Fatias-de-vida numa América em transição

Capa Tudo o que conta

Chega uma altura em que percebemos que tudo é sonho, e só as coisas guardadas por escrito têm alguma possibilidade de ser reais.

James Salter, Tudo o que conta

Vamberto Freitas

Li uma edição em inglês do novo e último romance de James Salter – falecido aos 90 anos de idade a 10 de Junho deste ano — All That Is, sabendo que tinha sido traduzido em Portugal, e publicado pela Livros do Brasil, com o título de Tudo o que conta (em mais uma notável tradução de Francisco Agarez, que eu viria a ler depois), mas é-me por vezes difícil querer ler um autor norte-americano pela primeira vez, e fazê-lo em tradução, a minha longa formação americana não o permite, ou pelo menos desaconselha-me com alguma frequência. Ao contrário de muitos outros leitores, não nutro nada contra as traduções literárias – sem elas não teríamos conhecimento da melhor literatura do mundo, não haveria qualquer influência mútua entre línguas e culturas, perderíamos boa parte da nossa capacidade de nos vermos e entendermos na pele do outro, nos mundos que à distância não necessitam de perder o seu mistério ou estranheza para que possamos sentir a pertença, que provavelmente também quer dizer, vagamente, universalidade. Edmund Wilson, que havia passado boa parte da sua vida rodeado de luso-americanos em Cape Cod e um dos críticos canónicos do modernismo do seu país, punha-se a aprender línguas (francês, russo, hebraico, húngaro – para ler o que mais despertava o seu interesse e curiosidade, e dizia que desconfiava sempre das traduções, de todas as traduções, e apontou em certa ocasião e publicamente como exemplo negativo o seu próprio amigo Vladimir Nabokov, quando este traduziu para inglês Eugene Onegin, de Alexander Pushkin. Claro que exagerava, e isso manteve-o alheio a algumas das melhores literaturas do mundo, inclusive a nossa e as de língua hispânica. Já no fim da vida, revia alguns dos seus preconceitos culturais, e lamentava-se não ter lido algumas obras latino-americanas que nos anos 70 do século passado já estavam muito presentes nos departamentos de línguas e literaturas de quase as universidades norte-americanas. Numa carta ao seu colega V. S. Pritchett, o ficcionista e ensaísta britânico, dizia que queria ler Eça de Queirós, mas, uma vez mais, não o fazia por desconhecer completamente a língua do nosso escritor. Ironicamente, ou talvez não, o filho de Wilson, e da nada menos conhecida escritora Mary MacCarthy, Raul K. Wilson, viria a tornar-se professor universitário de literatura comparada, e o Português é uma das línguas que conhece; quem sabe se ouvia uma ou outra palavra nossa dita por alguns luso-descendentes quando passava os verões com o pai em Wellfleet. Seja como for, suponho que outros no nosso país vivem o mesmo dilema quanto às suas leituras, que irá acontecendo cada vez mais, mesmo entre quem nunca viveu noutros países, mas conhece vários idiomas devido a afectos culturais electivos. São estas as nossas outras comunidades imaginárias – vividas ao longe e através da palavra, mas parte íntima do nosso modo de ser e estar. Não queria alongar-me mais nesta questão, só que o romance de James Salter merece inteiramente algumas destas considerações agora que está presente nas nossas livrarias à procura de leitores, que creio não ficarão desiludidos com a descoberta de um autor maior, e que no seu próprio país nunca esteve demasiado exposto à publicidade do costume, apesar de ter tido uma vida que lhe teria permitido um acto contínuo de auto-promoção. Aliás, também foi guionista de cinema, e o seu primeiro romance, The Hunters (1965), uma transfiguração da sua longa experiência no Pacífico durante a II Guerra Mundial e vida como piloto na Força Área Americana viria a ser a base do filme com o mesmo título dois anos depois, e com Robert Mitchum no papel principal.

