O pessoal e o político na idade pós-humana

Capa Purity

As pessoas que lhe haviam legado um mundo destruído estavam a discutir violentamente… Tinha de ser possível fazer melhor do que os pais, mas não tinha a certeza de ser capaz.

Jonathan Franzen, Purity

Vamberto Freitas

Suponho que o problema para alguns leitores, entre os quais me incluo, em ler um livro volumoso de Jonathan Franzen é – o que ler a seguir? Aos 56 anos de idade, o autor de Correções, Liberdade, e, agora, Purity, os seus três grandes romances – em largueza temática, trama e formalismo – constituem já um gigantesco mosaico não só da sociedade norte-americana contemporânea, como do nosso mundo em geral. Não sei se Franzen aprovaria o meu título para este ensaio, dado as suas mais negras conotações, pois no fundo toda a sua obra é uma reafirmação, cautelosa, da vida. Não podia, no entanto, ignorar que um dos seus apreciadores mais distintos é Don DeLillo, o romancista nova-iorquino que desde há muito ficou conhecido pelos seus personagens paranóicos num mundo que a partir da última metade do século passado guindou-nos a todos para um novo tipo de totalitarismo social, e no qual a tecnologia, a par dos seus infinitos benefícios para a humanidade, exerce do mesmo modo ameaças reais, a todos os níveis – a destruição do nosso individualismo identitário em sociedades que eram livres, mas cada vez mais indefinidas e impessoais, o perigo sempre eminente da destruição maciça final através de armas conectadas a computadores, a destruição apocalíptica, sem razão ou redenção alguma. Recordo os personagens de um dos romances de DeLillo, Libra (como poderia relembrar Mao II), uma ficcionação do assassínio de John F. Kennedy e das forças mais obscuras, essas que poderão partilhar quotidianamente os nossos espaços vivenciais sem que os notemos ou nos apercebermos das suas obsessões ideológicas e conspirações mortíferas. Este Purity, que a tradução portuguesa achou por bem não traduzir, tem um profundo significado duplo, é o nome da jovem protagonista, Purity Tyler, e a palavra-resumo temático do romance, essencialmente a luta de uma mulher de vinte e três anos, e muito mais rica do que suspeita, contra o abismo futurista que ela avista, ou em que já vive, um mundo em que as fronteiras foram decididamente abolidas pela Internet e por outros meios de manipulação, a favor não se sabe ainda bem de quem ou de quê, um mundo à deriva sem governação definida, como que dirigido de cavernas por seres sem face nem voz, apenas nomes encriptados num computador qualquer. A complexidade da trama deste romance está contida numa prosa claríssima, colocando o leitor em vários tempos, o presente dando lugar a explicações que as suas analepses vão esclarecendo e enriquecendo, os múltiplos contextos sócio-históricos, políticos e culturais, estes ainda com alusões frequentes à própria literatura assim como a outros sinais do espírito do tempo, ou dos vários tempos aqui retratados. As suas geografias vão desde a antiga República Democrática Alemã nos anos imediatamente antes, durante e depois da queda do Muro de Berlim em 1989, até à Bolívia e a várias partes dos EUA, onde residem e se movimentam os seres e as vozes que dão forma e sentido a toda a narrativa. Uma vez mais, a vigilância totalitária do passado dá agora lugar à vigilância e luta pela dignidade num mundo que, mesmo sem segredos, é cada vez mais perigoso e vazio. O antigo “dissidente” alemão transforma-se em disseminador virtual e exilado de informação proibida, a besta negra dos novos poderes em toda a parte, numa outra alusão directa a Julian Assange, aqui mencionado pelo seu nome e situação conhecida, significantemente cercado pela própria vida, que queria escondida, e ao seu ambíguo WikiLeakes. Purity, a jovem herdeira de uma grande fortuna bilionária sem o saber, está numa luta pela própria sobrevivência numa sociedade em que só o dinheiro determina o nosso destino, e vinda de uma família em tudo distinta mas absolutamente disfuncional. Se mencionei a grande literatura do medo e da incerteza, esta nova obra de Franzen vai ainda insinuar outros tempos e temas imemoriais: Purity quer ser chamada simplesmente de Pip, por vergonha do seu próprio nome, e porque na teia social por detrás do romance está também a memória de Charles Dickens, em The Great Expectations. A grande literatura é isto – um reflexo do seu tempo e lugar, insinuando que o que parece “novo” ou nunca “vivido”, está desde sempre contido na grande arte de uma civilização, neste caso a ocidental. Com Purity, o escritor que a Time chamou de “o grande romancista americano” deu um salto para algo mais do que uma literatura dita “nacional” representa, ou tem representado, a globalização desfazendo tudo o que as antigas academias e antologias supostamente canónicas tinham como certezas.

