Nathan Zuckerman e algumas das suas mulheres

Capa A Lição de Anatomia

Quando está doente, todo o homem quer a sua a mãe; se ela não está por perto, outras mulheres têm de a substituir. No caso de Zuckerman eram quatro outras mulheres. Nunca tivera tantas mulheres ao mesmo tempo…

Philip Roth, A Lição de Anatomia

Vamberto Freitas

Escrevo isto, por mera coincidência, acreditem, na manhã do dia 8 de Outubro de 2015 – mais uma vez foi anunciado o Prémio Nobel da Literatura, e não foi ainda Philip Roth, que está merecidamente nessa lista desde há muito, por todas as razões que justificam tal recompensa ao fim de uma vida literária. Será este um dos autores mais controversos desde sempre, mas pelas razões verdadeiramente nobres da literatura, que muitos parecem ter esquecido que deve ser simultaneamente entretenimento e reflexo duradouro da condição humana, assim como um mosaico-reflexo das questões mais prementes no que concerne o coração humano, uma representação do percurso de nós todos em busca de um lugar a que possamos chamar a “casa do nosso ser” (parafraseando certo filósofo), a tragicomédia que é inevitavelmente a nossa busca por uma identidade que nos aproxime a todos os outros, para além da geografia, da língua, da própria cultura, neste caso durante a segunda metade do século passado até aos nossos dias, e agora a meia viagem da segunda década dos dias surrealistas que são também os de nós todos. Philip Roth é um dos escritores norte-americanos que também me fala sobre a experiência de ter sido um outro numa sociedade moderna e multi-étnica, que mais expressa artisticamente o conflito interior que é ser oriundo de uma tradição para nos termos de defender e sobreviver noutra, é ele o judeu-americano que consistentemente projectou nas suas narrativas, sem pudor e sem amarras temáticas ou formais, o existencialismo vivido num determinado tempo e espaço, a contradição entre ser-se livre e o que a sociedade em geral nos tenta impor. Poder-se-á dizer que toda a obra do autor, mesmo já na sua fase tardia de Pastoral Americano, é esse delírio de palavras – pertencer, sim, mas reafirmando sempre o impulso individualista da liberdade, de nos redefinirmos contra a “tradição” do grupo, de cavarmos para nós próprios o jardim que havemos de cultivar, ou mesmo escolher o pântano em que nos vamos afundar. A literatura do século XX sem Philip Roth estaria bem mais incompleta, e a literatura americana ficaria com o vazio de um recanto sem a cor e a luz em que se tornam os seus livros. Alguns outros leitores acharão, tal como alguns críticos no seu país já acharam no início da sua carreira, que há sexo e gargalhadas a mais, as feministas que há patriarcado incorrigível nas suas histórias, e mesmo alguns judeus que se trata de auto-ódio à sua pessoa e, por inferência, traição a toda a comunidade que ele utiliza ora como fundo ficcional ora como bombo da festa. Todos têm o direito às suas leituras, mas seria bom que as justificassem abertamente – como o fez um dia o grande crítico Irving Howe, também judeu-americano, nas páginas da influente Commentary, numa época que já passou, e que no romance aqui em foco reaparece em páginas de alta comédia, num bem-humorado ajuste de contas, sob o nome de Milton Appel – para vermos como as questões textuais secundárias são somente parte do grande teatro humano que é a sua obra desde o início, um “drama em gente” quase pessoano. Por outras palavras, desconstrói o centro e as suas infindáveis hipocrisias, a partir das margens, mas não o deixando esquecer que é parte dele à sua maneira, com a postura e as crenças que reclama para si, a vida interior de cada um tão decisiva como a colectiva na procura da felicidade.

