A resistência intelectual no labirinto luso

Capa Encostados à Parede2

Estamos cansados, mais velhos, mais cépticos, mas ainda temos força para gerar alternativas que ponha termo a este estado de coisas… para a ruptura e a utopia.

Eduardo Paz Ferreira, Encostados à Parede

Vamberto Freitas

A palavra “resistência” que aqui vai foi também inspirada por um dos ensaios deste novo livro de Eduardo Paz Ferreira, “A coragem da resistência”, que é o sobre José Medeiros Ferreira, lido na conferência de homenagem ao falecido autor e político na Fundação Calouste Gulbenkian, em Fevereiro deste ano. Sem mais demora, permitam-me afirmar que Encostados à Parede: Crónicas de Novos Anos de Chumbo, todo ele, é um civilizadíssimo acto de resistência intelectual, e não só, a praticamente tudo o que temos vivido em Portugal nestes últimos anos, a tudo o que tem sido a nossa vida pública sob as mais diversas acusações e castigos, vindas tanto de estrangeiros, que são supostamente os nossos “parceiros”– não tenho outra maneira de o dizer – como dos seus aliados internos. A nossa geração, em que se inclui o autor deste livro, e parafraseando Charles Dickens, tem vivido o melhor e o pior dos tempos, guerra, fome, emigração, indignidade cívica e, sim, dias de esperança, alegria, por assim dizer, cívica, a sua liberdade, que no nosso país foi sempre uma condição periclitante, constantemente sob ataque de elites que nunca se habituaram a ver a Nação no seu todo. Foi outra sina da nossa geração – viver toda a vida sob reformas ditas estruturais e de vários géneros, fins, e sobretudo ideológicas. O povo português conhece muito bem este modo de vida pública – quarenta e oito anos simultaneamente adormecido e em guerras, uma vez mais, em múltiplas frentes, seguidos de mais quarenta e tantos anos de ebulição sócío-política constante. Durante todo este percurso nacional nunca tínhamos ou pensávamos vir a ter a experiência de povo ocupado, mas é isso exactamente que nos aconteceu, e não tendo sido pela via militar, foi-o por uma via ainda mais degradante – a serviço da Grande Finança sediada entre esses nossos supostos “parceiros”, que até implicou com os nossos feriados e outros costumes, atacando a nossa identidade de povo com novecentos anos de história, cidadãos do primeiro estado moderno da Europa, com as suas fronteiras intactas desde a reconquista iniciada em Guimarães, generoso, sempre, como sabem ou deveriam saber os auto-denominados “verdadeiros finlandeses”, entre outros, pagadores firmes de todas as suas dívidas ditas soberanas. O que está a acontecer a Portugal (e a alguns outros povos do continente e ilhas europeias) é o tema de fundo de Encostados à Parede, o nosso país visto necessariamente no contexto europeu mais alargado, nesse em que, também supostamente, nos integramos. A verdadeira face desta nova versão do Velho Continente, tão historicamente – repito-me aqui – habituado a construir catedrais e logo depois a queimar tudo e todos à sua volta, tem as suas origens na redefinição de uma nova “normalidade”, “inevitabilidade”, de uma “moralidade” internacional definida e imposta por interesses demasiados antigos mas sempre renovados pelas gerações seguintes que, ao contrário do que se diz, têm uma cara, têm uma geografia dispersa, têm os quartéis generais em vários sítios, e dão pelos nomes de bancos e mercados.