Purity é uma narrativa de tal ordem multifacetada que parece conter em si vários romances, algumas outras das suas secções funcionariam independentemente ainda como novelas ou contos mais extensos, com especial atenção para a relação e casamento entre os pais da protagonista, Tom Aberant e Anabel Laird. Aliás, são todos eles protagonistas e narradores, os seus pontos de vistas parte da complexidade do texto, contando com o alemão Andreas Wolf, que se atravessa nas suas vidas, ele que saiu das maiores ameaças no seu país agora desfeito para se tornar algo mais do que uma pedra mal colocada na estrada deles todos. Digamos que o romance é uma visão do que (nos) permanece invisível no mundo que herdámos e vamos supostamente reconstruindo, determinando não só os destinos de cada um como parece ser uma espécie de nuvem que ora se mantém por cima de nós dando-nos a ilusão de formas e cores, ora desaparecendo para ser substituída por outra ainda mais misteriosa, transmitindo só incertezas e, uma vez mais, medos. Todo o pano de fundo de Purity é uma representação da sociedade a saque quer pelos “novos” poderes financeiros, quer pelo militarismo tecnológico e hiper-secreto, com o jornalismo tornado global, sem as amarras tradicionais, dependente de funcionários a alto nível e para quem a ética determina as suas acções, como aconteceu com Edward Snowden, também ele diretamente mencionado no romance pelo seu feito na NSA, e de todo imprevisível pelos meios de que dispõe, literalmente enviando para o que agora se chama “cloud/nuvem” toda e qualquer informação de estados ou outras organizações menos transparentes e dominadoras. Alguns críticos americanos rejeitam o que chamam de “preaching/pregação” do autor. É claro que cada um deles apenas reflecte a ideologia que comanda a sua vida, ou simplesmente o seu gosto estético na literatura, o que é perfeitamente legítimo, e até desejável. Lido com o desprendimento de quem apenas concorda em olhar um outro jogo de espelhos, mais do que essa “pregação” sobressaem as imagens conturbadas das vidas em que nos tornámos, das formas de existência que nos legaram, e que não sabemos ou não queremos modificar. Purity não é de modo algum um romance ideológico, mas nenhum leitor atento fica alheio ao que nesses espelhos vê, o reflexo e reflexão não existem sem diálogo ou pensamento. Não se trata só, nestas páginas, repita-se, de uma transfiguração da sociedade americana dos nossos dias, mas sim de um mundo necessariamente muito mais alargado e sob o mesmo céu, nenhum recanto em parte alguma fica livre de qualquer decisão ou acção tomada nos centros do Poder mundiais. Só que este romance é ainda muito mais do que isso – o existencialismo dos seus personagens enfrentando não só as questões primordiais de vida e morte, amor e desamparo, e a luta pela sua identidade enquanto parte de um todo, dentro e fora do seu país.

As palavras da epígrafe, vindas já no último parágrafo da narrativa, referem-se a uma habitual briga de família, desde sempre caracterizada pela mentira, fuga à infelicidade, mais fabricada do que real, mas não menos vivida e sentida. Pip Tyler havia reencontrado o seu rumo, e um novo relacionamento com os seus, o amor uma possibilidade, apesar de tudo, a construção de um mundo privado à sua medida e conforme os seus desejos e ética. Nada lhe está garantido, mesmo sabendo que a sua conta bancária continha mais do que queria ou iria necessitar. Purity não é esse romance de pregação ideológica, ou muito menos a lamentação pela perda de beatices sociais ou culturais, o domínio societal que tenta vergar tudo e todos à sua vontade. É, antes, uma inesperada história muito bem contada, e no seu decorrer o pessoal e o político interagem a cada momento destas vidas e percursos. “Foi quando os céus – diz o narrador sobre Pip olhando o seu futuro – voltaram a abrir-se, a chuva vinda do imenso oceano ocidental desabou sobre o tejadilho do carro, o som do amor abafou o outro som, que acreditou que talvez sim”. Purity é um retrato complexo nas suas imagens descritas ou sugeridas que lançam luz sobre o que se tornaram as nossas sociedades, o nosso mundo inteiro, e é, mais ainda, uma magnífica representação do modo como estas personagens reagem, sobrevivem ou morrem, cada qual a seu modo, e por vezes segundo a sua vontade, numa luta desigual ante as forças avassaladoras que determinam o nosso destino, ou impedem a escolha dos nossos caminhos a percorrer. Num mundo sujo, de todo pantanoso, lamacento, resta-nos a tentativa da pureza – que pode também a ser a nossa destruição.

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Jonathan Franzen, Purity (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015. Publicado na coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, na sua edição de 2 de Outubro de 2015.

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