Se o parágrafo introdutório aqui ameaçava correr em todos as direcções, o próprio romance All That Is/Tudo o que conta tem uma estrutura semelhante – é feito de curtos capítulos cujos títulos vão-nos indicando nomes de personagens, sítios, cidades, países, datas, ou incidentes numa só palavra resumidos ou insinuados. Desde algum tempo que não lia um volume com quase quatrocentas páginas de uma leveza extraordinária, sem que isso deixe de conter todas as significações imagináveis com que a sua linguagem caracteriza cada personagem, a marca de um acto literário que, mais do que qualquer unidade de vida do seu personagem ou das personagens que se atravessam nos seus percursos existenciais, nos faz recordar ou nos imprime na nossa memória cada um desses seres inventados, são eles que carregam em si, individualmente ou como parte de um todo que deve ser a construção de um imaginário convincente, tudo o que poderá definir esse suposto significado que devem ter as suas e nossas vidas. A narrativa inicia-se com o protagonista, Philip Bowman, em combate no Pacífico e vem até à primavera de 1984, numa cena irónica de mais um casamento, uma cerimónia que se repete, assim como outras contadas diversas vezes no romance, o amor e o sexo quase sempre em contradição. Tudo o que o narrador nos apresenta é feito dessas cenas meio solenes meio corriqueiras, quase todos sabendo de antemão o destino que lhes está guardado. Ante esta desintegração de sonhos na modernidade, os únicos relacionamentos estáveis vêm muito de trás, dos pais e avós destas personagens, recordados sempre como que em contraponto à liberdade infeliz do presente. Se as nossas vidas são feitas de pedaços que só em restrospectiva parecem significar algo no fim de cada um, esses pedaços tragicamente são “tudo o que conta”. O próprio Philip casa cedo com uma patricinha sulista de Virgínia, que conheceu num bar nova-iorquino nos anos de festa e ilusões do pós-Guerra, filha de uma aristocracia quase feudal, que passa o dia a correr a cavalo nas suas herdades, o que sabemos também logo à partida estar condenado ao falhanço. Este é um mundo de, como outros já apontaram, da classe branca, de uma América que deixou de existir há muito tempo, de uma sociedade que se dava ao luxo do dinheiro e do carreirismo como se mais ninguém viesse um dia a demandar a repartição do bolo. Curiosamente, James Salter era um judeu-americano de segunda geração, nos anos em que os intelectuais de Nova Iorque praticamente dominavam a cultura literária erudita, reinventando outras linguagens e pela primeira vez criando novos imaginários de uma literatura até então provinciana. No próprio romance, o narrador deixa cair ou insinua e disfarça alguns outros escritores de imediato reconhecidos pelos leitores mais atentos, visto que esse mesmo narrador assume aqui o papel de editor numa casa que poderá ser muito bem, na realidade, a Alfred A. Knopf, o próprio fundador dando o seu nome à editora, também judeu, virado para a literatura de qualidade, americana e europeia. Creio que tudo isto terá alguma importância no impulso temático deste romance por entre a desconexão de uma narrativa aparentemente espartilhada por acontecimentos e situações de personagens tão diferentes, a viver, quando fora do cosmopolitismo da grande cidade, a claustrofobia de divisões sociais e do isolamento numa sociedade em mutação constante, e alienada para além das festas alcoolizadas de uma boémia imitativa de outros tempos, e da própria literatura. A prosa de Salter levou alguns a assumir que uma das suas grandes influências teria sido Ernest Hemingway, pela escrita clara e austera, assim como Henry Miller (outro judeu-americano), pela também leve sensualidade na sua escrita. Salter diria que não, e destacava dois outros autores como referências suas – André Gide e Thomas Wolfe. Não deixa de ser interessante que Wolfe, um dos mais palavrosos romancistas do modernismo americano – e que Harold Bloom diria um dia, com todo o destaque do New York Times Book Review, que ele não tinha um naco de talento literário – ser reclamado por outros escritores judeu-americanos como influência decisiva, Philip Roth incluído. Wolfe reafirmava as suas raízes sulistas em confronto com a outra América, o que pode explicar a leitura empática que alguns desses escritores de descendência judaica fariam da sua obra, eles próprios empenhados a reinventar uma América à sua imagem e filosofia de vida, a rebeldia de quem quer sair das margens e cavar fundo o seu lugar no centro. De certo modo, é isso que se retém, acima de tudo, deste romance.

Tudo o que conta é esse outra continuidade, à sua maneira e com a subtileza de um James Salter, cuja experiência existencialista vai dos campos de batalha a uma vida intelectual e literária na cidade desde sempre associada ao melhor da literatura modernista do seu país, de romances como O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, e O Sol Nasce Sempre, de Hemingway – os americanos, dentro e fora da América, a encontrar e a tirar o pulso a um mundo que lhes era quase alheio, e que as conflagrações mortíferas da Europa lhes forçara a entrar em cena, a sua arte literária espelhando ora um novo país em busca de si próprio, ora o mundo como palco alargado das suas angústias e dos seus amores e desamores. Deixo aqui sugerido outro escritor que faleceu muito novo, nos anos 80, mas que me faz lembrar esta prosa de James Salter – o contista Raymond Carver. Ambos poupam a palavra para significar o indeterminismo e a irrealidade do mundo pós-moderno – que aturamos, mas que nos aflige tremendamente.

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James Salter, Tudo o que conta (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, Livros do Brasil, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 27 de Novembro de 2015.

Mil e uma noites, ou a estranheza do nosso tempo

Capa Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Dias

Orgulhamo-nos de dizer que nos tornámos pessoas razoáveis. Temos consciência de que durante muito tempo o conflito foi a narrativa definidora da nossa espécie, mas mostrámos que essa narrativa pode ser alterada.

