Eduardo Lourenço em diálogo, sempre

Capa Em diálogo Com E Lourenço

Havia na atmosfera de Coimbra e daquela gente que eu frequentava… havia uma atitude desdenhosa em relação a Nemésio, que era assim uma espécie de saltimbanco, era muito moderno, demais, para eles.

Ana Nascimento Piedade, Em Diálogo Com Eduardo Lourenço

Vamberto Freitas

É certo que Vitorino Nemésio ocupa um pequeno espaço neste novo livro Em Diálogo Com Eduardo Lourenço, uma longa conversa do autor com Ana Nascimento Piedade, mas entenderão as razões que o trago para aqui. Eduardo Lourenço vai para Coimbra nos anos 40, e Nemésio por lá tinha passado mais ou menos vinte anos antes, mas suficientemente conhecido e respeitado para que Lourenço tenha notado e registado o seu estatuto de referência, mesmo que ideologicamente negativa, ou ainda mais enfaticamente por ser assim para o autor de Heterodoxia e O Labirinto da Saudade. Um pouco mais à frente trarei, por razões iguais, um outro passo em que Lourenço destaca, nesta sua habitual linguagem simultaneamente clara e propositadamente elíptica sem nunca deixar de conter significações em todas as direcções, Antero de Quental, o modo como ele vê o lugar do poeta em relação à modernidade que queria para o seu país, e o peso da ilha, mais na sua pessoa do que na sua obra. Portugal sempre foi um país de intelectuais públicos, as vozes que rejeitam as torres de marfim e preferem comunicar com a classe culta através dos meios de comunicação de vária natureza. Lourenço restringiu-se sempre à palavra e ao papel, for força das suas circunstâncias académicas no estrangeiro (França) e, suponho, pelo seu modo de ser – contido, humilde na sua total indiferença à fama, dialogante em voz baixa, rebuscando as infindáveis fontes que lhe poderiam esclarecer mais um pouco sobre quem somos e como somos. Nós, os portugueses em toda a parte, somos o seu tema inesgotável, toda a sua reflexão está especialmente concentrada sobre a nossa sorte durante o século passado, com os chamamentos mais variados, constantes e profundos à nossa literatura, de Camões a Fernando Pessoa. Trabalhar esse seu tema implicou desde logo saber como éramos ou não europeus, como a Europa nos olha e/ou nos afasta, ou como entendemos o percurso singular do pequeno país atlântico que se fez ao mar e preparou antes de ninguém, a partir dos Descobrimentos, a primeira globalização, o primeiro grande movimento entre continentes e povos, as primeiras experiências colonialistas, de povoamento e ocupação de outras terras e gentes. Creio que qualquer leitura da sua obra leva-nos não à absorção da mítica de grandeza, mas sim a como essa empresa marítima trouxe-nos à pequenez dos nossos tempos, à modernidade tardia em que hoje vivemos e tentamos manipular para o nosso desenvolvimento e bem estar como parte mais ou menos integrante de uma Europa que se diz querer “unida” mas sempre desconfiada perante a herança sulista, mediterrânica, ou, como talvez diria Adriano Moreira, o antigo Império Romano. Eduardo Lourenço parte de toda a nossa historiografia e obras literárias maiores para tentar, uma vez mais, compreender como um pequeno país e povo parte de uma geografia cercada por terra num lado e liberta pelo mar no outro deixando uma das maiores heranças culturais e linguísticas no mais longínquo mundo, mesmo que hoje esses povos ignorem essa parte das suas reias origens, ou, como no caso do Brasil, façam tudo para negá-las, descendo a estados mais psiquiátricos do que históricos ou culturais. Para além de tudo isto, ler Em Diálogo Com Eduardo Lourenço é ainda reencontrar o pensamento filosófico desde os Antigos até aos existencialistas do século passado, com Virgílio Ferreira, por um lado, e José Régio por outro, no centro das atenções do autor aqui foco. Não é pouco, concordarão, tudo o que faz destas páginas uma das melhores introduções – ou resumos – de uma das obras mais essenciais e já canónicas na nossa vida intelectual e literária.

