamentos de línguas e literaturas por toda a parte era um waste of time/tempo perdido, e saber ler e interpretar qualquer texto, de qualquer género, requer apenas sensibilidade crítica e estética, procedendo ele depois à definição do que torna um texto uma peça de arte, ou outra coisa. Michael exagerava brilhantemente — achava que o close-reading, com a sua atenção ao tempo ficcional, ao tom da linguagem ou à sua ironia ou não, ao andamento rítmico da narrativa (leiam sempre em voz alta, quando vos for possível, aconselhava ainda ele, para não perderam a musicalidade bela de um bom texto), ao ponto de vista do narrador ou da narradora, a sua fiabilidade na história que nos conta, era a única chave essencial à desconstrução ou descodificação de um texto. Não havia muito mais a levar em conta – esqueçam a biografia de um autor, o texto ou valia por si, ou não valia nada, o nome do autor apenas um nome, absolutamente dispensável para além de o podermos identificar e arrumar na estante. De acordo com tudo – menos neste último ponto. Em cada autor poderá residir toda a história do nosso lugar e tempo. Edmund Wilson, que dizia detestar a nova crítica, tornar-se-ia a minha referência inescapável quanto a biografismo e historicismo na percepção ou interpretação de uma peça literária. Um olhar de cada extremo para o meio da ponte, o equilíbrio possível, suspenso na dúvida ou na interrogação, que qualquer leitura aprofundada requer. Por outro lado, a literatura tem de ser algo mais do que “forma” ou mero acto “estético”.

Para mim não há beleza sem significado, não há beleza sem o olhar humano, sem a perspectiva de quem recebe palavras, imagens e sons. Creio que era Jorge de Sena quem dizia que uma foto espacial, sem qualquer indício da presença do humano, não lhe interessava minimamente. Poderá ser um modo discutível de colocar a questão, mas a verdade é que toda a nossa exploração do Universo parece ter esse primeiro e último objectivo – encontrar sinais de vida, de qualquer vida, nessa distância galáctica. A literatura é esse registo de como vivemos e sobrevivemos, sobretudo em comunidade, sobretudo como parte de um todo, simultaneamente como sujeitos activos e decisivos e como indivíduos cujas obrigações incluem decididamente a “obediência” a regras de convivência e justiça entre todos os que connosco partilham os nossos espaços, cada  vez mais sem fronteiras de qualquer espécie. A crítica é também a memória de quem a escreve, o registo de como vemos e vivemos o nosso tempo transfigurado na literatura mais séria, numa tradução mais ou menos livre da epígrafe que aqui vai tirada de um texto de Harold Bloom. Toda a literatura é memória.

É isso a essência do que tento fazer nestas páginas semanalmente. A vida é curta e preenchida de mais para que eu gaste um segundo com livros sem qualidade estética ou relevância temática, ou simplesmente livros que não me dizem seja o que for adentro dos meus interesses ou preocupações sócio-culturais e políticas, o que, para mim, é o todo, ou o quase todo, de uma sociedade. Entretenha-se quem quiser com jogos de palavras vazias, com acrobacias formais tão ao gosto de certas teorias da literatura – e sabemos aonde nos levaram estas, dentro e fora dos seus contextos institucionais.

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Parte deste texto será o prefácio ao meu volume BorderCrossings: leituras transatlânticas III, a ser publicado em Março de 2016.