A sentinela em nós

capa Vai e Põe Uma Sentinela

A ilha de cada um de nós, Jean Louise, a sentinela de cada um é a sua consciência. A consciência

colectiva, tal coisa não existe.

Harper Lee, Vai e Põe Uma Sentinela

Vamberto Freitas

Go Set a Watchman (publicado em Portugal com o título de Vai e Põe Uma Sentinela), de Harper Lee, deve ser, na história da literatura norte-americana contemporânea, o romance mais inesperado, e depois de ser redescoberto, também sob as mais controversas circunstâncias, de uma relevância extraordinária, pela sua temática e pelo estado em que continua a viver a América no que toca à toda poderosa questão racial entre brancos e afro-americanos, situação dramatizada em directo nestes últimos tempos (ou num contínuo e historicamente longo drama, que volta a ser demasiado frequente) com os sucessivos assassínios de jovens e adultos negros pela polícia nas ruas de vários estados. Raramente a melhor imprensa literária nova-iorquina, e um pouco por todo o país, terá dedicado tanto espaço como a estas páginas de ficção antes da sua saída, terá especulado tanto sobre o seu conteúdo e os motivos da sua autora, hoje em idade muito avançada, doente e numa casa da terceira idade na sua pequena mas famosa cidade natal, Monroeville, no estado de Alabama, aliás o pano de fundo geográfico, histórico, político e cultural da presente obra. Antes de mais, Go Set a Watchman é uma espécie de sequela do canónico e único romance da autora publicado em 1960, To Kill a Mockingbird/Mataram a Cotovia, em que um negro é acusado de violar uma moça branca nos anos 30, e Atticus Finch, o pai da protagonista e narradora, Jean Louise, anglo-saxónico e totalmente integrado na sua comunidade, decide defender Tom Robinson, o acusado, contra toda a simpatia e crença dos que o rodeiam e governam o escondido burgo do sul americano profundo, marcado ainda naquela altura pela memória viva da Guerra da Secessão, racista, ressentido e raivoso na sua derrota. A história do presente volume já foi saturadamente relatada, e resume-se a sabermos que a autora o escreveu antes de Mataram a Cotovia, mas o seu editor em Nova Iorque sugeriu que ela mudasse a idade dos personagens principais para a infância e adolescência, contando a história daqueles anos e daquele incidente do seu ponto de vista, mas em retrospectiva e já como adulta. Está-se – aquando da saída do romance – nos anos das grandes lutas pelos direitos civis dos negros, com Martin Luther King Jr. na liderança principal e pregando e vivendo ao seu pacifismo, a não-violência, o debate nacional caracterizado pela acrimónia e medo da radicalidade que se adivinhava nos dois extremos da sociedade. Harper Lee aceitou a sugestão, e To Kill a Mockingbird receberia o maior prémio da literatura nos Estados Unidos, o Pulitzer Prize, seguido pelo não menos famoso filme com Gregory Peck no papel principal do advogado. Go Set Watchman seria engavetado e aparentemente esquecido, com a autora dizendo repetidamente que não queria publicar mais nada. Regressou à sua cidade, após uns poucos anos de Nova Iorque, onde tentou o jornalismo literário (era amiga íntima de Truman Capote, que está transfigurado em personagem nos seus dois romances), até que a sua advogada e cúmplice, de nome Tonja Carter, encontrou recentemente o manuscrito e conseguiu a autorização da autora para que fosse publicado. Carter insinua agora que poderá haver um terceiro manuscrito de outro romance, sem mais nada especificar. Não surpreenderia, creio, que a autora de um romance que vendeu em todo o mundo mais de quarenta milhões de exemplares sentisse esse íntimo e irreprimível chamamento.