Para nós açorianos, sempre desconfiados perante o lugar literário dos nossos, vale a pena reter o que nos diz um intelectual desde sempre absolutamente livre de grupos ou movimentos literários. Quando já no fim desta grande conversa agora em forma de livro topamos as palavras do autor sobre Nemésio e Antero, não é só sobre eles que se abrem outras perspectivas que nos poderão abrir a outras leituras das suas obras, mas diz-nos sobretudo algo mais sobre o próprio Eduardo Lourenço e a sua visão do país, de todo o seu país, as ilhas sendo um imaginário demasiado distante e diferente, ou mesmo inexistente no contexto nacional mais alargado. Num tempo em que, de Coimbra a Lisboa, ou se alinhava na linha mestra do pensamento reinante, particularmente entre os neo-realistas que a partir dos anos 40 pontificavam e dominavam a nossa vida intelectual, Lourenço vê naquele que viria a ser o autor de Mau Tempo no Canal e que já era o poeta de uma distinta “modernidade” uma das suas referências mais literariamente empáticas. Às perguntas da sua interlocutora sobre Nemésio (“Talvez demasiado independente, não… Aquelas errâncias dele?”), Lourenço responde: “Não entendiam aquilo. Independente, era. Mas, além do mais, escrevia em francês e coisas deste género…Aquelas errâncias, aquela loucura intrínsica de Vitorino Nemésio, não era assim muito acessível. Só realmente mais tarde é que o conheci e gostei muito dele, pelo menos frequentado assim a intervalos. Muito interessante, e era um grande escritor”. Terão sido estas e outras qualidades que, anos mais tarde, aproximaria ao autor da Praia da Vitória, em termos literários, humanos e até políticos, outra iconoclasta imensa da literatura portuguesa do século passado, a micaelense de nome Natália Correia.

É certo que alguns outros estudiosos (com especial atenção a Ana Maria Martins e Machado Pires) da cultura e literatura portuguesas nunca ignoraram as origens de Antero de Quental e a inevitável influência na sua cosmovisão e entendimento único do seu posicionamento ante a realidade lusa total. As suas cartas a partir das visitas que fez a outras ilhas do nosso arquipélago são um vivo testemunho disso. Só que eu nunca tinha lido algo parecido com o que diz Eduardo Lourenço nesta entrevista, trazendo por inteiro a insularidade açoriana do poeta e filósofo, e do seu desconforto paradoxal, não tanto com o que viria a encontrar na sua vivência continental, como o modo que previa a modernidade europeia de que ele próprio abordava em relação à “decadência dos povos insulares”. Lourenço revê ou confirma aqui o paradoxo do homem que seria o primeiro notável socialista em Portugal, com tudo o que isso implicaria no fim do século XIX, ideologicamente e quanto à “modernidade” inerente a essa posição demasiado avançada no contexto de um pequeno país católico fortemente dominado desde sempre por uma Igreja aliada aos sectores sócio-económicos mais retrógrados e egoístas.

Os amigos, – diz Eduardo Lourenço de Antero de Quental quando aborda os precursores da nossa modernidade literária já no século passado – achavam que havia qualquer coisa nele de arcaico… Os amigos, sim. De arcaico neste sentido, quer dizer, eu penso que ele… não fazendo de propósito, fica muito naquele tempo antigo que é mais antigo do que o de Portugal metropolitano e que é o tempo dos Açores. Um outro tempo. Veja que não temos provas de que Antero tenha gostado particularmente de Lisboa. Quando Antero vai procurar refúgio… retira-se… vai para Vila do Conde. Quer dizer, vai para uma ilha. Todo o país já é uma ilha mas não é uma ilha como a dele, que ainda é mais primitiva do que essa ilha, que é a ilha dele… onde ele nasceu, a que ele pertence. Ele, ao nível das ideias, portanto, está a par ou quer estar a par… quer estar em diálogo com as ideias que naquele momento são as ideias mais avançadas da Europa. Mas ele não teve a experiência da modernidade viva, da modernidade presente, dessa que está a fazer o futuro. Ou quando a teve soube-lhe a um antecipado Inferno”.

Concomitantemente com a publicação de Em Diálogo Com Eduardo Lourenço, saiu Do Brasil: Fascínio e Miragem, os seus ensaios e outros textos, inclusive páginas poéticas de um diário, prosa a que não estávamos habituado nas suas obras. Lourenço viveu e ensinou numa universidade da Baía durante os anos 1958-1959, e era sua intenção ficar naquele país, o que não viria a acontecer. O seu carinho pelo Brasil está expresso em directo sob o título de “Nós só existimos no espelho dos outros”, texto de 1995, quando a sua obra foi formalmente reconhecida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Só que eu nunca tinha lido ensaios tão acutilantes sobre certa intelectualidade brasileira e o seu problema em relacionar-se com o passado lusíada. Uma vez mais, ler sobre o Brasil, como tudo o que escreveu Eduardo Lourenço, é ler sobre eles e nós. É esse espelho em casa própria, afinal, que mais nos dói na imagem que nos devolve.

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Ana Nascimento Piedade, Em Diálogo Com Eduardo Lourenço, Gradiva, Lisboa, 2015.

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