Philip Roth em conversa literária com os seus colegas

Capa Shop Talk Roth

Também acho ser uma verdade que numa cultura como a minha, em que nada é censurado mas em que os media nos inundam com falsificações estúpidas sobre a condição humana, a literatura não será um menos importante arquivo da vida, até mesmo numa sociedade alheada dessa literatura.

Philip Roth, Shop Talk

Vamberto Freitas

Shop Talk: A Writer and His Colleagues and Their Work, de Philip Roth, foi publicado originalmente em 2001, mas já tem várias edições e está traduzido para outras línguas. Quando um escritor da estatura de um Philip Roth resolveu nos anos 80 começar a dialogar com outros grandes colegas cuja história envolve a coragem da própria sobrevivência quotidiana sob a perseguição zelada do que foi o totalitarismo soviético nas suas diversas versões em países como a ex-Checoslováquia, ou o confronto com um passado, para a maioria de nós inimaginável, como no caso do Holocausto e a memória reavivada por outros escritores que o viveram directamente ou sobreviveram mas perderam todos os seus familiares na barbárie europeia do século passado, a prosa resultante, transcrita de uma oralidade simultaneamente comovida e serena, leva o leitor ao melhor que a literatura tem em si – arte e memória, as outras vidas que só poderemos conhecer através da palavra dita e escrita. Shop Talk é uma colectânea de entrevistas, seguidas de outros textos, todas elas feitas a autores cujas obras de ficção Roth estava empenhado em divulgar nos Estados Unidos, quando coordenou para a editora Penguin Books a colecção denominada Writers From The Other Europe/Escritores Da Outra Europa, na maior parte das vezes tratando-se de obras que haviam sido proibidas e tiradas de circulação nos seus países, dando aqui todo o destaque a Milan Kundera, então no seu exílio de Paris desde 1975 e a gozar o grande sucesso de A Insustentável Leveza do Ser, e Ivan Klíma, que permaneceria na sua terra, tendo vivido os dias de esperança da Primavera de Praga seguidos da brutal invasão dos tanques soviéticos. Estão aqui em maior número, por outro lado, alguns dos nomes conhecidos da literatura judia-americana (Saul Bellow, Bernard Malamud e Isaac Bashevis Singer, este falando sobre um outro escritor judeu polaco do princípio do século passado, Bruno Schulz), o israelita Aharon Appelfeld, e ainda uma longa conversa com Primo Levy no seu apartamento de Turin. Outras entrevistas incluem uma troca de impressões com a escritora irlandesa Edna O’brien, cartas entre ele e Mary MacCarthy, assim como alguns textos sobre Saul Bellow, o autor que provavelmente mais influenciou, ou de certo modo obcecou, Philip Roth. Há, neste gesto de Roth, o que raramente acontece entre escritores de qualquer nacionalidade – generosidade, respeito e admiração pelo trabalho dos seus colegas e companheiros de estrada, a vontade irreprimível de conhecer, absorver, as mais diversas experiências históricas destes indivíduos, a tragédia humana absoluta lado a lado com a comédia em que se tornou a vida de outros, o espírito do nosso tempo dividido entre o lamento de uns e o riso de outros. Não há aqui comparações de qualquer espécie entre experiências europeias, norte-americanas ou israelitas, só o propósito de se entender a humanidade na sua infinita complexidade, o ordinário e o extraordinário que são as nossas vidas, a memória do tempo e dos dias como tema da melhor arte literária moderna, ou da memória comum dos povos.