Salman Rushdie, Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites

Vamberto Freitas

Este novo romance de Salman Rushdie, Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Dias, não podia deixar de ter como leitmotiv o que o narrador denomina de “a estranheza” dos tempos. Toda a sua obra, aliás, e particularmente a partir de Os Versículos Satânicos, tem como tropo estrutural a condição universalizada da humanidade – o estranhamento em terra própria, o estranhamento de já sermos sempre o outro em qualquer geografia. Se a imigração é o tema maior de muita literatura mundial (a nova ficção mundial, chamou-a a revista Time já nos anos 90, precisamente em relação a Salman Rushdie e a inúmeros outros colegas seus) na segunda metade do século passado, os nossos dias tornaram-se ainda mais dramáticos na movimentação voluntária ou forçada de milhões de cidadãos de todos os recantos do mundo. Num desses seus romances, Rushdie escreve que uma viagem de Bombaim a uma qualquer aldeia indiana é muito mais longa do que uma viagem da mesma cidade sul-asiática a Londres. Bem sabemos, creio, o que quer dizer – vamos perdendo o solo natal para nos tornarmos, todos, Ninguém em Terra-de-Ninguém. A questão da identidade foi sempre, e continua a ser, outro grande impulso temático tanto da sua ficção como do seu nada menos significante ensaísmo. Para além de ficção mais ou menos científica, o seu novo romance poderá ser visto como que um acto artístico revisionista, uma visão que não tem sido nada amena, quando não aterrorizadora, e que tem tido a violência cega, o conflito irracional e prendido a noções da religiosidade, que os fracos ou derrotados da História arremessam como arma da sua ira contra todos os outros. Há nomes ou designações aqui – religiosas e nacionais – que nunca são referidas nesta prosa onde o realismo dá lugar à magia negra ou salvífica num mundo infernizado por forças que já não entendemos, que não somos capazes de entender. De resto, todos os ingredientes temáticos da escrita ficcional de Rushdie estão presentes – um imigrante indiano em Nova Iorque que vai da euforia do amor e bem-estar a perdas que lhe parecem irremediáveis após a morte da sua mulher, à saudade das suas origens e mundos abandonados, o chão do seu nascimento tornado alheio, a obsessão do regresso a casa relembrando-nos que os heróis também clamam pelos deuses e pelos seres que lhe deram vida e forma à sua aventura – ou desventura. Outro sinal que me parece fundamental para uma outra leitura da obra presente – a reafirmação da vida, crença que não há escuridão sem um ponto de luz, que poderemos não ser capazes de avistar ou virarmos o rumo milenário da nossa história sem a ajuda de forças-outras, mas a racionalidade vencerá um dia. Estamos, aqui, no campo da fantasia e da realidade, os nossos dias e vivências como que um simulacro da ficção, a magia devolvendo-nos a normalidade da vida e da morte, do trabalho e da diversão, do amor e do prazer. Não é uma utopia – é o que um ser humano aparentemente deseja para si e para os seus.

Qualquer leitor minimamente empenhado sabe muito bem que este romance é também uma paródia ao clássico As Mil e Uma Noites (os fabulosos contos árabes e de outras origens sul-asiáticas que começaram a ser compilados a partir do século IX), as histórias contadas ao rei persa Xariar por uma narradora de nome Xerazade para escapar a uma sentença de morte certa após uma noite no perpétuo leito nupcial do monarca. Isto só para dizer que a narrativa de Salman Rushdie é, em primeiro lugar, uma comédia que envolve uma Guerra dos Mundos, desencadeada pelos jinn e jinni, saídos de toda a parte (até a representação de uma famosa série cómica de televisão americana dos anos 80 é para aqui chamada), vindos e vindas de um reino fantástico algures no universo, capazes, cada um deles ou delas, da maior generosidade ou crueldade conforme o seu lugar numa hierarquia sem tempo nem ciência, o seu estado entre a matéria e o espírito tornado numa amoralidade em estado puro. Estamos a mil anos deste tempo diegético, a história tendo o seu início em 1195, quando o filósofo Ibn Rushd (atenção ao nome do autor) de Sevilha, pensador profano e humanista, acasala com uma menina jinni que lhe aparece à porta em busca de amor e sexo, deixando os dois espalhados pelo mundo uma tribo de descendentes, adormecidos até que a sua mãe volta à terra para enfrentar outros espíritos do seu reino celeste, que declararam a guerra ao nosso planeta já no nosso tempo presente, praticando por todo o lado a violência gratuita e a morte apocalíptica. O diálogo entre Rushd e um Ghazali, outrora um místico persa, é entre, por um lado, a vontade incontestável de um Deus-Todo-Poderoso e um Deus-Outro, que Rushd afirma “que em última instância está para além da nossa compreensão”, insinuando que nos cabe ir decidindo a vida segundo a ética desenvolvida pelos pensadores livres e pelos nossos antepassados. Note-se que o narrador nunca se refere a algo mais do que brevemente insinuar o caos vivido no Médio Oriente e o terror que os jinn e jinnis vão infligindo ao resto do mundo, neste caso concreto em Nova Iorque, cidade onde vive e lecciona o próprio autor, nunca se dizendo direta ou indiretamente que foi também a cidade que na realidade viveu a fúria fantasmagórica e absoluta vinda do céu. Acontece, entretanto, que é nessa Nova Iorque fictícia onde vive um imigrante vindo de Bombaim e de nome Geronimo Manezes – evocando de imediato a mítica figura do guerreiro nativo-americana, e ainda um indiano provavelmente de descendência híbrida, e que o autor disse numa entrevista ser uma homenagem a um goês que vivia na sua cidade natal. Uma vez mais, Rushdie nomeia as suas personagens denotando origens mistas, e os nomes portugueses orientalizados são quase uma constante em toda a sua obra, com a distinção de serem precisamente esses personagens que simbolizam os valores e as virtudes em prol da vida. Manezes, viúvo de uma mulher nova-iorquina de bem, jardineiro agora de uma grande mansão nas margens do rio Hudson, solitário e saudoso do seu amor e da sua terra ancestral, acorda um dia com os pés literalmente fora da terra, levitando ligeiramente numa misteriosa condição sem cura nem explicação. É um dos descendentes, meio humanos meio etéreos, de Rushd e da jinni de Sevilha, e está prestes a ser convocado pela própria mãe para a sua salvação numa guerra sem tréguas contra os espíritos maléfícos que atacam por toda a tarde, numa destruição aterrorizadora, que pode vir de uma chuva de raios ou de outra violência mortífera entre os que menos esperam, e muito menos merecem. A guerra está em curso, e a salvação da humanidade só será possível com a ajuda sobrenatural dos nossos protectores vindos desta ou de outras galáxias, onde fica o seu reino paradisíaco, cuja actividade principal é o sexo imparável como diversão exclusiva.