É sobre tudo isto, uma vez mais, que este livro – constituído por crónicas, ensaios e entrevistas provenientes das mais variadas ocasiões e encontros, com a temática e própria voz do autor a dar-lhe o fio condutor e a unidade do seu arranjo em livro – de Eduardo Paz Ferreira se debruça, à semelhança de outros e recentes volumes seus, como creio que o seu feliz e certeiro título é profundamente significante na linguagem vernácula da nossa língua e gente, “Encostados à Parede”, e, na maior parte dos casos, em silêncio ante o poder avassalador que destrói vidas e ameaça um futuro comummente desejado. Quero, no entanto, abordar o livro por outra perspectiva, escavar um pouco da sua estética e dos seus referenciais literários e artísticos em geral por detrás do conteúdo. Primeira observação: estamos perante uma narrativa completa da vida do país no tempo da sua maior crise, abrangendo quase todos os sectores da vida colectiva, que vão desde as políticas financeiras impostas aos cidadãos – não esqueçamos que o seu autor é especialista em finanças públicas e um prestigiado Professor Catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa — às consequências quotidianas para quem as vive, ou é por essas medidas atingido de vários modos. Uma das originalidades desta prosa é que Eduardo Paz Ferreira alia ao rigor das suas análises o subjectivismo que toda a Ética implica, Encostados à Parede tornando-se, página a página, e depois numa secção intitulada “Vim de longe”, uma espécie de autobiografia que lhe permite uma visão das margens para o centro, e do centro para as margens. As suas origens açorianas, nunca esquecidas ou menosprezadas nestas e noutras páginas suas, ocupam aqui um espaço privilegiado – tanto em discurso directo sobre o seu percurso desde os tempos da faculdade nos anos 60 até ao presente, no seu estatuto de intelectual público, com a sua participação nos nossos meios de comunicação, fazendo dele ainda uma das mais ouvidas e lidas referências políticas e culturais. Se a hiper-especialização académica do nosso tempo foi sempre um cerco anti-dialogante com o resto da sociedade, nestes últimos anos desfrutamos de uma positiva contra reacção nesses meios, com alguns dos outrora fechados nas proverbiais torres de marfim a sair a terreno para contribuir para o debate um pouco mais alargado entre todos. Escrever com clareza é bem pouco comum na academia; escrever com o saber e a criatividade de Eduardo Paz Ferreira é ainda mais raro. Quando se dá a junção da cientificidade ou análise fundamentada da matéria, digamo-lo assim, com a beleza da palavra cultivada e transmissora de erudição literária e cultural, teremos prosa como esta, o texto como fonte de ensinamento e prazer puro, nestas páginas acontecendo o inevitável dialogismo entre a política, cultura, e até religião, o mais dramático e lúdico entre nós em irremediável convivência, como no capítulo que recorda alguns dos filmes de várias nacionalidades que mais o comoveram, que mais significaram, juntamente com a literatura, na construção do seu imaginário universalizado, assim como evoca música de vários géneros num chamamento quase constante a tempos, vivências e emoções que lhe servem de fundo a determinados pensamentos ou temas. Sem surpresa para mim, certo famoso fado de Amália, em que ela canta a alegria e bondade da pobreza na casa portuguesa, não lhe agrada de modo algum, o seu humor temperando, suponho, a vontade de ripostar à artista-ícone de um Portugal que se queria acabado e arrumado.

No centro desta narrativa coesa e na polissemia temática que é Encostados à Parede, Paz Ferreira relembra e homenageia três das grandes figuras da resistência democrática portuguesa – o já referido José Medeiros Ferreira (dois ensaios), Ernesto Melo Antunes e Francisco Salgado Zenha. Ao falar deles, o autor indica-nos não só a mundividência em que ele próprio se integra e ante a qual desenvolve certa ideologia, como, intencionalmente, nos oferece vidas consequentes, significantes, que antecedem e nos levam inevitavelmente ao “julgamento” dos que agora nos governam e teorizam sobre novos “valores” e “méritos” do rumos tomados e impostos por outros, que de nós nada sabem, e por nós pouco se importam. Falar do nosso país é falar da Europa em que estamos inseridos, mas à qual mal pertencemos, como talvez diria Medeiros Ferreira nos seus derradeiros dias de vida, ele que foi – tal como este seu grande amigo Eduardo Paz Ferreira continua a ser – um europeísta convicto. Em praticamente todos os textos deste livro o tema é abordado, denunciando os desvios que nos trouxe à presente situação de marginais no que era para ser uma União solidária, social, humanizada. Do mesmo modo, não só recorre às ideias e pronunciamentos de natureza social e económica do Papa Francisco, como lhe dedica toda a sua admiração, concordância e alegria do reavivamento social da Igreja católica, agora essencialmente dando continuidade ao Concílio Vaticano II do Papa João XXIII, o regresso do humanismo, para bem de todos, desse outro lado da Europa, ou pelo menos de certa Europa. Por outras palavras, e tal como deixo claro no passo que me serve de epígrafe neste texto, Paz Ferreira acredita que, ao contrário do que nos tentam fazer crer, a “ruptura” com o mais negro situacionismo é possível, desejada, o contraponto de salvação ao que nos parece ser uma pregação, outra vez, do “fim da história”.

Ler mais esta prosa de Eduardo Paz Ferreira em Encostados à Parede: Crónicas de Novos Anos de Chumbo é recordarmos que a linguagem carregada de ética e estética, vastamente referenciada no melhor da cultura portuguesa e ocidental, é em si própria uma das mais eficazes resistências ao que nos degrada e nos oprime. É o contrário do newspeak ou doublespeak orwelliano, de que voltaram a servir-se os admiradores do Bezerro de Ouro, a nova tentação anti-democrática (por certo, nas suas consequências), um vivo discurso contra a imposição das virtudes fantasiadas de um reinventado evangelho societal, sustentado nos nossos dias por novos teólogos austeritários escolhidos e muito bem pagos, que hoje dão ainda por outros nomes.

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Eduardo Paz Ferreira, Encostados à Parede: Crónicas de Novos Anos de Chumbo, Lisboa Quetzal Editores, 2015.

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