A obra de Philip Roth, mesmo na sua fase mais cómica e individualista, contém provavelmente algumas das mais afinadas transfigurações da época que nos foi dado viver. A América do autor, auto-identificado, sempre, como judeu-americano, e logo “personagem” nas margens do que se entende por um centro societal agregador, poderá muito bem ser um símbolo de todos nós a partir da segunda metade do século XX – a alienação como condição esmagadora, a estranheza do nosso próprio ser no espaço nacional e linguístico natais (os escritores judeus-americanos tiveram de reinventar a língua que contivesse a sua experiência única numa sociedade pluralista e instável na sua correria para sonhos por outros definidos), o humor como contraponto de toda a espécie de falhanços e frustrações pessoais, O Complexo de Portnoy a confissão extremada de que no impulso sexual mesmo de um adolescente reside toda a fantasia de salvação ou confirmação da sua humanidade. Roth é muito menos um ficcionista auto-biográfico do que poderá parecer à primeira vista, ou leitura – é a História que está sempre por detrás das suas tramas e obsessões, é como filho dos que viveram a maior violência que um povo alguma vez viveu, e no coração de um continente que sempre andou a tentar impor-se, pela moral e civilização tida como superior, a todos os outros, que a sua obra se distingue entre a melhor literatura alguma vez escrita pela sua geração do pós-Guerra. A decadência da sociedade, das suas instituições mais emblemáticas, como a universidade e a política em geral, está tanto nos romances denominados Zuckerman Books como nos de uma fase mais recente, American Pastoral e The Plot Against America. Creio ser esta consciência aguda da condição humana, quer na sua versão americana ou noutras geografias de afectos ou raivas históricas, que o levou a homenagear e a querer dar a mão aos seus colegas escritores a viver o totalitarismo da nossa época, ou pelo menos a querer melhor entender o passado judeu e de outras minorias perseguidas que o trouxe até estes encontros. Na conversa que mantém com Ivan Klíma em Praga, que fez de tudo, até varrer ruas e recolher lixo para sobreviver na sua pátria à perseguição que sempre lhe foi movida pelo regime comunista, Roth, sem menosprezar o sofrimento do seu interlocutor ou retirar a grandeza à sua luta pessoal pela dignidade de todo um povo centro-europeu, avisa-o de que a maldade da história cobre-se de todas as maneiras, inclusive nas luzes brilhantes do Ocidente, nas sociedades então desejadas por todos os outros.

Falámos do futuro há pouco. Posso encerrar esta conversa com uma profecia minha? O que vou dizer poderá parecer-te – diz Roth a Ivan Klíma no fim de uma longa troca de palavras sobre política e literatura, tal como estavam a ser vividas atrás da Cortina de Ferro – arrogantemente condescendente – o cidadão rico e livre a apontar ao homem pobre sem liberdade os perigos em tornar-se rico. Você desde há muitos anos que luta por algo, algo de que você precisa como o ar que respira, e o que vou dizer é que esse algo por que você tem lutado está também um pouco envenenado. Garanto-te que não sou o artista sagrado a mal-dizer o que é profano, nem sou o coitado do rapaz rico a queixar-se dos seus luxos. Estou só aqui a fazer um relatório como se fora a uma academia.”

Por entre toda esta temática literária de Roth e de outros, quer em liberdade quer no aprisionamento político de outras sociedades, quer ainda na realidade bélica em que necessariamente se tornou Israel, está a questão da identidade, não só das minorias de toda a natureza e crenças, como dos homens e mulheres tornados personagens em sociedades cujos valores passaram a significar algo para além da nossa comum humanidade. É disso que a grande literatura do Ocidente tratou no século passado – a dignidade dos cidadãos universalmente a saque, a memória da guerra e da morte em massa e sem explicação possível como pano de fundo de todo um existencialismo vivido num mundo em caos e sem regras. Quando Roth fala com Milan Kundera, inevitavelmente aborda a questão do erotismo na sua obra, não como acto meramente artístico mas talvez como outra metáfora da resistência aos poderes desumanizados exercidos em sociedades em busca de utopias, o único acto livre e privado em sociedades em que a ideologia a tudo e a todos se sobrepõe e controla. Kundera era então acusado por alguns dos seus conterrâneos de se ter vendido, de fugir da sua pátria e das suas responsabilidades, de ter perdido o contacto essencial com a sua terra natal e a sua língua, acusado ainda de escrever só para os ocidentais, reforçando as fantasias destes em relação ao resto de mundo, mesmo que logo ali no outro lado da sua porta. É claro que Philip Roth não alinhava nisto, e tenta tirar do autor de O Livro do Riso e do Esquecimento e de A Identidade as suas motivações artísticas, o referencial total, interior, do autor. É possível que ao aproximar-se de Kundera, Roth auto-justificava a sua própria obra ante aqueles que ainda hoje o acusam de mal-dizer, de trivializar até, o seu próprio povo judeu. Quando a literatura é vista sem se topar a sua ironia, sem ser entendida como uma inerente subversão artística, que é a natureza, por assim dizer, de toda a grande Arte, confunde-se ordinariamente o homem pela obra, a obra pela realidade.

Shop Talk: A Writer and His Colleagues and Their Work continua a ser um dos mais relevantes livros, no qual ouvimos vozes literárias de vários tempos e lugares. Parece um seminário completo sobre alguma da mais significante literatura do nosso tempo histórico, do triunfo da vida sobre a morte.

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Philip Roth, Shop Talk: A Writer and His Colleagues and Their Work, London, Vintage Books, 2002. As traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado no Açoriano Oriental a 9 de Outubro de 2015.

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