O título Go Set a Watchman/Vai e Põe Uma Sentinela é tirado de Isaías, do Velho Testamento, que marca profundamente a melhor da literatura sulista moderna, o insistente retrabalhar das mais atávicas angústias da Humanidade, a comunidade a viver a atribulada sobrevivência entre a raiva e o amor, a violência colectiva e a transgressão pecadora dos que supostamente desestabilizam o bem-estar de todos os outros, dos que desafiam os deuses e os seus mandamentos. A crítica académica definiu desde o início o “gótico” como sendo uma das formas mais distintas na literatura sulista, a estranheza do quotidiano tida como uma espécie de anormalidade adentro da normalidade, ou do é que tido como tal. A obra de Harper Lee poderá fazer uma cortesia à tradição literária da sua região, mas retrai-se de quase tudo isso, o seu realismo fundamentado numa certa modernidade – justiça, igualdade, a lei como base de toda a convivência entre classes sociais, e ainda mais entre as raças ou etnias que compõem a nova nação a que pertencem – que lhe provoca a postura condenatória de tudo quanto vive e vê em seu redor. O romance envolve o regresso de Jean Louise, aos vinte e seis anos de idade, a Maycomb (sede de Maycomb County), a cidade fictícia totalmente modelada em Monroeville, agora uma mulher citadina para quem a ruralidade da sua terra natal continua a ser-lhe um anátema, volta a conviver em férias com pai na sua casa de nascença e com uma tia que representa para ela tudo quanto é provinciano, hipócrita e repelente. Estamos já nos anos 60, e a América treme por todos os lados com a revolta dos afro-americanos, o Supremo Tribunal começando a ordenar a integração nos estados do sul, a Guarda Nacional de armas em punho em frente a escolas, os brancos a resistirem por todos os meios ao seu alcance, de novo a memória da derrota colectiva e o ódio ao governo federal em Washington, DC. Depressa, o que é meramente“pessoal”, como dizem certos teóricos, se torna no “político”, o intimismo das nossas crenças ou ideologia determinante para o que pensamos de toda a sociedade, resultando no conformismo ou na revolta de cada um. Estão aqui a organizar-se a maior parte das cidades sulistas em comissões de cidadãos brancos – as próprias elites locais lado a lado com os que naquelas partes se denominam de “white trash/lixo branco”, os pobres e rudes, expressão que Jean Louise não hesita em pronunciar e a denunciar – para travar o mandato oficial de integração nas instituições públicas. Atticus Finch já está na casa dos setenta anos de idade, mantém o seu escritório de advogados no centro da cidade, é visto e amado pela filha desde sempre como um herói cívico pela sua sua inesquecível defesa de um negro, relembremos, falsamente acusado, a referência, para ela, da dignidade como cidadão e como pai viúvo que se havia devotado totalmente à família e ao trabalho, e por vezes à política estadual. Jean Louise, neste seu regresso relutante, descobre-o na liderança numa dessas reuniões, e ainda na companhia do advogado seu sócio, Henry Clinton, ele próprio vindo do nada mas auto-elevado na escala social e profissional através da força de vontade e trabalho, eterno pretendente ao amor e à mão de Jean Louise. O seu mundo desaba, as melhores recordações do passado irremediavelmente contaminadas ou comprometidas, a subsequente confrontação com o pai uma das mais belas cenas na literatura moderna do seu país, o ensinamento seguinte um acto de redenção, que poderá não ser aceite pela narradora, mas torna-se o ponto principal da viragem narrativa, mesmo vindo já no encerramento do romance.

Um dos personagens mais marcantes de Vai e Põe Uma Sentinela é o tio da narradora, John Finch (uncle Jack), ex-médico e desde sempre dedicado à mais variada leitura, vivendo só rodeado de livros em Maycomb, tido naturalmente como excêntrico numa comunidade como aquela. Leitor também dos românticos ingleses, o século dezanove é para ele referência literária constante, é a ele que pertencem as palavras que aqui uso como epígrafe, a paráfrase que ele faz à sobrinha combinando versos de John Donne e da Bíblia. Liberal, à americana, em tudo o resto, é nele que a sobrinha tenta encontrar uma alma solidária e ideologicamente próxima, mas engana-se, ou pelo menos não absorveu por inteiro o seu argumentário no que dizia respeito à História do Sul, muito particularmente no que concerne a luta presente neste tempo ficcional. A dada altura, o tio Jack diz-lhe, freudianamente, que haveria de chegar o dia de ela deixar de ver o pai como um deus, “matar” essa noção de dependência emocional, e receber um outro pai que ele nunca deixou de ser, mas que ela não conhecia. Para além disso, haveria de ouvir ainda que ela não era a única com esses sentimentos de irmandade e solidariedade, que estava rodeada, em todo o Sul, de gente que, caladamente, partilhava a mesma angústia, o mesmo desejo de mudança. A consciência de cada um, pois, é a única sentinela que temos e que nos vai guiando na vida comum com todos os outros – é a nossa culpa ou, uma vez mais, a nossa redenção.

Go Set a Watchman em nada repete o romance anterior, é a sua progressão temática na caminhada histórica do nosso tempo, naquele lugar e naquelas circunstâncias. A sua linguagem depurada, a subtileza da sua ironia e do seu humor, a maturidade, agora, das suas personagens, a inteligência de uns e a força bruta de outros, faz dele uma das mais singulares tiradas existencialistas na literatura norte-americana, completa a vida de uma família a sobreviver ante a avalanche que é sempre a História, a condição humana na sua inevitável tragicomédia.

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Harper Lee, Vai e Põe Uma Sentinela (tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral), Lisboa, Editorial Presença, 2015. Publicado na minha  coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 6 de Novembro de 2015.

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