Memória em silêncio

foto  de Carlos Cordeiro

Que secretas águas a espreitariam?

Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite

Vamberto Freitas

Todos nós fazemos isto de quando em quando – pegar nas fotos antigas, tirá-las das caixas desarrumadas, olhá-las, vendo especialmente os nossos mais chegados, os amigos, os conhecidos, os encontrados ocasionalmente, a rua ao pé da porta, uma cidade próxima ou distante, a marca do tempo provocando em nós toda a ambiguidade de sermos e estarmos, o relembrar de anos mais amenos e prometedores contra a inevitável passagem do tempo, acentuando o que nos falta na viagem. Não, uma imagem, creio que outros já o disseram, não vale por mil palavras, contrariando as inverdades de certas frases feitas. Uma foto não tem som nem musicalidade, não ouvimos a voz daqueles que passaram por dentro ou estão em nós, ou ainda os outros ausentes que também nos marcaram com a poesia das suas vidas, com o olhar vivo que, esse sim, nos conta ou nos relembra as histórias em que cabemos todos, os nomeados ou mesmo os que permaneciam esquecidos, dando-nos, todos eles, algum sentido à nossa existência. Mas uma foto desperta tudo o resto que nos faz depois dizer alegria ou dor, o aqui ou o longe, e, agora sim, ouvir a voz das almas que já repousam, ou a dos que ainda connosco partilham as vidas e as histórias em comum, as da realidade ou as do nosso imaginário. Fernando Pessoa disse que nascemos em Portugal para morrer no mundo. Vitorino Nemésio dizia, mais ou menos, o contrário – nascemos no “viveiro” açoriano para sermos replantados, noutras terras, noutras vidas. Olho as nossas velhas fotos aqui em casa, e “no sorriso por dentro da noite” de que me falava – fala — a minha mulher nas páginas do seu romance com o mesmo título, vou de lugar em lugar, viajo pelas geografias que um dia também chamei de afectos e memórias. Nascido alguns anos após a II Grande Guerra, pertenço à geração portuguesa que tem vivido os anos dourados, apesar das angústias passadas, ou do presente incerto. Vejo o velho cais de Angra do Heroísmo atulhado de gente vestida de preto, em partida, e sem saber que a História estava prestes a chegar, como na noite de 1964 em que os meus pais levaram toda a família a embarcar rumo à América, o primeiro lugar dos nossos sonhos, das nossas “imagens e miragens”. Partíamos como se não houvesse mais regresso. Não entendíamos a viveza de um mundo distante, e dali a pouco muito próximo. Vejo logo a seguir a minha gente agora vestida a cores numa Califórnia de mil vidas e reinvenções, vejo os meus colegas e amigos em toda a parte, os que ficaram nas ilhas, os que remaram para leste em busca de outras saídas vivenciais, Lisboa e Coimbra terras prometidas, vejo-os ainda a chegar às margens distantes de que nos falara Caminha, os sorrisos dos reencontros em Florianópolis ou Porto Alegre, onde está o maior e mais significante memorial aos açorianos. De um povo com memória e futuro sonhado, depressa redescobrimos toda a nossa história, com nomes, datas, e as circunstâncias ou razões das naus que nos haviam transportado para este então Desterro atlântico, aliás como também voltaríamos a chamar aquela ilha brasileira a sul, Santa Catarina, terras do nosso exílio tornadas chão-pátrio, hoje desejadas quer pelos que moram mesmo ao lado, quer pelos que recusam o esquecimento após a partida, estas ilhas nascidos do fogo onde convivem a inquietude e a serenidade, escondidas até há pouco dos que andam em busca de paraísos perdidos.

As fotos têm o doce silêncio da memória, o sorriso por dentro do dia e da noite, vida. O resto, o outro lado da história, fica para o grito da literatura.