Dois Anos, Oito Meses e Vinte Oito Noites, no entanto, é simultaneamente uma continuação de narrativas prévias de Salman Rushdie e uma partida para uma ficção bem mais leve e divertida, quer na construção dos seus personagens, quer nos eventos principais do seu enredo, sem nunca perder a seriedade do que julgo ser a intenção primeira do seu autor – os tempos ruinosos e, repita-se, estranhos em que todos vivemos, que só poderiam vir de forças inexplicáveis, como quem diz – somos nós que criamos os nossos infernos sem depois sabermos como deles sair, como apagar o fogueira cósmica. Ler Rushdie é ler sobre o que nos está acontecer, como crise existencial e civilizacional no Ocidente, como crise contínua noutras partes do mundo e cujo suposto distanciamento das nossas sociedades, e ainda mais das nossas filosofias de vida, não nos poupa. Nova Iorque aparece aqui de novo como o centro perfeito onde se congregam todas as nações, é a geografia por excelência da dor e do sonho universais. Aparecem nestas páginas, para além das figuras históricas e do pensamento já mencionadas, representantes de todas as classes sociais e práticas culturais. A escrita tem esta função primordial – contar as histórias de como nos afundamos, e depois a aventura de nos reerguermos, de voltar a ter os pés na terra, de sobreviver ao fogo e à maldição genesíacas. O outro romance do autor situado na mesma grande metrópole americana intitula-se precisamente Fury/Fúria, a batalha constante pela normalidade no quotidiano, pela identidade que cada um dos seus seres vai reinventado para si num gesto de equilíbrio e permanência num mundo sem regras nem fronteiras de qualquer espécie. A odisseia continua a ter o postulado intemporal – o regresso, ou os regressos, à essência do nosso próprio ser, na solitude ou na convivência com todos os outros.

Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites é um romance de divertimento puro, mas de alusões literárias e filosóficas que nos remetem para o início da narrativa, que parece ser a nossa nos tempos presentes. Já se passaram mil anos, e a vida reafirma-se, sempre. A utopia, pois, não será nada de fantástico, e sim o desejo da “normalidade” para uma humanidade a saque, e sem saber quem derrotar no processo da sua libertação.

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Salman Rushdie, Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites (tradução de Ana Saldanha), Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, de 20 de Novembro de 2015.

VAMBERTO FREITAS: A NOVA LITERATURA LUSO-AMERICANA

Capa Imaginários Luso-Americanos

Miguel Real

Só recentemente tivemos oportunidade de ler Imaginários Luso-Americanos e Açorianos. Do outro lado do espelho (Ponta Delgada, Edições Macaronésia, 2010), de Vamberto Freitas, livro que, de certo modo, se evidencia como cume e corolário da actividade de crítico literário, de professor e de jornalista do autor.

Um conjunto de ensaios extremamente interessante porque, como veremos, supera a repetição, hoje cansativamente recorrente, sobre a existência de uma literatura especificamente açoriana e, de certo modo, abre novos horizontes para a literatura portuguesa.

Numa síntese extremamente concisa, Vamberto Freitas, como crítico literário, está para a literatura açoriana e luso-americana a partir da década de 90 (cf. p. 13 e entrevista à revista “Provincetown Arts” no final do livro) como Urbano Bettencourt tem estado, desde a década de 80, para a literatura açoriana. Temos consciência de que a frase anterior se evidencia mais como caricatura do que como explicação analítica, mas, enquanto síntese lapidar, ela, de certo modo, ainda que superficial, revela-se verdadeira. Urbano Bettencourt, enquanto crítico literário, estendeu a sua análise ao mundo ilhéu do Atlântico (a região da Macaronésia), enquanto Vamberto Freitas se dedicou à literatura luso-americana publicada nos Estados Unidos da América.

Ao longo da década de 90, Vamberto Freitas publicou dois importantes livros sobre literatura açoriana: O Imaginário dos Escritores Açorianos (Salamandra, 1992) e Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas (Salamandra, 1998). Em O Imaginário dos Escritores Açorianos, Vamberto Freitas recobre a produção literária do que designa por “geração de 70” açoriana (p. 204), destacando os textos de João de Melo, José Martins Garcia, Cristóvão de Aguiar, Álamo de Oliveira, Fernando Aires, Dias de Melo, Vasco Pereira da Costa, J. H. Santos Barros e Daniel de Sá. Para a defesa da tese geral, “Onésimo Teotónio Almeida e a sua geração” (pp. 199 ss.) é, indubitavelmente, o mais importante capítulo do livro, dotado de elementos autobiográficos.

Na introdução, Vamberto Freitas caracteriza a literatura açoriana “pela fuga constante, geográfica e/ou interior, do homem das ilhas, onde quase obsessivamente os [escritores] caminham à procura da sua identidade e tentam penetrar e comunicar a condição humana que lhes foi dada ver e viver” (p. 7). Desta “fuga constante” teria nascido “um dos mais originais e profundos imaginários da literatura portuguesa deste século [XX]” (idem).

Simultaneamente, fazendo jus à sua condição migrante, Vamberto Freitas publica entre 1990 e 1994 quatro livros da série Jornal da Emigração (1990: A L(USA)lândia Reinventada; 1992: Pátria ao Longe; 1993: Para Cada Amanhã; 1994: América: Entre a Realidade e a Ficção), onde tematiza um variadíssimo leque de questões ligadas à vivência americana da comunidade açoriana. No último livro da série, o autor confessa terem sido os três primeiros volumes “uma crónica mais ou menos pessoal (ou pessoalizada) da experiência imigrante portuguesa nos Estados Unidos (Salamandra, 1994, p. 9). O quarto, diferentemente, foi dedicado à América “como espaço imaginado, transfigurado, sonhado, vivido e criticado” por um conjunto diversificado de escritores americanos que, de certo modo, têm em comum com os escritores açorianos uma certa experiência de exílio”.