The Anatomy Lesson, belissimamente traduzido em Portugal por Francisco Agarez, com o título de A Lição de Anatomia, pertence à chamada trilogia conhecida como os Zuckerman Books/Livros de Zuckerman, que inclui o The Ghost Writer e Zuckerman Unbound, que Roth um pouco mais tarde concluiria com um epílogo, The Prague Orgy, em que transfigura umas das viagens de Zuckerman a Praga para recuperar uma colectânea inédita de contos em Iídiche, escrita por um judeu assassinado durante a ocupação daquele país pelos nazis. O tempo ficcional da sua publicação segue o romance que faria de Philip Roth o escritor famoso, e, por um tempo,maldito, O Complexo de Portnoy (aqui chamado Carnovsky), em 1969, romance que levou alguns líderes da comunidade judaica em Nova Iorque ao extremo de sugerirem que não o deixassem publicar mais nada deste género, o macartiismo mais um impulso universal do que o nome do político americano de direita. Será bom lembrar que nós portugueses temos muita experiência com estas censuras, e por razões muito semelhantes, que ainda nos anos 80 atingiriam José Saramago, com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, e, na década seguinte, de certo modo, João Ubaldo Ribeiro, com o seu A Casa dos Budas Ditosos. No centro destas narrativas dominadas pela vida e voz de um Nathan Zuckerman – claramente o alter-ego de Philip Roth – está um escritor que praticamente tudo baralha ao contar o quotidiano do autor real, as personagens, quase todas, só superficialmente disfarçadas sobre outros nomes e afazeres, mas de imediato identificáveis pelos leitores atentos da literatura e ensaísmo do modernismo literário americano no pós-II Guerra Mundial. A Lição de Anatomia abre com Zuckerman estirado na sala e com um colar terapêutico ao pescoço, a ser tratado por uma dessas quatro mulheres, que ele arranja maneira de nunca se encontrarem umas às outras, todas elas suas amantes durante as suas visitas de “cuidadoras”. O que segue é um festival de queixas pelas dores colunares que há mais de um ano o deixam prostrado e sem poder escrever, o sexo, dito ou praticado, uma das fontes do riso imparável em todas as páginas. Zuckerman acaba por não aceitar os não-diagnósticos de todos os seus médicos e de outros que incluem analistas e xamanes das curas alternativas, decidindo aos quarenta anos de idade voltar à sua Universidade de Chicago, mas para um curso de medicina, em proveito próprio. Por entre o torrencial de palavras narrativas e diálogos com uma ou outra das mulheres-amantes e com os das múltiplas clínicas da sua má sorte, o leitor acompanha esses dias de lamentação e de não-sexo até ao desfecho radical como contraponto a todos as euforias diegéticas e imaginadas vinganças literárias do narrador. Por detrás da comédia, estão sempre as mais antigas questões da literatura – a identidade de um indivíduo no seu relacionamento com todos os outros, o sentido de pertença e ao mesmo tempo de rebeldia ante os que constituem as nossas comunidades e nos julgam à distância ou entre portas conforme a nossa disponibilidade para uma vida que tem de ser colectivamente aprovada, a história judaica insinuada sempre por Zuckerman na sua caminhada rumo a uma libertação do passado, que ele sabe nunca ser inteiramente possível. No decorrer da sua narração, convoca com frequência outros escritores, entre eles Thomas Mann e o seu clássico A Montanha Mágica, para azedar ainda mais a sua sátira, rir de si próprio quando comparado a outros escritores, a ironia, uma vez mais, marcando praticamente cada uma e todas as frases da sua prosa.

Todo este romance é como que uma resposta às reacções que O Complexo de Portnoy provocou entre alguns críticos judeu-americanos, e não só os mais conservadores. Se a ficção aqui tem ainda alguma relação com a realidade, a própria família imediata, particularmente, pelo menos, como Zuckerman relembra nesta ficção, sentiu-se atingida. O seu irmão mais novo, Henry de seu nome fictício, acusa-o de ter sido o dito romance — que é uma longa sessão de psicanálise em que o seu protagonista adolescente fala de todas as suas fantasias, do sexo como libertação de tudo o que rejeita na comunidade judia-americana em que nasceu e foi criado, e em que os pais são retratados como os “tiranos” clássicos das famílias — a causa da morte do pai, e deixou de falar com ele. É a grande força temática e a presença constante na memória e na culpa de Zuckerman, fazendo de tudo o resto uma feroz paródia. Como pode um judeu, parece querer perguntar Nathan Zuckerman, sofrer tanto com uma mera ficção quando neste século das trevas europeias está o maior assassínio deliberado da História?

Do tapete – queixa-se agora Zuckerman da dor sem explicação nem cura aos quarenta anos de idade, e quando acabava geralmente deitado no chão com uma das suas mulheres, desta vez uma jovem rica e bem formada, rendida aos seus talentos literários – tentava ditar a ficção a uma secretária, mas faltava-lhe a fluência e chegava a passar uma hora inteira sem ter uma palavra para dizer… A secretária só tinha vinte anos e, principalmente nas primeiras semanas, deixava-se influenciar em demasia pela angústia que sentia nele. As sessões eram uma tortura [sobre questões judaicas e Israel]. O coito, a felatio e o cunnilingus eram práticas que Zuckerman aguentava mais ou menos sem dor, desde que estivesse de barriga para cima e com a cabeça apoiada no dicionário de sinónimos”.

Eis a dor como metáfora, e a singular e irónica comédia da grande literatura. Diga-se ainda que Philip Roth recebeu ao longo da sua carreira tudo quanto são prémios e honras literárias ao mais alto nível, e não só nos EUA. Será hoje, sem dúvida, um dos autores mais reconhecidos em toda a parte.

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Philip Roth, A Lição de Anatomia (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental a 16 de Outubro de 2015.

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