II

Olho agora outras fotos nossas, eu e a Adelaide um pouco por parte, na América, nos Açores, à beira Tejo, na Europa, aqui em casa, e noutras ilhas, com amor e com amigos. A memória é também um chamamento para um conforto de alma, o passado limpo de tudo que não sejam os nossos melhores momentos, as nossas alegrias. Tenho saudades de certas viagens e do deslumbramento do desconhecido, das terras e cidades que eram apenas imagens dos livros, em fotos ou em prosa, e víamos pela primeira vez, como aconteceu na Praça Velha, em Praga, realidade imitando o mito. No nosso primeiro passeio em volta do histórico e monumental centro antigo onde se desenrolara muitos dos acontecimentos que fariam o mundo estremecer, como os tanques soviéticos a rolarem nas ruas ao lado com a missão de esmagar a liberdade e soberania de um dos mais antigos povos do “continente das trevas”, vimos de imediato uma livraria cuja vitrine ostentava alguns livros de Fernando Pessoa. Pessoa e Praga – o desdobramento de almas, e visão de outro mundo caído, outra cidade à beira rio em que o poeta poderia ter-se sentido em casa. Quando entrámos e eu perguntei ao jovem que nos atendeu com aquela civilidade de um povo culto, num inglês rudimentar (tivemos de estudar o alemão e o russo até há poucos anos, para melhor entendermos o “inimigo”, diria ele a sorrir), qual daqueles edifícios era o que estava representado na primeira página de um dos famosos romances de Milan Kundera, com um título mais do que apropriado neste contexto, O Livro do Riso e do Esquecimento, que abre com a cena do discurso triunfante e ameaçador do líder do Partido Comunista numa varanda de um antigo palácio, logo após tomada do poder em Fevereiro de 1948. Tocou-me no braço e indicou-me para o seguir. Saiu para o lado de fora da livraria, deu dois passos, virou-se, e apontou-me o primeiro piso do mesmo prédio em que trabalhava. Olhei-o fascinado, e quedei-me por alguns minutos a absorver o que agora passava de história lida ou ficção dramática para testemunho pessoal; ou a casa de Kafka numa esquina do outro lado da praça, e depois o Castelo onde o mesmo autor situava algumas das suas histórias, e agora ocupado pelo Governo democrático da república, um dos seus grandes dramaturgos e intelectuais, Václav Havel, fora da prisão e a dirigir, através de acções e do discurso livre, os destinos do seu povo. São momentos inesquecíveis para quem os vive na sua intimidade, mas são agora os gestos mínimos, os sorrisos e as palavras ditas sobre os pequenos nadas dos dias e das noites que nos despertam esse país estrangeiro, que dizem ser o Passado. Lembro o passeio nas ruas de Oxford, Mississippi, a cidade de William Faulkner, que havíamos feito parte do nosso itinerário na travessia de Los Angeles a Boston, por uma América que nos fora promessa, e que fizemos segundo as terras de certos escritores, dos nossos favoritos ou os mais lidos. Numa das ruas em direcção à casa-museu do autor de O Som e a Fúria saiu uma senhora do seu jardim, manifestando a conhecida hospitalidade sulista, e perguntou-nos de onde éramos, sabendo já o que ali fazíamos. Ah, o Bill, dizia ela, referindo-se ao seu famoso vizinho nem sempre fácil de aturar, as histórias que ele nos contava, a imaginação que nos despertava com os seus feitos inventados, ou só por ele fantasiados; ou quando visitámos a sua sepultura, com indicações precisas à beira da estrada. O escritor havia deixado instruções precisas – que queria ser enterrado longe dos “aristocratas” e mandões do que ele na sua ficção chamava de Yokanapatawpha County, queria estar eternamente com o povo comum da sua comunidade. Verifiquei que a terra estava limpa, remexida, fresca. A explicação veio de quem por lá trabalhava – todos os dias, disse-nos ele, temos de limpar a sepultura, deixam as garrafas de whisky depois de as despejarem sobre a sepultura, para consolo do falecido. No seu quarto de cama tinham também deixado as suas botas de trabalho, e na mesinha de cabeceira a garrafa de Jack Daniel’s, já meio vazia. Ficou tudo assim como na noite em que ele foi de emergência e na sua derradeira viagem para o hospital.

Memória, imaginação – era como se o chão pisado se confundisse com esse jogo de espelhos que a melhor literatura nos projecta, ver toda uma geografia tal como ela se nos depara e, simultaneamente, como o artista a havia reinventado ou (re)imaginado, habitando-a com outros seres, agora de carne e osso e que nos saiam à rua num cumprimento solidário e grato. Era a nossa repetida Viagem ao Centro do Mundo, as epifanias que brilhavam nos teus olhos, e que passaram a definir as nossas vidas para sempre, o termos sido, longe e aqui: Vento morno, vento bobo/vento nordeste luar/fervedouro em cana verde/na espiga outonal/do meu verde cantar//Vento morno, vento bobo/folha louca ao deus-dará/em ti apunhalo a força/para nela me deitar/e contigo navegar//a força não é só tua/É também do meu olhar./Vento bobo/Vento morno.

A lua cheia ilumina a noite, a luz divina que tudo transforma em sombras de cor e de promessas. Na quietude em volta, o eterno rumor das águas nega certos presságios de deuses revoltados. Em frente à tua janela estava desde há dias um navio de brilho suave, como um dos teus sorrisos por dentro da noite. Se tinha um destino, de onde vinha e para onde ia, também não nos incomodava, desejamos-lhe uma boa chegada ao destino que lhe está guardado. A vida toda em suspenso, no mistério. As viagens, as nossas e as deles, serão outras, sabemos. Não estamos sós.

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A primeira parte deste texto foi escrito sob o mesmo título para a revista da SATA, Azorean Spirit, edição de Agosto-Outubro de 2015. A foto é de Carlos Cordeiro.

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3 thoughts on “Memória em silêncio

  1. mceupc Outubro 24, 2015 / 9:17 pm

    É com enorme prazer que sempre leio e volto a ler a sua escrita. As viagens que nos relata, carregadas de emoções nos diferentes contextos de vida, os lugares, as pessoas , as memórias
    espelham de uma forma serena e bela a Vida inteira!

    Grata pela partilha!

    Maria do Céu

      • mceupc Outubro 25, 2015 / 8:32 pm

        Boa saúde e Bem Haja!

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