Em Imaginários Luso-Americanos e Açorianos. Do outro lado do espelho, Vamberto Freitas reúne um conjunto de textos de crítica e historiografia literária publicados já este século. Neste livro, para além da homenagem prestada a Nancy T. Baden, a americana que se dedicou ao estudo da literatura açoriana, Vamberto Freitas defende 4 teses fundamentais:

  1. Para além da existência de uma literatura especificamente açoriana, existe igualmente uma literatura luso-americana singular, não como consequência mecânica ou directa da primeira, mas como sua repercussão diferida – como um eco de eco, criada já pelas segunda e terceira gerações migrantes;
  2. Do ponto de vista do imaginário americano, esta nova literatura luso-americana, criada “do outro lado do espelho” (a América, subtítulo do livro), inclui-se na nova literatura étnica migrante americana;
  3. Para além de José Rodrigues-Miguéis como precursor (“Miguéis e a lusoamericanidade literária”, p. 34 ss.) e do silêncio de Jorge de Sena, esta nova literatura luso-americana inicia-se, na poesia, com George Monteiro (“The Coffee Exchange: da poesia de George Monteiro”, p. 73 ss.) e na prosa com Onésimo Teotónio Almeida com a criação do termo “L(USA) e as suas aplicações literárias da década de 70: Da Vida Quotidiana na L(USA)lândia (1975), Ah! Mònim dum Corisco! (teatro) (1978) e (Sapa)teia Americana (1983);

  4. Do ponto de vista da ligação aos Açores, o imaginário desenvolvido pela nova literatura corresponde a um elo vinculativo sentimental das segunda e terceira gerações relativamente à pátria familiar de origem, como Vamberto Freitas o evidencia no capítulo “Nova escrita da (nossa) experiência transnacional; as gerações seguintes” (p. 58 ss.), da análise de Leaving Pico, de Frank X. Gaspar: (“… a reinvenção da história num romance luso-americano” (p. 46 ss.) e da obra de outros novos autores, como Lara Gularte e Katherine Vaz.

Assim, Vamberto Freitas reivindica para estes novos autores e esta nova literatura criada a partir da década de 90 nos Estados Unidos da América e no Canadá um vínculo substancial unitivo, ao nível do imaginário, tanto com a literatura açoriana propriamente dita quanto com a literatura portuguesa em geral. Como escreve o autor: “Existe em toda a escrita luso-americana sucessivos regressos à nossa ancestralidade por parte de narradores e personagens, regressos feitos pela imaginação mítica das histórias que pais e avós foram transmitindo aos que depois tudo transfigurariam na sua escrita. Outros ainda entrecruzam tudo isso e encetam um diálogo com alguns dos nomes canónicos da literatura portuguesa, particularmente Camões, Fernando Pessoa e Eça de Queirós” (p. 12).

Um livro de obrigatória leitura para o desenho actual da literatura portuguesa e açoriana, nomeadamente do seu prolongamento açor-americano.

Miguel Real

Azenhas do Mar, Sintra, 8 de Setembro de 2010.

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Imaginários Luso-Americanos e Canadianos

Kale-Soup-for-the-Soul

Aqueles poetas que estão só agora a começar a descoberta das suas raízes ancestrais até aos que para quem essa integração já é total, uma parte inseparável da sua identidade, mesmo que algo afastada das suas origens.

Alice R. Clemente e George Monteiro, The Gávea- Brown Book of Portuguese-American Poetry

Vamberto Freitas

O meu livro Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado do espelho — falo aqui dos textos publicados em 2010 como resposta a algumas perguntas que me fazem com certa frequência sempre que escrevo sobre a mesma temática – é um conjunto de ensaios publicados em revistas universitárias, ou lidos em colóquios e outros encontros literários e culturais em Portugal, no Brasil, nos Estados Unidos e no Canadá. Estavam, essas palavras, até então longe do público leitor, por mais reduzido que seja, e creio que é mesmo bastante reduzido, o que se interessa por estas questões, e está consciente do que envolveu o movimento literário do século passado, e ainda mais deste — a questão da identidade em geral, e particularmente da nossa identidade num mundo cujos valores estão perpetuamente em mutação. Esses ensaios (pelo menos foi a minha intenção ao escreve-los) são uma narrativa coesa sobre a nossa escrita em língua inglesa – poesia, ficção e outros géneros de escrita que registam a memória dos luso-descendentes na América do Norte, inclusive os que nasceram em Portugal mas optaram por escrever em inglês, e que já criaram para si um respeitável nicho nos seus próprios países, alguns comentados em grandes jornais como o The New York Times, por exemplo, e nas mais variadas publicações literárias, premiados do mesmo modo ao mais alto nível. A lista de nomes é já substancial, temos como que um outro cânone literário em construção, de autores vivos e mortos: George Monteiro, Katherine Vaz, Oona Patrick, Frank X. Gaspar, Lara Gularte, Joseph M. Faria, Michael Spring Garcia, David Oliveira, Alfred Lewis, Francisco Cota Fagundes, Lawrence Oliver, Charles Peters, Laurinda C. Andrade, Charles Reis Felix, Julian Silva, Emily Daniels, Art Coelho, Carlo T. Matos, Sam Pereira, Anthony Barcellos, Darrell Kastin, Millicent Borges Accardi, Nancy Vieira Couto, Sue Fagalde Lick, Thomas J. Braga, e, no Canada, Erika de Vasconcelos, Anthony De Sá, Paulo da Costa, Fernanda Viveiros e Esmeralda Cabral. De resto, existem outros escritores que, não sendo de descendência lusa, os seus livros contêm fundos ou abordam a vida e história comunitárias açor-americanas, como são os casos de Joseph A. Conforti, em Another City Upon a Hill: A New England Memoir, e Julie Drew no romance Daughter of Providence. Faltam aqui nomes? Faltam, mas são estes os que mais li e a na maior parte dos casos comentei, querendo apenas mostrar a multiplicidade de vozes a que já poderemos recorrer para o prazer do texto e de outras significações literárias que nos interessam de modo directo, histórico para alguns leitores, identitário para outros. As coletâneas de consulta obrigatória, para estes como para alguns outros escritores e poetas são Luso-American Literature-Writings By Portuguese-Speaking Authors In North America (Robert Henry Moser e António Luciano de Andrade Tosta), The Gávea-Brown Book of Portuguese-American Poetry (Alice R. Clemente e George Monteiro), Writers of the Portuguese Diaspora in the United States and Canada: An Anthology (Luís Gonçalves e Carlo Matos), assim como, no que diz respeito ao Canadá, Memória: An Anthology of Portuguese Canadian Writers (Fernanda Viveiros). Tenho, pois, dedicado um olhar sistemático em volta de, e acerca dessa escrita, que começa a nascer em abundância a partir do início dos anos 90, dando seguimento a outros que já vinham escrevendo há décadas, só que estavam “isolados” nas suas universidades ou em comunidades electivas ou de afectos, pensando que mais ninguém da sua ancestralidade estava a fazer o mesmo. Quando por cá começámos a escrever sobre as suas obras aconteceu uma explosão de interesse, como ainda hoje nunca aconteceu com os próprios escritores açorianos no restante país. Já estou para além de queixas e ressentimentos, trata-se aqui apenas de uma constatação. Não só alguns deles foram traduzidos e publicados a nível nacional, como a Katherine Vaz, Frank X. Gaspar, Erika de Vasconcelos e Anthony De Sá, recebendo a maior atenção nos grandes periódicos lisboetas, como depressa passaram a ser estudados nas universidades de Lisboa, Porto, Aveiro e Minho. Alguns desses autores começaram também a ser convidados para apresentações e leituras nalgumas dessas instituições, e em 2008 realizou-se um grande encontro na Universidade de Lisboa sob o título de “Congresso Internacional sobre a Narrativa Portuguesa: Narrating the Portuguese Diáspora”. Alguns anos antes, teve lugar outro colóquio na prestigiada Yale University, “One Hundred Years of Portuguese-American Writing”, em Abril de 2001.

Para além do interesse e de todas as afinidades entre nós e os luso-descendentes, particularmente entre os açor-americanos ou os açor-canadianos, os nossos colegas escritores e estudiosos no Brasil já começam a pensar e a desejar a inclusão desses escritores da América do Norte em encontros e outras abordagens brasileiras, especialmente em Santa Catarina e no Rio Grande dos Sul. O mundo da lusofonia alarga-se consideravelmente, e agora temos de nos habituar a acarinhar os que reclamam a sua ancestralidade, mesmo que em língua inglesa. Os nossos “nacionalistas” e “puristas” poderão torcer o nariz e olhar-nos com sobranceria, mas vai acontecer, já está a acontecer—Portugal continuado lá fora por outros meios e maneiras. Enquanto cá dentro andamos na maior e mais grave crispação nacional, os nossos escritores luso-descendentes ainda são capazes de nos olhar com inteligência, serenidade e ternura. A literatura tanto pode ser um acto crítico e de crítica a uma sociedade, mesmo quando centrado num protagonista encarcerado no seu espaço muito particular, como pode ser, e é quase sempre, uma espécie de “investigação” à condição humana num tempo histórico ou em circunstâncias tidas como normalizadas no decurso da vida colectiva. A literatura norte-americana do pós-II Guerra é um exemplo perfeito do que acabo de dizer. Numa época de paz aparente e de “prosperidade” nunca vista antes, a sua temática centra-se nos destinos pessoais de cada um dos seus narradores, mas inevitavelmente é a grande sociedade em volta que nos fica na memória, que explica a própria voz narrativa e o existencialismo filosófico que dominou aqueles anos de angústia e contentamento, a inevitável contradição entre a realidade e o sonho. Foi precisamente essa ambiência societal após a grande catástrofe que levou à rebelião narcisística dos Beat a meados dos anos 50 (não esqueçamos o seminal movimento pelos Direitos Civis de todos liderado pela comunidade afro-americana), que parecia de todo inconsequente e ainda mais uma birra de meninos bem criados, a uma nova literatura para um novo combate – a reafirmação étnica dos que estavam desde sempre nas margens da sociedade, a procura das raízes e a valorização de mundos até então escondidos nas cozinhas de mães e avós, a redefinição de ser-se americano e como, como no título de um dos últimos ensaios de Jorge de Sena – ser-se imigrante e como. Poderão os nossos escritores luso-descendentes nos EUA e Canadá terem chegado um pouco atrasados a essa nova literatura caracterizada pela multiplicidade de vozes e ancestralidade culturais e linguísticas, mas a partir dos anos 90 do século passado a sua produção é, por todas as razões temáticas e estéticas, admirável, tornando-se parte integrante, uma vez mais, de um novo cânone literário – se é que a sobrevivência de cânones literários ainda vai ter alguma importância num mundo novo a nascer – que um dia será expandido também entre nós. Quando comecei a trabalhar esta temática juntamente com alguns colegas noutras universidades norte-americanas há mais de quarenta anos, e guiados pelo que ainda mais cedo do que nós já tinha feito o professor e escritor George Monteiro e outros no então Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, não podia de modo algum imaginar esta abertura já aqui mencionada, mesmo que tardia, no nosso próprio país.

Continuam ainda alguns afundados num certo charco literário onde naturalmente não cabiam nem cabem os nossos escritores mais sérios, mas sim as atitudes de certa intelectualidade oca, alguma dela residente no Continente, e outros tantos nas ilhas. A ideia peregrina de que o cosmopolitismo, ou o igualmente indefinível universalismo, é uma necessidade específica de quem vive a, ou na nossa geografia cercada, só dirá respeito aos que nunca conseguiram ultrapassar o seu próprio provincianismo, ou estavam limitados por noções bem pouco informadas acerca do que tem sido a história literária em toda a parte. Por certo que toda esta riqueza literária continua a ser um reduto de minorias. Só que é desses que partem e vivem as linguagens que nos definem como povo – daqui e de toda a parte.

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Algumas destas palavras foram tiradas e revistas de outros trabalhos meus para servirem de base a uma conferência minha na American Corner, da Universidade dos Açores, a 26 de Outubro de 2015. A tradução da epígrafe aqui é da minha responsabilidade. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 13 de Novembro de 2015.

A sentinela em nós

capa Vai e Põe Uma Sentinela

A ilha de cada um de nós, Jean Louise, a sentinela de cada um é a sua consciência. A consciência

colectiva, tal coisa não existe.

Harper Lee, Vai e Põe Uma Sentinela

Vamberto Freitas

Go Set a Watchman (publicado em Portugal com o título de Vai e Põe Uma Sentinela), de Harper Lee, deve ser, na história da literatura norte-americana contemporânea, o romance mais inesperado, e depois de ser redescoberto, também sob as mais controversas circunstâncias, de uma relevância extraordinária, pela sua temática e pelo estado em que continua a viver a América no que toca à toda poderosa questão racial entre brancos e afro-americanos, situação dramatizada em directo nestes últimos tempos (ou num contínuo e historicamente longo drama, que volta a ser demasiado frequente) com os sucessivos assassínios de jovens e adultos negros pela polícia nas ruas de vários estados. Raramente a melhor imprensa literária nova-iorquina, e um pouco por todo o país, terá dedicado tanto espaço como a estas páginas de ficção antes da sua saída, terá especulado tanto sobre o seu conteúdo e os motivos da sua autora, hoje em idade muito avançada, doente e numa casa da terceira idade na sua pequena mas famosa cidade natal, Monroeville, no estado de Alabama, aliás o pano de fundo geográfico, histórico, político e cultural da presente obra. Antes de mais, Go Set a Watchman é uma espécie de sequela do canónico e único romance da autora publicado em 1960, To Kill a Mockingbird/Mataram a Cotovia, em que um negro é acusado de violar uma moça branca nos anos 30, e Atticus Finch, o pai da protagonista e narradora, Jean Louise, anglo-saxónico e totalmente integrado na sua comunidade, decide defender Tom Robinson, o acusado, contra toda a simpatia e crença dos que o rodeiam e governam o escondido burgo do sul americano profundo, marcado ainda naquela altura pela memória viva da Guerra da Secessão, racista, ressentido e raivoso na sua derrota. A história do presente volume já foi saturadamente relatada, e resume-se a sabermos que a autora o escreveu antes de Mataram a Cotovia, mas o seu editor em Nova Iorque sugeriu que ela mudasse a idade dos personagens principais para a infância e adolescência, contando a história daqueles anos e daquele incidente do seu ponto de vista, mas em retrospectiva e já como adulta. Está-se – aquando da saída do romance – nos anos das grandes lutas pelos direitos civis dos negros, com Martin Luther King Jr. na liderança principal e pregando e vivendo ao seu pacifismo, a não-violência, o debate nacional caracterizado pela acrimónia e medo da radicalidade que se adivinhava nos dois extremos da sociedade. Harper Lee aceitou a sugestão, e To Kill a Mockingbird receberia o maior prémio da literatura nos Estados Unidos, o Pulitzer Prize, seguido pelo não menos famoso filme com Gregory Peck no papel principal do advogado. Go Set Watchman seria engavetado e aparentemente esquecido, com a autora dizendo repetidamente que não queria publicar mais nada. Regressou à sua cidade, após uns poucos anos de Nova Iorque, onde tentou o jornalismo literário (era amiga íntima de Truman Capote, que está transfigurado em personagem nos seus dois romances), até que a sua advogada e cúmplice, de nome Tonja Carter, encontrou recentemente o manuscrito e conseguiu a autorização da autora para que fosse publicado. Carter insinua agora que poderá haver um terceiro manuscrito de outro romance, sem mais nada especificar. Não surpreenderia, creio, que a autora de um romance que vendeu em todo o mundo mais de quarenta milhões de exemplares sentisse esse íntimo e irreprimível chamamento.

O título Go Set a Watchman/Vai e Põe Uma Sentinela é tirado de Isaías, do Velho Testamento, que marca profundamente a melhor da literatura sulista moderna, o insistente retrabalhar das mais atávicas angústias da Humanidade, a comunidade a viver a atribulada sobrevivência entre a raiva e o amor, a violência colectiva e a transgressão pecadora dos que supostamente desestabilizam o bem-estar de todos os outros, dos que desafiam os deuses e os seus mandamentos. A crítica académica definiu desde o início o “gótico” como sendo uma das formas mais distintas na literatura sulista, a estranheza do quotidiano tida como uma espécie de anormalidade adentro da normalidade, ou do é que tido como tal. A obra de Harper Lee poderá fazer uma cortesia à tradição literária da sua região, mas retrai-se de quase tudo isso, o seu realismo fundamentado numa certa modernidade – justiça, igualdade, a lei como base de toda a convivência entre classes sociais, e ainda mais entre as raças ou etnias que compõem a nova nação a que pertencem – que lhe provoca a postura condenatória de tudo quanto vive e vê em seu redor. O romance envolve o regresso de Jean Louise, aos vinte e seis anos de idade, a Maycomb (sede de Maycomb County), a cidade fictícia totalmente modelada em Monroeville, agora uma mulher citadina para quem a ruralidade da sua terra natal continua a ser-lhe um anátema, volta a conviver em férias com pai na sua casa de nascença e com uma tia que representa para ela tudo quanto é provinciano, hipócrita e repelente. Estamos já nos anos 60, e a América treme por todos os lados com a revolta dos afro-americanos, o Supremo Tribunal começando a ordenar a integração nos estados do sul, a Guarda Nacional de armas em punho em frente a escolas, os brancos a resistirem por todos os meios ao seu alcance, de novo a memória da derrota colectiva e o ódio ao governo federal em Washington, DC. Depressa, o que é meramente“pessoal”, como dizem certos teóricos, se torna no “político”, o intimismo das nossas crenças ou ideologia determinante para o que pensamos de toda a sociedade, resultando no conformismo ou na revolta de cada um. Estão aqui a organizar-se a maior parte das cidades sulistas em comissões de cidadãos brancos – as próprias elites locais lado a lado com os que naquelas partes se denominam de “white trash/lixo branco”, os pobres e rudes, expressão que Jean Louise não hesita em pronunciar e a denunciar – para travar o mandato oficial de integração nas instituições públicas. Atticus Finch já está na casa dos setenta anos de idade, mantém o seu escritório de advogados no centro da cidade, é visto e amado pela filha desde sempre como um herói cívico pela sua sua inesquecível defesa de um negro, relembremos, falsamente acusado, a referência, para ela, da dignidade como cidadão e como pai viúvo que se havia devotado totalmente à família e ao trabalho, e por vezes à política estadual. Jean Louise, neste seu regresso relutante, descobre-o na liderança numa dessas reuniões, e ainda na companhia do advogado seu sócio, Henry Clinton, ele próprio vindo do nada mas auto-elevado na escala social e profissional através da força de vontade e trabalho, eterno pretendente ao amor e à mão de Jean Louise. O seu mundo desaba, as melhores recordações do passado irremediavelmente contaminadas ou comprometidas, a subsequente confrontação com o pai uma das mais belas cenas na literatura moderna do seu país, o ensinamento seguinte um acto de redenção, que poderá não ser aceite pela narradora, mas torna-se o ponto principal da viragem narrativa, mesmo vindo já no encerramento do romance.

Um dos personagens mais marcantes de Vai e Põe Uma Sentinela é o tio da narradora, John Finch (uncle Jack), ex-médico e desde sempre dedicado à mais variada leitura, vivendo só rodeado de livros em Maycomb, tido naturalmente como excêntrico numa comunidade como aquela. Leitor também dos românticos ingleses, o século dezanove é para ele referência literária constante, é a ele que pertencem as palavras que aqui uso como epígrafe, a paráfrase que ele faz à sobrinha combinando versos de John Donne e da Bíblia. Liberal, à americana, em tudo o resto, é nele que a sobrinha tenta encontrar uma alma solidária e ideologicamente próxima, mas engana-se, ou pelo menos não absorveu por inteiro o seu argumentário no que dizia respeito à História do Sul, muito particularmente no que concerne a luta presente neste tempo ficcional. A dada altura, o tio Jack diz-lhe, freudianamente, que haveria de chegar o dia de ela deixar de ver o pai como um deus, “matar” essa noção de dependência emocional, e receber um outro pai que ele nunca deixou de ser, mas que ela não conhecia. Para além disso, haveria de ouvir ainda que ela não era a única com esses sentimentos de irmandade e solidariedade, que estava rodeada, em todo o Sul, de gente que, caladamente, partilhava a mesma angústia, o mesmo desejo de mudança. A consciência de cada um, pois, é a única sentinela que temos e que nos vai guiando na vida comum com todos os outros – é a nossa culpa ou, uma vez mais, a nossa redenção.

Go Set a Watchman em nada repete o romance anterior, é a sua progressão temática na caminhada histórica do nosso tempo, naquele lugar e naquelas circunstâncias. A sua linguagem depurada, a subtileza da sua ironia e do seu humor, a maturidade, agora, das suas personagens, a inteligência de uns e a força bruta de outros, faz dele uma das mais singulares tiradas existencialistas na literatura norte-americana, completa a vida de uma família a sobreviver ante a avalanche que é sempre a História, a condição humana na sua inevitável tragicomédia.

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Harper Lee, Vai e Põe Uma Sentinela (tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral), Lisboa, Editorial Presença, 2015. Publicado na minha  coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 6 de Novembro de 2015.